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2. MATERYAL VE METOT

2.1. Çalışma Alanları

Se a restrição provocada pelo autoritarismo, sob o qual vivia o Brasil, influenciou tanto a vida pública como a vida privada dos indivíduos, caberia então à literatura a função de dar voz àqueles cujo direito de expressão foi limitado? O espaço possível seria o espaço da ficção, lugar em que o debate poderia acontecer? Algumas posições da crítica do período17 assumem que houve uma transposição do debate político para o meio cultural naqueles anos

17 Ver por exemplo HOLLANDA, H.B. Impressões de viagem. 5a ed. Rio de Janeiro: Editora Aeroplano, 2004.

de ditadura, já que com o fechamento político, a extinção dos partidos e a transformação da atividade política em atividade clandestina, o espaço mais adequado de convivência e contestação teria se manifestado em torno da cultura. Tal deslocamento de fato efetivou-se em alguns casos, e, na literatura, com prejuízo. Valores e antivalores conflitaram-se para se estabelecer critérios para análise das obras.

Como produto resultante do fechamento político, em que o regime de exceção seria uma das justificativas para a construção de um texto de resistência, viu-se a valorização de uma literatura de propaganda, pautada em valores apenas políticos, ignorando elementos constituintes da matéria literária como a construção de uma expressão própria e o trabalho com as figuras de linguagem. Ao limitar-se a criação literária às exigências do que seria da esfera das ações políticas, a literatura restringiu-se a representar uma dada situação do modo mais direto possível. As expressões “literatura jornalística” e “literatura de denúncia” indicam o caminho dessa tendência. Faz-se necessário, então, relativizar a afirmação da transposição do debate político para a cultura. E pensar que as conexões existentes entre arte e sociedade são muito mais complexas e não poderiam ser explicadas somente como fator de

deslocamento tático (termo de Hollanda, 2004, p.102).

Se pensarmos a obra literária como resultado de uma situação dialética, uma dialética negativa talvez, em que o escritor é afetado pelos acontecimentos e tenta elaborar sua experiência esteticamente, em uma vinculação da experiência histórica com a subjetiva, nessa condição literária, evidentemente não cabe dizer que a literatura resistente se formou por necessidade de veicular mensagens de ordem, em função do fechamento político, ou por falta de outras possibilidades de expressão. Em vez disso, cabe dizer que em uma literatura pensada esteticamente os impasses e tensões sociais se manifestam como constituintes da experiência do escritor.

No lugar em que se encontram as discussões críticas atualmente, o pensar a categoria da resistência como um valor literário em si tornou-se fundamental para entender a literatura contemporânea, visto que deve-se refletir sobre a resistência como um valor político inserido na narrativa. Não caberia aqui uma análise do estreitamento dos conceitos da ética e da estética. No entanto, cabe uma breve retomada de alguns pontos dessa questão, a partir da leitura do ensaio “Narrativa e resistência”.

Neste texto, Alfredo Bosi (2002, p.118-135) trabalha a questão da tensão entre a vida subjetiva e a fôrma social, pensando possibilidades de resistência a essa fôrma. Um ponto que aborda é a importância da distinção entre o campo do cotidiano e o campo do literário,

ressaltando que muitos dos problemas da literatura remetem a indistinção destes campos, quando se exige o engajamento político do escritor “ao compor a sua obra” ou tendem a condenar “antivalores supostamente representados ou promovidos pelas imagens do poema” (BOSI, 2002, p.123). Outro ponto abordado por Bosi é a resistência como tema da narrativa, que tomou força no pós-guerra e coincidiu com um ponto de vista estético neo-realista. Contudo, ressalta que a aproximação da escrita ficcional com a linguagem da comunicação se tornou um problema a ser pensado já que muitas obras se fizeram como variante do discurso político. O terceiro ponto a destacar é a “resistência como forma imanente da escrita”, uma tensão que ele vê como interna à obra, independente de qualquer cultura política (BOSI, 2002, p.129).

Essa problemática ultrapassa em muito os limites da literatura contemporânea, mas pensando especificamente no período sobre o qual nos ocupamos, podemos afirmar que o que Bosi chamou de momento coletivo, “em que o élan revolucionário polariza e comove tanto os homens de ação como os criadores de ficção” (BOSI, 2002, p.125), pode ser tomado como um registro característico da década. E talvez por isso é que os dois problemas levantados por Bosi, no que se refere à cobrança pelo engajamento político e pela aproximação do discurso ficcional à linguagem da comunicação, vêm à tona quando se observa a crítica de Ana Cristina. Em muitos dos argumentos da autora podemos perceber a idéia de escrita resistente implicitamente presente, quando ela julga uma obra medindo o grau de contestação que determinado autor conseguiu a partir de suas escolhas, ressaltando a importância da criação. Pela forma de narrar, como temos visto, valoriza ou não a obra tendo em vista a eficiência crítica que o recurso pode promover – Monsenhor é o exemplo negativo e A Festa, que analisaremos mais adiante, é o positivo. Ou pela escolha do tema, que é pensado como atributo importante para o desenvolvimento da consciência crítica, recordamos como exemplo a crítica positiva à peça A menina que buscava o sol, e como problema, temos o exemplo do caso da antologia Malditos Escritores!:

Aos trancos e barrancos, o escritor premiado debruça-se sobre as classes populares, dedica-se a escrever sobre personagens que também vivem mal (...)

(...) Em um golpe de mestre, ficou construída a identidade de classe entre o “nosso povo” e o “escritor típico do miserê cultural”. Quem melhor para fazer literatura sobre esse povo? Para narrá-lo, representá-lo, expressá-lo, dar-lhe voz? Se defeitos há nessa literatura, a culpa será do miserê: a rapidez do trabalho, a angústia do momento, a exigüidade geral, os dias que correm, a pobreza do nosso jornalismo, a censura (...).

(...) A literatura dos escritores malditos também é apresentadíssima: são histórias diretas, sem golpes de estilos ou “ismos”, da moda literária; refletem um mundo visto sem deformação; reproduzem realidades incômodas e violentas; são retratos absolutamente verdadeiros e servem para calar os incrédulos.

(Fragmento 7: Trechos do texto Malditos marginais hereges, 1977)

Nesse texto ela discute a já citada antologia de contos. Durante quase todo o ensaio, Ana Cristina vai escrevendo como que apoiando fingidamente a antologia, quando na verdade, quer fazer-se entender pelo contrário. O uso dessa figura de retórica aparece bem costurado no texto, deixando mesmo um sabor sarcástico e apontando também para sua visão negativa sobre uma tentativa de construção de uma literatura de gueto, em que o valor está vinculado aos problemas enfrentados pelo grupo, ou uma literatura de denúncia, em que o valor se vincula a um tipo de didatismo literário.

O viés da discussão apresentada no texto gira em torno da relação impositiva do autor para com o leitor, como se Ana Cristina entendesse que no modo de apresentação dos autores e da própria edição estivesse a tentativa de convencer o leitor da total precariedade em que vivem e da indigna perseguição pela ditadura. Por conseguinte, sua crítica sinaliza que a intenção dos autores é que tal carência seja vista com alguma simpatia à tragédia pessoal deles, cujo resultado estaria no convencimento do leitor de que os escritores se identificam à condição de povo. E a partir disso, mais importante que os contos dessa antologia estaria a necessidade de provar que eles são escritores pobres e oprimidos pelo sistema, como o povo, perseguidos e atolados no miserê. Decorre que isso bastaria para que a literatura se mostrasse de qualidade e as histórias diretas, que refletem o mundo visto sem deformação em uma linguagem para o povo, vêm para reforçar essa condição – são o modo ideal de literatura.

Do ponto de vista dela, constitui-se, assim, uma relação autoritária na medida em que é produzido um efeito impositivo do autor sobre o leitor, com nenhuma sustentação dos contos da antologia em si, mas sim do aparato montado para divulgá-los. Mostra-se incisivamente contrária à idéia de uma literatura educativa, de autor como arcanjo

predestinado, portador de misteriosa revelação, ou de o autor como messias, que guia o

povo, que o faz pensar, que tem uma missão pedagógica, jesuítica.

Seu texto é construído com uma ironia desconcertante e uma crítica pesada à antologia

Malditos Escritores!. Isso fica evidente em sua crítica à apresentação do livro. Ela transcreve

do miserê geral, no desemprego e no emprego da força; (...) sempre falando no coração, fígado e intestinos da realidade brasileira (CESAR, 1999a, p.205).

Na perspectiva crítica adotada está também evidenciada a repulsa ao “produto” de resistência, que no caso parece ser o próprio escritor entendido por ela como produto, por exemplo: ela cita a quantidade de adjetivos que acompanham as biografias, em que alguns se

orgulham de serem filhos de operários. A autopropaganda do escritor miserável é vista como

promotora para a venda dos exemplares. Enfim, está marcada sua perplexidade diante desse tipo de literatura, mais que isso, está caracterizada através de um procedimento textual irônico muito forte.

Benzer Belgeler