Figura 31 – A careta da estátua prateada.
Figura 32 – Estátua prateada em pose na Avenida Beira-Mar.
Fonte: Ângela Vieira Soares (2014).
Chiquinho foi o primeiro performer de estátua viva encontrado e foi baseada em uma primeira entrevista, realizada em 21/10/2012, que foi desenvolvido o projeto de pesquisa. Outros encontros aconteceram dentro do recorte temporal e do padrão de entrevista estabelecidos ao longo da pesquisa.
Chiquinho é um dos performers com mais regularidade e mais facilidade de acesso. Está sempre na Avenida Beira-Mar bem em frente à feirinha de artesanato. Ele é natural da cidade de Eusébio, é um dos irmãos mais velhos de uma numerosa família que passou por algumas cidades do Estado até se estabelecer definitivamente em Paraipaba. Lá ele abandonou os estudos na quarta série, o ano escolar que repetiu diversas vezes e que marcou o fim de sua trajetória escolar na qual, segundo ele, não aprendeu nada. Começou a trabalhar cedo, aos dez anos como guia turístico em
Lagoinha (distrito de Paraipaba), a razão forte pela qual abandonou os estudos: “Não, por que eu não tinha muito tempo. Eu queria mais... A minha vontade, eu queria
trabalhar, não queria... Aquela vontade, só trabalhar mesmo” (Chiquinho em entrevista,
27/01/2014).
Hoje ele mora em Fortaleza com o pai que trabalha como vendedor de água e refrigerante na praia. O resto de sua família permanece em Paraipaba e conta com sua ajuda financeira frequente. Além de estátua viva, também trabalha aos domingos como garçom em uma barraca de praia da Avenida Beira-Mar. Um dos assuntos mais recorrentes e que figura mesmo como um de seus sonhos é poder ajudar mais a família.
Característica das mais marcantes de Chiquinho é a insegurança e muitas vezes uma grande confusão que transmite em suas respostas, tornando a conversa e sua análise um tanto difícil. Em diversos momentos ele parecia surpreendido com perguntas simples como se assiste televisão e o que gosta de assistir, para a qual deu a resposta: “Isso. Eu gosto de assistir o que acontece na cidade né. Então eu ando muito, ando de bicicleta, eu tenho medo. Então várias coisas a gente consegue melhor né” (Chiquinho em entrevista, 27/01/2014). Portanto, algumas questões mais subjetivas carecem de compreensão, dando a impressão de que a pergunta surpreendia e muitas vezes até assustava, o que também se repetiu mesmo com questões mais precisas sobre tempo e duração, por exemplo.
Ângela - Ipu? Como foi lá? Deu uma grana boa?
Chiquinho – Deu. E o pessoal recebe você bem, bem. Demais né. O cearense também ele é, ele é maravilhoso.
Ângela – Legal. E tu fez quanto tempo em Ipu, tu lembra? Chiquinho – Fui lá em junho.
Ângela – Desse ano agora?
Chiquinho – Foi. Próximo ano. Fui lá em junho e depois em janeiro. Ângela – Desse ano agora? Não entendi.
Chiquinho – No outro.
Ângela – No ano anterior? Dois mil e...
Chiquinho – Dois mil e nove. (Chiquinho em entrevista, 27/01/2014)
Ainda assim, algumas características de seu fazer são importantes e por isso figuram aqui. Chiquinho não apresenta nenhuma imagem célebre, ele se vale de sua careta peculiar para chamar atenção. Quase não há momentos de paralisação e não há nenhuma movimentação específica, somente a careta. Mas é incrível como isso atrai pessoas, a maioria interessada em tirar fotos. Tal atração pode ter como fundo de explicação sua relação com o grotesco enquanto forma de exagero, excesso e comicidade:
O modo grotesco de representação do corpo e da vida corporal dominou durante milhares de anos na literatura escrita e oral. Considerado do ponto de vista da sua difusão efetiva, predomina ainda no momento presente: as formas grotescas do corpo predominam na arte não apenas dos povos não europeus, mas mesmo no folclore europeu (sobretudo cômico); além disso, as imagens grotescas do corpo predominam na linguagem não-oficial dos povos, sobretudo quando as imagens corporais se ligam às injúrias e ao riso; de maneira geral, a temática das injúrias e do riso é quase exclusivamente grotesca e corporal (...). (BAKHTIN, 2010, p. 278)
Chiquinho não cobra um preço específico pelas fotos, nem mesmo é taxativo quanto à necessidade de contribuir para que fotos possam ser tiradas. Ainda assim é raro alguém que o faça sem contribuir. A atração de sua estátua está na comicidade que a careta evoca e Chiquinho sabe bem disso e a explora, tanto que escolheu como local de trabalho dois pontos turísticos de grande movimentação: a feirinha da Avenida Beira- Mar e o Mercado Central. Nesse contexto está presente a histórica característica cearense: a molecagem. Uma característica que já se procurou combater, mas que permanece viva nas praças e ruas e disseminada como uma qualidade cearense em todo país.
Tamanha atenção dispensada pelos agentes civilizatórios, e por tanto tempo, a este tipo de comportamento público, problematizando-o como um sério
desvio a ser combatido, denota que tal conduta “amolecada” esteve presente e
crescente, em Fortaleza, do final do século XIX até os anos 20, vale dizer: concomitante ao período em que se instaura um processo de modernização disciplinarizante da cidade e de sua população.
Nesse tocante, o que se percebe é que, quanto mais esse processo avançava, mais incomodadas e preocupadas ficavam as elites locais com o escracho, a vaia, o riso galhofeiro, a sátira e demais atitudes que, partindo de setores insatisfeitos da população, compunham o que à época convencionou-se denominar, pejorativamente, de Ceará Moleque. (PONTE in SOUSA, 2007, p. 189).
A estátua viva Boquinha figura então mais como uma atração turística e cômica, e Chiquinho sempre gostou de ambas, tanto que já chegou a trabalhar em circo como palhaço e, no turismo, começou cedo, aos dez anos como guia: “(...) Era o meu sonho trabalhar com turismo, era o meu sonho, era o meu sonho na minha vida trabalhar com turismo...” (Chiquinho em entrevista, 27/01/2014). Hoje seu trabalho engloba essas duas instâncias. Ele se vale do humor e do grotesco que é, ao mesmo tempo, uma característica e habilidade corporal, para disso fazer seu trabalho, para alegrar as pessoas, com o que transparece ter ele próprio satisfação, uma das primeiras coisas ditas: “Vale a pena. O quê você faz, você tem que gostar né. Então eu gosto do que eu faço. Então eu agradeço demais.” (Chiquinho em entrevista, 21/10/2012).
A personificação do corpo cômico adquire igualmente um caráter grotesco. (...) tendência geral da personificação das figuras no cômico popular, que
visa a apagar as fronteiras entre o corpo e o objeto, o corpo e o mundo e a acentuar essa ou aquela parte grotesca do corpo (ventre, traseiro, boca). (BAKHTIN, 2010, p. 310.)
A molecagem está como característica definidora de sua “estátua”, na medida em que Chiquinho expõe imagem exagerada propositalmente de si próprio com o intuito de chamar atenção através do riso. Mesmo aí há uma diferença entre Chiquinho e “Boquinha”, e essa diferença está justamente na careta que marca a estátua viva: “Eu acho que ali já não é ele [falando de si em terceira pessoa], ali é o Boquinha né. Aí essa forma aí já é uma postura diferente, já é um pouquinho o Boquinha” (Chiquinho em entrevista, 27/01/2014). O próprio nome de sua estátua, “Boquinha”, acentua seu caráter
cômico e grotesco: “Dentre todos os traços do rosto humano, apenas a boca e o nariz
(esse último como substituto do falo) desempenham um papel importante na imagem grotesca do corpo” (BAKHTIN, 2010, p. 276). E essa marca é a da sátira, da alegria: “Eu acho que quando você entra na cadeira, sobe na cadeira, você tá ali pra alegrar a
pessoa. Eu gosto” (Chiquinho em entrevista, 27/01/2014).
Figura 33 – Careta da estátua prateada.
Fonte: Ângela Vieira Soares (2014).
Portanto, a estátua viva Boquinha tem pouca relação formal com o estatuário, mas se vale do corpo prateado (por vezes, somente poucas partes dele) e da careta como imagem fixa (ainda que por poucos segundos), para que alguma relação possa ser traçada e assim ser chamada e se autodenominar estátua viva.