Vivemos num período histórico caracterizado pelo domínio da capitalização sobre a vida cotidiana. Nos lugares, mudam-se rapidamente os valores, as ideias, os sonhos, o fazer e o pensar humanos. Como a ação territorial do dinheiro é imperiosa e impõe suas lógicas exógenas àquelas pré-existentes, muitas vezes sufocando-as, alteram-se profundamente os conteúdos e as formas dos lugares. Santos (2002) examina o território do dinheiro e nos ensina que, sob influência do dinheiro global, o conteúdo do território escapa a toda regulação interna, gerando uma governabilidade de fora, exterior ao território. Além de essa realidade resultar da elaboração de normas, ela conduz à execução de ações no território cujos principais agentes “apenas constituem testemunhas passivas”.
Na atualidade, as condições do crescimento capitalista engendram uma capacidade particular de organização do espaço geográfico, imprescindível à reprodução das múltiplas relações econômicas, sociais e políticas. A forma como atualmente se distribuem as infraestruturas, os instrumentos de produção, os homens, enfim, as forças produtivas, reforçam, até certo ponto, um caráter de permanência, isto é, de reprodução ampliada, amparado, exatamente, pela longevidade de um considerável número de investimentos fixos (SANTOS, 2004).
Constatamos que, nesta fase, as grandes corporações, transmutadas em suas funcionalidades e espraiadas em diversos lugares, desempenham papel fundamental na organização espacial, exercendo, como enfatizamos, determinado controle sobre amplo e diferenciado território. Nas considerações de Corrêa (1992), esse controle constitui-se em um dos meios através dos quais a corporação garante, com máxima eficiência, a acumulação de capital e a reprodução de suas condições de produção.
O uso do território pelo grande capital é resultado de um profundo conhecimento dos atributos dos lugares, de suas particularidades, de seus principais agentes, enfim, da condução da sua política. Jean Gottmann (1952) já observava que é imprescindível saber onde estão os homens e as coisas para estabelecer conclusões quanto ao que um país pode fazer a partir de suas possibilidades e perspectivas futuras. A julgar pelo atual contexto, parece que os agentes capitalistas aprenderam com o grande mestre geógrafo.
O espaço geográfico, sinônimo de território usado, não é um dado estável. Ao constituir-se a partir da dialética entre materialidades e ações, modifica-se cotidianamente: nos seus lugares, os homens percebem e constroem o mundo pelas ações geradoras de materialidades que, por sua vez, são animadas por tais ações. Santos (2002) atenta para dois aspectos: enquanto a vontade de homogeneização do dinheiro é contrariada pelas resistências locais à sua expansão, por outro lado, principalmente nos lugares onde os limites para expansão do capital são menos rígidos, observa-se, “uma vontade de adaptação às novas condições do dinheiro, já que a fluidez financeira é considerada uma necessidade para ser competitivo e, consequentemente, exitoso no mundo globalizado” (idem, p. 102).
Acontece que o capital não se aloca em todos os lugares, tanto que presenciamos a fluidez não mensurada de todo o “capital volátil” e não visível que circula nos mercados especulativos. Componentes fundamentais na compreensão das dinâmicas espaciais da nossa época, a seletividade espacial do grande capital, a fluidez do hot Money38, o ritmo das inovações técnicas exponencializam as desigualdades entre os lugares e entre as pessoas. De fato, constatamos que a fixação do grande capital acontece, hoje, em lugares previamente selecionados, racionalmente pensados e programados para receber os investimentos. Cataia (2001) trabalha com o conceito de “território alienado” quando interpreta os incentivos fiscais a empresas em território brasileiro:
Propõe-se o conceito de territórios alienados para designar aqueles municípios que prepararam seu chão com obras de engenharia e normas, receberam investimentos empresariais e tornaram-se reféns das políticas empresariais. Há empresas transnacionais economicamente mais poderosas que territórios nacionais inteiros. É mais comum ainda encontrarmos empresas que dominam as políticas locais (CATAIA, 2001, p. 221).
38 Hot money, em sua origem, designa fundos aplicados em ativos financeiros, em diversos países, que atraem pela possibilidade de ganhos rápidos devido a elevadas taxas de juros ou a grandes diferenças cambiais. São operações de curtíssimo prazo, em que os recursos podem ser deslocados de um mercado para outro com muita rapidez. Esses recursos são administrados por especuladores no mercado de câmbio (Foreign Exchange Market) e caracterizam-se por alta volatilidade, em oposição às aplicações de bancos centrais, bancos de investimento ou investidores domésticos. Por essa particularidade, em algumas situações, são considerados causadores de turbulências nos mercados financeiros. No Brasil, o termo hot money, amplamente empregado por bancos comerciais, por extensão de sentido, aplica-se também a empréstimos de curtíssimo prazo (de 1 a 29 dias). Esses empréstimos, sem contrato de empréstimo de caráter complexo, têm a finalidade de financiar o capital de giro das empresas para cobrir necessidades imediatas de recursos. http://www.bcb.gov.br/glossario.asp?id=GLOSSARIO&Definicao=603. Acessado em 12 de Outubro de 2009.
Não são raros os casos em que parcelas do território rendem-se à esfera capitalista com suas lógicas territoriais. No âmbito dos Estados Federativos ou dos municípios, a guerra fiscal conduz o ritmo das dinâmicas dos lugares (ARBIX, 1999; CATAIA, 2003). Observam-se mudanças nas divisões político-administrativas dos municípios: nos anos de 1990, a montadora da Wolkswagen alocou-se no distrito de Porto Real, município de Rezende, Estado do Rio de Janeiro. Logo em seguida, por um conjunto de incentivos do governo do Estado e por outros fatores locacionais, instalou-se a montadora da Peugeot. Não tardou muito para que fosse organizado um movimento de emancipação político-administrativo, promovendo a separação do distrito de Porto Real do seu respectivo município. Conferem-se ainda mudanças nas dinâmicas internas nos circuitos da economia local, como pode ser observado por Holanda (2007), ao investigar as transformações territoriais no município de Sobral, no Ceará, com a implantação das indústrias Grendene.
Nestes e noutros lugares captados pelas lógicas reprodutivistas do capital, em tempos de globalização, são verificadas modernizações territoriais. Redes e equipamentos passam a constituir a face mais imediata desses “impulsos à modernização seletiva” da vida social, de que nos fala Ribeiro (2002). O que podemos dizer, a partir da compreensão dessas transformações, é que
[...] O espaço passa a ser modelado segundo os mesmos critérios de eficiência e racionalidade que comandam o processo técnico- científico. É um novo conteúdo social que vai se viabilizar e se concretizar numa nova estrutura espacial. O avanço técnico redefine as relações sociedade/espaço, criam-se novas formas espaciais e as anteriores se ajustam às novas determinações (BARBOSA, 1983). Se, por um lado, nos territórios, através do capital, a capacidade migratória dos investimentos e de suas modernizações transforma os lugares, com o novo, criando-lhes novas dinâmicas, por outro lado, quando um conjunto de fixos e fluxos não atende mais à demanda reprodutiva do capital, essa mesma capacidade pode provocar, em outros locais, o seu “rápido envelhecimento”. O que dizer dos tradicionais espaços da produção industrial de calçados, no interior do Rio Grande do Sul, que viram, em curto espaço de tempo, suas indústrias, empregos e relações sociais, “migrarem” para outros lugares selecionados em território nacional? Na Zona da Mata Mineira, um conjunto de elementos infraestruturais que atenderam à produção cafeeira, em pequenas e médias propriedades, encontra-se em estado de