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Os artigos 11 a 21 do Código Civil254 dispõem em rol exemplificativo os direitos da personalidade, a saber, direito ao próprio corpo, ao nome, à honra, à imagem e à privacidade. Esses dispositivos são interpretados sob a regência dos artigos 1º, III; 3º, III; 5º, XXXV e § 2º da Constituição Federal de 1988 que, respectivamente, admitem a expansão do rol dos direitos da personalidade sob os fundamentos do princípio da dignidade da pessoa humana, igualdade e solidariedade. Instituem também o dever do Estado de prestar a Jurisdição e garantir aos jurisdicionados a tutela jurisdicional; e, por fim, reconhecem e tutelam os direitos da personalidade decorrentes de Tratados e Convenções internacionais dos quais o Brasil seja signatário.

Depreende-se da análise dos juristas brasileiros que se propuseram a estudar e a classificar os direitos da personalidade que, inicialmente, não houve uniformização. Todavia, a classificação proposta por Rubens Limongi França foi, posteriormente, recepcionada pela doutrina majoritária e agrupa os direitos da personalidade em três aspectos: físico, intelectual e moral. A partir da identificação dos traços comuns, ele apresenta a classificação dos direitos da personalidade em direito: (i.) à integridade física – abrange o direito à vida e ao próprio corpo; (ii) à integridade intelectual – envolve o direito do autor científico, artístico e de invenção; e (iii) à integridade moral – compreende a honra, o segredo, a imagem e a identidade pessoal.255

O artigo 11 do Código Civil estabelece que os direitos da personalidade são intransmissíveis e irrenunciáveis, e seu exercício não pode sofrer limitação voluntária, com exceção aos casos previstos em lei. Apesar da omissão legal, os doutrinares apontam como características desses direitos a generalidade, o caráter absoluto, a inalienabilidade, a imprescritibilidade e a instransmissibilidade.

254 Os artigos 11 ao 21 do Código Civil não tem precedentes no Código Civil de 1916.

255 FRANÇA, Rubens Limongi. Manual de direito civil. São Paulo: RT, 1975. p. 411; Rubens Limongi França apresenta os critérios fundamentais da personalidade apresenta os direitos da personalidade, de acordo com a tríplice divisão. No critério direito à integridade moral, aponta dentre outros, o direito ao recato, à intimidade, ao segredo pessoal, à identidade sexual. In: Direitos da personalidade: coordenadas fundamentais. Revista dos

No tocante à limitação voluntária desses direitos, os Enunciados 4 e 139, respectivamente, da I e III Jornada de Direito Civil, promovidas pelo Centro de Estudos Jurídicos do Conselho de Justiça Federal temperam a literalidade do dispositivo legal. O primeiro propõe que “O exercício dos direitos da personalidade pode sofrer limitação voluntária, desde que não seja permanente nem geral” e o segundo “Os direitos da personalidade podem sofrer limitações, ainda que não especificamente previstas em lei, não podendo ser exercidos com abuso de direito de seu titular, contrariamente à boa-fé objetiva e aos bons costumes”.256

O direito do lesado direito (própria vítima) ou de lesados indiretos de se exigir que cesse a ameaça ou a lesão aos direitos da personalidade, bem como reclamar as perdas e danos, sem prejuízo de outras sanções previstas em lei, conforme o artigo 12 do Código Civil.

O legislador autoriza a tutela desses direitos de forma preventiva e reparatória. Nesta, a vítima se torna indene pela incidência do instituto jurídico da responsabilidade.

No tocante à categoria dos aspectos físicos dos direitos da personalidade, os artigos 13 e 14 do Código Civil tratam, respectivamente, da disposição de partes do próprio corpo em vida para fins terapêuticos e da disposição gratuita de parte ou de todo corpo após a morte. Para Walter Moraes, esses direitos se referem aos bens que são partes integrantes do homem in natura é a substância257. E, para Heinrich Hubmann, toca ao direito sobre a personalidade (das Recht an der Persönlichkeit) da pessoa como ser humano em sua existência, pois o corpo não é própria personalidade, mas sim a aparência exterior e onde a concentra.258

O artigo 5º, caput da Constituição Federal de 1988 garante a todos o direito e a garantia à inviolabilidade do direito à vida. E o artigo 15 do Código Civil trata do direito básico da pessoa, sob o fundamento da autonomia da vontade, de não se submeter a tratamento médico ou à intervenção cirúrgica.

256 JUSTIÇA FEDERAL. Centro de Estudos Judiciários do Conselho de Direito Federal. Enunciados aprovados. Disponível em https://www2.jf.jus.br/portal/publicacao/download.wsp?tmp.arquivo=1296. Acesso em 01.10.2015.

257 MORAES, Walter. Concepção tomista de pessoa: um contributo para a teoria do direito da personalidade.

Revista de Direito Privado. abr./jun. 2000, p. 197.

258 HUBMANN, Heinrich. Das Persönlichkeitsrecht. Köln: Böhlau, 1967. p. 226. Para o autor “Der Körper ist nicht die Persönlichkeit selbst, er ist nur äusser Erscheinungsform, nur das Gefäss der Persönlichkeit.”; NERY, Rosa Maria de Andrade. Distinção entre “personalidade” e “direito geral de personalidade” uma disciplina próripia. Doutrinas essenciais de direito constitucional. São Paulo: RT, v. 8. ago. 2015. p. 473-478.

Esse direito se refere ao atributo da integridade física dos direitos da personalidade. Para efetivar o exercício da autonomia da vontade, o Enunciado 533 da VI Jornada de Direito Civil, promovida pelo Centro de Estudos Jurídicos do Conselho de Justiça, propõe que “o paciente plenamente capaz poderá deliberar sobre todos os aspectos concernentes a tratamento médico que possa lhe causar risco de vida, seja imediato ou mediato, salvo as situações de emergência ou no curso de procedimentos médicos cirúrgicos que não possam ser interrompidos.”259

Para Walter Moraes, a saúde é a substância, e a vida é a essência260, e nos ensinamentos de Heinrich Hubmann, é o direito sobre a personalidade (das Recht an der

Persönlichkeit) da pessoa como ser humano em sua existência.261

Como salientado no item 2.3 da tese, o nome é atributo da personalidade jurídica, pois identifica a pessoa como sujeito de direito. Do mesmo modo, o nome é objeto dos direitos de personalidade (teoria geral dos direitos da personalidade), conforme previsão nos artigos 16, 17, 18 e 19 do Código Civil.

Nessa perspectiva, o artigo 16 do Código Civil prescreve que a pessoa tem direito ao nome, nele compreendido o prenome e o sobrenome. E o artigo 19 do Código Civil estabelece que o pseudônimo utilizado em atividades lícitas goza da proteção que se dá ao nome.

De acordo com Rosa Maria de Andrade Nery, o nome é expressão da potência afetiva do homem, pois indica a família a que pertence. Ela pondera que “[...] o ser humano é alguém na família, e o nome é consequência dessa ambiência do homem na família.”262 Para Heinrich Hubmann, o nome toca o direito sobre a individualidade (das

RechtaufIndividualität), pois traduz a forma especial com a aproximação da imagem ideal e

pertence à esfera individual (die Individualsphäre). Para ele, o nome retrata o meio mais importante da personalidade da pessoa, pois se relaciona com a individualidade, a identidade e

259 JUSTIÇA FEDERAL. Centro de Estudos Judiciários do Conselho de Direito Federal. Enunciados aprovados. Disponível emfile:///D:/Bibliotecas/Downloads/Enunciados-VI-jornada%20(1).pdf. Acesso em 01.10.2015.

260 MORAES, Walter. Concepção tomista de pessoa: um contributo para a teoria do direito da personalidade.

Revista de Direito Privado. abr./jun. 2000, p. 197.

261 HUBMANN, Heinrich. Das Persönlichkeitsrecht. Köln: Böhlau, 1967. p. 226.; NERY, Rosa Maria de Andrade. Distinção entre “personalidade” e “direito geral de personalidade” uma disciplina própria. Doutrinas

essenciais de direito constitucional. São Paulo: RT, v. 8. ago. 2015. p. 473-478.

262 NERY, Rosa Maria de Andrade. Instituições de direito civil: parte geral. v. I, t. II. São Paulo: RT, 2015. p. 20.

a distinção em relação às outras pessoas. Afirma que o nome não é um som vazio e se relaciona a uma pessoa específica, pois traduz a sua representação mais bela e viva. 263

O artigo 17 do Código Civil impede que o nome da pessoa possa ser empregado por terceiros em publicações ou representações que a exponham ao desprezo público, ainda que não haja a intenção de difamar. Assim, sob o fundamento do artigo 12 do Código Civil, a pessoa tem direitos como: exigir que a ameaça e a lesão a esse direito cessem, bem como reclamar perdas e danos. Nessa hipótese, reconhece-se a relação indissolúvel do nome com a pessoa que o porta e revela-se a potência afetiva inerente à humanidade, bem como a representação preconizada por Heinrich Hubmann.

Do mesmo modo, o artigo 18 do Código Civilimpede a utilização do nome da pessoa em propaganda comercial, sem a sua autorização, para afastar o enriquecimento sem causa. Nesse sentido, o Enunciado 278 da IV Jornada de Direito Civil, promovida pelo Centro de Estudos Jurídicos do Conselho de Justiça, propõe que “A publicidade que divulgar, sem autorização, qualidades inerentes a determinada pessoa, ainda que sem mencionar seu nome, mas sendo capaz de identificá-la, constitui violação a direito da personalidade.”264

A integridade intelectual e moral são amparadas pela disposição do artigo 20 do Código Civil, o qual resguarda as obras do intelecto da pessoa bem como a sua imagem, honra e boa fama. A divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou a utilização de uma pessoa dependem de autorização dela própria; caso contrário, podem ser proibidas por requerimento.

Nessa hipótese, admite-se a ausência de autorização, caso seja necessário, à administração da justiça ou à manutenção da ordem pública. Nesse sentido, o Enunciado 279 da IV Jornada de Direito Civil, promovida pelo Centro de Estudos Jurídicos do Conselho de Justiça, estabelece que

263 HUBMANN, Heinrich. Das Persönlichkeitsrecht. Köln: Böhlau, 1967. p. 271; 276-282.Texto original “Das wichtigste Mittel, durch das die Persönlichkeit in den Beziehungen zur Umwelt ihre Individualität, ihre Identität und ihr Unterschiedensein von anderen wahrt, ist der Name. Er ist das Medium, durch das sie in der Öffentlichkeit auftritt und im Verkehrsleben ihre Leistung anbietet, durch das ihr Eigenwert in der Welt kursiert und in aller Munde sein kann. Der Name ist, wie Goethe sagt, der, “schönste, lebendigste Stellvertreter der Person”. Soll der Name nicht leerer Schall sein, so muss die Umwelt damit die Vorstellung einer bestimmten Person verknüpfen. Zum wesen des Namens gehört also ein Dreifaches: eine Wortbezeichnung, eine Person und eine Beziehungen zwischen beidem, die durch den Verkehr hergestellt wird” (p. 276)

264 JUSTIÇA FEDERAL. Centro de Estudos Judiciários do Conselho de Direito Federal. Enunciados aprovados. Disponível em https://www2.jf.jus.br/portal/publicacao/download.wsp?tmp.arquivo=1296. Acesso em 01.10.2015.

A proteção à imagem deve ser ponderada com outros interesses constitucionalmente tutelados, especialmente em face do direito de amplo acesso à informação e da liberdade de imprensa. Em caso de colisão, levar-se-á em conta a notoriedade do retratado e dos fatos abordados, bem como a veracidade destes e, ainda, as características de sua utilização (comercial, informativa, biográfica), privilegiando- se medidas que não restrinjam a divulgação de informações.265

Para Walter Moraes, esses direitos se referem ao ato de potência intelectiva (obras do intelecto) e à propriedade do corpo (a imagem), ou seja, partes integrantes do homem in

natura. 266

O artigo 20 do Código Civil estabelece a inviolabilidade do direito à vida privada. Este artigo é objeto de pesquisa desta tese no capítulo 4. e 5.

265 JUSTIÇA FEDERAL. Centro de Estudos Judiciários do Conselho de Direito Federal. Enunciados aprovados. Disponível em https://www2.jf.jus.br/portal/publicacao/download.wsp?tmp.arquivo=1296. Acesso em 01.10.2015.

266 MORAES, Walter. Concepção tomista de pessoa: um contributo para a teoria do direito da personalidade.

Benzer Belgeler