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4.  Ç1BD VE K-1BD TEMELLİ HK YÖNTEMİ VE DONANIM MİMARİSİ 43 

4.1  Ç1BD Temelli HK Yöntemi ve Donanım Mimarisi 43 

4.2.2  Ç1BD temelli HK donanımı mimarisi 47 

4.2.2.2  Ç1BD temelli HK yönteminin KPTDD mimarisi ile gerçeklenmesi 50 

Ihab Hassan refere-se ao seu ensaio “Culture, Indeterminacy, and Immanence: Margins of the (Postmodern) Age” (1977) como “ficção inconclusiva do nosso tempo” (1987, p.46).309 Com isso, o teórico deseja explicitar a “ordem e desordem do conhecimento” (p.47) no atual cenário pós-moderno e problematizar o caráter de grandes instâncias como a linguagem, a verdade, a razão, entre outras. Hassan sugere que, a partir do século XIX, o desenvolvimento de teorias como a da relatividade e a formulação de outros pressupostos filosóficos sobre a natureza da realidade provocam uma espécie de desaparecimento gradual de noções unitárias de discurso, conhecimento e, por conseguinte, de sujeito como “uma idéia particular, uma figuração concreta da história” (p.53)310. Por essa razão, a ingenuidade demonstrada pelo homem ao impor-se como significado e medida do valor de todas as coisas deixou de ser uma postura condizente com o ethos pós-moderno (p.48-53).

As teorias do pós-modernismo, como vimos, têm enfatizado o pluralismo de perspectivas artísticas, filosóficas, sociais, políticas, entre outras, que movimentam uma série de formas discursivas indeterminadas, lúdicas, provisórias, abertas, irônicas etc., (HASSAN, 1987, p.93) e visam, talvez, provocar uma “decisiva mutação histórica” (p.94)311 afetando todos os campos do discurso no ocidente. Um desses procedimentos discursivos é a indeterminação, ou, como prefere Hassan, as “indeterminações” (p.92)312, e uma série de processos que se relacionam ou se confundem com ela como a ambigüidade, a destotalização, a descontinuidade, a disjunção, além de vários outros procedimentos.

309

[...] inconclusive fiction of our time. 310

[...] as a particular idea, a concrete figuration of history. 311

[...] decisive historical mutation [...]. 312

A indeterminação é um termo recentemente incorporado ao vocabulário crítico e indica os diversos significados sugeridos pela literatura a partir de estruturas inconclusivas, parciais e descontínuas, que, portanto, dificultam uma total interação do apreciador com os dados do universo imaginário. Embora seja muitas vezes confundida com a ambigüidade, Hassan postula que esta pode configurar-se um elemento que contribui para delinear o caráter da indeterminação (1987, p.92).

A ambigüidade, característica intrínseca ao discurso da arte, tem sido muitas vezes definida como uma palavra ou um texto que pode dar margem a dois ou mais sentidos de forma simultânea (BECKSON & GANZ, 1989, P.10) ou a possibilidade de um conteúdo veiculado por uma única frase variar dependendo das circunstâncias em que esse enunciado ambíguo é lido e interpretado (MARTIN, 1994, p.103-104). A indeterminação, por outro lado, é uma propriedade ainda mais profunda, que pode valer-se de vários dispositivos textuais como a aleatoriedade e a descontinuidade para afetar a interpretação da obra, ensejar a incerteza e estimular a dúvida quanto à autoridade do texto e sua suposta capacidade de expressar “verdades” incontestáveis. Nas palavras de Gerald Graff, “o conceito de indeterminação objetiva ameaçar a autoridade da literatura e da interpretação literária de uma maneira que o conceito de ambigüidade não alcançava” (1995, p.165).313

Ainda que a literatura possua, por definição, um caráter indeterminado, o crítico Ihab Hassan reconhece na indeterminação um traço pós-moderno crucial, pois ela desafia noções clássicas de linguagem e de razão tradicionalmente concebidas como absolutas, completas e seguras (1987, p.62). Por este motivo, a indeterminação “evidencia uma limitação ou falha de um texto em cumprir seu propósito, seja este o propósito de uma obra literária de

313

[...] the concept of indeterminacy claims to threaten the authority of literature and literary interpretation in a

expressar a verdade a respeito da condição humana, ou o propósito de um intérprete de apreender o significado da obra literária” (GRAFF, 1995, p.165).314

Dessa forma, tomemos como exemplo o conto “Why, Honey?”, de Raymond Carver, coligido no volume de histórias Will You Please Be Quiet, Please? (1976). Nesse texto de estrutura epistolar, uma mulher relata a trajetória de mentiras de seu filho, desde sua infância, passando pela formatura, pela carreira militar, até sua eleição para o cargo de governador. Como o filho, segundo essa narradora não-confiável, comete uma série de atos perversos ao longo de sua juventude e é incapaz de dizer a verdade, ela começa a temer por sua própria vida e passa a esconder-se dele, a trocar de nome e a sentir medo que seu filho, sendo agora um homem poderoso, possa querer matá-la.

Apesar de ela constantemente passar a idéia de que é apenas uma mãe enfrentando dificuldades para “criar um filho com as coisas do jeito que estão esses dias” (CARVER, 1992, p.174)315, percebemos que seu empenho em arrancar dele “a verdade”, bem como seu cuidado materno são, muitas vezes, obsessivos, pois ela não consegue respeitar a individualidade do rapaz.

No conto de Carver, o passado, assim como a verdadeira identidade das personagens, seus caracteres, seus interesses etc., são “filtrados” por uma narradora que dá claras demonstrações de insanidade e paranóia, o que impossibilita o acesso do leitor a informações mais confiáveis. Seu relato não possui credibilidade, é um texto repleto de elipses, de “zonas indeterminadas” (ROSENFELD, 1998, p.33-35). O tempo todo ela tenta convencer o leitor de que seu filho é uma espécie de monstro e, para validar seu discurso, narra uma série de episódios ambíguos, em uma tentativa de representação do passado.

A natureza indeterminada do relato da mãe torna-se evidente desde o primeiro parágrafo do conto devido à obscuridade dos fatos narrados e a maneira como a narradora

314

[...] bespeaks a limitation or failure of a text to fulfill its purpose, whether this be a literary work’s purpose of

expressing the truth about the human condition, or an interpreter’s purpose of arresting the meaning of the literary work.

315

tenta manipular as palavras, construir seus argumentos, impor sua rígida ordem aos fatos, porém, omitindo informações cruciais da história por, talvez, sentir-se receosa de que esses dados possam porventura contradizer seu relato. Por essas razões, “Why, Honey?” configura- se um depoimento parcial, incongruente e que dificulta a totalização dos significados sugeridos pelo texto. Nesse sentido, o crítico Gerald Graff argumenta que

As obras literárias ‘tematizam’ (ou escolhem como tema) esses conflitos que as fazem indeterminadas — conflitos entre a afirmação que as obras fazem de contar a verdade, representar o mundo e apresentar um retrato autoritário das coisas, e a forma como seu status de linguagem e ficção leva essas afirmações a um questionamento. Em outras palavras, a teoria não é apenas de que as obras literárias são indeterminadas, mas de que elas são, em algum nível, comentários sobre sua própria indeterminação. (GRAFF, 1995, p.171-172)316

Dessa maneira, um conto como “Blackbird Pie”, de Raymond Carver, conforme estudaremos de modo mais preciso adiante, tematiza a impossibilidade ou dificuldade experimentada pelo narrador do texto literário de manipular de modo rigoroso as unidades significativas do mundo imaginário da obra literária e de fornecer uma visão totalizante desses mesmos elementos, capaz de suscitar o completo “preenchimento concretizador” (ROSENFELD, 1998, p.17) do leitor. Com isso, o narrador deixa de constituir-se como instância teleológica confiável incumbida da função de representar de maneira totalizante os dados narrados e passa a protagonizar seu próprio colapso como eixo estável responsável por apreender e dar sentido ao universo ficcional projetado pelo texto. A impossibilidade do narrador de fornecer uma “verdade” totalizante dos fatos narrados é, em alguns casos, manifestada no artefato literário por meio de uma narrativa repleta de áreas elípticas, descontínuas e, sobretudo, indeterminadas. No entanto, como observa Ihab Hassan, a indeterminação pode assumir outras formas no âmbito da obra de arte:

A indeterminação nas artes tem muitos disfarces. [...] E ela assume inúmeras formas artísticas: colagens, montagens, [...] arte conceptual, minimalismo, poesia concreta [...] formas parciais, descontínuas, [...], lúdicas, ou auto-reflexivas de todo tipo e muito mais.

316

Literary works ‘thematize’ (or take as their theme) those conflicts that make them indeterminate ― conflicts

between the claims the works make to tell the truth, represent the world, and present an authoritative picture of things, and the way their status as language and fiction calls these claims into question. In other words, the theory is not only that literary works are indeterminate, but that they are at some level commentaries on their own indeterminacy.

Todas essas ‘artes’ tendem, através de diversos meios, a adiar fechamentos, frustrar expectativas, promover abstrações, sustentar uma divertida pluralidade de perspectivas, e, geralmente, balançar o chão do significado junto ao seu público. (1987, p.73)317

A pluralidade de perspectivas induzida pelas estruturas indeterminadas do texto e estimulada pelo pós-modernismo tende a subverter os princípios aristotélicas de enredo como um tecido “singular, uno e completo” (MAGALHÃES JR., 1973, p.16), um “todo [...] que contém um começo, um meio e um fim” (ARISTOTLE, VII, 1992, p.54).318 Assim, o texto tende a fragmentar-se, a jogar com a linguagem, visar a incompletude e a parcialidade, estimulando, dessa maneira, a atitude analítica e frustrando as expectativas do leitor.

Leonard Ashley, no livro The History of the Short Story, sugere que o conto produzido atualmente muitas vezes fornece apenas uma espécie de “‘walk away’ ending”, ou seja, um final em que não há um resolução rigorosa da intriga e, portanto, muitos fatos ficam em suspenso, indeterminados, dependendo da mediação das lacunas, que deve ser realizada pelo leitor:

Em vez de haver uma resolução habilmente manipulada do conflito central, muitos contos hoje não contêm conclusões claramente definidas. Nada acontece no sentido de configurar todas as coisas da forma ‘correta’. Ao contrário, o leitor é deixado para meditar sobre as implicações da visão do autor de uma situação e deve trabalhar à sua própria maneira no sentido de buscar alguma conclusão. (ASHLEY, 1984, p.26)319

Passemos agora à análise do conto “Blackbird Pie”, no qual Raymond Carver articula seu texto valendo-se de alguns desses expedientes discursivos parciais, descontínuos e indeterminados, que instalam e subvertem as noções de conclusão, causalidade e totalização da narrativa.

317

[...] indeterminacy in the arts has many guises. [...] And it takes innumerable artistic forms: collages,

montages, [...] concept art, minimalism, concrete poetry, [...] absurdist, uncanny, and fantastic modes, partial, discontinuous, decreative, ludic, or self-reflexive forms of every kind, and many more. All these ‘arts’ tend, by diverse means, to delay closures, frustrate expectations, promote abstractions, sustain a playful plurality of perspectives, and generally shift the grounds of meaning on their audiences.

318

A whole [...] which has a beginning, a middle, and an end. 319

[...] instead of there being a cleverly manipulated resolution of the central conflict, many short stories today

contain no clearly defined conclusion. Nothing happens to set everything ‘right.’ Instead, the reader is left to meditate on the implications of the author’s view of a situation and must work his own way toward some conclusion.