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3. AMAÇLAR

4.10 Çözümleme

A primeira metade do século XIX foi um período crucial para a constituição da justiça brasileira. Os políticos, legisladores e parlamentares pensavam a justiça e sua implementação. Os seus debates atingiam os setores da opinião pública e dos interesses partidários, e abarcava conteúdos e atores sociais os mais diversos. Nessa conjuntura, o juiz de paz era considerado na condição de autoridade do Judiciário local em formação. Citado no tema do princípio da legalidade, ele era tido como constitutivo do Direito penal do Império. As leis criminais eram imprescindíveis para determinar as funções e para assinalar o padrão de procedimentos jurídicos adotados pelos juízes.

Consideraremos a situação dessas leis, mas pensamos que estudar o Juizado de paz requer a superação de enfoques detidos aos aspectos formais e oficiais da prática jurídica. Tal superação pode ser empreendida a partir da análise das fontes históricas e da reflexão a propósito do nível da concretização dos desígnios do Estado em uma região específica do país. Observamos como se corporificava a estrutura normativa judiciária do período a partir da atuação dos juízes em um município da província mineira.

A nossa análise alinha-se a questionamentos historiográficos a respeito do embate entre as ideias liberais e as permanências da estrutura colonial no arcabouço político- institucional erguido no período. Demarcar a legalidade cumprida pelos juízes de paz no exercício das suas atribuições nos permitirá assinalar a perspectiva institucional liberal radicada no período versus o quadro anterior.

Nessa mesma linha de interpretação, importa ressaltar em que medida tal legalidade sobrepunha as redes de relações pessoais ou representava completa desarmonia com as normas criminais do período. É nesse sentido que o exame dos procedimentos realizados pelos juízes de paz possibilita esclarecer os padrões de organização social da época. As suas decisões poderiam ter sido ineficazes, ilegais ou contribuído para contornos de violências privadas e públicas.

No período colonial brasileiro, o aparato normativo para os crimes vinha definido no código legal português, o Livro V das Ordenações Filipinas de 1603. Esse Livro estabelecia as ações consideradas criminosas, as penas e castigos, e as regras processuais penais. As penas eram aí definidas com base na condição social do criminoso, da vítima e na natureza do crime.

A partir de 1830, processos eram abertos independentemente de como a informação dos eventos criminais chegava ao conhecimento da justiça, e as penas seriam definidas de

acordo com a gravidade do crime. Essa gravidade seria apresentada na formação da culpa realizada pelo juiz de paz que apresentava à justiça as partes envolvidas e as circunstâncias em que o crime ocorreu.

Em prol de levar a justiça aos cidadãos, o Código Criminal de 1830 e o Código do Processo Criminal de 1832 determinaram as funções judiciárias e policiais dos juízes de paz. A década de 1830 comporta um amplo leque de possibilidades de análise, fundamental para o entendimento acerca das heranças do sistema penal antigo, ou pelo contrário, do impacto jurisprudencial da nova legislação. O período abarca o dilema relacionado aos enfrentamentos de um discurso liberal e as permanências do Antigo Regime.

Na vertente liberal europeia, a ordem estaria ligada à noção de liberdade, e a noção de igualdade àquilo que vinha regulamentado em lei. As conformidades à lei e a estabilidade do governo ocupavam o mesmo patamar de importância. A legalidade deveria ser respeitada porque era a expressão de comando, estabelecia a ordem e ultrapassava os interesses particulares.158

Em linhas gerais, para a ala dos políticos liberais moderados brasileiros, os cidadãos deveriam ser envolvidos para a defesa de seus interesses e, portanto responsabilizados a elegerem os agentes da máquina judiciária. Nesse sentido, o juiz de paz ao ser vinculado às localidades, aos seus concidadãos e ainda contra o arbítrio do Estado seria no Brasil o portador desses interesses.

A partir de 1840, a linha política conservadora investiu na revisão das normas contra a descentralização e em prol da expansão do poder do Estado efetuando reformas centralizadoras na legislação. Contra o juiz de paz eleito, essa linha saiu em defesa do funcionário nomeado pelo poder central, recebedor de vencimentos e deslocado nacionalmente. Com essas prerrogativas foi que em 1841 a Lei de Reforma do Código do Processo criou em cada província os chefes de polícia (e nos municípios, os delegados e subdelegados por eles indicados). Nomeados pelo governo eles assumiram as atribuições antes pertencentes aos juízes de paz.

Do apanhado normativo e pensando nessas possibilidades analíticas esboçadas, traçamos o diálogo com uma historiografia que almeja compreender a formação do Estado

158 HESPANHA, António Manuel. Guiando a mão invisível: Direitos, Estado e Lei no Liberalismo Monárquico Português. Coimbra: Almedina, 2004, p. 71-76. Discute a impossibilidade da realização prática de alguns dos pressupostos do Liberalismo, no sentido da constituição de liberdades individuais no século XIX para o constitucionalismo monárquico português.

brasileiro e, nesse cenário, a importância do Poder Judiciário imperial para manter o equilíbrio social.

O estudo da documentação selecionada para a pesquisa possibilita avançar no debate acerca do reconhecimento de um sujeito de direitos legitimado pelo avanço do Direito penal. Na medida em que a criação do juiz de paz estava inscrita no leque normativo da ampliação do acesso à justiça (assim como fora corroborado na legislação eleitoral para o alargamento dos direitos políticos) vem à tona a questão da fixação dos direitos civis e da cidadania no Império.

Do mesmo modo, nossa análise lança a questão dos limites e problemas que poderiam emperrar o processo de normatização das leis, instabilizar a ordem e suscitar um desempenho paralelo à política institucional edificada.159

Nessa segunda parte indicamos a produção jurídica dos juízes de paz. Buscamos adicionar elementos ao seu papel desempenhado no sistema eleitoral imperial apresentado na primeira parte da pesquisa (capítulos 1 e 2). Trata-se de analisar a sua atuação por todos os ângulos do aparato normativo do Estado imperial.

O intento geral desenvolvido nos capítulos que se seguem pode ser resumido a partir da seguinte questão: em que dimensão a atuação dos juízes de paz contribuiu para o fracasso da política de descentralização administrativa da década de 1830? A nossa argumentação demonstra o embate entre o desempenho do Juizado de paz e a aplicação eficaz das normas judiciais.

Acenamos para as incongruências da correspondência entre fracasso descentralizador e inatividade dos juízes de paz, bem como para a contribuição positiva da experiência do período para definir o Judiciário em momento posterior, seja em 1841 (Reforma do Código do Processo) ou em 1871 (Reforma da organização judiciária).

Ao fim, o Juizado de paz é objeto de pesquisa complexo e privilegiado para a apreciação das assimetrias intrínsecas ao formato político-institucional assumido na primeira metade do século XIX. No Estado em expansão e que se pretendia consolidar ele aponta novos caminhos interpretativos acerca da estabilidade social almejada pela via do sistema Judiciário.

159 VELLASCO, Ivan de A.; SLEMIAN, Andréa; GRINBERG, Keila. Bartolomé Clavero: entrevista. Revista

Brasileira de História, v. 31, p. 319-331, 2011. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882011000200016&lng=en&nrm=iso>. Acesso 10 Fev 2015.

Benzer Belgeler