Inicialmente, na fase de projeto desta pesquisa, a intervenção do adulto foi pensada com base no registro escrito da narrativa oral da criança: o adulto funcionaria como "escriba", contrapondo a sua escrita à oralidade da criança: a hipótese era de que, ao ditar a sua estória, a criança necessitaria organizar os elementos da sua narrativa, muito mais do que nas verbalizações associadas ao seu jogo. Através desta atividade mediada pela escrita, se verificaria a possibilidade de mudança apresentada pela criança com respeito aos fatores de compreensão da narrativa.
No entanto, na fase preparatória da pesquisa, ao realizar um projeto-piloto com crianças do mesmo grupo, verifiquei a insuficiência deste modelo de intervenção para tornar consciente à criança aqueles critérios que auxiliam na comunicação de sua narrativa; o simples registro por escrito era insuficiente para aumentar a necessidade de organização lógica. Por outro lado, observei que, ao registrar o que a criança dizia, havia uma interferência continuada e difusa de minha parte, modelando o discurso da criança com os meus parâmetros e direcionando a organização da sua narrativa; assim, não se podia discriminar exatamente o que era uma elaboração apenas da criança. Outro fato que verifiquei
é que a situação de exame impunha uma separação entre a atividade lúdica e o relato verbal: ao relatar sua brincadeira após brincar, a criança fazia acréscimos e omissões, distorcendo a narrativa original. Optei, então, por uma forma de intervenção mais direta e explícita, em que a criança seria instruída a respeito dos atributos da narrativa que garantem a sua compreensão, no início da sessão, sendo o registro tomado simultaneamente ao seu jogo, através de gravação.
O procedimento de intervenção, tanto para o contexto de reprodução de estória como para o contexto de jogo simbólico, fundamentou-se no conceito de mediação e nos critérios para uma aprendizagem mediada, conforme Feuerstein et al. (1991): para esses autores, a mediação é eficaz quando ela é intencional, procura garantir uma reciprocidade por parte da criança ou do mediado e traz um significado à experiência de aprendizagem (ver p.50). Elaborei uma instrução explícita, definida da seguinte forma:
- Em primeiro lugar, se manifestava a intenção de ensinar à criança como contar bem uma estória, para que todos entendessem. Era colocado um sentido para a tarefa: o projeto de escrever um pequeno livro com o texto da estória criada pela criança ilustrado com as fotografias.
- Uma vez interessada no projeto, a criança era instruída sobre os principais critérios para compreensão de uma narrativa. Era oferecida uma instrução em que os seguintes aspectos foram ressaltados e ilustrados com exemplos da primeira estória:
- os personagens: Quem. - o lugar ou lugares: Onde.
- a ordem sucessiva dos fatos: Quando.
- a razão ou motivo dos acontecimentos: Por quê.
Somente depois desta instrução se iniciava a atividade propriamente dita. Usaram-se, da mesma forma, gravações e fotografias das sessões, bem como questionamentos, para verificação da compreensão da estória. Os protocolos desta fase foram denominados reprodução de estória II e jogo simbólico II.
Como disse anteriormente, a pesquisa foi estruturada sobre dois eixos principais ou dois focos de análise, definidos pelos objetivos da mesma:
a) o grau de abstração da atividade, relacionado com os dois contextos para produção das narrativas: o contexto de reprodução de estória, proporcionando um grau mais abstrato; o contexto de jogo simbólico, como um grau mais concreto.
b) o grau de intervenção do adulto na sua relação com a criança, entendida como uma instrução explícita e uma proposta concreta de produção de estórias.
A combinação desses dois focos de análise determina três tipos de comparação: a) reprodução de estória I comparada com reprodução de estória II.
b) jogo simbólico I comparado com jogo simbólico II. c) reprodução de estória comparada com jogo simbólico.
A estrutura dessa pesquisa pode ser esquematizada da seguinte forma:
grau de intervenção mais abstrato menos abstrato
menor intervenção reprodução de estória I jogo simbólico I
maior intervenção reprodução de estória II jogo simbólico II
5.5. Material
Para a realização desta pesquisa, utilizei o seguinte material:
- um material figurativo composto de bonecos, animais, carrinhos, objetos e mobiliário doméstico; um material não figurativo, composto de toquinhos de madeira, sucata (rolos de plástico e de papelão, fios de lã, palitos de madeira), blocos e outras peças de encaixe do LEGO:
- dois textos de estória infantil: optei por textos mais longos do que aqueles utilizados por Piaget, de modo a permitir que a análise da narrativa fosse mais extensa, além de atender mais especificamente ao nível de desenvolvimento da faixa etária estudada. Piaget submeteu as mesmas estórias a crianças de diferentes idades, para compreender a evolução da linguagem e do pensamento infantil, enquanto o presente estudo procura investigar diferenças pontuais entre crianças da mesma idade, todas já na etapa final do período representativo.
Foram apresentadas duas estórias diferentes para cada fase da pesquisa, a fim de evitar o eventual efeito de um treino com o conteúdo repetido. “Babioca, o
cavalinho medroso” 5.serviu para a fase I da pesquisa, enquanto a estória
escolhida para a fase II foi “ Pedro e o Lobo” 6. Selecionei as estórias pelos seguintes critérios: não serem conhecidas; conterem um texto de extensão média, um pouco maior que as estórias oferecidas por Piaget; apresentar passagens em que a ordem temporal e espacial estava bem marcada; oferecer algumas informações explícitas e outras implícitas, as quais exigiam que a criança estabelecesse relações por inferência, a fim de compreender as motivações dos personagens e as relações de causalidade. O texto integral das estórias encontra-se na seção de ANEXOS deste trabalho.
Seguindo o procedimento empregado por Piaget (op. cit., 1993) , dividi os textos originais em itens, procurando selecionar apenas as passagens essenciais da estória, sem considerar detalhes ou nomes; estes itens foram considerados independentes da ordem em que se apresentaram no relato da criança. Assim, se em qualquer ponto da fala da criança havia menção a um personagem ou fato relevante da estória, estes eram considerados para pontuação, tanto da compreensão explícita como da implícita. Encontrei vinte pontos nos dois textos, sendo que, entre estes pontos, distingui:
5 - Autor: Mary Veen; Editora de Orientação Cultural, Rio de Janeiro, 1973.
6 - Conto adaptado do tema musical de S. Prokofieff, in O Mundo da Fantasia, coleção "Os mundos encantados de Walt Disney", Editora Abril Cultural, 1976.
- aqueles que são complementares ao enredo da estória, tendo uma função acessória, não sendo indispensáveis para sua compreensão;
- aqueles que são implícitos, por apresentarem uma relação de dependência ou de causalidade com a informação que os precede, ou por se referirem às motivações internas das ações relatadas.