Segundo Paulo Freire a educação pode servir tanto para a manutenção do sistema social, econômico vigente, quanto para a transformação do mesmo. De acordo com estes princípios, o autor desenvolve uma série de considerações sobre duas grandes formas de pensar a educação.
De um lado, tem-se a concepção bancária14 de educação, na qual o educador é o que sabe e os educandos os que não sabem, para tanto devem ser “preenchidos” como um recipiente. Esta forma de pensar e praticar a educação implica ainda num distanciamento dos sujeitos em relação ao mundo, concebe o Homem como “espectador” e não como “recriador” do mundo (FREIRE, 2005).
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A concepção bancária de educação, segundo Paulo Freire remete à idéia de transmissão de conhecimentos e valores, na qual: “a educação é um ato de depositar, em que os educan dos são os depositários e o educador o depositante” (FREIRE,2005).
“Na visão bancária da educação, o saber é uma doação dos que se julgam sábios aos que julgam nada saber. Doação que se funda numa das manifestações instrumentais da ideologia da opressão – a absolutização da ignorância, que constitui o que chamamos de alienação da ignorância,
segundo a qual esta se encontra sempre no outro” (FREIRE, 2005).
Por outro lado, a concepção de educação que Freire vai defender e praticar em toda a sua trajetória, é a vertente problematizadora, na qual tanto educador e educando sabem e podem aprender sempre. O processo de educação se dá no diálogo entre educador e educando e destes com o mundo que os rodeia. Esta mediação da realidade entre educandos e educadores é o que vai constituir a “intercomunicação”. Nas palavras do autor: “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre
si, mediatizados pelo mundo” (FREIRE, 2005).
Aqui pode se estabelecer uma semelhança com o que Paulo Freire chama de mediatização da realidade com o que, na abordagem da modelagem de acompanhamento os pesquisadores chamam de “objeto intermediário”. O conhecimento, a realidade para Freire são os “mediatizadores” que possibilitam a reflexão crítica entre educador e educando; os jogos de papéis, entendidos como modelos de uma determinada realidade são entendidos como “intermediadores” entre a problemática e os sujeitos do processo. A questão que se coloca é como estes intermediadores se tornam “mediatizadores” no sentido freiriano, em busca de uma reflexão crítica sobre a problemática em questão. Em que medida tais “objetos intermediários”, (entende -se aqui os jogos de papéis sob o enfoque da modelagem de acompanhamento) são apenas de posse de quem os propõe e em que medida são compartilhados por educadores e educandos num processo dialógico? De que forma o entendimento e a compreensão deste saber inerente à concepção do modelo são compartilhados e, portanto, apropriados por todos os sujeitos do processo? Na concepção problematizadora, o educador refaz constantemente o seu conhecimento a partir da interação com os educandos, e estes passam a ser investigadores críticos num diálogo com o educador, que também assume a postura de investigador crítico. O que se pretende com esta forma de educar é a reflexão, entre os homens e mulheres e destes com
o mundo, caracterizada pelo exercício de “pensar-se a si mesmos e ao mundo,
simultaneamente, sem dicotomizar este pensar da ação” (FREIRE, 2005).
Ao contrário, a concepção “bancária ” não problematiza as relações dos sujeitos com o mundo, não explicita a relação dialética do processo, pois entende a realidade de forma estática, imobilista, única, mostrando apenas uma visão de mundo, que normalmente é a do educador, sem questionar suas origens, causas e conseqüências; sem “desvelar a realidade”.
Paulo Freire entende os seres humanos como seres históricos e “inconclusos”. Os homens não são, mas sim “estão sendo”; da mesma forma a realidade não é, mas “está sendo ”, esta inconclusão dos sujeitos e da realidade permite e reforça a possibilidade de mudança, tanto do Homem, quanto da realidade (FREIRE, 1992).
Segundo o autor, “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades
para a sua própria produção ou a sua construção”. Nesta concepção reside a proposta
problematizadora da educação. A educação mais progressista, segundo Paulo Freire exige uma série de saberes, dentre os quais a crença de que um outro mundo é possível, isto é, de que o estado da sociedade atual não é inexorável, mas sim construído por um conjunto de fatores sociais, políticos, culturais e históricos (FREIRE, 1996).
Para pensar na possibilidade de mudança, o autor salienta o fato de que a realidade de uma pessoa não é causa ou conseqüência apenas desta pessoa, individualmente, mas sim de um conjunto de fatores e de movimentos sociais, históricos, econômicos e políticos. Aqui a questão que se faz aos jogos de papéis é a seguinte: qual a dimensão individual da problemática em questão que o indivíduo, enquanto representante de um papel toma para si e o quanto esta problemática é percebida como parte de um coletivo composto por uma dinâmica entre o individual e o coletivo de todos os fatores acima mencionados?
Neste sentido é de suma importância analisar na discussão final do jogo, as estratégias individuais de cada jogador ou de um pequeno grupo de jogadores que desempenharam um determinado papel, sem esquecer que estes muitas vezes fazem parte de um coletivo e
são apenas representantes do mesmo. Há uma tensão entre a ação individual e a coletiva, uma vez que os papéis destacados e vivenciados nos jogos de papéis tendem a exaltar a ação individual.
Metodologias participativas como os jogos de papéis que pressupõem uma vivência de uma situação-problema vão possibilitar o diálogo, resta investigar em que nível este diálogo é possibilitado através de tais metodologias. O diálogo pressupõe ainda uma relação horizontal, cabe aqui verificar o nível de participação estabelecido na relação entre educadores e educandos.
A concepção problematizadora considera o diálogo como essência do fazer educativo. Paulo Freire vai as origens do processo dialógico e entende-o como construção de uma práxis (ação e reflexão sobre a palavra). O diálogo vai além da simples comunicação entre duas pessoas, “o diálogo é este encontro dos homens, mediatizados pelo mundo,
para pronunciá-lo, não se esgotando, portanto, na relação eu-tu” (FREIRE, 2005).
Neste sentido, o autor ressalta a importância de considerar a situação em que se encontram os educandos e as suas visões de mundo, numa atuação conjunta e não imposta, a partir de uma situação concreta. O conteúdo programático deve ser buscado na realidade, neste momento é que se inicia o diálogo entre educador e educando (FREIRE, 1992).
Desta forma uma metodologia problematizadora deve entender que tanto os educadores quanto os educandos são sujeitos da investigação, ambos são pesquisadores, diferente do que entendemos tradicionalmente nas práticas de pesquisa mais tradicionais. O educando ao se tornar sujeito do processo, assume uma postura ativa e pode então se apropriar da realidade de forma significativa (FREIRE, 2005).