LAZERLİ KAPLIN AYARI ve YERİNDE BALANS
2. YERİNDE BALANS
Alice no País das Maravilhas, como já deixamos entrever, traz uma
protagonista que vive suas aventuras num espaço onírico. Nesse universo, as personagens que encontramos são animais personificados, objetos com forma humana, cartas de baralho falantes, enfim, são seres que pertencem ao fantástico, entenda-se esse termo na acepção literária que lhe é dada. O encontro com essas personagens motiva diálogos e situações que se caracterizam pelo
nonsense. Ressalte-se que não fazemos uma mera exposição de fatos
contextuais, mas a influência destes sobre a enunciação literária. Recorreremos, sobretudo ao trabalho Maingueneau (1995) que aborda questões sobre a obra, o escritor e o campo literário; nos conflitos e tensões relacionados a estas três categorias.
Entendamos que os discursos, enquanto histórias, não surgem in vácuo, mas são produzidos e lidos pelos usuários em situações específicas nas quais constroem uma representação não só do texto pelos elementos linguísticos, mas também de um contexto pragmático e social da/na obra literária. Por conseguinte, ao escrever uma história, o escritor se empenha em caracterizar um ato social em um ato de narração, um ato de afirmar ou prevenir o leitor com respeito a algum fato caracterizado no tempo e no espaço.
Essas considerações mostram que não se pode dissociar a cena enunciativa de uma história narrativa, um ficcionista de um universo discursivo, que é constituído por vários campos (político, religioso, filosófico, científico, entre
outros). Cada campo é formado de vários espaços que são os chamados
interdiscursos (Maingueneau, 2005). Nesses campos de tensão, são encontrados
os significados da obra literária, e da importância do contexto histórico e dos fatores biográficos como determinantes da enunciação literária.
São óbvias as bases bakhtinianas assumidas por Maingueneau para elaborar sua teoria sobre os campos ou territórios ideológicos que influenciam a poética de qualquer autor de literatura, que afetam diretamente os posicionamentos assumidos. Bakhtin (1998) faz referência à importância dos posicionamentos adotados pelos autores literários quando aborda a problemática do conteúdo da obra literária. Para ele, um posicionamento só é importante se puder se relacionar a outros pontos de vista criadores; sem essa tensão dialógica, não há discurso. Bakhtin considera o domínio da cultura vigente como fator decisivo para a criação literária, e esse domínio não pode ser considerado como algo meramente territorial, mas como fronteiriço, já que é nas fronteiras que se estabelece o lugar tenso de criação discursiva literária:
Não se deve, porém, imaginar o domínio da cultura como uma entidade espacial qualquer, que possui limites, mas que possui também um território interior. Não há território interior no domínio cultural: ele está inteiramente situado sobre fronteiras, fronteiras que passam por todo lugar, através de cada momento seu, e a unidade sistemática da cultura se estende aos átomos da vida cultural, como o sol se reflete em cada gota. Todo ato cultural vive por essência sobre fronteiras: nisso está sua seriedade e importância; abstraído da fronteira, ele perde terreno, torna- se vazio, pretensioso, degenera e morre. (BAKHTIN, 1998, p. 29)
Bakhtin, ao abordar a questão do conteúdo da representação artística, acrescenta ainda que a arte está ligada à realidade, já que dela se alimenta. O produto estético pode e deve ser compreendido dentro de um mundo do qual tiramos uma representação. Engana-se aquele que tenta unificar a significação da obra estética, pois não há ruptura entre a arte e os valores do conhecimento e do ato ético, entretanto, para ser classificada como arte, deverá propor uma inovação. Essa proposta de inovação se concretiza por meio de sua constituição estética sem deixar de lado os fatores éticos (esses que devem ser entendidos na concepção da concretude dos elementos que regem a vida humana). Alice é uma obra que se liga a determinado momento histórico da Inglaterra e do próprio autor
que nos traz uma narrativa cujo resultado estético filia-se ao conceito de originalidade proposto por Bakhtin:
A arte cria uma nova forma como uma nova relação axiológica com aquilo que já se tornou realidade para o conhecimento e para o ato: na arte nós sabemos tudo, lembramos tudo (no conhecimento não sabemos nem lembramos nada, não obstante a fórmula de Platão); mas é justamente por isso que na arte o elemento da novidade, da originalidade, do imprevisto, da liberdade tem tal significado, pois nela há um fundo sobre o qual pode ser percebida a originalidade, a liberdade – o mundo a ser conhecido e provado, do conhecimento e do ato, e é ele que na arte se apresenta como novo, é pela relação com ele que se percebe a atividade do artista como sendo livre. (BAKHTIN, 1998, p. 34)
Ainda baseados nos estudos de Bakhtin sobre as questões estéticas do romance, afirmamos que a obra literária é viva e significante do ponto de vista cognitivo, social, político, econômico e religioso num mundo que também é vivo e significante. Bakhtin afirma que a realidade não pode se opor à arte, dado que nenhuma realidade é neutra. Mesmo quando o esteta tenta se opor à realidade, ele ainda está fazendo referência a ela. Bakhtin afirma que:
É preciso lembrar de uma vez por todas que não se pode opor à arte nenhuma realidade em si, nenhuma realidade neutra: pelo próprio fato de que falamos dela e a opomos a algo, nós, como que a definimos e lhe damos uma valor; é preciso apenas sermos claros com nós mesmos e compreender o verdadeiro sentido da nossa apreciação.
Tudo isso pode ser expresso sinteticamente da seguinte forma: pode-se opor a realidade à arte somente como algo bom ou verdadeiro pode ser oposto ao belo. (BAKHTIN, 1998, p. 31)
Torna-se nítida a confluência entre os estudos de Bakhtin (1998) e de Maingueneau (1996). Ambos concordam que é impossível um resultado artístico/estético neutro, sem observação do contexto real como fator propedêutico da construção literária. Para os dois estudiosos, a posição do artista literário e de sua tarefa plástica pode e deve ser entendida no mundo em relação a todos os valores do conhecimento, não é propriamente o conteúdo que une a ética e a estética, muito menos há necessidade de unificação, já que, para Bakhtin não ocorre ruptura:
Não é o material que se unifica, se individualiza, se totaliza, se isola, se completa, ele não precisa nem de unificação, pois nele não há ruptura, nem de acabamento, ao qual ele é indiferente, pois para precisar dele o material deveria participar do movimento axiológico e semântico do ato; mas sim é a composição axiológica da realidade vivida multilateralmente, é o evento da realidade.
A forma esteticamente significante é a expressão de uma relação substancial com o mundo do conhecimento e do ato... (BAKHTIN, 1998, p. 36)
Não podemos deixar de lado a questão do discurso das personagens dentro da narrativa literária. São elas também produtoras de discursos e é nessa produção que reside, no caso de Alice no País das Maravilhas, a polifonia, o conflito entre discursos. Para que uma personagem seja representante de um discurso polifônico, faz-se preciso que seus posicionamentos no mundo ficcional destoem de posicionamentos que seriam usuais na realidade contextual concreta. Todas as transgressões, que são construídas em Alice, constituem o conflito polifônico. Entretanto, não podemos nos esquecer de que há muitas confluências entre Lewis Carroll e sua Alice ficcional. Alice, assim como Carroll, é também uma contadora de histórias e o será no futuro.
Além da criação de personagens, a questão da análise da palavra (em nosso caso, temos de analisar cada palavra dos discursos proferidos pelas personagens no mundo ficcional) também assume papel importante na obra de Bakhtin. Em sua Estética da Criação Verbal, publicada originalmente em 1979, ele afirma que o leitor deve atentar para cada palavra que constitui a estética de uma obra:
Em uma obra literária cada palavra tem em vista ambos os elementos, exerce função dupla: orienta a compenetração e lhe dá acabamento, mas esse ou aquele elemento pode predominar. Nossa tarefa imediata é examinar aqueles valores plástico-picturais e espaciais que são transgredientes à consciência e ao mundo da personagem, à sua diretriz ético-cognitiva no mundo, e o concluem de fora, a partir da consciência do outro sobre ele, da consciência do autor-contemplador. (BAKHTIN, 2003, p.25)
Além de evidenciar a importância da plasticidade da palavra na construção de significados, Bakhtin (2003) apresenta a relevância de compreendermos o contexto de produção da obra literária como fator determinante para que cheguemos à enunciação do ato enunciativo e estético. Entretanto, entrevemos, por meio do uso do adjetivo transgredientes, que não basta somente uma reprodução das situações reais ; é necessário ir além de, para lá, para um lugar em que a criação estética transgride as situações cotidianas, apesar de calcar-se sobre elas. É nessa transgressão que se encontra a totalidade e a unidade coerente da obra literária. Alice no País Maravilhas constitui transgressão da vida
cotidiana por meio de elementos maravilhosos/mágicos, logo toda situação comunicativa em que se encontra a protagonista baseia-se num transgrediente da realidade.
Para que compreendamos a construção de personagens estéticas, torna-se necessária a compreensão de dois conceitos trabalhados por Bakhtin (2003): o de de autor pessoa e o de autor outro. É natural, para o autor-pessoa, que ele projete seus valores nos valores da personagem, que projete sua vivência na vivência da personagem, entretanto devemos negar a posição assumida em alguns ambientes escolares em que se estuda o autor-pessoa, elemento ético e social da vida, como fator precípuo e único para a análise literária. Precisamos projetar nossos olhares para o autor-outro que se transforma em elemento estético da literatura:
Em seu conjunto, o que acabamos de dizer não visa, absolutamente, a negar a possibilidade de comparar de modo cientificamente produtivo as biografias do autor e da personagem e suas visões de mundo, comparação eficiente tanto para a história da literatura quanto para a análise estética. Negamos apenas o enfoque sem nenhum princípio, puramente factual desse tema, que atualmente domina sozinho e se funda na confusão do autor-criador com o autor-pessoa, e na incompreensão do princípio criador da relação do autor com a personagem: daí resultam a incompreensão e a deformação – no melhor dos casos a transmissão de fatos apenas – da personalidade ética, biográfica do autor, por um lado, e a incompreensão do conjunto da obra e da personagem por outro. (BAKHTIN, 2003, p. 9)
À primeira vista, poderíamos cometer o engano de descartar qualquer referência biográfica de autores na análise de obras literárias, entretanto, estejamos atentos às palavras de Bakhtin, para quem a análise puramente contextual e biográfica só tem sentido se associada à uma leitura estética e polifônica, em que os contextos ficcionais entrem em conflito com os contextos reais. Alice no País das Maravilhas dá conta dessa vertente estética para se firmar como obra que atinge o cânone da universalidade. Para que o autor outro se firme na narrativa, o objeto é a própria realidade transgredida, carnavalizada. O passeio que engendra a história maravilhosa torna-se um passeio de investigação de firmamento no mundo real: temos a ficção a serviço da realidade.
Os diálogos são transgredidos, as narrativas dentro da narrativa são transgredidas, além de o tempo ficcional constituir uma transgressão à realidade. O controle do tempo é algo desejado pelos homens e, no mundo das Maravilhas,
ele está a serviço das personagens, desde que não se revoltem contra ele. Percebemos que a compreensão do mundo ficcional deve se fazer em oposição aos fatos concretos da vida cotidiana que são imprescindíveis para a realização estética.
Na obra, encontramos a transgressão do tempo real por meio de personagens como o Coelho Branco, que está sempre atrasado, e do Chapeleiro Maluco, que, por conta da parada e da personificação do tempo, situa-se num eterno chá da tarde. O Chapeleiro, depois de uma discussão com o Tempo, perde o domínio sobre as horas e o relógio marca indiferentemente seis horas da tarde:
Se você conhecesse o Tempo como eu conheço, não falaria assim – disse o Chapeleiro – Não é uma coisa que se possa gastar, é gente. - Não estou entendendo – disse Alice.
- Claro que não está! – afirmou o Chapeleiro (...) Aposto que você nunca falou com o Tempo!
- Talvez não – respondeu Alice com cuidado – mas já marquei as batidas do tempo muitas vezes nas minhas aulas de música.
- Ah, então é por isso... Você bateu, e ele não gosta de apanhar. Mas se você o tratasse bem, ele faria com o relógio quase tudo que você quisesse. Por exemplo, imagine que eram nove horas da manhã, hora de começar as aulas. Era só você pedir baixinho ao tempo e, num piscar de olhos, o relógio disparava! Uma e meia, hora do almoço.
- Ia ser ótimo, mesmo – disse Alice pensativa. – Mas aí eu ainda não ia estar com fome...
- Talvez não, durante algum tempo – concordou o Chapeleiro. – Mas você podia deixar ficar um tempão à uma e meia, quanto você quisesse. - É assim que você faz? – perguntou Alice.
(...)
- Eu não! Nós tivemos uma discussão em março (...) E desde então – continuou o Chapeleiro, sempre se lamentando – ele não quer fazer mais nada do que eu peço. Agora está sempre parado nas seis horas.
(...)
Ah, quer dizer que é por isso que a mesa está posta com todas essas coisas para um chá?
- Exatamente – suspirou o Chapeleiro. – É sempre hora do chá, e nem
temos tempo para lavar a louça entre um chá e outro. (MACHADO, 2003, p. 73-75)
Percebemos, por meio do trecho citado, aspectos pertencentes ao gênero maravilhoso e que se baseiam em necessidades humanas: o controle das horas para obtenção de prazer e até para a realização das tarefas. O tempo da narrativa é o tempo do sonho, das vontades centradas no princípio do prazer, entretanto podem trazer resultados desagradáveis, como estar situado sempre num chá, sem poder lavar a louça, devendo somente mudar de lugar para que a situação de enunciação se repita interminavelmente. A transgressão temporal é somente
aparente, já que, mesmo no espaço onírico, somos escravos do tempo e de suas vontades.
Assim, realizamos até este ponto do trabalho uma exposição das principais transgressões propostas por Lewis Carroll e adaptadas para a língua portuguesa por Ana Maria Machado. Aprofundemo-nos um pouco mais e perceberemos que as transgressões podem ser divididas em três grandes grupos, sobre os quais vamos nos deter mais atentamente agora.