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19. YERFISTIĞI HASTALIK VE ZARARLILARI

19.1. YERFISTIĞI HASTALIKLARI

Elaboramos um capítulo específico para referenciar a importância dos rituais de passagem, e por entendê-los como uma forma de intervenção simbólica e concreta para os enlutados. Desde o nascimento até a morte e em todas as eras, notamos a presença do ritual que norteia as relações entre povos e culturas ao longo da vida. Eles também possuem a função de auxiliar na transformação das relações entre os diferentes atores sociais, vivos ou mortos, espíritos ou deuses e atuam como um sistema de comunicação simbólica organizado. Sua importância se encontra na capacidade de representar o que se encontra no cotidiano da sociedade de maneira simbólica, expandida e iluminada. Além disso, caracteriza-se pela condição de reunir os membros da comunidade a fim de partilharem momentos especiais e incertos representando um processo de comunicação, por meio do qual atribuímos sentidos às nossas experiências de vida. Por fim, como é carregado de simbologia e estruturação, consegue justificar o que não é explicável pela racionalidade, devendo fazer parte do ciclo completo da vida: nascimento, existência e morte.

Neste sentido, os entrevistados falaram dos horrores sentidos neste desastre ao saberem que os corpos estavam no IML, todos juntos e expostos para a identificação. Giulia contou que era a visão do inferno, vista pelo olhar de seu cunhado. Apesar de não ter visto o marido morto, ela soube que alguns corpos tinham apenas pedaços, mostrando que tanto esse saber como a impossibilidade de olhar o seu morto pela última vez dificultou a elaboração do encerramento e da aceitação de que o marido tinha morrido.

Este também foi o caso de Isadora, porém mais agravado. Ela teve sua família prejudicada no enlutamento pela falta de cuidados organizadores e estruturantes para aceitar a morte do esposo. Ela reafirmou que a filha sustentou a esperança, durante mais de oito anos, de que o pai pudesse voltar, uma vez que não tinha conseguido acreditar na morte dele. Neste caso específico, Isadora nomeia o corpo do marido como “aquilo” e “um bolo de

carne”, ratificando o que para nós é a essência deste estudo: a ocorrência de rituais atua como fator de proteção para o enlutamento e a sua ausência, como fator de risco.

A importância dada aos objetos preservados pode fazer grande diferença para elaboração de luto traumático com ausência ou impossibilidade de se ver o corpo. Para que Giulia pudesse integrar em seus conteúdos a perda do esposo, precisou se ver identificada com o acidente, se enxergar ali para entender que o marido estava nele. Por meio de um canhoto de cheque do marido, no qual havia uma folha com a letra dela e a inscrição “doces para as crianças”, pôde sentir que alguém de seu convívio estava realmente naquele voo, antes disso não.

A falta do corpo e a impossibilidade de vê-lo devido a condições atuam como fator complicador no processo do luto. Os familiares que viram os corpos e aqueles que não puderam ver reiteraram esta afirmação. Luciano reconheceu que, para ele, ver o corpo do filho favoreceu sua necessidade de concretizar a perda, e que, no intuito de poupar sua esposa e a nora, impediu-as disso, arrependendo-se depois. Entendeu que este contato foi muito importante para a construção da consciência da morte enquanto realidade.

O contrário disso pode levar o familiar tanto a não acreditar na perda, ficando fixado numa esperança infundada, como a acreditar na morte, porém com maior dificuldade de construir o sentido de transformação. Nestes casos, a falta do corpo dificultou o encerramento de um ciclo, impedindo o estabelecimento de outro: vida-morte-vida, ou seja, o sentido de como foi a vida do morto, a aceitação da sua morte e a transformação de sua presença em lembrança ou em crença de imortalidade, de acordo com a cultura e religião da família. O risco de não se fazer essa construção é regredir para o período anterior à crença na imortalidade, e passar a temer a morte, apresentando dificuldades para distanciá-la novamente e recriar suas rotinas de continuidade.

Não existe perda maior ou menor, existe o sentimento de perda. O desapropriado de seu lar perdeu o chão, a segurança e sua história. Neste sentido, partiu em busca de um ritual próprio de recuperação de sentido de vida. Sentiu que precisava salvar suas coisas, em meio a tanta dor e destruição. Assim, tentou recuperar fotos, objetos pessoais e um passarinho.

A banalização da morte, ou seja, seu tratamento sem rituais, dá um sentido de simples acontecimento de caráter ordinário (DaMatta, 1997). Em sentido oposto, as cerimônias ritualísticas dão a essa ocorrência caráter de atemporalidade e transformação: uma transformação que trabalha o passado, presente e futuro, sem perder de vista a passagem vida-morte-vida para o morto.

Os rituais agem em função da reconstrução de significados e da transformação do tempo de angústia em tempo de crescimento. Além disso, por serem capazes de evidenciar, em momentos de extremo sofrimento, o respeito e o sentido de humanidade, principalmente diante de perdas traumáticas, a falta deles pode trazer sentimento de involução da espécie, ou seja, da sociedade em que se vive.

Para encerrarmos as questões relativas aos fatores de risco, identificamos neste estudo, além dos pontos já trabalhados, aspectos de alerta para o estabelecimento do luto complicado. No entanto, este registro foi feito como pontuação, pois não foi foco de nossos interesses este diagnóstico, nem podíamos fazê-lo por não termos dados suficientes para esse fim.

a) Giulia: vivência anterior de perdas significativas na infância (o pai). Com isso, desenvolveu medos infantis e sentimentos de maior vulnerabilidade das pessoas que ama. Quando da morte do esposo, atualizou esta vivência lembrando das dificuldades que sentiu ao ver sua mãe precisar criar oito filhos sozinha, sendo um deles portador de doença grave. Os prejuízos iniciais na solução de seus problemas diante de perdas são concretos, e só não foram maiores devido a sua capacidade de pedir ajuda a sua rede social, a qual mantém mesmo em tempos de tranquilidade. Apesar disso, é possível que tenham ficado restos a serem resolvidos, uma vez que, relativo aos filhos, os afetos de medo intenso, angústia e terror, que aproximam a possibilidade da morte de alguém querido não puderam ficar numa distância suficientemente boa, ou seja, ainda se mostram frequentes, mesmo em situações onde os riscos são usuais. Muitas vezes expressou um sofrimento temendo que ocorra com eles o que aconteceu com o pai ou com o esposo.

b) Isadora: vislumbramos alguns fatores de risco que permearam seu processo - o medo do abandono, o silêncio e a falta do corpo prolongada, que potencializaram a possibilidade da sensação de não concretização da perda.

c) Jairo: Um dado novo surgiu no que se refere às reações do luto, trazendo um sentido de luto não-reconhecido. Apesar de, na intimidade, Jairo sentir suas perdas como muito relevantes, sentia-se constrangido em expor na associação das famílias suas necessidades; ao se comparar com os enlutados por morte, não se sentia em condições de reivindicar suas causas. Outro dado importante reside na experiência de perda anterior: Jairo perdeu um irmão adolescente afogado, uma tragédia na família; então, sensibilizado, afirmou entender o que significa perder uma pessoa.

Benzer Belgeler