Goytisolo sempre afirma que o fato de escrever a partir do exílio lhe possibilitou ver seu país de uma outra forma, mais crítica e objetiva. No entanto vislumbramos algo mais. O distanciamento a que se refere também lhe proporcionou experimentar o sentimento de sentir-se exilado, afastado, despossuído de algo que seria um traço importante da identidade de cada um – a nacionalidade. Sabe-se que o distanciamento geográfico e temporal não elimina esse caráter identitário. E não se aborda com tanta obstinação temas que nos sejam indiferentes. E se não há indiferença haveria outro sentimento. E se o sentimento não é o amor, seria o ódio? Mas não se odeia simplesmente por odiar. O que agora se odeia poderia antes haver sido motivo de amor. O contrário seria bem menos frequente. Ou ainda se poderia pensar no ódio como uma forma de amor ou no amor como forma de ódio, tal como sugerido no prólogo de El universo imaginario (1997a). E a sensação de sentir-se excluído ou rejeitado poderia motivar reação equivalente, levando a uma tentativa de ruptura que seria eternizada pela escritura. Nos diz o narrador:9
moral religión sociedad patriotismo familia
son ruidos conminatorios cuyo sonoro retintín nos dejará indiferentes (GOYTISOLO, 1977b, p. 89).
Os diferentes tipos de conflitos – identitários, familiares, patrióticos, existenciais, literários, políticos, sociais – vivenciados pelo autor se refletem em atitudes da personagem protagonista da Trilogia e vai construindo, desde Señas de Identidad (1977), um perfil que corresponderia às expectativas do que ambos, autor e personagem, definiriam como a figura de uma paternidade desejada.
Essa estética se configura por meio de um antimodelo de paternidade ou o que reivindica como tal. Assim sendo, os temas que abordaremos aqui, já presentes nos capítulos precedentes, sempre são considerados enquanto instâncias
representativas de alguma forma de poder, haja vista que o tema da paternidade, tal como o definimos para fins desta pesquisa, não se desassocia dos demais aspectos enfocados no corpus de nosso estudo. Em que pese uma já prevista reiteração e em face dessa peculiaridade, parece-nos mister admitir que essa paternidade se concretizaria no campo literário na confluência dos limites da memória e da autoficção.
Partindo dessa premissa, buscamos nas três obras os indícios de uma paternidade reivindicada pelo narrador. Não nos parece difícil aceitar que o exílio autoimposto seria o fator que potencializa o sentimento de orfandade e desencadeia as ações que constituem a trama da Trilogia. Em outras palavras - não se separam os problemas da Espanha dos problemas do protagonista, suas histórias estão indissoluvelmente entrelaçadas e negar uma seria também negar a outra e o exílio deflagra o conflito: “[...] la injusticia y humillaciones de estos años cifrados […] y era una certeza para ti – conseguirían nunca borrar” (GOYTISOLO, 1977a, p. 375); “[...] nostalgia fugaz que te arrebata al bello siglo de Cartón Dorado y a tu país de mierda : obligándote a recitar, para consolarte, la Profecía del Tajo […]”(GOYTISOLO, 1999, p. 41); em Juan sin Tierra: “[…] y un altoparlante difunde mezzo voce los identificables acordes del mass-mediatizado ‟Concierto de Aranjuez‟10 : ofrenda
musical que te enorgullece y exalta […]” (GOYTISOLO, 1977b, p. 112).
Parece-nos possível identificar nessas citações uma combinação de mágoa, patriotismo e orgulho, que nos remeteria a uma característica da paternidade almejada – um país ao qual possa pertencer, uma pátria que possa chamar de mãe e que somente poderia ser encontrada na Espanha das três culturas: “Aun en mis épocas de mayor distanciamento físico y moral de mi país, la obra de Castro me ha reconciliado con él, trayendo a mi corazón y memoria aquel „bien está que fuera tu
10 “O concerto de Aranjuez é uma composição musical para violão clássico e orquestra do compositor espanhol Joaquín Rodrigo. Escrita em 1939, é seguramente o trabalho mais conhecido de Joaquín Rodrigo e o seu êxito deu reconhyeci8mento internacional ao conmpositor, como um dos principais a nível mundial no pós-guerra. Considera-se esta obra musical espanhola como a mais interpretada em todo o mundo e, em particular, o seu adágio é singularmente popular, tendo sido cantado por múltiplas figuras da Ópera e da canão popular”. (Disponivel em: www.sabercultural.com/tempalte/...Paco-de-Lucia_Concierto-de-Aranjuez-Adagio.ht. Acesso em 08/09/2016).
tierra‟ del belísimo y hondo poema de Cernuda” (GOYTISOLO, 1985). Uma nova Espanha preencheria a carência de uma paternidade, atenuaria os traumas da orfandade e do exílio e lhe supriria a necessidade de pertencimento. Essa busca de pertencimento é comentada por Gonzalo Sobejano:
[...] residente en Francia a partir de 1956 con frecuentes viajes a España a la que ve cada vez más con extrañeza, insatisfecho de ella, pero también del otro mundo en que vive, Juan Goytisolo deja sentir desde su primera novela hasta la última la obsesión que adquiere definitivo relieve en Señas
de identidad: la obsesión de no haber poseído nunca, o de haber perdido, el
vínculo con el mundo al que su ser propiamente pertenezca […] (SOBEJANO, 1981, p. 25).
Ainda com relação ao exílio, que obviamente o afastou de seu idioma materno, nos diz Goytisolo: “La lengua [...] para el exiliado es el único bien que le queda. Y aferrándose a ella como la única patria auténtica, puede empreender la destrucción mítica de la otra” (GOYTISOLO, 1975, p. 141). Observamos que, ao avaliar positivamente seu idioma, o autor deixa entrever mais um aspecto do que significou para si o exílio, considerando que o idioma materno, parte constitutiva da identidade nacional, entraria no imaginário coletivo da paternidade, onde pai e filho têm, para se comunicarem, uma língua comum. A subversão desse idioma e até mesmo sua negação não seria então uma forma de manifestar seu descontentamento?: “Agreste y huraño hasta el fin, muerto cortado de la comunidad hispánica por una escritura hermética e incomprensible, ¿qué compatriota extraviado […] te recogería su último y desolado mensaje?” (GOYTISOLO, 1977a, p. 98); “[...] idioma mirífico del Poeta, vehículo necesario de la traición, hermosa lengua tuya […]” (GOYTISOLO, 1999, p. 64); em Juan sin Tierra: “[…] la liberación del instrumento y vehículo de tu (su) propia ruptura […] con la conciencia neta de que el mal está hecho” (GOYTISOLO, 1977b, p. 303). Autor e narrador coincidem na crença da importância de um idioma pátrio como marca identitária e vínculo de filiação paterna.
Um segundo aspecto que nos remete ao tema da paternidade idealizada refere-se às relações familiares. Goytisolo e Álvaro comentam aspectos de sua vida em família em que prevalece o tom de crítica: “[...] tu casta (sí, la tuya) pese a tus esfuerzos para zafarte de ella, a menos que [...] afrontases con resolución el destino y acortaras voluntariamente el plazo” (GOYTISOLO, 1977a, p. 67). Se para o autor a escritura foi, de certa forma, um meio de tentar se redimir da culpa que carrega pela
forma amoral com que seus antepassados paternos construíram seu patrimônio, para Álvaro não foi diferente, e curiosamente ambos têm em grande apreço os parentes considerados ovelhas negras da família – tio Leopoldo para Goytisolo e tio Nestor para Álvaro, bem como os empregados, sempre de representação masculina e de um meio social algo nebuloso, que prestavam serviços à sua família. Evidenciariam, assim, o desejo de uma família distinta daquela que tiveram e vão buscar esse modelo de família entre os marginalizados:
Gracias a los malditos y parias de siempre (gitanos, negros, árabes instintivos y bruscos) habías logrado fraguar en ti, por unos minutos, la antigua unidad perdida hacia la que tu impulso rebelde tendía, por encima de preceptos y leyes, con irreductible nostalgia. Únicamente de este modo, completado así, purgando así, podías restaurar la inocencia de tu pasado común y encarar tu solitario destino de frente. […] (GOYTISOLO, 1977a, p. 56).
Essa busca se reflete também na crítica que dirige à religião como definição da conduta familiar, na educação que nada mais fazia que repetir o que ordenava a doutrina católica em seu afã de controle, repressão sexual e manutenção da moral burguesa nacional católica, mais afeita em pregar a culpa e a punição que o amor e o perdão. Don Julián (1999) e Juan sin Tierra (1977b) confirmam a decisão tomada pelo protagonista. Na primeira, o narrador pretende retornar a Espanha não mais como um exilado, mas assumindo a identidade do conde Don Julián, liderando as hostes árabes que, sob seu comando, levarão a termo a destruição do país. Nos diz o protagonista: “paciencia, la hora llegará : el árabe cruel blandea jubilosamente su lanza : guerreros de pelo crespo […] cubrirán algún día toda la espaciosa y triste España por un denso concierto de ayes […]” (GOYTISOLO, 1999, p. 16-17). A ameaça não se cumprirá. E na segunda obra: “completado el ciclo de evolución biológica que convierte a la larva en insecto […] en que te has transformado [...] proseguirá independientemente su labor de zapa por los siglos de los siglos” (GOYTISOLO, 1977b, p. 303-304).
No ámbito da formação acadêmica, é possivel perceber a evidência de uma orfandade cultural e literária que Goytisolo resolve, parcialmente, no exílio pela leitura e convívio com autores como Jean Genet e Sartre, principalmente, e busca nas obras de autores já citados como Francisco Delicado, Fernando de Rojas,
Ramón del Valle Inclán, José María Blanco White, e Luis Cernuda, fundar uma tradição. Sobre isso o autor afirma afirma:
La frescura inventiva que embebe los versos de Juan Ruiz, los monólogos de Martínez de Toledo, los sabrosos diálogos de Rojas y Delicado mantienen a lo largo de los siglos su fuerza impregnadora y estimulante: gracias a estas obras, el retorno al pasado se transforma en una excitante exploración del presente. Los apasionados del arte y literatura medievales descubrimos en ellos el faro o alquibla de nuestra propia aventura (GOYTISOLO, 1997a, p. 102).
Essa citação remete a uma busca de diálogo intercultural com o passado e um projeto de reescrever a tradição espanhola, construindo, paralelamente, seu próprio cânone. E, para tanto, estabelece como parâmetros exatamente o que vê de valioso nesses autores - a originalidade, o cuidado com a linguagem, e as condutas ética e estética que os aproximam. O cânone de Goytisolo privilegia o fazer literário como um espaço de luta e de possibilidades: “El escritor consciente de sus privilegiadas relaciones con el árbol, (da literatura) entablará un diálogo con los componentes heteróclitos que lo integran […]: su obra será así crítica y creación, literatura y discurso sobre literatura” (GOYTISOLO, 1995, p.162). Portanto acreditamos ser possível interpretar a legitimação do cânone de Goytisolo a partir de uma dupla perspectiva – por uma parte a qualidade da criação artística do autor, a observância das correntes literárias do momento de sua escritura adulta e, por outra parte, a uma busca de paternidade literária que o autor encontra em distintos autores e épocas, na literatura de seu país.
Vale lembrar que todos esses elementos ganham vida e significação nos domínios da Literatura, no entorno entre a memória e a autoficção, se dão a conhecer no espaço da página, se consolidam no contrato estabelecido entre autor e leitor que pactuam o entendimento da paternidade pela perspectiva do narrador. Assim, reafirmamos a comprovação da hipótese que propusemos no início deste estudo –o processo de escritura de Juan Goytisolo tem como eixo gerador o conflito com a figura paterna, do qual o autor se vale para construir a sua poética, mediada pelo jogo que estabelece entre a memória e a autoficção. E o fazemos pela boca do narrador de Juan sin Tierra: “grito de dolor fuente secreta del proceso liberador de tu pluma razón oculta de desvio moral y artístico, social, religioso, sexual” (GOYTISOLO, 1977b, p. 298). E o autor, em termos mais abrangentes, o ratifica: “La
vocación literaria, mía y de mis hermanos, [...] no puede explicarse tal vez sin la existencia de una necesidad angustiosa de resarcirse de un trauma y decepción tempranos” (GOYTISOLO, 1985a, p. 278).
Finalizamos este item buscando nos versos finais do poema Exilio (1971) de Pablo Neruda uma interpretação do que significa para um exilado o exílio: “Destierros! La distancia se hace espesa, respiramos el aire por la herida: vivir es un precepto obligatorio. Así es de injusta el alma sin raíces: Rechaza la belleza que le ofrecen: Busca su desdichado territorio: Y sólo allí el martirio o el sosiego”. Concluimos que, não importam as causas que o ensejam, a experiência de exílio sempre deixará questões em aberto.
A MODO DE CONCLUSÃO
Como anunciamos no início deste estudo, observando certa conformidade com os critérios classificatórios do gênero autoficcional, nos encaminhamos a uma leitura dos romances da Trilogia Álvaro Mendiola como romance autobiográfico, e a esse recorte nos ativemos. Destacamos a presença, nas obras, de várias estratégias discursivas que, extrapolando o âmbito do ficcional, definiriam a estética, o ethos autoral de Goytisolo. O empenho em buscar uma linguagem própria revelada por uma série de procedimentos discursivos, tais como inovação e experimentação, uso da estética cervantina na inserção de distintos gêneros, autocolocação dentro da obra, desrespeito às normas de concordância verbal e nominal, dissolução do sujeito e adoção de várias vozes narrativas são alguns exemplos que recuperamos no decorrer deste estudo. Tal estratégia contribui para a desorientação do leitor, exigindo dele uma atitude mais ativa em relação ao texto. Essa estética materializa- se em seu projeto literário de desconstrução dos valores tradicionais e modernos da sociedade espanhola e definem o seu cânone.
Selecionamos como epígrafe para nosso estudo uma citação de Goytisolo e a justificamos com uma outra citação que, entendemos, esclarece e justifica e nossa escolha:
[...] lo que Goytisolo busca es integrar todos los aspectos de su vida, sus sueños, su actitud erótica, sus íntimos y profundos pensamientos, etcétera, en su escritura, intentando que ésta y aquélla formen un todo. A través de la creación literaria no sólo da razón de su existencia, sino que establece un debate consigo mismo, crea literatura a la vez que se autocrea, madura como escritor a la vez que como persona. La literatura es por tanto para Goytisolo una forma de conocimiento de sí mismo y de lo que le rodea” (MORENO RODRÍGUEZ, 1994, p.17-18).
Adotamos como critério de classificação das obras de Juan Goytisolo as três etapas sugeridas por Gonzalo Navajas em 1979 – Primera crítica de España, Testimonio de España e Etapa autobiográfica. Justificamos nossa escolha pelo caráter de abrangência e objetividade que apresenta essa proposta e pelo nosso interesse em compilar uma plataforma de dados que permitisse acompanhar o amadurecimento político e literário do autor. Abordamos, resumidamente, os aspectos mais importantes das obras de cada etapa, objetivando oferecer um panorama da trajetória literária do escritor.
Trabalhamos o tema da orfandade, considerando a sua dimensão literária na criação de Goytisolo. Por uma parte o autor se vale de um fato real e pessoal – a morte de sua mãe, para denunciar a realidade de milhares de crianças orfãs em consequência da ditadura franquista. Essa característica pode ser observada nas obras da Primera Crítica de España. Por outra parte essa orfandade extrapola, na terceira etapa, o caráter biológico para revelar uma nova forma de orfandade – exílio, ruptura dos laços afetivos familiares, tendência ao nomadismo, ausência de pertencimento e dificuldades de relacionamento com a figura paterna. Consultamos sobre esse tema alguns estudos de Freud e, pela relação de contiguidade, pesquisamos a questão da paternidade.
A paternidade foi comentada sob o enfoque da teoria freudiana. Sem outra pretensão que destacar a abordagem literária sobre a figura paterna realizada por Goytisolo, concluimos que o autor amplia o potencial semântico dessa figura de modo a englobar distintas instâncias que operam fazendo uso de uma espécie de pátrio poder, ou seja, de forma autocrática e livre para punir segundo suas próprias regras. Recorremos também à narrativa dos mitos para exemplificar a figura do pai. Devorador de seus filhos, interditor do objeto de desejo do filho, castrador e poderoso mesmo após a morte, essa figura temida e odiada reverbera nas páginas da Trilogia, sinalizando a presença de metáforas que acreditamos ser uma das singularidades sobejamente citadas ao longo de nossa pesquisa.
Identificamos, entre os procedimentos estéticos de Goytisolo, abundante uso de metáforas e comentamos, entre outras, a metáfora da doença, consubstanciada na teoria de Susan Sontag, que aponta o uso de mecanismos de exclusão e punição adotados ao tratar como doença comportamentos e atitudes que poderiam suscitar riscos aos sistemas de poder. Recordamos, e julgamos muito pertinente, uma afirmação de Goytisolo sobre a literatura, que em situações de confronto com o poder é considerada como delinquência.
A paródia e a intertextualidade, especialmente em Don Julián (1999) e Juan sin Tierra (1977b), analisadas com o suporte teórico das pesquisadoras Linda Hutcheon e Júlia Kristeva, nos permitiram identificar, na escrita de Goytisolo o perfil de seu
leitor – uma pessoa com suficiente conhecimento de literatura para que a paródia se concretize. Decorre daí o fato de que seu leitor deve ser também um releitor, pois voltar à leitura de sua obra pode significar haver tomado novas leituras para melhor interagir com o já lido.
Cotejamos as teorias de alguns autores cujos estudos enfocam a criação intelectual de Goytisolo e dialogam com o leitor enriquecendo sua leitura. Destacamos as contribuições de Gonzalo Sobejano e Matilde Albert Robatto, que abarcam os aspectos de tema, forma e conteúdo na “novelística” do escritor. O estudo de Matilde Albert Robatto inclue também o aporte teórico de vários outros críticos, o que nos proporcionou mais conhecimento sobre a estética goytisoleana. Observamos consenso entre ambos teóricos no que se refere à busca incessante de renovação da linguagem como característica permanente da criação de Goytisolo. Outros teóricos também integraram nossas fontes bibliográficas – José María Castellet, Manuel Durán, Severo Sarduy, Carlos Fuentes.
Destacamos a contribuição de Inger Enkvist e Luis Antonio de Villena, estudiosos da obra de Goytisolo. Em sua análise, a hispanista sueca Inger Enkvist aponta na criação do autor um forte componente ideológico e algo como uma relação simbiótica entre suas obras e as de Edward Said, que tratam do tema do orientalismo. Com um raciocínio semelhante, Luis Antonio de Villena observa uma omissão de Goytisolo quanto aos aspectos desfavoráveis da cultura islâmica em relação à cultura europeia e certa tendência à autoexposição. Registra também que, mesmo reconhecendo as qualidades do escritor, não se pode ignorar o papel decisivo de Monique Lange na trajetória de Goytisolo.
A produção ensaística de Goytisolo foi também objeto de nossa atenção. Consideramos sua formação literária, seu conhecimento da historiografia e da literatura espanholas, sua percepção da dinâmica da nova ordem mundial. Dessa forma nos foi possível constatar seu interesse em construir uma interpretação crítica do cânone nacional católico, estreitamente relacionado à sua leitura da cultura e da sociedade espanhola. De um começo de carreira em que prevaleceu a atenção ao uso das técnicas behavioristas e a influência de Lukács resultou o seu entendimento da Literatura como enfrentamento. Dessa forma, seu trabalho
extrapolaria o caráter estético e tentaria intervir no contexto político com o intuito de promover mudanças sociais. As obras da primeira etapa da criação de Goytisolo – Primera crítica de España (1949 a 1958) – refletem essa preocupação do autor, para quem a responsabilidade social do cidadão comprometido e o labor artístico do intelectual caminham juntos.
Essa mesma atitude pode ser observada em seu primeiro livro de ensaios, Problemas de la novela (1959). De igual maneira se faz presente o questionamento da identidade espanhola, tema recorrente de sua obra. Nos demais livros de ensaios se mantêm os objetivos de destacar a importância de obras da literatura espanhola que foram relegadas ao esquecimento, a negação da influência de outros povos na formação da identidade espanhola, os mitos nacionalistas, o desquilíbrio de forças em um mundo cada vez mais mercantilizado. Furgón de cola (1967) já revela o escritor, com mais maturidade, desvinculado dos ideais marxistas do início de sua juventude.
Reiteramos a epígrafe que abre nossa pesquisa: “Cuando la vida entra en la literatura, se convierte en literatura, y en la misma hay que juzgarlo únicamente como literatura”. Essa citação contribui para entender o perfil de Goytisolo como escritor e como leitor, considerando que em seus ensaios se reflete a influência de suas leituras. A partir de Furgón de cola (1975) se faz nítida a presença das ideias de Américo Castro e o consequente distanciamento daquelas de Georg Lukács e