O matrimônio significava, obrigatoriamente, filhos. Uma mulher que não os tivesse, seria repudiada pelas demais e pelo próprio esposo, pois ela já não serviria
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LCVM, 250. 354
BÍBLIA. Gênesis, As origens do mundo e da humanidade. 1, 1-31.Português. 2002. 355
Id., De commo Dios fizo el cielo e la tierra, e de Adan e de su Linnaje fasta Noe. 1, 31. Bíblia Medieval Romanceada Tradución del Instituto de Filologia de la Facultad de Filosofia y Letras. Buenos Aires: Jacobo Peuser, 1927.
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Sobre a questão do pecado do ato sexual e a procriação no casamento, consultar: HEINEMANN, 1999, p.106-108.
para mais nada.357 Sabemos, por muito tempo, que se debitou exclusivamente às mulheres o problema da esterilidade. O matrimônio foi, neste contexto, um meio pelo qual a sociedade medieval, tanto laica quanto religiosa, visava regulamentar a moral sexual, a luta contra a fornicação e a reprodução da espécie.
O desenvolvimento do culto à Virgem Maria, desde o século XI e XII, construiu para as mulheres dois modelos básicos: a virgindade e a maternidade, ambos inspirados na Virgem-Mãe.
Na poesia mariana de Afonso X, o sentimento materno recebe uma importante acolhida. Nele ocorre a presença feminina em, pelo menos, 29 Cantigas, as quais estão relacionadas diretamente com o exercício da maternidade.358 Isso sem falar em algumas poucas que tratam, também, do sentimento paterno. A mulher-mãe foi uma imagem muito cara ao universo mental da Idade Média.
Também em Gonzalo Berceo se pode observar o desenvolvimento do afeto parental, tanto no relato da Vida de Santa Oria, quanto nos Milagros de Nuestra
Señora.
A imagem da Virgem com seu filho ao colo é talvez o modelo mais freqüente da Virgem gótica. O homem cristão medieval, tão marcado pelo maravilhoso, recria em cada mãe terrena a Mãe celestial e seu Divino filho.359
As pesquisas nos têm mostrado que são numerosos os textos medievais que falam da infância e do amor parental. Essas fontes são de distintas naturezas. Encontramos a criança nos romances, poemas, textos jurídicos, enciclopédias, vidas de santos, manuais pedagógicos, cartas, etc. Esse personagem é também representado fartamente na iconografia e nos trabalhos produzidos por achados arqueológicos.
Durante a pesquisa, percebemos que a documentação tende a aumentar, quando o século XII se aproxima. Essa infância do medievo nos é apresentada tanto
357
Para saber mais sobre a função procriadora da mulher no casamento consultar: ALEXANDRE- BIDON, Daniele; LETT, Didier. L’enfant à l’ombre des cathédrales. Paris: Editions du CNRS, 1985, p. 13-20.
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Nas Cantigas de Santa Maria a maior parte das mães são cristãs, mas não faltam mães judias e mouras que se encontrando em situações difíceis pedem auxilio à Virgem.
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Em relação às representações da Virgem com o menino, consultar PÉREZ TUDELA Y VELASCO, 1986; DOMINGUEZ RODRIGUEZ, Ana. Imágenes de la Mujer en las Cantigas de Santa Maria. In:
Terceras Jornadas de Investigación Interdisciplinaria. La Imagem de la mujer en el arte
no meio da nobreza, quanto popular. Ela é representada no seio da família, nas escolas, nos campos.360
Encontramos também a representação da criança e do adolescente que vive com problemas semelhantes aos da sociedade contemporânea: é a infância vítima de toda sorte de abusos.
Desde Philippe Ariès, que em 1960 publicou L’Enfant e la vie familiale sous
l’Ancien Regime, que os estudos sobre a infância e a família se tornaram objetos de
investigação cientifica. O livro de Ariès teve grande repercussão, tanto nos meios acadêmicos quanto fora dele, e ainda hoje é um importante marco, justamente por conta de ter trazido à luz o problema da infância e da família nos tempos passados.
Segundo esse autor, a descoberta da infância data de tempos muito recentes, para ele a Idade Média não conheceu um sentimento de afeto em relação às crianças e aos adolescentes, que teriam sido vistos como adultos pequenos.
Essa interpretação de Ariès produziu dois tipos de reação entre seus leitores e colegas. Alguns compactuaram de suas conclusões, outros não. Entretanto, desde uma reedição do mesmo livro que data de 1973, ele modificou suas afirmações. Tempos depois, em uma outra obra, L’enfant à travers les siècles de 1980, ele diz se arrepender de não ter melhor se informado sobre a Idade Média.
Na mesma linha de interpretação desse autor, continuaram sendo produzidas algumas obras, as quais inclusive, alcançaram certa popularidade. Entre nós foi bastante discutido o livro de Elisabeth Badinter, “Um amor conquistado: o mito do amor materno” lançado no Brasil em 1985, e publicado na França, em 1980, sob título L’amour em plus. Histoire de l’amour maternel, XVIII-XX siècles. Nessa obra, Badinter afirma que a sociedade, antes da era moderna, era “uma sociedade sem amor”361, sugerindo ser esse sentimento uma invenção da era moderna.
360
É oportuno salientar que, histórias da infância e da criança não são sinônimas e, não se trata de um mero preciosismo. Infância diz respeito a um período da vida humana, uma fase de construção da palavra articulada, de apropriação de um sistema de comunicação pessoal, que pressupõe o uso de signos e sinais para se fazer ouvir. A palavra criança indica uma realidade psicológica fundada na experiência do indivíduo. Sendo a criança um devir a ser, ela não se constitui em sujeito capaz de narrar sua própria história. É apenas possível de nos aproximarmos sobre aquilo que seria uma criança, através da história da infância. Sobre a história da infância, ver, entre outros: KUHLMANN JR. Moysés; FERNANDES, Rogério. Sobre a história da infância. Infância e
sua educação. Materiais, práticas e representações. (Portugal e Brasil).São Paulo: Cortez, 2002,
p. 15-33. 361
No meu entendimento, não se trata de um erro de datação histórica que uma filósofa faz, ao analisar o sentimento do amor materno. Talvez se trate de um outro tipo de problema. Muitos textos escritos entre os anos setenta e oitenta do século XX, se preocuparam em datar determinados fenômenos tanto sociais quanto culturais, como sendo novidades que a modernidade teria produzido, fazendo-nos pensar que quase tudo do que somos foi uma elaboração de épocas mais recentes, que teriam produzido uma grande ruptura com os tempos mais antigos.
Como se no passado mais distante nada houvesse a não ser uma enorme lacuna ainda por preencher, Badinter está certa sobre uma série de outras questões, mas no afã de precisar a fundação dos alicerces da modernidade e, como uma das melhores herdeiras do pensamento moderno, aqui se confundiu, tanto quanto Ariès.
É bem possível que a era moderna tenha levado ao extremo, a divisão das tarefas e a segregação sexual dos espaços362. Obedecendo ao seu intenso racionalismo que definia muito precisamente o lugar de cada um na sociedade, Nessa nova distribuição social das funções entre os sexos, as mulheres foram destinadas por inteiro à casa e aos cuidados da família. A maternidade tornou-se mais uma vez, sua mais importante tarefa.
Porém, essa intensa segregação dos espaços, que sem dúvida a sociedade moderna produziu, não nos autoriza a afirmar que as sociedades anteriores foram sociedades que não conheceram os sentimentos parentais, tanto naquilo que eles têm de amoroso quanto nas suas manifestações mais perversas.
É provável que a invenção dos sentimentos compartilhados no âmbito da família pertençam a uma outra época impossível de se datar.
É importante que se diga que, nesses livros, se por um lado seus autores erraram ao se preocupar em datar na modernidade, a invenção de um sentimento que é talvez tão antigo quanto o homem, por outro, têm o mérito de terem aberto esse campo para a investigação científica. Então a família, o sentimento parental, a infância, as relações de parentesco e os ritos matrimoniais se constituíram em objetos de importantes pesquisas para várias disciplinas do conhecimento.
O presente trabalho não pretende datar a descoberta do afeto parental. As pesquisas nos têm mostrado que ele é bem mais antigo do que até então
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Para pensar a modernidade e o recrudescimento das formas de subordinação do feminino, ver: PERROT, 1992, p. 186-211.
poderíamos pensar, estando presente, tanto em sociedades tradicionais ou simples, quanto em sociedades científicas ou complexas.
A sociedade humana tem demonstrado se preocupar com os problemas que envolvem a reprodução da espécie, com diferentes formas de explicação sobre os aspectos biológicos desse fenômeno.
Sabemos que é possível observar entre culturas tradicionais formas de explicação dos fenômenos da esterilidade e da concepção, as quais nos sugerem ser os cuidados com a reprodução e por via de conseqüência com a mãe, o pai e a infância um fato que mobiliza a atenção dos homens bem antes da era moderna.363
5.5 A GRANDE MÃE DO OCIDENTE CRISTÃO: UMA SOCIEDADE E SEUS