2. SİNEMA VE TELEVİZYON UYARLAMALARI
2.2. UYARLAMA (ADAPTASYON ÇALIŞMALARI)
2.2.2. Uyarlama – Politika İlişkisi
A primeira distinção importante para este trabalho, tanto nas considerações sobre alimentação como direito humano quanto como dever moral, é que não se trata aqui de fazer uma defesa da felicidade. Kant não está preocupado com isso, haja vista o seu esforço, também no que diz respeito ao prático, para buscar princípios a priori. Se somente a experiência fosse suficiente para nos informar o que nos faz feliz e traz alegrias, então seria absurdo buscar na razão princípios de uma doutrina dos costumes.
O problema é que Kant considera a alimentação um “impulso natural”, portanto, capaz de nos informar “a cada um de nós, e cada um apenas no seu modo particular, no que encontrará essas alegrias”.410 Ao mesmo tempo, ele estabelece também uma doutrina da virtude, na qual temos deveres para conosco, um deles, o de cuidar do nosso corpo, o que inclui, necessariamente, cuidar da nossa alimentação. Satisfazer a necessidade por alimentos, portanto,
407 MC, 2013, § B, 230, p. 36. 408 MC, 2013, 237, p. 44. 409 HÖFFE, 2005, op. cit., p. 235 410 MC, 2003, p. 58.
é inerente à condição (natural) da vida411 e, ao mesmo tempo, indispensável para a condição também moral do homem, na medida em que, para Kant, trata-se de uma condição (física) essencial para o desenvolvimento da moralidade.412
É diante dessa problemática que devemos considerar a Metafísica dos Costumes, tal qual utilizo, neste capítulo, como garantia para a realização de um direito à alimentação saudável, tendo sempre em vista as implicações práticas no exercício da profissão de Nutricionista, afinal, uma metafísica dos costumes não pode prescindir de princípios de aplicação e precisa “tomar frequentemente como objeto a natureza particular do homem, cognoscível apenas pela experiência, para nela mostrar as conclusões dos princípios morais universais”,413 sem tirar sua pureza, claro.
Isto posto, passo à apresentação dos conceitos fundamentais que serão utilizados a partir desta seção.
Kant contrasta as leis da natureza com as leis da liberdade, as primeiras referem-se a como são as coisas no mundo natural, as segundas, a como devem ser no que diz respeito à ação humana. Assim, leis morais são leis da liberdade; quando dirigidas a ações externas, são chamadas leis jurídicas; dirigidas a ações internas, são leis éticas. Ações externas exigem apenas a conformidade à lei para serem realizadas, caracterizando sua legalidade; ações internas exigem a ideia de dever como motivo para a ação, o que caracteriza sua moralidade (eticidade). Disso decorre que Kant coloca o campo do direito – das leis jurídicas – como parte do campo da moral, ao lado da ética, o que é coerente com a sua divisão da metafísica da moral como um todo, constituída de duas partes: a doutrina do direito e a doutrina da virtude.414
A relação entre ética e direito pode ser melhor compreendida a partir da distinção entre lei e legislação, onde a primeira é um elemento da segunda. A legislação apenas pode prescrever ações internas ou externas, a priori ou não, enquanto que a lei representa objetivamente como necessária a ação que precisa ser realizada, ou seja, a ação que é um dever; o segundo elemento da legislação é o motivo, que relaciona subjetivamente um fundamento que determina a escolha
411 A palavra alimento vem do latim alimentu, que quer dizer o que serve para conservar a vida; o verbo nutrire quer dizer alimentar, assim como alimentare, que tem ligação com alere, cujo significado é fazer crescer; do grego temos o verbo trophein, que quer dizer alimentar, nutrir, sendo trophé o equivalente a alimento. MANIATOGLOU. Maria da Piedade Faria. Dicionário grego-português, português-grego. Porto: Porto Editora, 2004.
412Por isso, ao tratar do vício da gula, ele o condena dizendo que este “nem sequer estimula a imaginação para
um jogo ativo de representações, com o que se aproxima o ser humano ainda mais estreitamente do prazer do gado” (MC, 2003, p. 269).
413 MC, 2013, 217, p. 23, grifos do autor.
414 Na introdução à doutrina da virtude, Kant repete a mesma distinção da Metafísica dos Costumes, no “sistema da doutrina universal dos deveres”, dividido em doutrina do direito (ius) – apropriado para as leis externas – e doutrina da virtude (ethica), para a qual leis externas não são apropriadas (MC, 2013, 379, p. 189).
da ação com aquela representação da lei. Assim, toda legislação é constituída por um elemento objetivo, a lei, que obriga universalmente, e um elemento subjetivo, o motivo.415 O estímulo do sujeito para a ação é o que une a lei com o motivo. Esse elemento subjetivo distingue a legislação ética, que faz da lei – o elemento objetivo que contém o dever de agir – o motivo suficiente para a escolha, da legislação jurídica, que não inclui o motivo do dever na lei, e admite outro motivo distinto da ideia de dever, portanto, um motivo externo.416 Disso se depreende uma importante distinção (formal) entre ética e direito que não diz respeito à lei, mas ao motivo: na legislação ética é fundamental que o motivo para a ação seja o respeito à lei que representa a ação como dever; não há qualquer outro interesse na ação que não seja a própria ideia de dever, isto é, o que determina a ação não é a mera conformidade com a lei, mas com sua máxima, um princípio subjetivo que o próprio sujeito converte em regra. Na legislação jurídica, ao contrário, o móbil não precisa ser a ideia do dever, mas deve ser buscado entre as aversões, porque, diz Kant, esta “deve ser uma legislação que obriga, não uma atração que convida”,417 portanto, a ação é realizada conforme ao dever que está prescrito na lei. O impulso adequado à legislação ética é o respeito à lei, e à legislação jurídica é o medo de desrespeitar a lei.
Por fim, há também a distinção entre deveres internos e externos. Os deveres de acordo com a legislação jurídica – os chamados deveres de direito – só podem ser deveres externos, tanto porque a legislação jurídica não exige que a ideia de dever seja o fundamento que determina a escolha do agente, como também porque só pode relacionar motivos externos à lei, de modo que, se a ideia de dever não pode servir como motivo, a legislação jurídica é também chamada legislação externa.418 Quanto à legislação ética, esta pode ser aplicada a qualquer dever em geral, visto que ela não exclui as ações externas, mesmo transformando ações internas em deveres, porém, como necessariamente a legislação ética inclui na sua lei a ideia de dever, que é um motivo interno, ela só pode ser uma legislação interna, isto é, não pode ser externa.
O que Kant quer dizer com isso é que a legislação ética pode conter deveres que se
415 Motivo é o que se chama espírito da lei (l’anima legis), LE, p. 54. O espírito da lei moral se apoia na intenção (LE, p. 58).
416 MC, 2003, p. 71. 417 MC, 2013, 219, p. 25.
418 Segundo Kersting (2009, op. cit., p. 409), o substantivo kantiano Recht, ‘super abrangente’ e eterno ‘problema
para os tradutores’, “conota uma situação completa de legalidade externa (em oposição à moralidade interna)”; no entanto, o autor prefere traduzir o termo por simplesmente “direito” (e não justiça). Na mesma linha deste trabalho,
no contexto kantiano do direito, ao falar na obrigação do Estado em relação ao DHAA, estou me referindo à legalidade externa, enquanto na sua doutrina da virtude, trato de moralidade interna; seguindo Kersting, o termo
‘rights’, no plural (que não é possível para Recht), é o termo adotado nos documentos da ONU, mas também aqui
a ONU reconhece a necessidade de obrigações por parte do Estado para assegurar ao sujeito (toda pessoa humana) aqueles direitos de que é titular.
apoiam em uma legislação externa, desde que tais deveres se tornem motivos em sua lei, daí ele afirmar que “todos os deveres, simplesmente por serem deveres, pertencem à ética; mas não se segue que a legislação para eles estará sempre contida na ética: para muitos deles se acha fora da ética”.419 Resultado disso, toda obrigação jurídica pode ser cumprida como obrigação ética, e não o contrário.
Por outro lado, embora afirmando que a legislação ética não pode ser externa porque precisa do componente subjetivo, qual seja, a ideia de dever como motivo para a ação, o que significa que ninguém pode me obrigar a cumpri-la, no caso da legislação jurídica, Kant afirma que ela também pode ser uma legislação externa, gerando certa ambiguidade, como se a legislação jurídica pudesse ser interna, algo que ele não nega, como faz explicitamente no caso da legislação ética. É certo, porém, que Kant afirma ainda que só existem deveres ou de direito – “para os quais é possível uma legislação externa” – ou deveres de virtude, para os quais “não é possível uma tal legislação”,420 mas não deixa de admitir alguma combinação entre direito e ética, quando distingue o direito em sentido estrito como sendo aquele completamente externo421 e reconhece a honestidade jurídica como dever de direito interno.
Embora não seja meu objetivo aprofundar a discussão sobre os deveres de direito apresentados por Kant na Divisão geral dos deveres de direito da MC, por meio das fórmulas de Ulpiano,422 será importante aqui tratar da questão da honestidade expressa na primeira das três fórmulas (honeste vive), por sua relação com a virtude, a partir da qual posso estabelecer um ponto de interseção entre o direito e a ética no que se refere à alimentação.
Há duas maneiras de se referir ao dever de honestidade: como honestidade jurídica e como honestidade interna (ética). Ambas derivam do direito da humanidade de cada pessoa. A característica básica da humanidade é a capacidade de se colocar fins, à qual está ligada a vontade racional.423 Esse princípio da humanidade e de toda natureza racional em geral como fim em si mesma é a própria condição do direito, na medida em que limita a liberdade. Para Kant, se algo tem dignidade, isto é, está acima de qualquer preço, então deve ser tratado como fim, pois a dignidade “é a condição só graças à qual qualquer coisa pode ser um fim em si mesma”,424 consequentemente, servir-se das pessoas como simplesmente meios, sem
419 MC, 2003, p. 72. 420 MC, 2013, 239, p. 45. 421 MC, 2003, p. 78.
422 Para uma análise detalhada desses deveres, ver também PINZANI, Alessandro. O papel sistemático das regras pesudo-ulpianas na Doutrina do Direito de Kant. Studia Kantiana, n. 8, 2009, p. 94-120.
423Kant afirma: “a dignidade da humanidade consiste precisamente nesta capacidade de ser legislador universal,
se bem que com a condição de estar ao mesmo tempo submetido a essa mesma legislação” (FMC, BA 87, p. 90).
considerar que elas, como seres racionais, devem ser tratadas como fins, é violar o direito humano. O dever de honestidade, portanto, é um dever perfeito, e este mesmo princípio também será condição dos deveres de virtude.425
A honestidade jurídica (honestas iuridica) é o dever interno de viver honestamente (honeste vive), uma obrigação que surge do direito da humanidade na nossa pessoa e consiste em afirmar meu valor (dignidade) como ser humano na minha relação com os outros.426 Afirmar a dignidade nada mais é do que reconhecer-se como fim em si mesmo, por isso, honeste vive se expressa também nas palavras: “não faças de ti mesmo apenas um meio para os outros, mas sejas simultaneamente um fim para eles”.427 Uma vez que se estabelece numa relação perante os outros, honeste vive poderia ser um dever externo e como tal pertencente à legislação jurídica; por outro lado, não fazer de mim mesma um meio implica me considerar como pessoa que tem um valor, não como coisa, e isto consiste numa atitude interna, donde é possível considerar aquele dever de honestidade como sendo também um dever ético; além disso, para Kant, viver honestamente nada mais é do que ser um ser humano irrepreensível (iusti), o que significa não causar dano a ninguém “antes de realizar qualquer ato que afete direitos”,428 portanto, numa condição pré-jurídica.
Diante disso, compreende-se o caráter híbrido atribuído por Pinzani à honestidade jurídica, que representaria “a transição da dimensão ética do respeito pela própria dignidade humana para a dimensão jurídica da afirmação da própria personalidade jurídica perante os outros”.429 Para o autor, o princípio honeste vive “não preenche completamente nenhuma das condições que são necessárias para um dever puramente ético ou puramente jurídico”.430 De fato, se, por um lado, trata-se de ser justo em relação aos outros, tem-se aqui uma dimensão inter-subjetiva, que caracteriza o elemento jurídico,431 por outro, exige-se uma atitude interna,
425 Por isso, não vejo porque concordar com a afirmação de Höffe (2005, p. 238) de que “Kant distingue com toda
clareza entre direito e virtude e vê que questões de atitude interna não tem relevância jurídica”. As áreas de
interseção entre direito e virtude impedem confirmar tal clareza. 426 MC, 2003, p. 82.
427 MC, 2003, p. 82. 428 MC, 2003, p. 84.
429 PINZANI, 2009, op. cit., p. 101. 430 PINZANI, 2009, op. cit., p. 101.
431 Os elementos que definem o objeto da doutrina do direito são: intersubjetividade, reciprocidade, e formalismo. O caráter formal do direito se expressa na lei universal do direito: “age externamente de modo que o livre uso de
teu arbítrio possa coexistir com a liberdade de todos de acordo com uma lei universal” (MC, 2003, p. 77), não há
preocupação com a matéria ou fim do arbítrio, mas apenas com sua forma na relação com os outros, donde o elemento da reciprocidade, isto é, que delimita o direito às relações entre arbítrios, não entre desejos ou aspirações. Sobre isso, ver BOBBIO, 2000, p. 108 et seq. Se o “direito pertence ao mundo das relações práticas que o homem tem com outros homens” (ib., p.109), nem todas as relações intersubjetivas vão fazer parte do campo do direito, mas é possível pensar aquelas relacionadas à alimentação, como parte de uma sociabilidade legal.
a qual não pode sofrer coerção, e por isso não pode ser jurídica.432
De todo modo, nas Lições de Ética, para as quais Kant utilizou o compêndio de Baumgarten, a proposição honeste vive foi considerada um princípio ordinário de ética, dado que o motivo para a ação não era a coação, mas um móbil interno.433 Reescrevendo a proposição, teríamos: “faça o que te torna objeto de estima e respeito”.434 Ocorre que, além da aprovação alheia, os deveres para consigo implicam ainda o respeito diante de si mesmo. A honestidade é um dever para comigo, na medida em que não respeitar meu valor intrínseco é desonrar a humanidade na minha pessoa. A consequência disso é que quanto mais sou desprezível, menos tenho valor intrínseco. Só quando nossas ações são dignas de louvor, somos verdadeiramente honestos.
Ser honesto consigo mesmo em relação à humanidade de sua pessoa (honestas interna) significa não ceder às tentações e inclinações. Kant associa honestas interna à virtude, que se opõe aos vícios contrários à dignidade inata de um ser humano, como um amor à honra.435 Assim, o dever de não me deixar instrumentalizar pelos outros só é possível se eu também me sentir obrigada a afirmar minha dignidade perante mim mesma.
Da relação entre honestas iuridica e honestas interna resulta que: afirmar a própria liberdade (externa) perante os outros é condição para que eu entre em relação com eles, estabelecendo uma condição jurídica, no entanto, tal afirmação de liberdade requer uma atitude interna que implica que devo também afirmar esta liberdade (interna) perante mim mesma, logo, o dever de afirmar a própria dignidade deve ser entendido como condição, seja para o direito, seja para a ética, mas nunca poderá exigir uma legislação externa, visto que ninguém poderia me obrigar a isso. Do mesmo modo que não devo abdicar da minha condição humana, livre, para me tornar um mero instrumento dos outros, também não devo ser mero instrumento das minhas próprias inclinações.
Detalho, em seguida, de que modo está posta a relação entre direito e moral, a partir das considerações de Kant sobre a passagem do estado de natureza para o direito público.
432 A investigação sobre como seria possível uma legislação jurídica também interna encontra-se em PINZANI, Alessandro. Sul rapporto tra morale, politica e diritto in Kant. In: PINZANI & MONETI, 2004, op. cit., p. 97. 433 Pinzani (2005, op. cit., p. 98) também cita a Metaphyisik Vigilantius, onde se pode resgatar este sentido com que Kant entende o preceito ulpiano honeste vive como um dever interno, de virtude. Heck, no mesmo sentido,
afirma que: “Na preleção do semestre de inverno de 1793/94, quando expõe as obrigações jurídicas para consigo
mesmo como as mais excelsas que assistem aos humanos, Kant não insere o chamado direito interno na esfera jurídica, mas continua a prestigiá-lo como instância ética, assim como fizera nas preleções de direito natural em
meados da década de oitenta”. Cf. HECK, José N. Kant e os princípios de Ulpiano: a erradicação da doutrina do
direito natural. Ethic@ Florianópolis v. 8, n.2 p. 229 - 245 Dez 2009, p. 237.
434“Fa ciò che ti rende oggetto di rispetto e di stima” (LE, p. 56). As outras duas regras de Ulpiano, Kant considera como deveres jurídicos, dado o seu caráter coativo.