İSTİSNA KAPSAMINA GİRMEYEN MAKİNE TEÇHİZAT
6. ULUSAL GÜVENLİK HARCAMALARI İLE İLGİLİ İSTİSNA (13/f)
Utilizei a entrevista narrativa, como instrumento de construção das histórias de vida, como descrita por Jovchelovitch e Bauer (2002). Considero que esse procedimento fornece informações básicas para a compreensão de crenças, atitudes, valores e motivações, em relação aos comportamentos das pessoas em contextos sociais específicos.
A justificativa para a utilização da entrevista narrativa deve-se ao fato de que a narração “reconstrói ações e contextos, da maneira mais adequada: ela mostra o lugar, o tempo, a motivação e as orientações do sistema simbólico do ator”. Através da narrativa, as pessoas relembram o que lhes aconteceu, organizando essa lembrança em uma sequência, não necessariamente cronológica ou linear, mas temporal; buscam explicações para isso e “jogam com a cadeia de acontecimentos que constroem a vida individual e social” (JOVCHLOVITCH; BAUER 2002, p.92).
A entrevista narrativa foi desenvolvida por Fritz Schütze, na década 1970, com o intuito de “suscitar, da parte do entrevistado, uma narrativa de vida mais completa possível” (DELORY-MOMBERGER, 2014, p. 300). Esse procedimento metodológico “produz dados
1
•Realização de entrevistas-narrativas, registradas através de recursos audiovisuais
2 •Registro de fragmentos biográficos na Reunião das Três Horas
3 •Construção dos álbuns autobiográficos
textuais que reproduzem, de forma completa, o entrelaçamento dos acontecimentos e a sedimentação da experiência da história de vida do portador da biografia” (SCHÜTZE, 2010, p. 212).
Nessa perspectiva, é um instrumental de pesquisa flexível, que permite ao entrevistado construir suas respostas, sem estar preso a um nível mais rigoroso de diretividade e mediação por parte do entrevistador. É o que acontece, no caso do uso de questionário ou de uma entrevista estruturada. Tem como principais características: explorar o ponto de vista dos interlocutores inseridos nos contextos de investigação; evitar a utilização do esquema pergunta- resposta; e não pré-estruturar a entrevista. Para tanto, deve-se empregar o esquema autogerador de informação, que é estimulado por uma questão gerativa de narração. Essa incitação, de acordo com Delory-Momberger (2014, p. 300), “oferece um quadro temporal à narrativa e permite-lhe desenvolver-se transdutivamente, a partir deste in-put”. Esta incitação, em forma de pergunta, conforme Uwe Flick (2009, p. 165), poderia ser expressa da seguinte forma:
Quero que você me conte a história de sua vida. A melhor maneira de fazer isso seria você começar por seu nascimento, pela criança pequena que você um dia foi, e, então, passar a contar todas as coisas que aconteceram, uma após a outra, até o dia de hoje. Você leva o tempo que for preciso para isso, podendo também dar detalhes, pois tudo que for importante para você me interessa.
Esse formato de incitação convida o narrador a descrever lugares, pessoas, situações, mostrando, dessa forma, “quais foram as primícias em seu percurso biográfico, em que pontos ela cruza com outros temas biográficos” (DELORY-MOMBERGER, 2014, p. 301). Para Jovchlovitch e Bauer (2002, p.92), os acontecimentos, narrados de acordo com esse procedimento, podem ser traduzidos em termos indexados e não indexados. “Indexado significa que a referência é feita a acontecimentos concretos em um lugar e em um tempo. Porque se refere à experiência pessoal e porque enfocam acontecimentos e ações”.
Estes termos devem ser diferenciados no processo de análise. Entretanto, Jovchlovitch e Bauer (2002, p.97), tomando como referência a proposta de Schütze, sistematizaram esse procedimento em quatro fases, a partir da preparação que envolve a exploração do campo e formulações de questões que sejam do interesse do entrevistador, denominadas de exmanentes. Depois se inicia propriamente a entrevista, com a formulação do tópico inicial, ou seja, a incitação à narrativa. Na segunda fase, que é dedicada à narração central, o entrevistador deve
141
interromper o mínimo possível. Na terceira fase, o entrevistador pode fazer perguntas (exmanentes e imanentes) e, na quarta fase, é feita a finalização.
Essas fases servem mais como um modelo do tipo ideal do que como uma estrutura rígida a ser seguida, pois, na prática empírica, podem não ser contempladas na íntegra, devido ao caráter dinâmico, imprevisível e complexo das pesquisas qualitativas, especialmente no contexto de estudos biográficos, que trazem como marca a possibilidade de construção de dados, conforme o ponto de vista dos interlocutores e suas motivações para a composição de suas histórias de vida.
De forma geral, as entrevistas do tipo qualitativas não diretivas conferem liberdade ao entrevistado, apesar de algumas instruções iniciais, como apresentado na adaptação feita por Jovchelovitch e Bauer. Segundo Poupart (2010, p. 224), a vantagem delas é basearem-se na realidade do entrevistado, a partir de suas próprias categorias e linguagem, oferecendo baixo risco de pré-estruturação do discurso, na medida em que se permite que os entrevistados falem, o mais livremente possível.
Cabe ao entrevistador facilitar a expressão, do ponto de vista do entrevistado. Veem-se essas entrevistas também como uma forma de enriquecer o material de análise e o conteúdo da pesquisa, à medida que favorecem a emergência de dimensões novas não imaginadas, de início, pelo pesquisador. Oferecem a possibilidade de explorar mais em profundidade as diferentes facetas da experiência do entrevistado, embora nenhuma entrevista possa apreender a totalidade de uma experiência, nem mesmo a entrevista que se prolonga por várias seções, como no caso das entrevistas narrativas. As entrevistas que seguem esses procedimentos possibilitam, também, uma melhor exposição da experiência do entrevistado, além de trazer informações sobre suas características, sobre sua trajetória social, de modo a compreender e situar o seu discurso, permitindo-se ao entrevistado estabelecer as ligações que ele julga úteis entre os diversos elementos de sua vida (POUPART, 2010, p. 225 e 226).
Poupart (2010, p. 227) afirma que a entrevista sempre foi considerada como um meio adequado para levar uma pessoa a dizer o que pensa, a descrever o que viveu ou o que viu, ou aquilo de que foi testemunha. Uma boa entrevista deve permitir que o entrevistado se reporte satisfatoriamente, e que aquilo que ele diz seja considerado, segundo as posições epistemológicas dos pesquisadores, como uma história verdadeira, uma reconstrução da realidade ou mera encenação. Nesse contexto, o autor apresenta alguns princípios que são, em geral, tidos como adquiridos e, de fato, comumente alegados, com o objetivo de fazer com que
o entrevistado possa verdadeiramente dar conta de sua visão ou de sua experiência, na situação de entrevista. Tais princípios dizem respeito a: obter a colaboração do entrevistado, colocá-lo à vontade por elementos de encenação, ganhar-lhe a confiança e levar o entrevistado a tomar a iniciativa do relato e a se envolver.
Para colocar os entrevistados à vontade, os pesquisadores devem intervir, de forma mais ou menos consciente. Poupart (2010) descreve tal atitude como elementos de encenação da entrevista, segundo a fórmula de Goffman (1973)84. O sucesso e margem de manobra dependem aí das situações e das pessoas entrevistadas. Assim, se aconselha que os entrevistadores façam o máximo para criar um ambiente e contexto favoráveis à entrevista.
Diante dessas preocupações, decidi realizar as entrevistas narrativas, nos ranchos onde as romeiras se hospedam. Estas foram realizadas na Romaria de Nossa Senhora das Dores, em setembro de 2015. Foram marcadas com antecipação, ainda na romaria de janeiro do mesmo ano e confirmadas por telefone. Considerei os ranchos como o lugar mais apropriado para as entrevistas, tendo em vista que é o lugar onde elas descansam, no intervalo da programação das romarias. Descartei gravar essas entrevistas no Círculo Operário, como fiz com as entrevistas focalizadas, por ser um ambiente público, com grande circulação de pessoas, pois se localiza próximo à sala de informação ao romeiro e da Basílica Nossa Senhora das Dores; portanto, não adequado para um momento delicado e profundo, como é o caso da entrevista narrativa.
Este procedimento de construção de dados exige que alguns cuidados sejam observados, como lugar apropriado, tempo e disponibilidade do entrevistador e interlocutores, uma relação de confiança, uma escuta ativa e sensível. Por isso, decidi deixá-las o mais confortável possível, em seus ambientes habituais. Inicialmente, procurei manter uma conversa informal; enquanto isso, meu companheiro Wesley Gomes, que me auxiliou, durante a pesquisa de campo, manejando os equipamentos audiovisuais, montava os equipamentos utilizados, no caso a câmera e filmadora, que seriam os recursos de registros das entrevistas.
Procurei, ao máximo, não dar ênfase a esses instrumentos, para que a narração fosse a mais natural possível. Esses cuidados valeram a pena, pois compartilhamos momentos de emotividade; muito do que foi contado estava carregado de sentimentos, uns bons e alegres,
143
outros tristes e impactantes. No momento compartilhado, me emocionei com elas, respeitando as pausas, os silêncios, os incômodos e limites de cada uma.
Um aspecto que vale ser ressaltado foi o momento das reminiscências dolorosas ou tristes; essas geravam emoções que vinham acompanhadas de embargo da voz e quase sempre de lágrimas. Nesse momento, foi imprescindível a escuta sensível e acolhedora, pois procurei exercitar uma escuta atenta e sensível. Acolhendo o que elas estavam me contando, numa atitude de presentificação, ou seja, de estar presente por inteira, compartilhando o sentir. Nessas ocasiões, eu respirava com elas; às vezes, também, me emocionava, deixava as lágrimas fluírem numa cumplicidade de sentir que intermediava o falar e o ouvir.
Assim, o que era próximo e implicado, em relação ao campo de pesquisa, gerou uma proximidade singular e particularizada. Senti-me adentrando sua morada íntima, descobrindo seus tesouros, suas lacunas e obscuridade. Então, como não acolher o que o outro tem de mais humano, seus erros e acertos, sua sombra e sua luz? Escutar, nesse sentido, foi para mim receber o essencial de suas tessituras de vida, expresso em palavras. Conforme Abrahão (2014, p. 61), “sem escuta de qualidade, portanto, a narrativa torna-se vazia, monológica, ou, no limite, simplesmente não existe. A relação escuta/palavra dada, nos parece crucial para a construção de uma história de vida”.
Nessa abordagem, os interlocutores do estudo estão envolvidos diretamente, durante todo o processo de investigação, com suas narrativas e/ou outras construções biográficas, independentemente do procedimento adotado para gerar informação e contribuir para processos formativos, como por exemplo: a Biografia Educativa (PIERRE DOMINICÉ, 2014), o Ateliê biográfico (DELORY-MOMBERGER, 2014), a Pesquisa-formação (JOSSO, 2010), o Círculo Reflexivo Biográfico (OLINDA, 2010) dentre outros, material produzido deve ser lido, comentado, refletido e completado para sua finalização. Procurei seguir essa metodologia, apesar das limitações impostas pelo meu campo de pesquisa, que só permitia o encontro com minhas interlocutoras, duas ou três vezes por ano. Mesmo assim, priorizei o contato delas com as narrativas transcritas e impressas, entregues a elas para leitura e avaliação do que ficaria ou deveria ser acrescentado.
Esse passo foi muito importante para a percepção delas sobre suas produções, sobre suas histórias e seus saberes. Foi através dessas leituras que elas demostraram dar-se conta do alcance de suas práticas sociorreligiosas e sua atuação no movimento romeiro, o que me deu elementos para pensar na forma como elas projetam uma “figura pública de si” (DELORY-
MOMBERGER, 2014) e como isso contribui para o empoderamento individual e coletivo. Pensando nisso, pensei em realizar com elas duas atividades biográficas: uma foi a construção de um álbum autobiográfico; e a outra, uma atividade de síntese e integração, as quais descrevo, no próximo item.