2. ARAŞTIRMANIN YÖNTEMİ VE KAPSAMI
1.2. TARİHİ SEYRİ
2.2.5. Tezyîl
Grande Hotel era uma revista publicada pela Editora Vecchi. No Brasil, encontramos, em Laurence Hallewell (2005 [1985]), algumas informações sobre a atuação da Editora em âmbito nacional, no que se refere à publicação de livros, sempre em comparação a outras editoras cujas atividades foram desenvolvidas no mesmo período, entre os anos 1940 e os anos 1980. Fundada em 1913, no Rio de Janeiro, por Arturo Vecchi, a editora foi uma empresa importante no cenário brasileiro dos anos 1950 e 1960, publicando livros de Schopenhauer, Nietzsch, Ibsen, André Gide e André Maurais, frequentemente localizado em nosso corpus, como autor de conselhos publicados em números de Grande Hotel do final dos anos 1950 e início da década de 1960.
Depois do pioneirismo na publicação de livros desses autores, segundo Hallewell, a editora se destacaria com a publicação de revistas, a partir do final dos anos 1940, e de livros infantis, nos anos 1960, ainda que já publicasse livros infanto-juvenis desde a década de 1940. Curiosamente, não localizamos, em Hallewell, qualquer referência a Grande Hotel ou a outras revistas de fotonovelas publicadas pela Vecchi, as quais, provavelmente, eram as grandes responsáveis por boa parte do faturamento da editora. É verdade que o foco do autor nesse trabalho era O livro no Brasil, mas, nem por isso, ele deixou de trabalhar informações sobre outras revistas que circularam no País, no século XX, como é o caso das revistas de atualidades.
Nos trabalhos sobre revistas de fotonovelas brasileiras e a respeito de seus leitores, temos também poucas informações sobre a Editora Vecchi. No livro de Angeluccia Habert (1974), no qual a autora trabalha com revistas desse tipo, há algumas informações que funcionários da editora forneceram à pesquisadora, mais relacionadas com a produção de
Grande Hotel quanto ao uso de material estrangeiro em sua confecção e quanto ao público-
alvo da revista. Isabel Sampaio (2008) refere-se à editora como responsável pela publicação de Grande Hotel no Brasil e de outras revistas de fotonovelas, bem como à sua falência em 1984. Uma informação importante que Sampaio nos traz é sobre o início das atividades da editora: 1913. Conforme a pesquisadora, no n.845 de Grande Hotel, publicado em 1963, existe, na capa desse número, um selo no canto inferior direito, informando os 50 anos da empresa. Uma de suas entrevistadas, Marli, chega a se referir a Editora Vecchi, como uma empresa italiana, com ramificações no Brasil, como seu próprio nome sugere.
40 O único trabalho brasileiro, específico sobre a Editora Vecchi, que nós localizamos, tem apenas cinco páginas.27 Ângela José do Nascimento recorre justamente ao estudo de Hallewell (2005), publicado em 1985, para trazer alguns dados sobre a editora. Além do importante trabalho de Hallewell, a autora cita, em nota, uma entrevista que realizou com Delman Bonato, o editor-chefe da revista Grande Hotel; um folheto promocional da Editora Vecchi, publicado em 1981, que lhe serviu de fonte para o estudo, assim como um artigo de Dulcília Buitoni, publicado no livro: Imprensa feminina.28 A entrevista concedida à pesquisadora nos traz indícios que nos apontam possíveis relações de trabalho de Arturo Vecchi com os irmãos Del Duca (Cino, Alceo e Domenico Del Duca) na Itália, antes mesmo de 1928, quando os Del Duca criaram, segundo Isabelle Antonutti (2012a, p.70-78), a “Casa
Editrice Moderna” e passaram a publicar revistas de histórias em quadrinhos,
empreendimento que perdurou até 1931.
Para Antonutti (2012a, p.77), a produção dos irmãos Del Duca reflete a ambiguidade do regime de Mussolini face à cultura, do conflito entre a cultura fascista e a cultura de massa. O regime não apreciava os quadrinhos, os “fumetti”, mas os tolerava. Os títulos eram, então, colocados sob vigilância estrita, considerados como uma escória da cultura, incapazes de elevar ou formar o italiano do futuro. De acordo com a autora, as publicações de Cino, Alceo e Domenico não tinham nada de subversivo. Elas acomodavam, o mais possível, o mito do herói fascista às aventuras rocambolescas, o mel dos jovens leitores, e encontraram um vivo sucesso.
Em 1931, no entanto, por tensões existentes na fratria, desencadeadas por visões diferentes em relação aos rumos que a Editora Moderna seguiria, a sociedade entre os irmãos Del Duca se desfez. Alceo e Domenico fundaram a “Editoriale Universo”, que se transformaria, em 1936, na “Casa Editoriale Universo”. Segundo Isabelle Antonutti (2012a), os irmãos se separaram, mas seguiram campos paralelos no universo das histórias em quadrinhos sentimentais. Em 1932, Cino Del Duca chegava à França, sem dúvida, devido à assídua vigilância política, mas também porque ele desejava ampliar a difusão de sua empresa. Com os irmãos, ele já havia aberto uma sucursal em Barcelona; eles desejavam exportar sua produção para a Espanha, a França e a Bélgica.
27 O levantamento bibliográfico foi realizado no Portal de teses da CAPES, assim como na página do Google
Acadêmico (<http://scholar.google.com.br>). Talvez pelas dificuldades indicadas por Antonutti (2012a), Ângela
Nascimento não tenha prosseguido seu trabalho sobre a Editora Vecchi. No Banco de Teses da CAPES, localizamos uma dissertação da autora com uma temática completamente diferente daquela anunciada nas poucas páginas de seu trabalho de 1989.
28 Conforme Nascimento (1989): BUITONI, Dulcília Schroeder. Suplemento histórico: o Brasil. In: Imprensa
41 Voltando um pouco no tempo, conforme Ângela Nascimento (1989), Arturo Vecchi (1895-1969), contemporâneo de Cino Del Duca (1899-1967), vendia “Roman-feuilleton” (p.101) de porta em porta. Comercializado em até 130 fascículos, um romance podia ser vendido, sob a forma de folhetim, por até três anos. Editando os fascículos na Itália, na Espanha, bem como em Língua Portuguesa, e comercializando, como ambulante, seus fascículos, Arturo Vecchi, segundo a autora, reuniu recursos para sair de Parma, sua terra natal, e fundar a Editora Vecchi no Brasil, em 1913.
Isabelle Antonutti (2012a), entretanto, nos traz outros elementos desta trama de editores, ao nos narrar o percurso feito pelo irmão de Arturo, Lotario Vecchi. Com efeito, segundo Antonutti, Arturo e Lotario são oriundos de uma família de tradição antifascista de um meio social modesto. Lotario, nove anos mais velho que seu irmão, deixou a escola aos 14 anos de idade a fim de se tornar vendedor ambulante para o editor holandês Heiermann.29 Em 1908, ele teria decidido, por sua conta, instalar-se na Espanha, onde existia um mercado favorável para os “romances populares”, tal como nos sugere Ângela Nascimento (1989), quando afirma que Arturo Vecchi teria editado fascículos de romances para vender nesse país. O elemento novo que nos ajuda a compreender essa circulação de editores é a informação trazida por Antonutti (2012, p.57-59). Segundo a autora, Lotario Vecchi abriu, em Barcelona, a Sociedade “Vecchi et Casini Editores”, associando-se ao seu chefe de vendas, Casini. Conforme Antonutti, Lotario Vecchi obteve um grande sucesso com uma coleção baseada em autores “populares” italianos. Assim, ele teria enviado em 1913, ao Brasil, seu irmão Arturo para implantar uma sucursal da empresa que funcionava, apesar de ter um proprietário italiano, não na Itália, mas na Espanha. No Brasil, foi implantada, então, a “Casa editora Vecchi”. Somente nos anos 1930, motivado paradoxalmente pela ditadura de Mussolini, a qual interditou histórias em quadrinhos estrangeiras na Itália, Lotario Vecchi passou a se dedicar, como o fizeram os irmãos Del Duca (Cino, Alceo e Domenico), à publicação de quadrinhos pela “Società Anonima Editrice Vecchi (S.A.E.V.)”, transformando as revistas infanto-juvenis no país. Para a pesquisadora, a S.A.E.V. foi o berço dos quadrinhos italianos.
Apesar de seu pioneirismo nesse tipo de publicação, a empresa comandada por Lotario Vecchi na Itália teve uma vida menor do que a Editora Vecchi, dirigida por seu irmão no Brasil. Em 1941, a S.A.E.V. encerrou suas atividades naquele país, mas, antes disso, todos os
29 Conforme Isabelle Antonutti (2012a, p.67), a Sociedade Heiermann era uma empresa que vendia romances
“populares” de porta em porta, com sede em Amsterdã e que havia implantado escritórios seus em várias cidades da Europa, como Gênova, Paris, Marselha, Bordeaux e Bruxelas.
42 futuros ilustradores italianos, assim como os irmãos Del Duca estabeleceram relações comerciais com a empresa. Segundo Isabelle Antonutti (2012a, p.67-94), Domenico, Alceo e Cino Del Duca trabalharam, antes de abrirem a própria empresa, como “caixeiros-viajantes” para diferentes editores, entre eles, Lotario Vecchi. Os Del Duca vendiam romances, porque as condições econômicas da família foram sempre muito difíceis. Mais tarde, durante os anos 1930, as relações dos irmãos Del Duca com Lotario Vecchi continuaram. Em 1932, enquanto Cino Del Duca fundava, em Paris, a “Maison éditoriale universelle”, Lotario Vecchi abria uma filial de sua empresa na mesma cidade. As “Editions Mondiales” de Cino Del Duca nasceriam dois anos depois, em 1934, e, em 1936, ele se tornaria o único proprietário da “Casa Editrice Moderna”. Após essa negociação, graças à qual Alceo e Domenico teriam adquirido o direito de publicar duas revistas semanais, dois folhetins e uma soma incomum, os três irmãos não se associariam mais em atividades de trabalho. Mas como explicaríamos as similitudes (relações?), nas décadas de 1940 e 1950, entre Grand Hôtel e Nous Deux, publicadas, respectivamente, por Alceo e Domenico Del Duca em Milão, a partir de 1946, e por Cino Del Duca, a partir de 1947, em Paris?
Para Isabelle Antonutti (2012a, p.188), Domenico, Alceo e o redator-chefe da Editora Universo conceberam Grand Hôtel a partir de dois sucessos da editora: o romance-folhetim e as histórias em quadrinhos. “Havia, de um lado, o sucesso dos quadrinhos e, do outro, o sucesso dos romances populares, sua união, quer dizer, dos romances populares em histórias em quadrinhos deveriam necessariamente fazer sucesso”.30 E assim aconteceu. Nous Deux foi inspirada diretamente no sucesso de Grand Hôtel. No entanto, conforme a autora, as negociações comerciais entre os irmãos permaneceram confidenciais. Eles não eram mais associados nos anos 1940, e as suas editoras, distintas.
Na visão de Antonutti, possivelmente, essa cessão da fórmula da revista italiana para a França concluiu a separação entre os irmãos Del Duca, iniciada antes da Segunda Guerra Mundial. Alceo e Domenico conservaram as revistas ilustradas infanto-juvenis, enquanto Cino Del Duca tinha recuperado as dívidas, já que o serviço prestado foi reembolsado. Conforme a pesquisadora, Cino Del Duca não mencionou jamais a colaboração com seus irmãos. Alceo e Domenico, por sua vez, também se mantiveram em silêncio. Eles ficaram como editores à margem do universo editorial, publicando pouco, mas vendendo muito. Desse modo, permaneceram muito independentes. Seu sucesso, de acordo com a autora, foi espetacular. Seus herdeiros, Milena e Sergio Del Duca, que comanda hoje em dia a edição de
30 VENTRONE, Angelo. Tra propaganda e passione: “Grand Hôtel” e l’Italia degli anni 50. Rivista di storia
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Grand Hôtel na Itália, tiveram, em 2001, seus nomes ligados às dez famílias mais ricas do
país. Nos estudos sobre a imprensa italiana, Cino Del Duca é frequentemente designado como o proprietário de Grand Hôtel. Talvez venha daí as afirmações localizadas nos estudos brasileiros, segundo as quais Grande Hotel seria a cópia integral de Nous Deux, que pertenceu a Cino Del Duca, e não da revista italiana.31
Os percursos dos irmãos Del Duca e dos irmãos Vecchi, na perspectiva de Antonutti (2012a, p.61), guardam algumas características similares. Oriundos de meios modestos ou pobres, eles foram autodidatas. Dispondo de uma educação política de esquerda, todos eles militaram no Partido Socialista. No trabalho, tanto os Vecchi quanto os Del Duca, principiaram “por baixo”, como vendedores ambulantes de romances em fascículos, e seguiram em direção às atividades de tipógrafos. Eles investiram na corrente gráfica e se interessaram pelo conjunto do processo de produção de impressos. Suas empresas tomaram emprestada, da indústria, sua racionalização. Esses “self made men” tornaram-se independentes financeiramente e marcaram suas empresas com suas personalidades. Atentos aos gostos de seu público, eles estiveram abertos às criações internacionais e sempre à procura de novidades. Os irmãos Vecchi, bem como os irmãos Del Duca, sobretudo, Cino Del Duca, não hesitaram em percorrer o mundo para ampliar sua clientela e sua produção. Enfim, esses editores, em seu percurso, se desamarraram suficientemente de normas culturais estabelecidas, não se identificando com a imagem de sucessores de uma tradição.
No Brasil, de acordo com Nascimento (1989), Arturo Vecchi deu continuidade ao trabalho que já realizava na Europa. Instalando a Editora Vecchi no Rio de Janeiro – primeiro, na Rua Santana; depois, na Rua Riachuelo e, só após a Segunda Guerra Mundial, na Rua do Resende –, Arturo Vecchi vendeu romances em fascículos de 1913 a 1933. De maneira semelhante ao que faziam os irmãos Del Duca na Itália, os romances comercializados por Arturo Vecchi, em fascículos, não eram narrativas de escritores consagrados, e seus autores usavam pseudônimos.
A comercialização de livros pela Editora Vecchi foi iniciada apenas em 1927. A publicação do primeiro livro da editora no Brasil foi feita em parceria, segundo Nascimento (1989), com a Livraria Freitas Bastos. A virgem de 18 quilates, que, em 1956, encontrava-se em sua 8ª edição pela Vecchi, foi escrito pelo italiano Pitigrilli. Suas tiragens variavam de cinco a nove mil exemplares. O texto tornou-se, conforme a pesquisadora, o mais famoso romance do escritor no Brasil. A propósito, Pitigrilli foi relembrado por Wagner Emanuel, um
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44 dos participantes da pesquisa, historiador e editor, quando me falava sobre a Editora Vecchi, mostrando um dos cômodos de sua casa onde ele procurava organizar alguns de seus muitos livros. Seu acervo de materiais escritos dividia o espaço doméstico, em prateleiras, estantes, mesas, sofás, com os livros de sua esposa, professora universitária, e com os impressos de sua filha, que, na época em que Wagner nos concedeu a entrevista, finalizava o Mestrado.
Depois de A virgem de 18 quilates, a Editora Vecchi publicaria outros romances com tiragens semelhantes e, após a Segunda Guerra Mundial, a editora contava com 12 títulos. Segundo Ângela do Nascimento (1989, p.106), nos anos de intensa atividade editorial, a editora diversificou sua produção, mesmo que a sua base editorial, desde o início de suas atividades no Brasil, tenha sido os romances dos mais diferentes gêneros. “Revistas, romances, antologias, contos, poesias, ensaios, obras teóricas, biografias, autobiografias, memórias, vida de santos”, conforme a autora, foram publicados pela Vecchi, além de álbuns de figurinhas, muitos deles anunciados em Grande Hotel, como verificamos em nosso corpus. Até começar a publicar Grande Hotel, como vemos, a editora funcionou no Brasil por mais de 30 anos, já que o primeiro número da revista data de 30/07/1947. A revista, de acordo com as informações levantadas por Ângela Nascimento (1989, p.103) durante entrevista com seu editor, Delman Bonato, “era conhecida por gibi para adultos”, embora sua apropriação pelos leitores (sejam aqueles que escreviam para a redação de Grande Hotel, sejam aqueles que nós entrevistamos) evidencie a leitura do impresso por jovens com idade a partir de 12, 13 anos, já no final dos anos 1940. Delman Bonato afirmou, nessa entrevista concedida a Ângela Nascimento, em janeiro de 1986, que, logo depois da Segunda Guerra Mundial, a Editora Vecchi “comprou os direitos de edição de Grande Hotel no Brasil, gênero de revista que já fazia sucesso na Itália” (NASCIMENTO, 1989, p.104). Para Isabelle Antonutti (2012a, p.63), apesar de terem começado seu percurso como militantes do Partido Socialista ou mesmo do Partido Comunista, Mondadori, Rizzoli, Vecchi e Del Duca não se lançaram no campo da edição para fazer a revolução. Eles inventaram e fundaram suas empresas a fim de satisfazer o gosto do público.