• Sonuç bulunamadı

2. ARAŞTIRMANIN YÖNTEMİ VE KAPSAMI

1.2. TARİHİ SEYRİ

2.2.6. Tekmîl

Em primeiro lugar, certamente o conceito de materialidade foi fundamental na análise da revista Grande Hotel, tendo em vista o leitor esperado para o impresso. Ao longo da investigação, buscamos operar com essa noção, compreendendo-a como uma ‘realidade

45 física’ por meio da qual os discursos existem, manifestam-se. Roger Chartier (1994, p.8), ao refletir sobre os sentidos da “ordem dos livros”, afirma que “manuscritos ou impressos, os livros são objetos cujas formas comandam, se não a imposição de um sentido ao texto que carregam, ao menos os usos de que podem ser investidos e as apropriações às quais são suscetíveis”. Desenvolvendo um raciocínio por analogia, ao compor o nosso corpus de análise e considerando nosso objeto de estudo, percebemos que tão relevante quanto analisar o conteúdo veiculado pela revista, era analisar de que maneira esse conteúdo se inscreveu nas páginas de Grande Hotel, assim como nos debruçar sobre seus “dispositivos técnicos, visuais e físicos” que organizaram a leitura do escrito quando ele foi publicado em uma revista, no Brasil, entre fins dos anos 1940 e princípios dos anos 1960.

Foi muito útil também, para a nossa análise, operar com o conceito de representação, conforme o concebe Chartier (1988). Na revista, encontramos imagens de homens, mas, sobretudo, de mulheres e textos que prescreviam seu comportamento. Percebemos, então, que o impresso procurava apresentar, especialmente para as suas leitoras, representações de como elas deveriam ser e agir, muitas vezes, numa relação de submissão ao homem (namorado, noivo, marido). Apropriando-se dessas representações, as mulheres, leitoras de Grande Hotel, incorporariam esquemas de ação, categorias de pensamento que gerariam e estruturariam, por sua vez, imagens e ideias relativas a elas mesmas, mulheres, a seus modos de ser, agir e pensar que fariam com que ocupassem, com frequência, o lugar de dominadas na relação com os homens. Representações seriam, portanto, segundo o autor, formas, motivos, “que, à revelia dos actores sociais, traduzem as suas posições e interesses objectivamente confrontados e que, paralelamente, descrevem a sociedade tal como pensam que ela é, ou como gostariam que fosse” (p.19).

A representação, com sua função simbólica, permite-nos verificar o modo pelo qual os sujeitos apreendem o real. Dessa maneira, à simbolização, podemos acrescentar a função de mediadora para a representação, que pode ser operada por meio da linguagem. Quando pensamos, nessa dimensão do conceito para o nosso estudo, em que nos voltamos para a análise de uma revista para mulheres, podemos pensar, com Chartier (1988), que as representações presentes em Grande Hotel, dependendo das apropriações que as leitoras fizessem delas, poderiam ser um instrumento que produziria nelas um constrangimento internalizado. As representações que constituíam o discurso da revista poderiam provocar, nas suas leitoras, um efeito de respeito e de submissão. Contudo, ao analisar os modos de apropriação das leitoras dos textos veiculados pela revista, como também as suas maneiras de estabelecer relações com o impresso, pudemos verificar em que medida as representações

46 presentes em Grande Hotel atingiram (ou não) seus modos de estar no mundo e de apreendê- lo.

Trabalhando com uma revista que se tornaria, mais e mais, feminina, que trazia em suas páginas representações de mulheres, assim como o que se esperava delas nas relações com os homens (em especial, maridos e namorados), com o espaço da casa, com os filhos, foi imprescindível pensar os nossos dados à luz da categoria gênero, como o propõe Joan Scott (1990, p.14). Embora sua definição seja formada por partes e subpartes, “ligadas entre si”, mas que devem ser diferenciadas na análise, a autora afirma que “o núcleo essencial da definição repousa sobre a relação fundamental entre duas proposições: o gênero é um elemento constitutivo de relações sociais fundadas sobre as diferenças percebidas entre os sexos, e o gênero é um primeiro modo de dar significado às relações de poder”. No espaço de análise de nosso corpus, do conteúdo veiculado por Grande Hotel, entre 1947 e 1961, esforçamo-nos para identificar, descrever e analisar as imagens da mulher (bem como de homens) “que evocam representações simbólicas”, “de suas modalidades e de seus contextos”, procurando relacioná-las com as possíveis intencionalidades dos produtores da revista, tendo em vista suas supostas leitoras, mas também os leitores visados para o impresso.

Nessa direção, é importante salientar que a categoria gênero, em nossas reflexões, relaciona-se com as discussões que fizemos sobre as mulheres representadas na revista e a respeito das mulheres ‘reais’ que a leram. Contudo, o conceito foi “igualmente utilizado para sugerir que a informação sobre o assunto ‘mulheres’ é necessariamente informação sobre os homens, que um implica o estudo do outro” (SCOTT, 1990, p.7). Desse modo, ao procurar operar com essa categoria, pensamos que o universo das mulheres, sobretudo aquele criado, representado e nutrido nas páginas de Grande Hotel, integra o mundo dos homens.

Em uma pesquisa sobre um impresso, a respeito da leitura e de leitores, sobre os atos de ler, focada especialmente na maneira como os sujeitos constroem sentidos, significados para o que leem, acreditamos que o conceito de apropriação, tal como o compreende Chartier (1988), é fundamental para um empreendimento desse tipo. Interessam-nos as relações que os leitores de Grande Hotel estabeleciam com o impresso, com os textos que liam na revista. A partir da descrição e da análise dos usos que se fazem de um objeto cultural, de um texto, podemos chegar às práticas de leitura, aos leitores, às suas apropriações do que leem.

Por meio da operacionalização do conceito de apropriação, foi possível chegar ao ponto de encontro entre o mundo dos textos de Grande Hotel e o mundo dos leitores, das leitoras do impresso. Desse modo, pudemos entender como os textos da revista foram

47 apropriados por seus leitores e se os teriam conduzido para uma nova forma de compreensão de si mesmos e do mundo, seja pela aceitação de seus dispositivos, seja pela subversão do que os textos procuravam prescrever. Procedendo dessa forma, foi possível apreender de que maneira os textos de Grande Hotel poderiam ou não se aplicar à situação dos leitores, ou seja, de que modo configurações narrativas poderiam “corresponder a uma refiguração da própria experiência” (CHARTIER, 1988, p.24).

Também nos foram importantes, durante a realização da pesquisa, alguns conceitos operacionalizados em alguns trabalhos do campo da Sociologia, já que buscamos saber da experiência de leitura dos sujeitos no que se refere a Grande Hotel, uma revista que foi se tornando feminina e de ampla circulação. Nesse sentido, foram muito úteis a nós as pesquisas de Pierre Bourdieu e os trabalhos de Bernard Lahire, uma vez que, para compreender os leitores desse impresso, suas leituras e a própria revista, precisamos explorar a teoria da

legitimidade cultural, e conceitos, tais como: estética popular, disposição estética, disposição popular e a própria noção de “popular”. Esses conceitos foram amplamente trabalhados por

Bourdieu e Lahire em seus estudos e escritos.

A legitimidade cultural configura-se como um parâmetro de julgamento do gosto e das preferências envolvidos nas relações que os sujeitos estabelecem com objetos culturais legítimos, dominantes, eruditos. De acordo com Bourdieu (2008), ela faz com que certos “consumos” culturais, assim como os sujeitos que os consomem apresentem-se como superiores em relação a outros. Graças à sua existência, na relação com os objetos culturais, haveria a “negação da fruição inferior, grosseira, vulgar, venal, servil [...], natural” e “a afirmação da superioridade daqueles que sabem se satisfazer com prazeres sublimados, requintados, desinteressados, gratuitos, distintos, interditados para sempre aos simples

profanos” (p.14. O destaque em itálico é do autor).

Para Bourdieu (2008), a estética popular vai na contramão do desinteresse, da fruição, do distanciamento do mundo natural e social, quando se trata de práticas culturais. A apreciação de indivíduos das camadas populares, segundo o autor, sempre segue o princípio ético. Aplicando, no espaço da cultura, os esquemas que operam na prática, o “povo” acreditaria nas coisas representadas, enquanto os intelectuais acreditariam mais na representação, operando com um desprendimento, próprio do olhar puro. Nesse sentido, a noção de estética popular nos ajudou na análise das leituras que diferentes leitores, oriundos de diferentes meios sociais e com escolarização diversa entre si, faziam de Grande Hotel. Nesse sentido, perguntamo-nos: se leitores de meios mais favorecidos economicamente e letrados liam uma revista “popular”, eles teriam uma relação de estética pura com as

48 narrativas da revista, enquanto os representantes das camadas populares estabeleceriam uma relação ingênua com os textos do impresso?

Os sujeitos que possuem a disposição estética, conforme Bourdieu (2008), não se submetem às necessidades e pulsões primárias. Em qualquer matéria da vida, incluindo-se as práticas culturais, esses sujeitos se distinguem por sua sublimação, pelo desprendimento até mesmo quando o objeto de sua relação é um objeto “vulgar”, comum, “grosseiro”. O modo de apropriação do esteta de objetos do gosto popular se caracterizaria pelo distanciamento. Logo, o seu interesse numa narrativa estaria na forma, nos seus possíveis elementos artísticos que poderiam ser relacionados por comparação com outras obras, e não em seu conteúdo e personagens. Em contrapartida, a disposição popular aliaria a estética à ética; seria baseada “na continuidade da arte e da vida, que implica a subordinação da forma à função” (p.34). Tanto a disposição estética, quanto a disposição ética, na ótica do autor, estão estreitamente associadas às condições econômicas e sociais dos sujeitos. Logo, agir com maior ou menor distanciamento em relação a um objeto cultural, seja ele legítimo ou “vulgar”, acreditar na ficção trazida por uma narrativa ou na realidade ali simulada relaciona-se diretamente com as características das diversas classes e de suas frações. Para Bourdieu (2008), é exatamente a capacidade de mobilizar a disposição estética no consumo legítimo ou no consumo “vulgar” que distingue rigorosamente os sujeitos e as diferentes classes.

Lahire (2006), ao se debruçar sobre a teoria da legitimidade cultural, que “estuda essencialmente as distâncias e as relações socialmente diferenciadas com ‘a’ cultura, as funções sociais ‘da’ cultura e os efeitos sociais da dominação dessa cultura sobre os grupos mais carentes culturalmente” (p.37), verificou que os processos de distinção cultural ganham outras tonalidades quando nos voltamos para os indivíduos. Para o autor, as distinções podem constituir realidades internas de numerosos indivíduos que se encontram espalhados em diferentes classes e em frações de classes. Com as suas investigações, Lahire (2006) passou a evidenciar que não existe uma correspondência direta e necessária entre hierarquia das artes, dos gêneros e hierarquia social, escolar dos ‘consumidores’.

A maneira pela qual Lahire opera com muitos dos conceitos trabalhados por Bourdieu interessa-nos neste trabalho. Diferentemente do que se costuma fazer nas pesquisas sobre o “consumo” cultural, seus procedimentos de pesquisa contribuíram com a nossa análise de

Grande Hotel e de seus leitores, evitando que nós estabelecêssemos uma equivalência e uma

agregação dos indivíduos pesquisados, de um lado, e da revista, das práticas de leitura relacionadas ao impresso, de outro, em categorias. Se assim o fizéssemos, correríamos o risco de reduzir a revista de ampla circulação a seu valor simbólico na hierarquia das legitimidades

49 e, desse modo, procuraríamos evidenciar fatos de legitimidade e desigualdades sociais, relativos ao acesso ou não à cultura legítima dominante. Procedendo dessa forma, tendo como parâmetro a legitimidade cultural, encobriríamos as variações intra-individuais nas relações dos diferentes leitores com Grande Hotel. Partimos, assim, de socializações individuais para compreender as dissonâncias culturais. Não trabalhamos, pois, com um modelo de ator individual, segundo o qual, esperamos encontrar coerência geral em seus comportamentos.

É possível verificar, conforme Lahire (2006), que a variação no gosto cultural, tal como ocorre no caso de Wittgenstein, é comum. Os “consumidores culturais” apropriam-se, segundo seus próprios relatos, de produtos de massa ou que não se caracterizam por serem “legítimos” para se divertir, para se distrair despretensiosamente. Para o sociólogo, esse tipo de comportamento remete às diferentes socializações que os indivíduos vivenciaram e às condições sociais de suas diversas práticas. Desse modo, verificar a existência de coerência nos indivíduos, segundo Lahire, é muito mais improvável e excepcional do que encontrar atores com hábitos disparatados e preferências opostas. Tal como afirma o sociólogo, é necessário formular a hipótese de que cada “consumo” cultural demanda competências específicas. Há uma relatividade a depender do campo cultural em que se transita. Além disso, não é possível ignorar as condições em que cada tipo de leitura acontece, nem a “pluralidade das experiências socializadoras em matéria de formação de competências e de disposições culturais” (LAHIRE, 2006, p.28).

O que desejamos foi reconstruir as práticas dos sujeitos ‘reais’ em matéria de leitura de uma revista de fotonovelas e as condições sob as quais essa prática cultural ocorria, tendo em vista, antes, que tipo de leitor era esperado para Grande Hotel, que leitor foi instituído pelos textos veiculados pela revista. Buscamos, portanto, entrar no detalhe tanto da constituição do perfil de seus supostos leitores, quanto das práticas individuais de leitura de

Grande Hotel e de seus contextos já que acreditamos ver surgir daí diversidade. Caso

optássemos pela lógica da classificação do impresso e dos sujeitos participantes da pesquisa em categorias, talvez reproduzíssemos estereótipos dos leitores – de uma revista “feminina”, considerada “popular” por alguns pesquisadores – no nível do grupo, tal como podemos conferir em alguns estudos sobre revistas de fotonovelas.32

32

50

Benzer Belgeler