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4. ÖNERİLEN GÖLGE TESPİT ALGORİTMALARI

4.2. PV Diziler için Bulanık Mantık Kullanan Model Tabanlı Gölge Tespit

4.2.1. Model Tabanlı Gölge Tespiti

Para qualquer forasteiro a muralha e as torres que, em maior ou menor número, nela se incorporavam, constituíam o primeiro e mais claro sinal da presença de um núcleo urbano, pois raros eram os que não usufruíam da tranquilidade dessas grossas paredes. [...] acima da linha de fortificações apenas se vislumbrava uma ou outra torre de igreja ou, se a cidade ou vila se implantava em sítio acidentado, algum casario disperso por colinas que um castelo ou outra construção assinalável rematava (ANDRADE, 2003, p. 45).

Para os viajantes que deveriam encontrar seu destino em um espaço sem placas indicativas de trajeto, as cidades e as fortificações eram utilizadas como especiais referentes de orientação. Era produzida então uma imagem mental, por intermédio qual, durante o medievo, o urbano constitui uma representação interiorizada de diferença e oposição com o rural, mas, ao mesmo tempo, de relação íntima com a paisagem. Esse contraste paisagístico da muralha e de suas torres, enquadradas pela homogeneidade da aglomeração das construções comuns/populares, constituía-se uma manifestação visível e imediata das características diferenciadas dos espaços urbanos fortificados.

Figura 12: As fortificações de Moura enquadrada pela aglomeração de casas que se diferenciam e se relacionam com a paisagem rural (fl. 10/E).

Fonte: Livro das fortalezas, Duarte de Armas, 1509.

A necessidade de se afirmar, perante outras unidades políticas peninsulares, levou a realeza portuguesa a utilizar estratégias para estabelecer e consolidar parâmetros de exercício de soberania sobre seus territórios e, principalmente, fronteiras. No que concerne à fronteira Leste-Oeste, com outros reinos cristãos, essa preocupação pôde ser melhor identificada a partir do reinado de D. Dinis (1279-1325). Essas tentativas de controle não ocorreram apenas quando da implantação de estruturas administrativas centralizadoras e da remodelação da justiça, impondo complexas relações de poder entre o centro e a periferia. Muitas iniciativas da soberania da Coroa portuguesa tenderam a se materializar no espaço, marcando visivelmente e definitivamente o território. Castelos, cidades, vilas, igrejas, capelas, vias de comunicação, etc., buscaram consolidar a presença do poder régio na fronteira enquadrando e hierarquizando os espaços e as pessoas que nele habitavam, criando uma grande diversidade de paisagens77 (ANDRADE, 2003).

77 Na Europa Setentrional, devido a questões político-religiosas, no século XVI, houve um aumento pelo

interesse da pintura de paisagens. Com a Reforma Protestante e a proibição das imagens de santos, passagens bíblicas e pinturas sacras, bem como cenas mitológicas, os artistas holandeses e flamencos, desenvolveram uma arte descritiva e carente de dramatização. O foco dos artistas direcionou-se para retratos de burgueses, cenas da

Criado Boado (1999) define paisagem como o estudo das relações entre a ocupação humana no espaço e suas modificações através do tempo. A paisagem pode ser vista como uma construção humana, por intermédio da qual se cruzam questões do ambiente natural e social. A partir dos vestígios deixados pelas intervenções humanas e de suas relações com os aspectos naturais do lugar, pode-se inferir a maneira como os grupos que interviram na paisagem lidavam com o meio.

Um tipo específico do produto humano (a paisagem), que usa uma dada realidade (o espaço físico) para criar uma nova realidade (o espaço social: humanizado, econômico, agrário, habitacional, político, territorial, etc.), por meio de uma aplicação de uma ordenação imaginada (espaço simbólico: no qual é sentido, percebido, pensado, etc.). Esta concepção supõe que a dimensão simbólica forma uma parte essencial da paisagem social e que, portanto, é um entendimento integral que deve ser levado em conta (CRIADO BOADO, 1999, p. 37).

Percebem-se as fortificações como instrumentos de organização, construção e transformação da paisagem fronteiriça luso-castelhana quinhentista. A instauração dessas estruturas auxiliou a interação de populações com a natureza, em uma região politicamente instável. A constituição de uma paisagem fronteiriça fortificada possibilitou, em grande parte, a formação e permanência de vilas e cidades, que, com seus habitantes, passaram a usufruir dos recursos naturais, ergueram moradias, abriram estradas, estabeleceram comércio, navegaram e fizeram seu cotidiano; construindo e integrando as paisagens registradas por Duarte de Armas, em seu Livro das fortalezas.

Bertrand (1972, p. 01) considera que a paisagem não é apenas natural, mas total, com todas as implicações da participação humana. Dependendo do interesse, formação e objetivos do observador, a análise da paisagem poderá enfatizar a vegetação, clima, relevo, produção econômica, arquitetura, história ou fauna. Essas diferentes categorias podem ser selecionadas e privilegiadas para interpretação individual ou relacional e a definição da escala de observação permitirá a identificação de detalhes ou a expansão de limites.

Mantendo-se a noção de um processo que comporta uma dupla representação, ao se analisar as representações de paisagens, de Duarte de Armas, privilegiam-se, principalmente, as estruturas fortificadas (em alçado e planta baixa), e a ocupação do território fronteiriço por meio de povoações e cultivo. A escala de observação dos fólios pode variar da tentativa de

vida cotidiana e vistas de países, ou seja, paisagens. A ampliação do território em direção ao mar também estimulou a prática das paisagens. No século XVII, esse gênero já havia cobrado independência, principalmente nos Países Baixos. Necessitando-se de uma palavra para nomear esta nova e florescente atividade, foi criado o termo holandês landtschap, do qual deriva landscape (MADERUELO, 2010, p.22).

compreensão da inserção da fortaleza em uma panorâmica complexa, até a identificação pontual de pessoas fora das muralhas: voltando de uma pesca, buscando água, conduzindo animais de carga [...], em seu cotidiano.

O conjunto de representações de paisagens do debuxador constitui-se em um universo imagético, no qual é fácil perder-se na tentativa de identificar diversas categorias de análise. Ao permanecer na ideia de escalas, optou-se por compreender os registros do debuxador, em diferentes recortes. Primeiro, a panorâmica, com todos os detalhes e complexidade que comporta; segundo, a inserção da fortaleza nessa panorâmica; terceiro, a estrutura fortificada no geral, com seus componentes defensivos; quarto, os recortes específicos dessa estrutura, tais como as troneiras, os merlões, os taludes, portas, janelas [...] e suas relações entre si; quinto, as plantas baixas (sempre observadas e pensadas em relação aos alçados das respectivas fortificações). Com isso, não se compreende um esforço de fragmentação da obra de Duarte de Armas, que conduziria a uma falta de entendimento do conjunto, mas um recurso de (re)organização e (re)construção de representações que conduzem, acredita-se, a uma percepção, ao mesmo tempo, detalhista e geral dos debuxos.

Para Burke (2004), a paisagem física pode ser considerada como uma imagem a ser interpretada; logo, uma paisagem reproduzida em uma pintura nada mais é do que a imagem de uma imagem. As representações de paisagens, as leituras que delas são feitas quando registradas não são neutras, podem evocar associações políticas, ou até mesmo expressar ideologias. Postula-se que o olhar de Duarte de Armas, em parte, estava conduzido pelas

necessidades da “encomenda” da Coroa portuguesa. As representações de suas paisagens

denotam forte presença política de um poder instituído. Os pendões superdimensionados (Quinas – reino, Armilar – império e Cruz da Ordem de Cristo – mestrado), sempre sobre as torres de menagem (símbolo de poder por excelência na arquitetura militar); os pelouros com grande verticalização, que se sobressaem por entre os telhados das casas e a insistência em registrar as forcas, algumas ainda com corpos pendurados (indicação de lei e justiça que se fazia sentir), podem auxiliar a perceber o quanto o olhar do debuxador estava imbuído da constatação da existência de um poder demarcador da fronteira.

Figura 13: Detalhe da fortificação de Almeida. Pendões da presentificação de um poder (fl. 73/S).

Fonte: Livro das fortalezas, Duarte de Armas, 1509.

A vista panorâmica, devido a sua amplitude, permite ver o todo, sem favorecer um detalhe em particular. Nesse sentido, pode induzir a pensar em uma visão “desinteressada” ou neutra, mas trata-se de uma expressão de representação apropriada à dominação do espaço. Esse dispositivo visual, que gera a ilusão de distanciamento e objetividade do tema representado, pode ser mais bem compreendido quando se identifica a importância da produção de vistas panorâmicas na ideologia nacionalista. São, portanto, registros imagéticos, que se prestavam à ideia de constituição de uma nação, um povo, com seu território e paisagens características, atendendo uma proposta profundamente política e indenitária, que nada tem de neutra (ROQUE, 1997).

Alain Roger (2007) apresenta o país como a origem da paisagem (grau zero da paisagem). Dessa forma, o país nada mais é do que uma paisagem78. Diferentes tempos e tratamentos dados à paisagem, por pintores e escritores, auxiliaram no desenvolvimento de novas representações sobre as características de um país.

Identifica-se, no Livro das fortalezas, a relação existente entre paisagem, “país” e fronteira. O debuxador, ao registrar as fortificações da raya, em aproximadamente 900 km de périplo, na divisa entre Portugal e Castela, representou uma paisagem de fronteira que

78“O país é, em certo modo, o grau zero da paisagem, que precede sua artealización, tanto se esta é direta (in

demarcou o território do reino. Em seus fólios, Duarte de Armas não registrou apenas as paisagens raianas portuguesas, mas também o território além da fronteira, o termo entre as duas Coroas, constituindo o que poderia ser considerado como uma paisagem de transição entre Castela e Portugal. De forma recorrente, o tracista anotou a distinção entre os territórios nas panorâmicas (castella, da banda de castella).

Em algumas situações, por não existir na paisagem curso de rio, cadeias de montanhas ou presença de fortificação castelhana, apresentou anotações mais extensas que se encarregaram da distinção: “por entre estas casas sam de Purtugall e este monte destas tres casinhas sam da banda de castella e core huã ribeyra q se chama alger” (Segura, fl.56/N Bis).

Em seus registros, Duarte representou uma paisagem de cultivo, de urbanização e de ocupação efetiva da fronteira, garantindo e legitimando sua posse.

Figura 14: Detalhe da panorâmica de Segura79 (fl.56/N; Bis).

Fonte: Livro das fortalezas, Duarte de Armas, 1509.

Figura 15: Vista e indicação da fronteira na panorâmica de Segura (fl. 56/N).

Fonte: Livro das fortalezas, Duarte de Armas, 1509.

Ao fundo, sobre o monte, junto às árvores, a anotação: castela, indicando que, na margem leste iniciava-se a fronteira. A fronteira só é visível por meio do processo de indicação de distinção entre territórios. Indivíduos que não dominam as indicações, que

permitem a distinção, não são capazes de observar a existência de fronteiras “[...] o marcar de

uma fronteira, onde o olhar funciona como barreira entre dois lados” (VICENTE, 2012, p. 27).

Dando continuidade ao texto, passa-se a tratar das questões referentes à constituição da fronteira e demarcação do território da Coroa portuguesa.

Benzer Belgeler