C. KONYA EKONOMİSİ
I. DEMOGRAFİK YAPI VE SOSYAL KALKINMA
6. KÜLTÜR
Quase todos os grandes problemas ambientais estão relacionados, direta ou indiretamente, com a apropriação e uso de bens, produtos e serviços, suportes da vida e das atividades da nossa sociedade moderna.
Tome-se a poluição do ar, especialmente a poluição urbana por monóxido de carbono, que é, em grande parte, causada por emissões decorrentes da utilização de um bilhão de veículos que foram licenciados no mundo até 200862– ou seja, os consumidores desses bens duráveis são diretamente responsáveis pelos impactos causados à atmosfera. Segundo estudos do GEMS/AIR63 da ONU, aproximadamente 900 milhões de pessoas estão expostos a níveis prejudiciais de óxidos sulfúricos, e mais de um bilhão é afetado por níveis desaconselháveis de partículas, pondo em risco suas vidas.
Será que os consumidores em geral não contribuem também, e decisivamente, para níveis tão elevados? Como e quanto seria essa participação?
Além disso, como se sabe, o buraco da camada de ozônio tem na utilização de CFCs (clorofluorcarbono) uma de suas causas mais importantes. Medidas de controle de suas emissões, como o Protocolo de Montreal, em vigor desde 1989 e revisto em Londres (1990), já mudaram o quadro e continuam a ter um impacto tremendo nos padrões de consumo de milhões de consumidores em todo o mundo. Da mesma forma, as perdas financeiras provocadas pelos desastres naturais atmosféricos – furacões, tufões, tsunamis, enchentes e tempestades – já fazem da poderosa indústria de seguros uma forte aliada do Protocolo de Kyoto (acordo internacional assinado em 1997 com vigência desde 16.02.2005 até dezembro de 2012) para reduzir as emissões dos gases poluentes que provocam o aquecimento do Planeta. Tudo isso porque o crescimento do número e da intensidade das
62 . “Um bilhão de veículos”. Em O Estado de S. Paulo, 10.03.2008. p. A3. Segundo Bill Ford,
presidente do Conselho Mundial da Ford, a expectativa, até meados do século, é de uma frota de 4 bilhões de veículos. No Brasil, por exemplo, o número de veículos em circulação cresce em ritmo muito superior ao da população. Desde 2004, quando a economia se livrou da hiperinflação, a frota aumentou 54,8%, atingindo 34,856 milhões de veículos em 2011. No mesmo período, a população, estimada em 192,3 milhões de pessoas, cresceu 5,7%. Isto significa dizer que o País já tem um automóvel para cada 5 brasileiros (O Estado de S. Paulo, 15.04.2012. p. B-4).
63 . A OMS – Organização Mundial de Saúde, da ONU, entre outros organismos, mantém dois
programas que interessam à qualidade ambiental: GEMS/AIR e GEMS/WATER – Global
52 catástrofes atmosféricas já afeta os balanços anuais das resseguradoras em todo o mundo, as quais, ao longo do ano de 2001 (dez anos atrás) registraram US$ 4,4 bilhões de perdas.64
Uma pergunta: até que ponto o consumidor-poluidor tem responsabilidade sobre o efeito negativo dos insumos e equipamentos que usa ou dos bens que consome? Não seria isso imputável, antes, aos processos tecnológicos de produção?
Por ora, parece evidente que sim; porém, o uso inadequado ou desnecessário e o abuso por parte do consumidor não podem ser relevados. Em outra direção, sua participação pessoal no coro das exigências ambientais (reclamações, boicotes e outras formas) decorre do exercício da sua cidadania ambiental e é empenhativa para esse consumidor.
Outro exemplo: a água doce, que representa apenas 2,59% de todos os recursos hídricos do Planeta, é, a um só tempo, um recurso de consumo e um importante recurso ambiental. Aqui, também, um risco ecológico que se avizinha terá implicações profundas no cotidiano do consumidor, principalmente quando consideramos que o consumo per capita de água potável vem aumentando em todo o mundo. Relatório divulgado pelas Nações Unidas por ocasião da Cúpula Mundial para o Desenvolvimento Sustentável, realizada em Joanesburgo, na África do Sul, em 2002, prevê que no ano 2025 cerca de 4 bilhões de seres humanos (metade da população projetada) sofrerão com a escassez de água.65 A questão da água, embora premente, não é a única pressão ambiental. Para alimentar a população crescente, tem ocorrido a ampliação das áreas agricultáveis, o que implica mais desflorestamento e maiores gastos de água doce (70% da água consumida vai para a irrigação).66
Reportagem publicada pelo Portal Brasil em 17.10.2013 menciona que a produção mundial de pescado, em torno de 19 milhões de toneladas anuais na
64 . O Estado de S. Paulo, 24.10.2002. p. A-18.
65 . Reportagem publicada pela ONU BR em 23.05.2013 menciona que 1,8 bilhão de pessoas estarão
vivendo em países ou regiões com escassez absoluta de água em 2025. (ONU BR. Alertando para
escassez de água doce, ONU pede esforços globais para proteger recursos naturais. Disponível em: [www.onu.org.br/alertando-para-escassez-de-agua-doce-onu-pede-esforcos-globais-para-proteger- recursos-naturais/]. Acesso em 09.05.2014.
53 década de 70, já atingiu 154 milhões de toneladas, das quais 131 milhões foram destinadas ao consumo humano,67 provocando o esgotamento e a sobre- exploração do estoque em níveis preocupantes.
A erosão, por seu turno, não só afeta as necessidades crescentes dos consumidores de alimentos, como é afetada, igualmente, por essas mesmas necessidades. Al Gore, ex-vice-presidente dos Estados Unidos da América e notável ambientalista, chama-nos a atenção para as sequelas negativas que a tecnologia inadequada acarreta para a sustentabilidade do mundo natural na produção de alimentos e na de outros bens. Diz o estadista norte-americano: “Não raro, quando procuramos aumentar artificialmente nossa capacidade de obter o que precisamos da Terra, fazemos isso em prejuízo de sua capacidade de prover naturalmente o que estamos buscando. Por exemplo, quando aumentamos a produção agrícola com o uso de tecnologias que contribuem para a erosão das terras aráveis, diminuímos a capacidade do solo de produzir mais alimentos no futuro. E frequentemente deixamos de levar em conta o impacto de nossa alquimia tecnológica sobre os processos naturais. Assim, quando fabricamos milhões de motores de combustão interna e, nesse processo, automatizamos a conversão de oxigênio em CO2 e outros gases, interferimos com a capacidade da
Terra de se livrar das impurezas que são normalmente eliminadas da atmosfera”.68
A devastação florestal, por igual, está diretamente relacionada com certo modelo de consumo que prioriza a utilização de madeira. Basta lembrarmos que 1,7 bilhão de metros cúbicos de madeira tem sido coletados para outros fins que não a combustão.
Ajuntemos, por fim, a esses poucos mas significativos exemplos, a produção de lixo, tóxico ou não, que cresce na proporção do consumo de bens ou produtos e serviços, fatores estes que tendem a aumentar de maneira imprevisível, particularmente nas regiões metropolitanas e nos grandes centros urbanos.
As necessidades de consumo, tanto as reais quanto as chamadas suntuárias ou de consumo conspícuo, nunca pararam de crescer. Na verdade, pela paroxística
67 . Portal Brasil. Consumo de pescado no Brasil aumenta 23,7% em dois anos. Disponível em:
[www.brasil.gov.br/economia-e-emprego/2013/10/consumo-de-pescado-no-brasil-aumenta-23-7- em-dois-anos]. Acesso em 09.05.2014.
54 propaganda da economia dita “moderna”, criam-se sempre novas necessidades sob os mais variados pretextos. Daí a assertiva de que recursos finitos não podem atender a demandas infinitas. A propósito, o cientista e ambientalista francês Michel Lamy, da Universidade de Bordéus, escreveu um interessante livro sobre essa infinidade de demandas que acabam por incorporar-se ao ser humano, como extensão do seu organismo.69
Vem a propósito uma indagação: terá o consumidor, pelo simples fato de ser consumidor, um vínculo com o meio ambiente e a sustentabilidade? Não há dúvida de que este vínculo existe e pode facilmente ser identificado no bojo dos processos de produção-consumo e consumo-produção. Nesses processos encontram-se ações e reações em cadeia, com grande significação nas interações homem-mundo natural ou, se se preferir, nas relações sociedade-meio ambiente. As demandas dos indivíduos e a sociedade vão ser direcionadas para o mundo natural por meio dos processos e sistemas cósmicos: daí, o impacto que elas provocam sobre a sustentabilidade com o binômio produção-consumo. Assim, este assunto é tema também para muitas outras discussões.
No momento, importa tão somente lembrar que, sob a rubrica “interesses difusos” ou “interesses transindividuais” ou “interesses coletivos”, há uma associação mais do que implícita entre consumo e meio ambiente. Tanto a proteção do meio ambiente como a proteção do consumidor são princípios da ordem econômica, nos termos da Constituição Federal de 1988.70 Isso quer dizer que, no plano constitucional, as duas esferas de preocupação (meio ambiente e consumidor) estão igualmente situadas, e funcionam como limites à livre iniciativa, uma vez que a ordem econômica se direciona para a ordem social, como afirmam os requisitos jurídicos e o ordenamento econômico-social a partir da Carta Magna.
O legislador constitucional, entretanto, deu, inegavelmente, mais espaço à proteção do meio ambiente – há todo um capítulo específico para a tutela
69 . As camadas ecológicas do homem. Lisboa: Instituto Piaget, 1996.
70 . “Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa,
tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios: (...); V – defesa do consumidor;
55 ambiental,71 sendo o consumidor agraciado somente com uma menção no art. 5.º, XXXII, do Capítulo I (Dos direitos e deveres individuais e coletivos) do Título II (Dos direitos e garantias fundamentais).72 Com efeito, o meio ambiente, como patrimônio da coletividade, é considerado como indisponível. Por essa razão o consumidor, em suas opções, deve escolher produtos e serviços que respeitam a qualidade ambiental e integridade mínima dos ecossistemas, isto é, nos limites estabelecidos pelas Ciências da Natureza e pelos dispositivos das normas legais e do Direito do Ambiente.
Apesar de o meio ambiente contar com capítulo próprio, o impacto concreto da Constituição Federal foi muito maior na esfera do consumidor, pois, por força do art. 48 do ADCT (Ato das Disposições Constitucionais Transitórias),73 foi elaborado e promulgado o Código de Defesa do Consumidor (Lei 8.078, de 11.09.1990), hoje regrando as relações de consumo no nosso País.