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4- Sunulan Hizmetler
Segundo Almeida (2002, p. 48), é “o olhar de Sinha Vitória que lhe garante a superioridade junto à autoconsciência do marido, que, aliás, reconhece essa ascendência da visão da mulher sobre a sua própria”. Assim, perseguindo essa articulação, neste primeiro subitem do capítulo, buscaremos analisar como se dão, a partir desse primeiro olhar, os dizeres reais ou virtuais de Sinha Vitória com Fabiano na tentativa de apreender esse raciocínio projetivo da mulher que Fabiano não pode alcançar, mas que, apesar disso, é a todo o momento estimulado para tal.
Já de início observamos que a postura da mulher não se prende, nem se estanca como o dos demais, apesar das dores. Ao contrário, os sofrimentos servem- lhe de trampolim para buscar novos espaços, criando gradativamente por intermédio do seu discurso um espaço ideal que supera a secura do sertão, responsável pelas coisas ruins que se passam na família. Exemplo interessante é quando esse espaço ideal se materializa na imagem da cama de lastro “igual à de seu Tomás da Bolandeira”:
Sinha Vitória tinha amanhecido nos seus azeites. Fora de propósito, dissera ao marido umas inconveniências a respeito da cama de varas. Fabiano, que não esperava semelhante desatino, apenas grunhia: - “Hum! Hum!” (...) Pensou de novo na cama de varas e mentalmente xingou Fabiano. Dormiam naquilo, tinham-se acostumado, mas seria mais agradável dormirem numa cama de lastro de couro, como outras pessoas (VS, p. 40).
Não havia homem que roncasse tanto. Era bom levantar-se e procurar uma vara para substituir aquele amaldiçoado que não deixava uma pessoa virar-se. Por que não tinham removido aquela vara incomoda? Suspirou. Não conseguiam tomar solução.
Paciência. Era melhor esquecer o nó e pensar numa cama igual à de seu Tomás da Bolandeira (VS, p.45).
De imediato contemplamos a voz do narrador que traz à tona o estado de espírito de Sinha Vitória, sua indignação (“dissera umas inconveniências”; “mentalmente xingou Fabiano”) e inconformismo (“...tinham-se acostumado, mas seria mais agradável...”; “Por que não tinham removido aquela vara incômoda? Suspirou”.). Mas, ao lado dessas atitudes que a levam a pensar em uma solução que a ajude a romper com a indiferença de Fabiano e a livrar-se do nó, encontra-se sua antítese: a atitude conformista relacionada à paciência da personagem frente às adversidades. Com essa postura, Sinha Vitória toma como seu o pensamento coletivo: “o que não tem solução, solucionado está”, o que evidencia, nos fragmentos que se constroem na alternância entre os discursos direto e indireto livre, o ressoar do ponto de vista de Sinha Vitória que é, ao mesmo tempo, seu e a representação ideológica dos menos favorecidos. Sua voz é, nessa instância, coletiva.
Entretanto, cabe salientar que ao manter os caracteres como as interrogações, exclamações, repetições entre outros, visando estilizar a maneira dos personagens exprimirem o efeito vivido e concreto na enunciação, o discurso indireto livre possibilita a recuperação da reação de Sinha Vitória e seus familiares frente à realidade que os cercam. Isso ocorre porque tais caracteres marcam o processo mental dos personagens, cujo ápice é, quase sempre, expresso por intermédio do discurso direto.
As palavras lançadas pelo narrador por meio dos recursos mencionados evidenciam a capacidade de Sinha Vitória de dominar o processo de simbolização, afinal, o que se vê é a construção de uma fina mediação entre o espaço real e
aquele desejado por meio da imagem da cama, que, portanto, está atuando como metáfora para uma vida melhor como ela imagina ser a vida de Seu Tomás da Bolandeira, que, apesar dos desajustes da seca, é um homem de sábias palavras. Daí a ênfase em possuir uma cama igual à dele, pois, quem sabe assim poderá sonhar também os seus sonhos.
Importa-nos perceber que, além de implicar estabilidade, a cama sintetiza a busca que se estampa no olhar projetivo de Sinha Vitória: a dignidade da vida. Afinal, não é natural aos seres humanos viverem na miséria sempre fugindo como animais. Imbuída, portanto, de uma visão fundamentada nas experiências vividas no passado e, ao mesmo tempo, inconformada com a realidade na qual se encontra juntamente com a família, lança inúmeros questionamentos ao marido:
Por que não haveriam de ser gente, possuir uma cama igual á de seu Tomás da bolandeira? Fabiano franziu a testa: lá vinham os despropósitos. Sinha Vitória insistiu e dominou-o, Por que haveriam de se sempre desgraçados, fugindo no mato como bichos? Com certeza existiam no mundo coisas extraordinárias. Podiam viver escondidos, como bichos? Fabiano respondeu que não podiam. (VS, p.123).
Diante dos questionamentos e da capacidade de envolver e “dominar” seu esposo9, podemos inferir que o olhar de Sinha Vitória irradia-se, expande-se por
intermédio dos olhos de Fabiano. Já Fabiano não consegue acompanhar esse raciocínio porque para ele a cama é somente uma cama e nada mais: objeto desprovido da alma do sentido. Porém, o “poder” de penetrar continuamente no pensamento dele, leva-o gradativamente a um olhar diferenciado, ou seja, a perceber a realidade que o circunda.
Daí compreende-se porque Fabiano põe-se frequentemente “(...) a rondar indeciso, pedindo com os olhos a opinião da mulher” (VS, p. 77), como nos exemplos que seguem:
Pensou na mulher, nos filhos e na cachorrinha (VS, p. 30).
E Fabiano se aperreava por causa dela, dos filhos e da cachorra (VS, p. 34).
O que lhe amolecia o corpo era a lembrança da mulher e dos filhos (VS, p. 37).
Precisava consultar Sinha Vitória, combinar a viagem, livrar-se das arribações, explicar-se, convencer-se de que não praticara injustiça matando a cachorra (VS, p. 115).
Neles, se revela a importância da presença de Sinha Vitória no pensamento de Fabiano, o que o levará a fazer da palavra da esposa sua própria palavra. Desse modo, Fabiano precisa ser continuamente motivado pela presença discursiva da esposa – figura que o habita enquanto palavra e que preenche plenamente sua consciência. Nesse sentido, é possível dizer que o discurso de Sinha Vitória se faz imagem de linguagem e entra em confronto com os pensamentos de Fabiano, ajudando-o a escolher entre posições. Essa força discursiva da mulher, cuja intensidade é capaz de direcionar, não apenas os pensamentos, mas até as próprias ações de Fabiano, pode ser observada abaixo:
Levantou-se, foi até a porta de uma bodega (...) como havia muitas pessoas encostadas ao balcão, recuou. Não gostava de se ver no meio do povo. Às vezes dizia alguma coisa sem intenção de ofender, entendiam outra, e lá vinham questões. Perigoso entrar na bodega. O único vivente que o compreendia era a mulher. Nem
Quando o narrador lança por meio do discurso indireto o pensamento do sertanejo: “Perigoso entrar na bodega”, este se nos apresenta como o soar, não da fala porque sabemos o quanto é reduzida a comunicação vocal entre eles, mas do olhar de Sinha Vitória advertindo o esposo acerca das situações constrangedoras que poderão envolvê-lo.
Essa força persuasiva do “olhar que diz” da personagem feminina é marcante num trecho extraído do capítulo Fuga:
Em que estariam pensando? Zumbiu Sinha Vitória. Fabiano estranhou a pergunta e rosnou uma objeção. Menino é bicho miúdo, não pensa. Mas Sinha Vitória renovou a pergunta – e a certeza do marido abalou-se. Ela devia ter razão. Tinha sempre razão. Agora desejava saber que iriam fazer os filhos quando crescessem.
– Vaquejar, opinou Fabiano.
Sinha Vitória com uma careta enjoada, balançou a cabeça negativamente, arriscando-se a derrubar o baú de folha. Nossa Senhora os livrasse de semelhante desgraça. Vaquejar, que idéia! (VS, p. 122).
É preciso notar a habilidade estilística de se mesclar os três tipos de discurso no fragmento: inicia-se a narração com a pergunta de Sinha Vitória (discurso direto); na seqüência passa para o indireto (“Fabiano estranhou a pergunta e rosnou uma objeção.”), com sutileza insere o indireto livre, por meio da objeção emitida por Fabiano (“Menino é bicho miúdo, não pensa.”), ao referir-se à indagação de Sinha Vitória e à reação do marido, retoma o indireto (“Mas Sinha Vitória renovou a pergunta – e a certeza do marido abalou-se.”) e com Fabiano ruminando sobre a capacidade de raciocínio da mulher (“Ela devia ter razão. Tinha sempre razão.”), volta-se novamente ao discurso indireto livre. Se olharmos atentamente, veremos
que o discurso indireto puro reproduz o questionamento de Sinha Vitória sobre o futuro das crianças (“Agora desejava saber que iriam fazer os filhos quando crescessem.”), mas a resposta de Fabiano, introduzida por um verbo de opinião e estruturada em discurso direto, (“– Vaquejar, opinou Fabiano.”) será prontamente contestada pela mulher:
Sinha Vitória, com uma careta enjoada, balançou a cabeça negativamente, arriscando-se a derrubar o baú de folha. Nossa Senhora os livrasse de semelhante desgraça. Vaquejar, que idéia! Chegariam a uma terra distante, esqueceriam a catinga onde havia montes baixos, cascalho, rios secos, espinho, urubus, bichos morrendo, gente morrendo. Não voltariam nunca mais, resistiriam à saudade que ataca os sertanejos na mata. Então eles eram bois para morrer tristes por falta de espinhos? Fixar-se-iam muito longe, adotariam costumes diferentes. Fabiano ouviu os sonhos da mulher, deslumbrado, relaxou os músculos, e o saco da comida escorregou- lhe no ombro. (VS, p. 121-122)
O discurso de Sinha Vitória que, se marca por uma dimensão futurista, que parte da retomada do espaço real, do qual querem fugir (“esqueceriam a catinga”) e do questionamento das condições em que vivem, cria simultaneamente um espaço imaginário, a partir do momento em que consegue produzir uma simbologia que se desenvolve num movimento de aproximação e distanciamento das personagens: diz a mulher “Então eles eram bois para morrer tristes por falta de espinhos?” Aqui a analogia entre seres humanos e o animal boi junto à outra sugerida entre espinho e adversidade exige o domínio de um pensamento complexo e abstrato que Fabiano não tem. O mais interessante é que essa aproximação homem-animal serve justamente para distanciar essas duas imagens, tornando-as independentes e desassociáveis: é impossível ser como o boi quando se é homem, é o que Sinha
Vitória está dizendo. E Fabiano mesmo não compreendendo consegue sentir o efeito poético nessas palavras, nascido de um olhar que olha a coisa e vê outra em seu lugar. O ludismo provocado pelas analogias fundadas no raciocínio abstrato evoca a sensação física em Fabiano: “deslumbrado, relaxou os músculos, e o saco da comida escorregou-lhe no ombro”.
A partir dessa constatação, percebemos que os questionamentos de Sinha Vitória transportam Fabiano para além da realidade, para um lugar desconhecido, mas sempre melhor do que aquele em que se encontra. Com um olhar mais atento é capaz de enxergar as transformações que haviam sofrido:
Não poderiam voltar a ser o que já tinham sido? Sinha Vitória fez a pergunta, Fabiano matutou e andou bem meia légua sem sentir. A princípio quis responder que evidentemente eles eram o que tinham sido; depois achou que estavam mudados (...). Eram outros, para
bem dizer. Sinha Vitória insistiu. Não seria bom tornarem a viver
como tinham vivido, muito longe? (VS, p.121).
Tomando como escopo a atitude reflexiva de Fabiano (matutou e andou uma grande distância sem perceber) ousamos dizer que a transformação vivenciada pela família dos retirantes é comparável a uma lenta caminhada. Esta, apesar de imperceptível, isto é, de ocorrer sem que eles racionalmente se deem conta da mudança, o que se evidencia na expressão “sem sentir”, na verdade confirma a presença do elemento físico-sensorial na narrativa graciliânica, pois esse sentir ou não-sentir a que eles se referem é muito mais um sentir de base racional, ou ainda, um não ter se dado conta racionalmente da transformação.
Estariam realmente mudados? Certamente, pois “se eram o que tinham sido”, jamais se lançariam rumo ao desconhecido. Assim, não obstante o medo e a
instabilidade provocada pelo sentir racional, Sinha Vitória e Fabiano são capazes de intuir a possibilidade de um futuro promissor. Lembrando que tal mudança não implica a ruptura com os princípios familiares, por isso o desejo de ser outro sendo o mesmo, num lugar distante, mas levando consigo as lembranças do sertão.
Assim, o vínculo estabelecido entre Sinha Vitória e Fabiano, por meio do parco diálogo, dá margem à estruturação de uma nova perspectiva calcada num pensamento que pressupõe, prevê, entrevê, porém não foge à realidade, uma vez que a capacidade de observação e organização rege os atos de Sinha Vitória, dando a ela o “poder” de realizar associações entre eventos aparentemente divergentes. Tal ocorre também em “O mundo coberto de penas”:
O mulungu do bebedouro cobria-se de arribações. Mau sinal, provavelmente o sertão ia pegar fogo. Vinham em bandos, arranchavam-se nas árvores da beira do rio, descansavam, bebiam e, como em redor não havia comida, seguiam viagem para o Sul. O casal agoniado sonhava desgraças. O sol chupava os poços, e aquelas excomungadas levavam o resto da água, queriam matar o gado. Sinha Vitória falou assim, mas Fabiano resmungou, franziu a testa, achando a frase extravagante. Aves matarem bois e cabras, que lembrança! Olhou a mulher, desconfiado, julgou que ela estivesse tresvariando (...) impossível compreender a intenção da mulher. Não atinava. Um bicho tão pequeno! Achou a coisa obscura e desistiu de aprofundá-la (...) Como tinha Sinha Vitória descoberto aquilo. Difícil. Ele, Fabiano, espremendo os miolos, não diria semelhante frase (VS, p.115, 121).
Nesse episódio, é possível observar a singularidade do raciocínio/olhar de Sinha Vitória, este, num primeiro momento, incompreensível aos olhos de Fabiano. A sutileza do seu olhar “jogando” com o palpável a leva a enxergar, no presente, a
manifestação do invisível. Porém, mais do que um olhar sobre o fenômeno, o que se tem aqui é a transformação desse olhar em um dizer novo e poético: “O sol chupava os poços, e aquelas excomungadas levavam o resto da água, queriam matar o gado. Sinha Vitória falou assim (...)”. Por meio de um jogo de causa e efeito, Sinha Vitória personifica sol e arribações, atribuindo-lhes vontade própria. Ao humanizá-los a mulher tem quem culpar o sol e as arribações que matam o gado e, dessa vez, é formidável o jogo simbólico que, se na passagem referida acima, a ideia era a de distanciá-los do gado, nesta o foco é justamente o oposto: a união indissolúvel entre os viventes e o animal, submetidos à vontade alheia.
Analisando a potencialidade imaginativa e lógica de Sinha Vitória, nessa parte da narrativa, Oliveira nos diz que:
Esse é um pensamento complexo, pois exige compreender, para além da contigüidade (bebedouro + aves = aves buscam água) do visível, a substituição aves/seca feita com base na semelhança que as une desde dentro, no invisível. Sinha Vitória, ao fazer a substituição, exercita a operação que a habilita a ser sujeito da língua que usa, isto é, saber que entre a palavra e as coisas não há identidade, mas mediação substitutiva, de modo que “estar no lugar de” é diferente de ser a coisa mesma. (2004)
Se atentarmos para essa passagem das arribações, veremos que os dizeres de Sinha Vitória são ampliados como eco no momento em que Fabiano descobre a significação do discurso “profético” da esposa:
Como era que Sinha Vitória tinha dito? A frase dela tornou ao espírito de Fabiano e logo a significação apareceu. As arribações bebiam a água. Bem. O gado curtia sede e morria. Muito bem. As arribações matavam o gado. Estava certo. Matutando, a gente via
que era assim, mas Sinha Vitória largava tiradas embaraçosas. Agora Fabiano percebia o que ela queria dizer. Esqueceu a infelicidade próxima, riu-se encantado com a esperteza de Sinha Vitória. Uma pessoa como aquela valia ouro. Tinha idéias, sim senhor, tinha muita coisa no miolo. Nas situações difíceis encontrava saída. Então! Descobrir que as arribações matavam o gado! E matavam. Aquela hora o mulungu do bebedouro, sem folhas e sem flores, uma garrancharia pelada, enfeitava-se de penas. (VS, p.110).
Quando se pensa na ampliação do olhar em que o conhecimento se expande mediante as experiências vividas, na verdade reforçamos a idéia de que a visão de Sinha Vitória vai se concretizando em correlação com outros olhares (Fabiano, narrador, autor), ainda que rústicos. No caso do fragmento acima, a expansão do olhar dela ocorre no instante em que, indiretamente, “força” Fabiano a enxergar o invisível, isto é, no momento em que suas palavras adquirem sentido para o vaqueiro. Percebe-se, no processo de decodificação desenvolvido por Fabiano por meio de “recortes” frasais, a capacidade intelectiva e poética da mulher em condensar tantas percepções.
Talvez seja mesmo essa tendência ao poético que, diferentemente de todas as demais personagens, faz de Sinha Vitória um exemplo de resistência frente às desgraças. Isso pode ser verificado quando, ao perceber o futuro doloroso, reflexo daquele vivido no capítulo Mudança, a personagem parece esmorecer: “Sinha Vitória fraquejou, (...) sentia um aperto na garganta e não poderia explicar-se. (...) desamparada e miúda na solidão, necessitava um apoio, alguém que lhe desse coragem” (VS, p. 120). Porém, a fragilidade é logo substituída pela coragem: reanimou-se e libertando-se dos pensamentos tristes, procurou conversar com o marido porque é nas palavras que ela encontra o ressoar de uma alteridade que a
lança à frente. Ou seja, são suas próprias palavras, vindas de um lugar desconhecido também para ela, que a animam na caminhada.
A partir de então, observamos no capítulo final – Fuga – a expansão da imagem de Sinha Vitória, que, diante daquela situação que parecia não ter saída, apresenta-se como pivô que reverte o ciclo: seca-fuga-seca, por intermédio do seu olhar projetivo e das palavras que possibilitam o compartilhamento desse olhar entre os seus:
Tentou libertar-se dos pensamentos tristes e conversar com o marido por monossílabos, [temia que] não poderia explicar-se [mas era] indispensável ouvir qualquer som, [por isso], Sinha Vitória precisava falar: se ficasse calada seria como um pé de mandacaru, secando, morrendo. Chegou-se a Fabiano, amparou-o e amparou- se. Falou no passado confundindo-o com o futuro (VS, p. 119).
Essas palavras são nutridoras da esperança, oferecendo à família novas perspectivas que mudarão suas vidas para sempre: “Chegarão a uma terra distante; adotarão costumes diferentes” (VS, p. 122). É possível observar também que, falando no e do passado, Sinha Vitória lança o marido em projeções futuras, a ponto de confundi-lo. Agora, no lugar de grunhidos e gestos, a sua fala ganha força e concretude.
Portanto, se há um movimento cíclico no fenômeno da seca, que retorna ao final, o mesmo não podemos dizer quanto a Fabiano e, especialmente, Sinha Vitória, que se transforma ao longo da narrativa:
“Fuga” demonstra que as personagens já não são as mesmas do início; transformaram-se na caminhada e é justamente na
articulação da fala de Sinha Vitória, agora no domínio de uma palavra autoconsciente e reveladora de um pensamento coeso, que se marca a distância de seus “sons e interjeições guturais” do início. (OLIVEIRA, 2004, p. 08)