3.GEREÇ VE YÖNTEM
4.3. Subjektif Analiz
De acordo com Paim (2003), modelo de atenção à saúde é uma dada forma de combinar técnicas e tecnologias para resolver problemas e atender necessidades de saúde individuais e coletivas. É uma razão de ser, uma racionalidade, uma espécie de "lógica" que orienta a ação, uma maneira de organizar os meios de trabalho (saberes e instrumentos) utilizados nas práticas ou processos de trabalho em saúde. O modelo de atenção à saúde aponta para um determinado modo de dispor os meios técnico-centíficos existentes para intervir sobre riscos e danos à saúde.
Segundo o referido autor, no início do século XX, no Brasil, o modelo de saúde vigente era denominado de sanitarista, uma vez que se preocupava principalmente com a erradicação/controle de doenças que poderiam prejudicar a exportação de produtos brasileiros, que naquela época era predominantemente do café. Assim, fazia-se necessário o saneamento dos portos por onde as exportações passavam. Esse modelo enfrentava os problemas de saúde da população mediante campanhas (vacinação, combate às epidemias, reidratação oral. etc.) e programas especiais (controle de tuberculose e da hanseníase, saúde da criança, saúde da mulher, saúde mental, etc.) (PAIM, 2003).
Ainda de acordo com Paim (2003), as campanhas de saúde pública têm um caráter geralmente temporário, requerem uma grande mobilização de recursos e dispõem de uma administração centralizada. Muitas vezes aparentam uma operação militar visando ao combate de uma epidemia (cólera, dengue), ao controle de determinado agravo à saúde (acidente de trabalho), ou ao esclarecimento e à informação da comunidade (AIDS).
Outro modelo de atenção à saúde existente, que ainda predomina no Brasil e que Paim (2003) relata, é o modelo médico-assistencial privatista. Ele é o mais conhecido e prestigiado em nosso país de acordo com o autor, apesar de não contemplar o conjunto dos problemas de saúde de toda a população, e está voltado para os indivíduos que, na dependência do seu grau de conhecimento e/ou sofrimento, procuram os serviços de saúde por "livre iniciativa". Consequentemente, os indivíduos e os grupos populacionais que não percebam a existência de problemas de saúde ou que não estejam alertas para as medidas de prevenção deixarão de ser alcançados pelo sistema de saúde, já que não constituiriam uma "demanda espontânea".
Para Bravo (2001), a assistência à saúde no Brasil se iniciou em 1923 com a criação das Caixas de Aposentadorias e Pensões (CAPs), as quais eram financiadas pela União, pelos empregadores e empregados. Elas eram organizadas por empresas, de modo que só os grandes estabelecimentos tinham condições de mantê-las. O presidente das mesmas era nomeado pelo presidente da República e os patrões e empregados participavam paritariamente da
administração. Os benefícios eram proporcionais às contribuições e eram previstos: assistência médica-curativa e fornecimento de medicamentos; aposentadoria por tempo de serviço, velhice e invalidez; pensão para os dependentes; e auxílio funeral.
Entretanto, Bravo (2001) acrescenta que com os CAPs apenas um pequeno número de categorias profissionais era beneficiado. Dessa forma, surgiram na década de 30 os Institutos de Aposentadorias e Pensões (IAPs), os quais pretendiam estender para um número maior de categorias de assalariados urbanos os seus benefícios. Na década de 50 a estrutura de atendimento hospitalar de natureza privada com fins lucrativos estava montada e apontava na direção da formação das empresas médicas.
Bravo (2001) acrescenta ainda que a Política Nacional de Saúde que se esboçava desde 1930 foi consolidada no período de 1945-1950 e que a situação da saúde da população, no período de 1945 a 1964, não conseguiu eliminar o quadro de doenças infecciosas e parasitárias, as elevadas taxas de morbidade e mortalidade infantil, como também a mortalidade geral.
Além disso, a autora acrescenta que, em face da “questão social” no período 1964/1974, o Estado utilizou para sua intervenção o binômio repressão-assistência, sendo a política assistencial ampliada, burocratizada e modernizada pela máquina estatal com a finalidade de aumentar o poder de regulação sobre a sociedade, suavizar as tensões sociais e conseguir legitimidade para o regime, como também para servir de mecanismo de acumulação do capital (BRAVO, 2001).
A política social, no período de 1974 a 1979, relata Bravo (2001), teve por objetivo obter maior efetividade no enfrentamento da “questão social”, a fim de canalizar as reivindicações e pressões populares. A política nacional de saúde enfrentou permanente tensão entre a ampliação dos serviços, a disponibilidade de recursos financeiros, os interesses advindos das conexões burocráticas entre os setores estatal e empresarial médico e a emergência do movimento sanitário.
Guzmán-Urrea (2009) relata que, no final dos anos de 1980 e início dos anos 90, muitos países ocidentais iniciaram o processo de reforma sanitária conhecido como terceira geração das reformas do setor saúde, que na América Latina alcançou intensidade e características diferenciadas internamente e em relação aos países europeus.
Silva e Caldeira (2010) acrescentam que, no Brasil, o sistema de saúde carecia de mudanças profundas e radicais, pois era historicamente marcado por um modelo de assistência curativista e hospitalocêntrico, centrado na consulta médica.
Para Mendes (1996), o movimento da Reforma Sanitária Brasileira foi pautado em uma mobilização reivindicatória alicerçada na necessidade popular de reconstruir uma estrutura normativa que atendesse às reais necessidades da população nas questões de saúde como direito de cidadania.
Nesse cenário, o autor afirma que nasceu uma concepção integradora, alvo de grandes revoluções sob a ótica da compreensão holística do processo saúde/doença. Para ele, a luta da reforma sanitária foi responsável pela criação do Sistema Único de Saúde (SUS), como fruto de um processo social e político que requer um ambiente democrático para a sua construção na arena sanitária e cuja implantação tem nítido caráter de mudança cultural. Embasado a partir de uma dimensão ideológica, ele é alicerçado em uma concepção ampliada do cuidado em saúde do indivíduo, família e da comunidade (MENDES, 1996).
Santos (2008) afirma que foi assim que, após a histórica 8ª Conferência Nacional de Saúde (CNS) ocorrida em 1986 em Brasília – Distrito Federal, a Comissão Nacional da Reforma Sanitária, composta por representantes de todos os segmentos públicos, privados, sociais e partidários envolvidos com a saúde e reconhecida por portaria interministerial, debateu por mais de um ano a formulação da proposta do que viria a ser o SUS, e que se transformou na base da discussão e aprovação na Assembleia Nacional Constituinte.
Para Escorel et al. (2007), a implantação do Sistema Único de Saúde no Brasil a partir da década de 90 representou uma importante mudança no padrão historicamente consolidado de organização dos serviços de saúde no país. Financiado com recursos fiscais, o SUS fundamentou-se em três princípios básicos: universalidade do acesso aos serviços em todos os níveis de assistência para todos os cidadãos brasileiros; descentralização em direção aos estados e municípios, com redefinição das atribuições e responsabilidades dos três níveis de governo; participação popular na definição da política de saúde em cada nível de governo, bem como no acompanhamento de sua execução.
As autoras acrescentam que, na segunda metade da década de 90, o processo de implantação do SUS caminhou no sentido da adoção de uma série de medidas governamentais voltadas para o fortalecimento da atenção básica de saúde, entendida pelo Ministério da Saúde (MS) como um conjunto de ações, de caráter individual ou coletivo, situadas no primeiro nível de atenção dos sistemas de saúde, voltadas para a promoção da saúde, a prevenção de agravos, o tratamento de doenças e a reabilitação da saúde (ESCOREL et al. 2007).
Santos (2008) afirma que o SUS transformou-se no maior projeto público de inclusão social em menos de duas décadas: 110 milhões de pessoas atendidas por agentes comunitários de saúde em 95% dos municípios e 87 milhões atendidos por 27 mil equipes de saúde de
família. Em 2007: 2,7 bilhões de procedimentos ambulatoriais, 610 milhões de consultas, 10,8 milhões de internações, 212 milhões de atendimentos odontológicos, 403 milhões de exames laboratoriais, 2,1 milhões de partos, 13,4 milhões de ultrassons, tomografias e ressonâncias, 55 milhões de seções de fisioterapia, 23 milhões de ações de vigilância sanitária, 150 milhões de vacinas, 12 mil transplantes, 3,1 milhões de cirurgias, 215 mil cirurgias cardíacas, 9 milhões de seções de radioquimioterapia, 9,7 milhões de seções de hemodiálise e o controle mais avançado da AIDS no terceiro mundo.
Desse modo, de acordo com Teixeira e Costa (2003), o SUS faz parte do novo modelo de atenção à saúde vigente em nosso país, o modelo da Vigilância da Saúde. Ele articula os vários níveis de prevenção e os vários níveis de organização da atenção à saúde, enfatizando o desenvolvimento de um amplo espectro de ações que abarcam desde a formulação e implementação de políticas intersetoriais e ações sociais para a melhoria de condições de vida e saúde, às ações de vigilância sanitária, ambiental e epidemiológica, que tomam como objeto riscos e danos, às ações programáticas de controle de doenças e atenção a grupos prioritários, até a assistência ambulatorial, hospitalar, laboratorial e farmacêutica a indivíduos que necessitam de cuidados sejam preventivos, recuperadores ou reabilitadores da saúde.
As autoras enfatizam, ainda, que a implementação da Vigilância da Saúde é um processo complexo que articula o “enfoque populacional” (promoção) com o “enfoque de risco” (proteção) e o “enfoque clínico” (assistência), constituindo-se de fato em uma forma de pensar e de agir em saúde, ou seja, em uma referência para a formulação de propostas e em uma estratégia de organização de um conjunto heterogêneo de políticas e práticas que assumem configurações específicas de acordo com a situação de saúde das populações em cada país, estado ou município (TEIXEIRA; COSTA, 2003).
Em um protocolo de atenção à hanseníase realizado em 1993 pela Prefeitura de Curitiba foi dado ênfase à vigilância da saúde em hanseníase, enfatizando-se que a vigilância dos contatos de hanseníase deve ser realizada, visto que a transmissão da hanseníase ocorre basicamente no contato íntimo e prolongado entre moradores da mesma residência. A vigilância e o tratamento adequado se constituem na principal medida para o controle da hanseníase (CURITIBA, 1993).
Para vigilância dos contatos domiciliares se deve: considerar contato domiciliar todas as pessoas que moraram com o paciente nos últimos cinco anos; agendar consulta médica para exame dermatoneurológico em todos os contatos; para contato de multibacilar manter vigilância por cinco anos, com revisões anuais e liberar o indivíduo após os cinco anos, com orientações educativas necessárias; para o contato de paucibacilar, após o primeiro exame, os
contatos deverão ser liberados com orientações educativas necessárias; deve ser realizada a vacinação BCG, duas doses de 0,5ml, com intervalo mínimo de seis meses para todos os contatos, de todas as formas clínicas. Deve-se considerar marca vacinal prévia independente do tempo de aplicação (CURITIBA, 1993).