A Professora 1 relatou que a turma de sete anos com que trabalhava assim como todo o Ciclo I (6, 7 e 8 anos) sofria muita pressão da direção da escola quanto ao processo ensino-aprendizagem, salientando que tal fato ocorria devido a um baixo desempenho que os alunos do Ciclo II (9, 10 e 11 anos) tiveram em uma avaliação institucional realizada no ano anterior, em sua escola (2004). Assim, resolveram centrar esforços no Ciclo anterior visando sanar as dificuldades.
Até a questão do número de alunos em sala era apontada como fonte de pressão:
Professora 1 – Que nem eu estou com vinte e dois, então qual é a cartada: “Você com vinte e dois alunos não consegue dar conta?”
Professora 2 – Meu Deus (Transcrição do 26º encontro – 01/03/2005).
A questão da burocracia também foi apontada, com destaque para a questão da falta de tempo para a realização. Foi indicada a elaboração de diversos tipos de planejamentos e de semanário:
Professora 1 – Agora inventaram... Ontem teve uma reunião, a [AEP] participou, a vice, a coordenadora e as quatro meninas de sete. [...] Agora é assim, nós temos que fazer toda... Assim, um conteúdo. Nós temos que fazer objetivo, procedência, metodologia, recursos por aula, por assunto, de cada matéria...
Professora 2 – Gente, o que que isso?
Professora 1 – Para constar, sabe, no nosso... Tem que ter semanário, tem que estar assim... Então é muita burocracia, eu acho que sem necessidade.
Professora 2 – Exatamente.
Professora 1 – Nós fizemos um outro. Está pronto o meu plano de aula, o plano de ensino do primeiro trimestre. Está tudo lá e agora tem que fazer, assim, semanal ou então assim, um tema, duas aulas, então objetivo, metodologia, procedência, recurso... Sabe é muita burocracia...
Professora 2 – Toma muito tempo. Não é só burocracia, tem muita coisa apra você montar uma aula. Você não fica em cima de um livro só (Transcrição do 26º encontro – 01/03/2005).
A Professora 1 começou a mostrar-se incomodada com a situação que estava vivenciando a partir do momento em que seu semanário foi avaliado pela equipe diretiva e considerado, descontextualizado. Esse fato ela ficou sabendo por intermédio de outra professora:
Por terceiros. Que o meu semanário e o dessa colega que veio contar... Que o meu e o dela estão descontextualizado. Isso, nós estamos em primeiro de março. Então é uma coisa que está chateando e eu assim... Eu não queria desistir. Então gente, eu tenho que neutralizar, porque eu estou pensando eu e as crianças, que eu estou pegando na mão para ensinar fazer cabeçalho (Transcrição do 26º encontro – 01/03/2005 – Professora 1).
A Professora 1 passou então a se cobrar constantemente, salientando que sua sala não estava rendendo e que tem medo de desmotivar os alunos alfabéticos:
Continuam matracas, não está rendendo Eliza. O que eu planejo para o dia, para semana e depois para o dia, eu não estou dando conta de dar. Sabe, eu perco muito tempo. Sabe, assim? Aí! Hoje eu estou meio para ba..., meio depre. (risos)
Eu já mudei mil vezes. Agora voltou a sentar em grupo. Então eu tenho falado do trabalho em grupo, para os coleguinhas... Se ajudando, né? Eu estou com receio de detonar os alfabéticos. Com esse receio. Desmotivar os alfabéticos, sabe? Então, mas tudo bem. Mas eles são muito falantes. Eles não param (Transcrição do 29º encontro – 22/03/2005 – Professora 1).
Analisando a situação vivenciada pela Professora 1, aparentemente ela possui duas dificuldades básicas: lidar com a indisciplina e com o desenvolvimento do conteúdo.
Com relação à indisciplina relata o caso de um aluno que a desestrutura:
Professora 1 - ... eu tenho um aluninho, gente o [...], que me desestrutura tudo, inclusive a professora. (risos) Consegue me desestruturar gente, esse menino. Não faz nada, nada, nada. Não lê, não escreve, ele é assim, silábico com valor, sabe? Mas ele não se interessa em fazer nada. É uma luta. Sabe o que é uma luta? É uma luta. Depois de quase meio dia de aula a coordenadora aparece na minha sala. Aí ele começa a fazer. Ele é malandro, que quando a coordenadora dá uma xuxada ele começa a fazer.
Pesquisadora – E ele fica sem fazer nada e fica tumultuando?
Professora 1 – Ele quer desenhar, ele quer ir ao banheiro, cutuca um e cata a borracha do outro e vai lá perturbar o outro menino, cata não sei... É assim Eliza. O meu calcanhar de Aquiles...
Pesquisadora – É difícil nessa idade um comportamento assim.
Professora 1 - Assim, a disciplina... Porque olha, eu me controlo o máximo assim, para não... Hoje eu tive que dar uns be... Eu não gosto de berrar. Eu não gosto Eliza, mas eu tive que dar uns... Para ver se... Sabe? Impressiona um pouco e eu não gosto de agir dessa forma (Transcrição do 29º encontro – 22/03/2005).
Um período depois a professora relatou que esse aluno foi transferido de classe após decisão do Conselho de Série:
... Eu estou até meio assim. Lembra o [...]? Um menininho que eu achava que precisava bastante de um atendimento psicológico, né? Então, no Conselho, infelizmente ele ainda continuava se negando a fazer as atividades. Ele não avança Eliza, não avança. Eu não tive acho que pulso mesmo, sabe? Tentei cativá-lo, tentei...
Sabe? Tinha momento que sim, ele fazia, me retornava, mas na maioria não e o grupo já estava assim, bastante... Ele estava bem assim, rotulado já. Então não estava sendo bom para ele ficar nesse grupo, que a turma já tinha, sabe? Então um consenso ali, inclusive com o meu também, ele mudou de classe. Ele foi para tarde. Começou hoje. Senti né? Porque nós criamos vínculo com a criança. Queria tanto atender, Eliza. Fazer ele progredir, mas eu não consegui. Em dois meses... Na matemática sim. Ele tem mais interesse, mas na leitura, na escrita... Ele assim: “Não sei, não sei e não sei”. Não fazia (Transcrição do 31º encontro – 17/05/2005).
Se considerar incompetente também passou a ser um sentimento presente na vida da Professora 1:
Minha didática está no chão hoje, está lá no chão Eliza. Tem dia que nós estamos assim, se sentindo incompetente ao máximo (Transcrição do 29º encontro – 22/03/2005 – Professora 1).
A Professora 1 demonstra ter uma ligação muito forte com a Assistente Educacional Pedagógica da sua unidade. Foi ela quem a ajudou, no ano anterior, com sua turma de progressão e parece sempre buscar o aval dessa profissional. Em diversos momentos aponta orientações recebidas por ela:
Professora 1 – ... Então Eliza, eu sei que é também uma adaptação minha enquanto professora de sete anos, mas eu estou um pouquinho apavorada em virtude do rendimento, sabe? Eu queria estar conversando com a AEP, que a AEP eu nem... Sabe, ela está muito atribulada lá, porque eu vou estar apresentando esses cinco e certamente vai ter que entrar com... Só que eu tenho que te... Sabe... Estar fazendo material diferenciado, estar resgatando todo aquele material que eu usava lá na... Pesquisadora – Naquele grupo que vocês estão fazendo das professoras de sete anos não tem espaço para esse tipo de discussão?
Professora 1 – Tem. Até tem, mas assim, nós comentamos tudo, o caso de cada um, mas assim, o início mesmo eu confiaria mais na AEP estar dando uma embasada, para poder, assim, já começar. Na minha classe não tem inclusão, nas outras classes tem inclusão. Já pensou classe de sete anos já com inclusão, gente? Já é um trabalho diferenciado.
Professora 1 – Não seria assim... Não é insegurança, mas assim, uma forma de... Do endosso, né? Porque lá a coisa está feia, né? Lá virou, mexeu, a cabeça rola (risos) (Transcrição do 29º encontro – 22/03/2005).
A situação da Professora 1 realmente se agravou quando participou de uma reunião com a equipe diretiva de sua escola. Foram reuniões individuais feitas com cada professora e com a análise do semanário, caderno de alunos e pasta de atividades. Essa reunião mexeu muito com ela.
Na avaliação da equipe diretiva, segunda a Professora 1, sua turma estava destoando das demais turmas de sete anos. Para a direção, a Professora 1 deveria ter começado logo com o trabalho a partir dos textos, mas a professora dizia não se sentir segura para isso e assim, começou com a noção de fonema, sílaba, palavra e frase. Percebe-se que o impasse está na concepção de alfabetização. A professora sentia-se inexperiente e insegura para trabalhar com textos:
... eu entrei no sete anos, assim, você sabe que eu não tenho experiência, muito menos... Tenho um pouco de experiência do... Mas, muito pouco. É outra coisa. [...]. Bom, perdidinha, né Eliza. Então eu comecei assim, naquela noção de fonema, depois a palavrinha, a sílaba, a palavra, a frase.
[...]
... Só que os outros sete anos destoaram. Foram lá... O meu ficou para trás. Aí pela avaliação dela já teria que te... Já ter entrado com texto, com produção de texto, o tal do método global. Só que como que eu ía fazer se eu não tinha segurança Eliza e não tenho com quem desabafar. Então eu me vi assim... Olha, Eliza, foi muito massacrante. Eles não me conheciam, eu não os conhecia. Eu achei que eles vinham... Pelas falas, pelas avaliações, um grupinho assim... Mas quando eu peguei eu vi que não era assim tão cor de rosa (Transcrição do 31º encontro – 17/05/2005 – Professora 1).
Após essa reunião em que recebeu a orientação para rever seu planejamento e iniciar o trabalho com textos, a professora disse que já estava tudo pronto, que selecionou os textos e o que quer trabalhar. Embora destaque o trabalho com textos, o ensino tradicional parece continuar norteando seu trabalho:
Então, na minha reunião disseram que eu teria que estar revendo o meu planejamento e não... Eu lembro bem dessa frase da diretora, de não ter medo de ser feliz.
Entrar com texto, com... Mas eu não estava me sentindo segura para trabalhar com texto, Eliza. Eles não estavam me dando... Eu iria massacrar, sabe? Aí, agora nesse mês de maio está tudo prontinho lá, os textinhos que eu quero dar, começar com ortografia, sílaba complexa, né? (Transcrição do 31º encontro – 17/05/2005 – Professora 1).
Semanalmente, as professoras dessa série realizavam reuniões em conjunto. Até aquele momento não era permitido que elas trocassem atividades. Dessa forma, elas realizaram o planejamento no começo do ano e a partir daí cada uma conduziu o processo em sua sala de aula individualmente. A partir da realização dessas reuniões em que se percebeu as diferenças entre as salas, as professoras passaram poder conversar sobre o que desenvolviam em sala de aula e a Professora 1 constatou que sua turma estava mesmo destoando. A professora atribui o fato a sua pouca experiência:
Pesquisadora – Então e nessas reuniões das professoras de sete anos, vocês trabalham o quê? Vocês não trabalham juntas?
Professora 1 – Então, aí nós... Ah bom, no começo do ano, pela fala da diretora, era terminantemente proibido fazermos atividades iguais, planejar igual... Cada turma tem o seu ritmo. Tudo bem. Cada um fez o seu plano de ensino, no seu ano de ciclo. Entendido. Não podia ter intercâmbio de atividades.
Pesquisadora – Tá, não digo de atividades, mas vocês estão ali, uma para ajudar a outra, não é?
Professora 1 – Então, isso no começo do ano. O que que aconteceu? Cada uma fechou a porta, tinha o plano, deu o que quis. Eu com pouca experiência, perdida...
[...]
Professora 1 – Agora nós podemos estar... Agora que nós estamos sentando e abrindo. Olha, eu dei isso, você deu aquilo, olha essa atividade... (Transcrição do 31º encontro – 17/05/2005).
A Professora 1 destacou sua decisão em ser professora alfabetizadora, mas não nessa situação que segundo ela é de massacre.
Para ela trata-se de uma questão de quantidade, em que as outras professoras estão priorizando a quantidade e ela não terá tal atitude:
Aí vira a outra e fala: “Não, mas está muito pouco”. Então nós vamos ficando, assim, numa paranóia, Eliza. Uma coisa assim, eu não vou ficar metralhando eles com quantidade não. Eu vou assim, pagar um preço muito alto
por isso, viu, se eu insistir em dar menos coisas, com mais intervenção, com mais... Entendeu? (Transcrição do 31º encontro – 17/05/2005 – Professora 1).
A Professora 1 faz um desabafo no sentido de que a escola que está aí, não é a escola que ela havia idealizado:
Pesquisadora – Trabalhar em escola não é fácil. Ser professor não é fácil.
Professora 1 - Não. Eliza, acho que a escola é a da minha cabeça só, viu? Só aqui dentro tem essa escola que eu imagino. Que eu não pensava que era... Nós idealizamos uma coisa, na prática ... Sabe, o tratamento do professor, dos alunos, sabe o... Nossa, o pedagógico, o administrativo... (Transcrição do 31º encontro – 17/05/2005).
A Professora 1 tinha em sua essência uma profunda timidez. No início do grupo quase não se colocava e quando o fazia dizia respeito a comentários originados pelas outras professoras. Ao longo dos encontros foi se soltando e no final, com características de cumplicidade e confiança, expunha-se, abria-se, demonstrava seus sentimentos.
Diante da situação vivenciada pela professora, nesse momento como alfabetizadora, incluindo seus dilemas em relação ao manejo de sala de aula, tanto com relação à forma de condução dos alunos, como dos conteúdos, envolvendo formas de ensinar e conhecimento específico, o grupo pôde contribuir com as discussões teóricas realizadas, com as sugestões de estratégias e as trocas de experiências, bem como a viabilização de momentos que visavam à reflexão, tanto com relação a sua própria prática, como a prática do outro. Como exemplo, podemos citar a análise de descrições realizadas pelas professoras sobre dificuldades na alfabetização de um aluno específico ou mesmo sugestões dadas sobre o início do processo de alfabetização e estudo teórico sobre o mesmo.
Tentando reformular suas aulas, inserir o trabalho com textos, agilizar a dinâmica de sala de aula, seguia a Professora 1 em seu dia-a-dia como professora iniciante.