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COMENTÁRIO E SUA APLICABILIDADE NAS POSTAGENS MAIS

COMENTADAS POR EDITORIA

Depois de alcançar, pelo menos em parte, as modificações que a listagem das Mais Lidas, Mais Comentadas e Mais Enviadas trouxe à relação da imprensa com seu

interlocutor, outra maneira de ver a utilidade da ferramenta é direcionar o olhar sobre os empregos dados a ela por seu usuário direto: o leitor.

Se, como destaca Sousa (2009), uma boa maneira de enxergar o grau de importância de uma ferramenta é tentar vislumbrar o mundo sem ela, ou, quem sabe, como ele se configurava anteriormente à sua popularização, um modo de começar a trilhar o caminho que desmascare os ajustes entre canal e usuário e ajude a criar uma classificação dos tipos de comentário é observar como leitores e mídia se organizavam antes da materialização do dispositivo na imprensa.

Assim, propõe-se a partir daqui um pequeno levantamento da mudança que o mecanismo que acolhe os comentários de leitores trouxe à rotina da mídia se comparado diretamente com seu modelo mais familiar, a carta de leitores. Depois disso, a pesquisa tenciona, ainda, criar uma classificação da sua taxionomia, ora guiada pela disposição e objetivo do post do ator-receptor na plataforma, ora pelo modo como este se posiciona diante do conteúdo ali disposto, atendendo, desse modo, às orientações do estudo pelo viés do canal e pelo viés simbólico.

5.4.1 Da caneta, papel e selo aos números binários

Inicialmente, na busca de descrever o mundo sem o dispositivo de interação direta com o leitor podemos perceber que, de maneira geral, o receptor do modelo carta do leitor tinha uma relação muito mais restritiva com o produtor do conteúdo que consumia. Por essa razão, sua postura foi diretamente afetada fazendo com que ele se tornasse, até certo ponto, mais tradicional nessa interlocução. No antigo modelo, o estímulo de participação era, pelas próprias condições de proximidade, menor e, portanto, ficava na decisão do jornal, mais do que hoje, a prerrogativa de publicar ou não, e como publicar, a opinião dos que se manifestassem sobre um assunto, já que as cartas eram editadas e, boa parte das vezes, reduzidas para adequar-se à limitação de espaço que os veículos usufruíam. Tudo isso tornava a situação de interação entre veículo e usuário muito mais controlada e limitava substancialmente, para não dizer totalmente, a relação dos usuários entre si.

Não podemos ignorar que se tratava de uma ferramenta de muito mais simples manuseio. Afinal, bastava a alfabetização tradicional para que o leitor escrevesse a carta. E mesmo que o recurso dependesse de outros fatores para sua efetiva

aplicabilidade, como envio pelo correio, custos, tempo de espera, leitura e seleção, era um dispositivo bem menos excludente se comparado com a ferramenta digital. Hoje um provável comentador é, automaticamente, pré-selecionado entre os que sabem usar computador com certo grau de complexidade e os que não sabem. Isso porque apesar de os aplicativos, de algum modo, serem de simples utilização, exigem habilidades típicas dos usuários mais familiarizados com o universo de deliberação on-line, como preencher um cadastro, conhecer alguns ícones que inserem o post ou respondem, etc. Em outras palavras, não é um bicho de sete cabeças – para usar a metáfora grega de Hércules –, mas exige mais do que ler e escrever simplesmente. Por outro lado, o novo modelo, apesar da exclusão mais latente, instiga a participação por ser imediatista. Outro ponto essencial nesta avaliação é o próprio espaço aproveitado. Se a carta de leitores tomava um lugar material de papel, fixo, em geral linear, pouco flexível, a publicação digital ocupa o espaço na rede e embora, normalmente, também esteja em um local fixo, na maioria das vezes no fim da página, há possibilidades de customização por ordem de inserção e/ou de popularidade, entre outras que criam uma afinidade maior com a ferramenta. Ou seja, um leitor mais “personalizado”. Isso, por si só, já altera a relação com o dispositivo, que antes parecia pertencer muito mais ao veículo e agora parece ter um domínio maior do público.

A proximidade é mais um aspecto que altera bastante a relação das duas ferramentas. No modelo carta do leitor, essa era muito mais distante: havia um obstáculo de envio que afastava às vezes por dias ou semanas o interesse pelo comentário, bem como uma escolha editorial bem marcada e um espaço para publicação limitado. Já na internet essa publicação é quase sempre instantânea e, mesmo que moderado, o post é muito mais independente da linha editorial, particularmente porque nesse dispositivo os leitores não disputam entre si o espaço, que, em tese, é ilimitado. Basta vermos que os veículos não controlam o número de comentários por dia e, em alguns casos, as participações ultrapassam mil colaborações. Além disso, as razões de exclusão de um texto, na maioria das vezes, fundamentam-se na incivilidade, e não na discordância com à linha editorial da cobertura.

Assim, podemos pensar que um mundo sem comentários de leitores no formato de hoje é também um mundo em que o leitor é menos estimulado e mais passivo no que tange à mudança semântica no texto. Enfim, numa comparação simples, e tendo como base a

orientação de Sousa (2009), podemos ordenar tais modificações como as que se apresentam no quadro a seguir. A tabela semelha dar conta da consideração da autora, para quem, quando uma ferramenta se populariza, “a percepção espaçotemporal se transforma, começam a surgir novas exigências” (SOUSA, 2009, p. 20).

Carta do leitor Plataforma de comentários

Publicação impressa Publicação digital

Espaço limitado Espaço maior

Moderação limitada pelo espaço Moderação limitada pela orientação de uso

Tempo de publicação a cargo do editor

Tempo de publicação instantâneo

Publicações contrárias à linha editorial raras

Publicações contrárias à linha editorial comuns

Pouca proximidade Maior proximidade

Leitor passivo Leitor com sensação de participação –

ativo

Relação exclusiva com o editor Relação entre leitores

Pouca limitação da ferramenta Exclusão dos que não conhecem a ferramenta

Escreve Escreve, responde, interage

Texto verbal Texto sincrético

Tabela 63: Comparativo entre carta de leitores e comentários de leitores Fonte A Autora (2014)