Vamos voltar à França, não mais de Luiz XIV e Luiz XV, do século XVI, mas a cena parisiense do século XVIII, que já mantinha uma fluida relação com o urbano e com os processos da modernidade. O modo de vida e organização social decorrente da modernidade inseriu nas sociedades urbanas – com mais propriedade Paris e Londres, uma percepção maior sobre a questão do espaço com base em sucessivas transformações sociais cada vez mais freqüentes. Segundo Beijamim(1989) estas transformações, muitas vezes, eram percebidas a partir das modificações dos espaços e movimentações urbanas que surgiam por consequência dos grandes redirecionamentos econômicos como a revolução industrial europeia, iniciada no século XVIII. A Paris de Baudelaire era uma cidade de conflitos. ―Enquanto escrevia seus mais importantes ensaios, simultaneamente, construções medievais estavam sendo destruídas para abrir grandes avenidas, que funcionariam como artérias de um novo
sistema circulatório urbano‖
(BEIJAMIM,1989).
Nesses bulevares, largas calçadas foram construídas, e sobre elas, os cafés que hoje caracterizam Paris. Mas essa não foi a única mudança, as avenidas encontravam-se dentro de um amplo programa de urbanização, que contemplava a construção de parques e passeios públicos, mercados, teatros e palácios destinados à cultura. Dessa forma, a convivência se transferiu das casas às próprias vias públicas, onde se encontravam a aristocracia e a classe social mais baixa, sem que ninguém pudesse fechar as portas. Os parisienses assim eram obrigados a observar o profundo contraste social que até então não habitava os seus salões.
Nesse panorama, a estreita relação que Baudelaire tem com o urbano se personifica na figura do Flâneur, com um corpo que se movimentava lentamente perdido e anônimo nas
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multidões vislumbrado, ao mesmo tempo em que ultrajado, com os efeitos da nova cidade. As imagens e principalmente as sensações desse corpo em movimento é ao que nos ateremos por hora, metaforizando o sentido que nos possibilita uma linha de pensamento para o desejo de investigar as relações entre dança e cidade, através de um corpo em ação.
Buscar compreender a relação do Flâneur com a cidade, tendo o veio das sensações como direcionamento, nos auxilia a entender o momento do rompimento com as danças clássicas burguesas. Contribui também para percebemos o salto para dentro de si que o bailarino moderno se propõe como projeto técnico e estético do movimento, das ações coreográficas e dos vetores que orientaram a encenação da dança moderna.
Assim, para nos dar pistas do novelo de sensações do Flanêur frente à nova ordem social, lançaremos o olhar para a crítica obra de Walter Benjamin, Baudelaire, um lírico no
auge do capitalismo. Nessa reunião de ensaios teóricos deste contundente pensador alemão, o que nos chama a atenção é como as sensações produzidas pela imagem da multidão das metrópoles determinam o pensamento baudeleriano sobre o fenômeno da modernidade e de suas relações ambíguas com os habitantes. Na afirmação transcrita abaixo pode-se perceber o conflito dessas sensações:
Baudelaire amava a solidão, mas a queria na multidão. Sucumbia-se à violência com que ela (a metrópole) o atraía para si, convertendo-o, enquanto Flanêur em um dos seus, mesmo assim não o abandonava a sensação de sua natureza inumana. Ele se faz seu cúmplice para, quase no mesmo instante, isolar-se dela. Mistura-se a ela intimamente, para, inopinadamente, arremessá-la no vazio com um olhar de desprezo. (BENJAMIN, 1989, p. 47).
A modernidade trouxe com ela o advento da tecnologia e uma projeção das sociedades rumo ao futuro, encurtando distâncias entre as cidades e agilizando os processos de relacionamento. A reboque trouxe também, esse panorama de conflitos que o homem moderno está envolvido irreversivelmente. Situação que nutriu por tempos a literatura, a pintura, a música e que ainda hoje pode ser visto na dança contemporânea e que de certa forma aparece expressa no espetáculo ―Anjos d’Água‖, na medida em que discute-se o conflito da relações contidas nos processos de (des)ocupação dos espaços públicos.
Nessa nova Paris, extensas avenidas e jardins, largas calçadas com seus elegantes cafés e uma das mais novas formas de comércio: as galerias, onde as mercadorias estavam em permanente exibição. Esses novos espaços da modernidade não deixavam expostos apenas o
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conflito entre as pessoas de diferentes classes revelava, sobretudo, o contraste entre o indivíduo e a multidão.
De um lado, o homem privado, senta-se na sacada como num balcão nobre; se quer correr os olhos pela feira, tem à disposição um binóculo de teatro. Do outro, o consumidor, o anônimo, que entra num café e que logo, atraído pelo magneto da massa que o unge incessantemente, tornará a sair. De um lado, toda a espécie de pequenas estampas do gênero, eu, reunidas, formam um álbum de gravuras coloridas; do outro, um esboço que seria capaz de inspirar um grande gravador: uma multidão a perder de vista, onde ninguém é para o outro nem totalmente nítido nem totalmente opaco. (BENJAMIN, 1989, p. 46).
Enquanto estava na rua, o indivíduo deixava de ser ele mesmo, para se transformar em apenas uma peça da paisagem urbana. Ao abrir a porta de sua casa, ele voltava a ser ele mesmo e a ter que decidir o que fazer com sua vida. Essa nova divisão trazia consigo também uma sensação de eterno conflito, já que por um lado provocava angústia pela perda de controle dos seus espaços na cidade e por outro, alívio pela alienação promovida pelo seu território particular e reconhecível do interior de suas casas.
Temos dessa forma a concepção do Flânuer como um corpo passivo, esmaecido e perdido nas multidões, dilacerado pelas transformações cotidianas e refugiado na possibilidade do anonimato fugidio. A retomada dessas imagens nos sugere entender pelo corpo, instrumento primordial da dança, as heranças e angústias que essas relações vão imprimir nos processos e resultados da dança moderna que vinham sendo anunciados desde a metade do século XIX. A presença de um corpo construído esteticamente por contorções, desencaixes, pulsações, quedas e desequilíbrios contornaram os conceitos técnicos e estéticos da dança moderna, ao passo que o escuro, o pálido e o introspectivo eram os seus adjetivos presentes em temas sofríveis, psicológicos e conflitantes.
Nossa intenção é ir além da figura do Flâneur como um ―corpo‖ sobreposto na ―cidade‖. O que nos ocorre aqui é uma analogia poética para possíveis entendimentos da relação dança e cidade, seja em seus aspectos factuais, concretos ou subjetivos. A ideia do
Flâneur e do movimento artístico da flânerie foi incorporado pelo movimento dadaísta como um método de compreensão e penetração na cidade, em busca de elementos poéticos e estruturais do fazer artístico. Mais tarde nos anos sessenta, percebe-se nos movimentos da Deriva dos Situacionistas outra forma mais sistematizada de experimentar a cidade, que tem como princípio a ação do caminhar descompromissado pela cidade, preconizada por
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Baudelere. A teoria da Deriva é um dos trabalhos de autoria do pensador situacionista Guy Debord. A deriva é um procedimento de estudo psicogeográfico que visa estudar as ações do ambiente urbano nas condições psíquicas e emocionais das pessoas. Partindo de um lugar qualquer e comum à pessoa ou grupo que se lança à deriva, deve rumar deixando que o meio urbano crie seus próprios caminhos. É sempre interessante construir um mapa do percurso traçado, esse mapa deve acompanhar anotações que irão indicar quais as motivações que construíram determinado traçado. Considero pontuar aqui a deriva como método criativo presente em muitos trabalhos de arte contemporânea que focalizam a cidade. Também foi utilizado como metodologia no processo criativo de ―Anjos d’Água‖, espetáculo que é ponto central dessa pesquisa.