O apoio e o incentivo dos familiares de estudantes de música clássica é um dos fatores que contribuem na decisão pelo estudo da música (GREEN, 2001a, p. 24). Tudo indica que o mesmo se aplicaria aos estudantes de música popular, segundo Green (2001a, p. 24). Para a autora, os músicos populares costumam fazer parte de famílias musicalmente interessadas, onde normalmente acontece grande ênfase na enculturação desse repertório por intermédio das práticas de aprendizagem informal de música popular.
Outro fator que contribui significativamente para a motivação de pessoas pelo estudo musical estaria na possibilidade de contato real com um instrumento. Crianças e jovens que tem acesso à presença real de um instrumento, podendo manipulá-lo, costumam ser mais curiosas e desenvolvem a percepção para a sonoridade daquele instrumento, despertando o desejo para a aprendizagem (GREEN, 2001a, p. 26).
De acordo com Green (2001a, p.177), os músicos populares que ingressaram em aulas formais de instrumento e que trabalham o repertório da música clássica relatam aspectos positivos e negativos extraídos de tal experiência. Os pontos apontados por eles como negativos compreendem tanto o estudo quanto a prática de uma música das quais eles não estavam habituados, o que os fazia com que se
sentissem “alienados”.Os pontos positivos são indicados pela aquisição de técnica e
da habilidade para leitura e escrita musicais, bem como a familiarização com termos musicais e teóricos.
Diferentemente, músicos que tiveram aulas formais de instrumento utilizando o repertório de música popular, relatam experiências mais positivas do que aqueles músicos populares que tiveram aula com música clássica – não porque as abordagens dos professores fossem necessariamente diferentes, mas porque gostavam e se identificavam com as músicas que estavam sendo trabalhadas (GREEN, 2001a, p.175). No entanto, muitos eram incapazes de fazer a ponte do conhecimento que adquiriam em suas aulas formais de instrumento, com aquilo que
aprendiam informalmente.
As recentes mudanças nas estratégias de ensino da música popular na Grã- Bretanha, através da inclusão das práticas de aprendizagem informal dentro da sala de aula, vêm transformando esse quadro, e os jovens músicos já estão conseguindo fazer conexões entre o conhecimento adquirido formalmente nas aulas e suas práticas informais, que costumam correr paralelamente ao aprendizado formal (GREEN, 2001a, p. 175; 2006, p. 110).
Contudo, tais mudanças ainda são muito recentes e ocorrem de maneira lenta. Em 2006, Green (2006) coordenou um projeto em 21 escolas da Inglaterra, envolvendo alunos com idades entre 13 e 14 anos. Foi proposta a inclusão de uma série de estratégias pedagógicas com a música popular, que incluíram as práticas de aprendizagem informal, como: (1) permitir que os alunos escolhessem as músicas; (2) aprender ouvindo e copiando gravações; (3) aprender entre grupos de amigos, com o mínimo de condução adulta; (4) aprender através de descobertas, quase que “ao acaso”; (5) interação entre o ouvir, o tocar, o cantar, o improvisar e o compor (GREEN, 2006, p. 107). Como resultado, os alunos eram capazes de ouvir mais criticamente e atentamente as músicas, além de estarem mais felizes e empolgados (GREEN, 2006, p. 110).
Como extensão dos benefícios trazidos por esta experiência, os alunos também puderam experimentar mudanças positivas inclusive em suas respostas às músicas clássicas. Por meio da manipulação direta com os significados inerentes das músicas do repertório clássico, através do uso das práticas de aprendizagem informal, as respostas aos significados inerentes se sobrepuseram às respostas aos significados delineados que eles possuíam anteriormente com este repertório, ampliando suas escutas musicais (GREEN, 2006, p. 114).
As adaptações ao uso de diferentes estratégias de ensino podem encontrar muitas barreiras, por parecerem estranhas a um sistema já instituído. Abrir caminho para as práticas de aprendizagem informal requer “[...] uma quantia considerável de coragem, e até um pouco de fé” (GREEN, 2001a, p. 186). Geralmente os alunos esperam dos professores a transmissão de novos conhecimentos e habilidades; e
deparar-se com uma postura mais passiva do que ativa do professor, algo incomum até então, pode gerar um estranhamento difícil de ser justificado (GREEN, 2001a, p. 184 e 186).
Outros motivos para a não utilização das práticas de aprendizagem informal em sala de aula apontados por Green (2001a, p. 180) teriam relação com a formação dos professores e suas posturas. Os músicos populares que se tornam professores, inclusive aqueles que se consideram autodidatas e que vivenciaram amplamente as práticas informais em suas vidas, não conseguem aceitar ensinar seus alunos pelos mesmos caminhos pelos quais eles mesmos aprenderam, imaginando-as indignas para a sala de aula, e acabam adotando os mesmos métodos tradicionais em suas abordagens. No caso de professores advindos do meio formal, o não uso das práticas informais aconteceria devido ao fato de eles nunca terem vivenciado tais práticas (GREEN, 2001a, p. 180).
SUMÁRIO
A Pedagogia da Música Popular já vem sendo estudada como um aspecto
diferenciado e merecedor de pesquisas e abordagens específicas, que considerem as características inerentes ao contexto social e cultural nas quais este repertório está inserido. Tal conscientização permite incluir determinadas práticas de aprendizagem musical que permaneceram durante muito tempo às margens do ensino de música formal. Estas práticas são reveladas por Green (2001a; 2006), que procurou conhecer os meios pelos quais os músicos populares adquirem conhecimentos e habilidades musicais, de forma que não se sustenta mais a responsabilização de tais aquisições apenas ao talento e/ou dom divino. Os músicos populares estão engajados naquilo que a autora denominou de “práticas de aprendizagem informal de música” (GREEN, 2001a, p. 05; 2006 p. 106). Estas práticas incluem:
1. A escolha do repertório a partir de músicas nas quais os alunos estão enculturados;
2. Aprendizagem de músicas a partir de práticas aurais, como por exemplo, copiar músicas de gravações;
3. Prática de música em grupos como fonte de aprendizagem, devido à observação mútua, a troca de idéias, a imitação uns dos outros, etc.; 4. A presença da criatividade integrando as práticas de tocar, compor e
ouvir.
Este capítulo procurou discutir o papel que cada uma destas práticas desempenha dentro de uma aula que inclua a música popular em suas atividades. Demonstrou-se que negligenciá-las durante as abordagens pedagógicas poderia comprometer a autenticidade da aprendizagem musical deste tipo de repertório (GREEN, 2006, p. 107). Por serem recentes, as transformações pedagógicas com este repertório aparecem como uma tarefa árdua, que ainda requer o empenho e a dedicação dos personagens envolvidos no cenário educacional, para que se possam transpor os obstáculos impostos pela falta de informação e pelo preconceito.