Um dos objetivos desta seção é discorrer acerca do componente discricionário das despesas efetuadas pela União, no intervalo de 1995-2010, a fim
responder à seguinte questão: existe espaço para o Governo Federal empreender política fiscal anticíclica por meio do investimento público?
Consecutivamente, almeja-se obter resposta para outra pergunta: pode-se dizer que a política fiscal realizada ao longo do período estudado teve natureza anticíclica?
Para cumprir a primeira etapa, será utilizada a base de dados disponibilizada pela Secretaria de Orçamento Federal (SOF), órgão vinculado ao Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão (MPOG), no que concerne ao cálculo do resultado primário pelo regime de competência. Convém relatar que o MPOG (2007) adota o estágio da liquidação como critério para apuração da despesa orçamentária.14
A tabela 3.6 traz os montantes relativos aos gastos discricionários federais, corrigidos para o último ano da série. No ano de 1995, o dispêndio totalizava R$ 90.298,94 milhões, chegando aos R$ 106.935,24 milhões, em 2002 (variação de +18,42%), e, finalmente, R$ 186.730,51 milhões, em 2010 (crescimento de 74,62% na comparação com 2002). Logo, o aumento acumulado nos anos de 1996 a 2010 foi de 106,79%.
É evidente que o Poder Executivo, em virtude das atribuições que lhe foram outorgadas pela Constituição Federal de 1988, é o maior responsável por realizar o gasto público. A título de exemplo, no ano de 2010 apenas 3,79% das despesas não obrigatórias couberam aos poderes Legislativo e Judiciário.
A decomposição dos gastos da alçada do Executivo revela a predominância da “categoria econômica da despesa 3” (custeio), haja vista que cerca de 70% do dispêndio discricionário executado em 2010 são gastos correntes. Porém, em 2002 a participação beirava os 81%, enquanto no ano inaugural da série o percentual era algo em torno de 78%. Denota, portanto, que as despesas de capital têm conquistado espaço no orçamento da União, pois representam, desde 2007, aproximadamente 30% dos gastos não obrigatórios.
Outra questão saliente na tabela 3.6 é a queda das despesas do Executivo advinda nos períodos 1997-1999, 2001-2003 e 2007-2008. Curiosamente, as
14Apesar da tentativa, o resultado primário oficial permanece sendo o apurado pelo Banco Central do Brasil, pela
situações guardam certa similaridade com o desempenho da despesa primária total do Governo Central - objeto de análise da tabela 3.2. Na ocasião, constatou-se que a variável caíra nos anos de 1999 e 2003, em relação a 1998 e 2002, respectivamente.
No que tange aos gastos discricionários, percebe-se que os cortes impactaram severamente o dispêndio de capital, sendo o principal alvo da contenção de despesas, como evidencia o gráfico 3.12. Por outro lado, no instante imediatamente seguinte ao ajuste os gastos pertencentes à categoria econômica “Capital” se expandiram a um ritmo mais acelerado que a média.
Deveras, patenteia-se que as despesas correntes sentem menos a influência dos ciclos econômicos que as de capital. Não por acaso, Velloso, Mendes e Caetano (2009) mencionam o padrão comportamental pró-cíclico, nas fases ascendentes, das despesas correntes, quando crescem acima da variação do PIB e, ao mesmo tempo, anticíclico em fases descendentes não relacionadas a uma crise que ameace a solvência do setor público. Para os autores, com exceção dos anos de 1999 e 2003, a tendência à elevação permanente da razão gasto/PIB se explica pelo comportamento das despesas correntes.
Tabela 3.6 – Despesas primárias discricionárias da União – em milhões de R$ de 2010
Ano 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 Total 90.298,94 86.948,32 97.077,26 95.022,73 92.427,83 100.641,73 113.646,89 106.935,24 1. Executivo 86.960,08 83.006,19 93.304,95 90.803,41 88.655,09 96.578,18 109.520,72 102.092,66 1.1 Correntes 67.914,21 65.034,55 70.242,21 67.981,09 71.540,14 73.876,64 79.460,84 82.685,65 1.2 Capital 19.045,87 17.971,65 23.062,73 22.822,32 17.114,95 22.701,54 30.059,88 19.407,01 2. Legislativo, judiciário e MPU 3.338,87 3.942,13 3.772,31 4.219,32 3.772,75 4.063,55 4.126,18 4.842,58 Ano 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 Total 88.403,16 105.723,64 121.910,03 128.200,93 155.757,18 154.389,52 174.714,51 186.730,51 1. Executivo 83.996,33 100.043,17 116.041,63 121.808,98 149.146,16 147.649,28 168.244,17 179.657,60 1.1 Correntes 73.343,75 83.122,68 90.088,61 94.438,17 104.416,62 105.167,20 117.119,57 125.925,64 1.2 Capital 10.652,58 16.920,48 25.953,02 27.370,81 44.729,55 42.482,08 51.124,60 53.731,97 2. Legislativo, judiciário e MPU 4.406,83 5.680,47 5.868,40 6.391,95 6.611,02 6.740,25 6.470,34 7.072,90
Fonte: Ministério do Planejamento / Secretaria de Orçamento Federal. Nota: Valores atualizados com base no deflator implícito do PIB.
-60,00% -40,00% -20,00% 0,00% 20,00% 40,00% 60,00% 80,00% 19 96 19 97 19 98 19 99 20 00 20 01 20 02 20 03 20 04 20 05 20 06 20 07 20 08 20 09 20 10 Total Correntes Capital
Fonte: baseado nos dados da tabela 3.6. Elaboração: própria
Gráfico 3.12 – Despesas discricionárias da União – Executivo – variação (%) em relação ao ano anterior
Dando sequência, o gráfico 3.13 mostra os gastos discricionários do Poder Executivo - como proporção do PIB e da despesa fixada na lei orçamentária anual (LOA).15 O desenho das curvas insinua a elevação do patamar de 3,63% para 4,77%
do PIB ou, visto por outro prisma, de 8,01% para 10,17% da despesa prevista na LOA.
Conquanto tenha aumentado, a margem da qual o Executivo podia dispor em 2010, para fins de políticas discricionárias, era menor que 11% do orçamento da União. Deste percentual, somente 3,04% foram alocados para despesas de capital, na qual são contabilizados os investimentos.
Logo, pode-se inferir que o espaço para o Governo Federal realizar política fiscal anticíclica pela ampliação do investimento é ainda reduzido, por conta do enorme peso das despesas obrigatórias no orçamento e da rigidez dos gastos com o
15 Relativa aos orçamentos fiscal e da seguridade. Legislação orçamentária disponível para consulta em:
custeio. Entretanto, a orientação recente do governo, visando à remoção dos gargalos de infraestrutura, e a estabilidade do ambiente macroeconômico, a qual reflete nos indicadores fiscais, são condições propícias para que a participação da FBCF da administração pública seja majorada.
3, 63 % 3, 40 % 3, 69 % 3, 59 % 3, 50 % 3, 65 % 4, 09 % 3, 71 % 3, 02 % 3, 40 % 3, 83 % 3, 86 % 4, 46 % 4, 20 % 4,80 % 4, 77 % 8, 01 % 9, 16 % 8, 03 % 8, 02 % 6, 82 % 4, 25 % 5, 60 % 8, 44 % 4, 96 % 4, 50 % 5, 11 % 5, 51 % 7, 78 % 9, 34 % 9,83 % 10 ,1 7% 19 95 19 96 19 97 19 98 19 99 20 00 20 01 20 02 20 03 20 04 20 05 20 06 20 07 20 08 20 09 20 10 (%) do PIB (%) da LOA
Fonte: MPOG / SOF. Elaboração: própria
Gráfico 3.13 – Despesas discricionárias do Executivo
Enfim, para o alcance dos desideratos preestabelecidos resta verificar se foi empreendida, em algum momento das gestões FHC e Lula, uma política anticíclica deliberada. Com o fito de averiguar a veracidade da proposição, serão comparadas as taxas reais anuais de variação: da receita bruta do Governo Central, da despesa discricionária da União, da FBCF (empresas, famílias e administrações públicas) e do PIB.
Cumpre novamente ressaltar que a estatística oriunda das contas nacionais, no tocante ao investimento público, não segrega a execução por ente da federação. Apesar da limitação, o arquivo “Consolidação das Contas Públicas”, disponível no sítio eletrônico do Tesouro Nacional, traz números desagregados por esfera de governo, grupo de despesa e modalidade de aplicação, para que se tenha uma noção – no que tange aos valores investidos - do papel desempenhado pela União, estados e DF e municípios.
A tabela 3.7 exemplifica a decomposição do investimento realizado em 2009. As aplicações diretas, que eliminam a duplicidade na contagem, somam R$ 81.071,89 milhões, sendo os estados os maiores responsáveis (R$ 33.502,12 milhões), seguidos da União (R$ 25.002,52 milhões) e dos municípios (R$ 22.567,26
milhões). Todavia, o Governo Federal transferiu cerca de R$ 20 bilhões aos estados, Distrito Federal e municípios, recursos aplicados em investimentos dos governos subnacionais.
Desta forma, a União assume o encargo de grande provedora de recursos financeiros, mediante transferências a órgãos e entidades no âmbito da administração pública, bem como a instituições privadas, fato demonstrado pelo somatório das três primeiras colunas da tabela 3.716.
Embora exista a série divulgada pelo Tesouro Nacional, a qual se baseia nos grupos de despesa da contabilidade pública, entende-se que o conceito de formação bruta de capital fixo é mais apropriado, a fim de que sejam testadas as conclusões emanadas do Comunicado nº 126 do IPEA, de 29 de dezembro de 2011.
No que diz respeito a anos pares, a tabela 3.8 registra taxas positivas de variação do investimento público (exceto 1996), o que pode estar relacionado aos ciclos eleitorais bienais e quadrienais identificados por IPEA (2011) e Orair (2011).
No caso de 1998, a FBCF das APUs variou +39,87%, na comparação com 1997 e a receita bruta do Governo Central +10,72%, ambas a despeito do fraco desempenho da economia naquele ano. Contudo, o crescimento pontual do investimento público não permitiu a equiparação ao patamar de 1994, visto que as sucessivas quedas ocorridas entre 1995 e 1997 perfazem 47,22%. Ademais, o contexto era de elevação da dívida pública e de deterioração dos principais indicadores macroeconômicos internos e externos, fatores que poderiam comprometer, sobretudo, a estabilidade do Real.
De fato, a DLSP cresceu impetuosamente entre 1995 e 2003, como observa Giambiagi:
[...] os anos do primeiro Governo FHC (1995-1998) podem ser definidos como sendo de “déficit aberto” [...] Neste contexto, a dívida líquida do setor público (DLSP), que no começo do Plano Real, em 1994, era de 30% do PIB, atingiu 39% do PIB quatro anos depois. O segundo Governo FHC (1999-2002) pode ser definido como sendo de “ajuste com endividamento”, após o forte ajuste primário de 1999. Embora a menor despesa com juros reais e o ajustamento primário tenham diminuído as NFSP nominais do período para 4,0% do PIB, estas continuaram sendo importantes. Ao mesmo tempo, o expressivo aumento da importância relativa da dívida pública
16O uso desta informação serve unicamente para evidenciar a predominância dos recursos da União no total
associada à taxa de câmbio e o reconhecimento de passivos contingentes acabaram elevando a dívida pública para perigosos 51% do PIB no final de 2002. (GIAMBIAGI, 2007, p. 10-11).
Assim sendo, o conjunto de evidências reduz a possibilidade da adoção, em 1998, de uma política fiscal contracíclica deliberada, voltada para elevação da FBCF, sendo bastante provável a concorrência de fatores de natureza política. De modo semelhante, o viés negativo da FBCF e das despesas discricionárias, perante a diminuição das receitas, enfatiza o caráter pró-cíclico da política de gastos adotada no ano de 1996.
Sobre os anos pares, verifica-se ainda o bom comportamento da economia brasileira nos anos 2000, 2002, 2004, 2006, 200817 e 2010, o qual coaduna o crescimento do PIB, da receita e da FBCF das APUs. Logo, não há sinais de que uma política fiscal anticíclica tenha sido conduzida intencionalmente.
Focalizando os anos ímpares, emergem prontamente os argumentos apresentados pelo IPEA (2011). No Comunicado nº 126 do Instituto, é ressaltada a tese de que a FBCF das APUs se acelera em anos eleitorais (pares) e desacelera ou se contrai seguidamente, entendimento ratificado pelos dados.
Não obstante, cabe rememorar que os anos de 1995, 1997 e 1999 foram marcados pelas crises mexicana, asiática e cambial brasileira18, nesta ordem, as
quais impactaram o balanço de pagamentos e as contas públicas, com consequências danosas para a solvência do setor público.
É razoável, então, pensar que o governo estivesse preocupado com o contágio das sucessivas crises internacionais e, por conseguinte, não pouparia esforços para defender a estabilidade da moeda. Na realidade, o temor de uma desvalorização cambial, no final da década de 1990, levou o governo a praticar elevadas taxas de juros reais, o que causou um severo desequilíbrio orçamentário. Deste modo, a contração acumulada da FBCF das APUs, de 1995 a 1999, é coerente com as dificuldades à época vivenciadas pela economia brasileira.
Igualmente, os dados atinentes a 2003 denunciam o viés pró-cíclico da política fiscal, pois diminuíram: a receita governamental, o investimento público e
17 Lembrando que a crise americana se agravou com a quebra do Lehman Brothers, em setembro de
2008, repercutindo no PIB brasileiro do quarto trimestre.
inclusive as despesas correntes da União (ver gráfico 3.5). Afora isso, a FBCF das empresas e famílias recuou 2,76% e o PIB cresceu parcos 1,15%.
Quanto a 2005 e 2007, os indicadores abordados na tabela 3.8 variaram positivamente, sem exceção. O resultado pode ser reflexo da conjunção de três fatores: o boom da economia mundial, o qual coincidiu com o Primeiro Governo Lula e início de seu segundo mandato, até o agravamento da crise financeira americana; a estabilidade macroeconômica e a mudança de orientação da política econômica, após a substituição de Palocci por Mantega, no Ministério da Fazenda. Mesmo assim, nos dois anos, a FBCF das APUs cresceu menos que em 2004 e 2006, reforçando a hipótese dos ciclos eleitorais bienais e quadrienais.
Restaram 2001 e 2009, que parecem se distanciar do padrão característico dos anos ímpares. A diferença fundamental reside no contraponto entre as performances do PIB e da formação bruta de capital fixo da administração pública.
Em 2001, o PIB real variou +1,31% e a FBCF das empresas e famílias +1,62%. Enquanto isso, a receita, a despesa discricionária e o investimento público tiveram elevações mais expressivas – 5,59%, 12,92% e 11,78%, respectivamente.
À vista do descompasso exposto pelos dados, podem ser colocadas duas perguntas: a política fiscal empreendida em 2001 foi contracíclica? Em caso afirmativo, ficou caracterizada a intenção de realizá-la? Para responder aos questionamentos deve-se primeiro revisar os principais acontecimentos respeitantes ao ano de 2001.
Um evento de ordem interna que restringiu momentaneamente as potencialidades da economia brasileira foi a chamada “crise do apagão”. De acordo com Giambiagi (2005a), a baixa intensidade pluviométrica durante o pico sazonal das chuvas comprometeu a capacidade dos reservatórios da região Sudeste e Centro-Oeste, alertando sobre um eventual desabastecimento de energia caso não houvesse um ajuste da demanda. Todavia, o cerne da questão parece ter sido outro. Ferrari Filho e Terra (2010) creditam a crise de insuficiência energética à privatização de parcelas substanciais do setor e à contenção dos investimentos públicos na indústria de produção de energia, a fim de compor superávits primários nos anos 1990. Em vez de atuar sobre as causas, a solução do governo foi impor
aos consumidores a obrigação de cortar 20% do consumo, tendo como base o ano anterior, ou seja, um ajuste pelo lado da demanda.
Dentre os episódios marcantes ocorridos em 2001 figuram também os atentados terroristas, nos Estados Unidos da América, e a crise econômica argentina, os quais abalaram os mercados financeiros pelo mundo.
Por conseguinte, não fosse a repercussão dos três eventos, a economia doméstica poderia, em 2001, ter mantido ou superado os 4,31% de expansão do PIB, transcorridos ao longo do ano 2000. Por outro lado, o incremento de 11,78% na FBCF das APUs, na contramão das forças que arrefeciam a economia real, deve ter amenizado a intensidade da fase descendente do ciclo econômico.
Diante dos elementos analisados é plausível afirmar que houve política fiscal anticíclica no ano de 2001. Contudo, não há evidências que possibilitem ajuizar acerca de sua intencionalidade, diferentemente de 2009, quando o governo se mostrou disposto a enfrentar as adversidades causadas pela crise financeira dos Estados Unidos da América (EUA) – também denominada crise americana ou do
subprime.
Prova disso é a declaração de Guido Mantega, Ministro da Fazenda, feita no dia 1º de dezembro de 2008, a qual foi registrada por emissário do jornal Folha de SP: “[...] com trabalho, o país vai perseguir o crescimento de 4%. O governo vai manter todos os seus investimentos programados e, se for necessário, vamos aumentá-los.” (MANTEGA apud ANTUNES, 2008)
Adicionalmente, foram anunciadas desonerações tributárias, dentre as quais a redução de IPI para produtos da “linha branca”, conforme discurso do Ministro Mantega, em 17 de abril de 2009: a partir de hoje, o IPI das geladeiras cai de 15% para 5%, o de fogões, de 5% para zero, o de máquinas de lavar, de 20% para 10%, e o de tanquinhos, de 10% para zero". (MANTEGA apud PETRY; WARTH, 2009).
Com efeito, a receita bruta do Governo Central caiu 3,76%, em 2009, o que pode ter sido tanto pelos incentivos tributários oferecidos quanto em função da queda da atividade econômica, cujo sinal mais evidente é a contração do PIB real (0,33%). Entretanto, as despesas primárias discricionárias aumentaram 13,16%, notadamente as de capital, como demonstra o gráfico 3.12, e a FBCF das APUs teve elevação de 4,43%.
Esfera de governo Governo Federal Governos estaduais Governos municipais Consolidado
Transferências à União - 117,81 27,37 145,18
Transferências a Estados e Distrito Federal 8.232,74 - 16,01 8.248,75
Transferências a Municípios 11.738,66 2.860,73 11,16 14.610,54
Transferências a Instituições sem Fins Lucrativos 777,05 1.332,33 138,41 2.247,79
Transferências a Instituições com Fins Lucrativos 3,86 62,13 7,45 73,43
Transferências a Instituições Multigovernamentais Nacionais 52,94 40,89 4,5 98,32
Transferências a Consórcios Públicos - 16,84 3,17 20,01
Transferências ao Exterior 3,33 0,77 0,34 4,44
Aplicações Diretas 25.002,52 33.502,12 22.567,26 81.071,89
Aplicação Direta - Operações Intra-Orçamentárias 37,67 42,11 42,81 122,59
Total 45.848,76 37.975,72 22.818,46 106.642,94
Fonte: Ministério da Fazenda / Tesouro Nacional: consolidação das contas públicas de 2000 a 2009
Tabela 3.8 - Receita, despesa discricionária, FBCF e PIB: taxas anuais de variação
Ano 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010
Receita bruta - Governo Central -7,45% -1,69% 8,45% 10,72% 5,18% 5,73% 5,59% 7,05% -2,01% 8,90% 8,56% 4,84% 7,56% 6,89% -3,76% 14,95%
Despesa discricionária - União - -3,71% 11,65% -2,12% -2,73% 8,89% 12,92% -5,91% -17,33% 19,59% 15,31% 5,16% 21,49% -0,88% 13,16% 6,88%
FBCF empresas e famílias -2,13% -5,56% 8,89% -6,93% -2,02% 9,97% 1,62% -2,22% -2,76% 10,35% 1,84% 5,44% 13,07% 14,20% -7,28% -
FBCF APUs -34,61% -8,71% -11,59% 39,87% -40,50% 31,30% 11,78% 6,26% -26,11% 20,76% 4,68% 21,23% 9,34% 22,96% 4,43% 16,40%
PIB real - deflator implícito 4,42% 2,15% 3,38% 0,04% 0,25% 4,31% 1,31% 2,66% 1,15% 5,71% 3,16% 3,96% 6,09% 5,17% -0,33% 7,53%
Fonte: receita total do Governo Geral e PIB real, Ipeadata. Receita bruta do Governo Central: de 1994 a 1996, Giambiagi (2007); a partir de 1997, Min. da Fazenda / Tesouro Nacional. FBCF: dados anteriores a 2000, Ipeadata; de 2000 a 2009, IBGE - Sistema de Contas Nacionais ref. 2000. Estimativa da FBCF APU, em 2010, ver IPEA (2011).
Deve-se ter em mente, ao analisar os dados, que em 2009 o tecido econômico do país apresentava fundamentos mais sólidos que outrora. A existência de um estoque de reservas internacionais em montante considerado satisfatório, o controle do grau de endividamento do setor público e o fortalecimento do mercado interno propiciaram mecanismos distintos de enfrentamento, os quais não puderam ser empregados nas demais crises experimentadas pelo país nos vinte últimos anos, ainda que estivessem ao alcance dos governos.
Segundo Velloso, Mendes e Caetano (2009), embora o Brasil tenha sido atingido pela crise americana, como praticamente todos os países, as perdas de riqueza e a necessidade de reduzir o consumo para recompô-las foram bem menores que nos EUA e na Europa, em virtude da baixa exposição do sistema bancário brasileiro a riscos e do rigor da política monetária. Todavia, não houve meio de escapar incólume, visto que: “[...] diante da contaminação que vem de fora, é natural que haja comportamento pró-cíclico de parte dos consumidores, dos bancos e dos investidores, acentuando-se o impacto externo negativo.” (VELLOSO; MENDES; CAETANO, 2009, p. 8).
Entende-se, portanto, que as medidas fiscais anticíclicas, postas em prática a partir do agravamento da crise americana, não foram arbitrárias, porque a economia brasileira tinha condições de absorver eventuais efeitos colaterais decorrentes das desonerações tributárias e da elevação do investimento público. Em 2009, o superávit primário do Governo Central foi inferior a 2% do PIB - pela primeira vez desde 2002 - chegando inclusive a se aproximar dos patamares vistos antes de 1999. Porém, naquele ano, diferente de outras épocas, nem a solvência da dívida pública brasileira, nem o financiamento do balanço de pagamentos estavam ameaçados.
Na visão de Ferrari Filho e Terra (2010, p. 15-16), tão somente no ano de 2009
[...] assistiu-se a uma política fiscal balizadora de boas expectativas empresariais. Todavia, esta ação estabeleceu-se como elemento de última instância e não como estabilizador automático par excellence, como seria em uma administração fiscal puramente keynesiana. Outrossim, tal postura fiscal foi confrontada por uma política monetária que muito embora tenha reduzido a taxa básica de juros, não a operacionalizou em níveis condizentes com o necessário para
estimular expectativas otimistas num momento de pessimismo espraiado. (grifos dos autores).
Em suma, o Governo Federal buscou deliberadamente, no contexto da “crise do subprime”, atenuar a flutuação do produto, bem como pôde adotar, para tanto, uma política fiscal expansiva, em face da margem existente para diminuir o superávit primário. Os estados e municípios, por sua vez, têm menos facilidade para estreitar os excedentes fiscais, tendo em vista que:
nos Estados e Municípios, a arrecadação cai, a despesa de pessoal sobe com base em promessas passadas, mas não há margem para reduzir muito os excedentes fiscais. Nesse caso, os dirigentes se vêem instados a reduzir o item mais flexível dos gastos, que são os investimentos, ou a pedir socorro financeiro ou renegociação de dívidas à União; [...] (VELLOSO; MENDES; CAETANO, 2009, p.8).
Os autores assinalaram ainda o perigo latente numa forte queda dos excedentes, se combinada à subida desenfreada dos gastos correntes, fatores que poderiam fazer ressurgir o velho problema da insolvência. Para eles, seria desejável a expansão do investimento público, ao tempo em que os gastos correntes fossem cortados.
A problemática levantada por Velloso, Mendes e Caetano (2009) é de extrema relevância para o campo das finanças públicas, por se tratar dos impactos originários da elevação permanente das despesas correntes, a exemplo dos benefícios previdenciários, sobre a situação fiscal do Brasil no médio e no longo prazos. Em razão de o assunto transcender o escopo da presente dissertação, fica como sugestão à comunidade de pesquisadores, para que a temática seja explorada em futuras pesquisas.
Por ora, pode-se dizer que a política fiscal foi pró-cíclica durante quase todos os anos pertencentes ao período 1995-2010, à exceção de 2001 e 2009. Nestes, o governo adotou medidas anticíclicas, tais como as desonerações tributárias, em 2009, e o aumento da FBCF, em ambos. No entanto, não foram identificadas evidências capazes de qualificar a política expansionista de 2001 como sendo algo deliberado, ao contrário de 2009, quando o governo declarou abertamente suas intenções.
Outrossim, evidenciou-se a interferência do calendário eleitoral na FBCF das APUs, uma vez que o aumento das despesas com investimento tende a ser mais intenso nos anos pares, quando há eleições presidenciais ou municipais.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Foram estudados alguns aspectos da política fiscal brasileira no intervalo 1995-2010, com ênfase na despesa governamental. Constatou-se que, nos anos pós-Real, tanto a arrecadação quanto os gastos do governo central se elevaram em ritmo mais acelerado que o produto interno bruto.