Como exposto anteriormente, os estudos de Bakhtin dialogam com os demais estudos produzidos sobre gênero. Todas essas perspectivas teóricas apresentam pontos convergentes e divergentes umas com as outras. Porém, como postulam Meurer, Bonini e Motta-Roth (2010), trata-se mais de um diálogo do que de um jogo de oposições claras, não sendo possível classificá-las facilmente em taxonomias fechadas. Com tal noção em mente é que discorremos sobre algumas escolas de estudos de gênero, iniciando pela escola britânica, também conhecida como English for Specific Purposes (ESP).
29 Os pesquisadores do ESP, dos quais merecem destaque Swales e Bhatia, compreendem o gênero como uma ferramenta para teorização e ensino de língua, seja ela na modalidade oral ou escrita, para alunos não nativos em contextos acadêmico-profissionais.
Nessa perspectiva de estudo de gêneros, os textos são analisados tanto em suas propriedades formais, isto é, por sua estrutura, estilo, conteúdo e público-alvo, quanto por seus propósitos comunicativos na comunidade discursiva, posto que, como afirma Bhatia (1993), os gêneros são formas de ação tática, isto é, envolvem uma seleção fundamentada de ferramentas adequadas a um objetivo.
De acordo com Pereira e Rodrigues (2009, p. 6), os gêneros textuais são analisados na perspectiva sociorretórica como ações sociais que: “(a) materializam uma classe de eventos; (b) compartilham propósitos comunicativos; (c) possuem traços específicos prototípicos; (d) apresentam lógica inata; e (e) determinam usos linguísticos específicos de acordo com a comunidade discursiva.”.
Swales (1990, p. 6) adota a análise de gêneros como meio para o estudo da língua com fins específicos e aplicados, como uma forma possível de se abarcar os inúmeros eventos comunicativos que ocorrem na comunidade acadêmica falante de inglês.
O foco tanto na função social quanto na forma do gênero, por vezes até pendendo sensivelmente para a segunda, se deve, de acordo com Swales (1990, p. 6), ao fato de que “diferentes populações requerem diferentes aplicações”. Para o grupo composto por acadêmicos (English for Academic Purposes) e profissionais (English for Academic Communication) falantes não nativos da língua inglesa (LI) espalhados pelo mundo todo necessitando ingressar na comunidade falante de inglês, estudos focados na estrutura e no insumo fazem com que os resultados almejados, isto é, o domínio “das convenções linguísticas e funcionais dos textos que eles necessitam ler e escrever em suas disciplinas e profissões”, a socialização na comunidade (HYON, 1996, p. 698), sejam melhor e mais rapidamente atingidos.
As noções de intertextualidade e interdiscursividade, por influência da teoria bakhtiniana, também estão presentes e geram a rede de textos (SWALES, 2004). Na rede, cada texto tem uma função e, juntos, os textos delimitam as formas prototípicas de comunicação em dada comunidade. Tais formas derivam do contato sincrônico e diacrônico entre os textos e devem ser dominadas pelos membros da comunidade.
Contudo, ao realizar a análise do movimento estrutural de textos acadêmicos, Swales (1990) também deixa claro que, embora seja necessário usar textos, analisando sua organização informativa, retórica e estilística, a compreensão do gênero vai muito além do
30 conhecimento textual, abrangendo as esferas discursiva, social e cultural. Os atos de fala se realizam nos gêneros em dada situação de interação, logo, estrutura e propósito estão em relação mútua no gênero.
Conforme Bhatia (1993), o ESP combina o conhecimento gramatical essencial com a adequada compreensão sociocognitiva e cultural. Ao propor passos para a análise de gêneros, o autor expõe que é importante: considerar o contexto situacional, cultural e institucional em que o gênero ocorre; verificar a literatura existente sobre o assunto; selecionar um corpus adequado; estabelecer critérios de análise linguística relevantes no contexto sob investigação e, ainda, buscar validar a análise realizada consultando informantes da área em que o gênero é utilizado. Tais passos, no entanto, não são estanques ou sequenciais, devendo o analista adaptá-los.
Em contraposição à abordagem de escrita como processo, cujo foco estava no significado, nos aspectos cognitivos e psicolinguísticos da escrita enquanto meio para reflexão e autoexpressão,
Os estudiosos do ESP se concentraram nos gêneros escritos, compreendendo-os como produtos de uma comunidade acadêmica estabelecida que impõe certos parâmetros às atividades de escrita (por exemplo, ensaios críticos, relatos de pesquisa, etc.), de forma que as habilidades de leitura e escrita deveriam auxiliar os alunos em suas áreas de atuação (Silva, 1990: 17). Um dos principais argumentos a favor da abordagem de produto é que alunos estrangeiros demonstraram especial atenção à forma e ao estilo dos textos acadêmicos, indicando o caráter facilitador que a estabilidade desempenha na leitura e escrita na segunda língua. Acredita-se que a estabilidade na forma proporciona maior previsibilidade em situações de uso da segunda língua, desse modo quem escreve na segunda língua tende a ‘seguir os “modelos de textos” já publicados em periódicos internacionais’ como forma de alcançar consistência com relação às convenções da comunidade acadêmica e de diminuir a probabilidade de ter seu texto rejeitado (Johns, 1993:10-11).3 (MOTTA-
ROTH, 1995, p. 38)
Os pesquisadores do ESP, em geral, fizeram suas descrições de gênero como ferramenta para o ensino da escrita, mas não se dedicaram a detalhar as metodologias para apresentação desses conteúdos em sala de aula (HYON, 1996). Contudo, autores como
3 Tradução nossa de: ESP practitioners concentrated on written genres, viewing them as products of an
established academic community that imposes certain parameters to writing tasks (e.g., essay paper, research paper, etc.) so that students’ writing and reading abilities should respond to them within their respective fields (Silva, 1990:17). One of the main arguments in favor of the product approach is that international students demonstrated special attention to form and style of academic texts, indicating the facilitative role played by stability in second language reading and writing. Stability in form is believed to provide more predictability in second language situations, thus second language writers tend to ‘follow more closely the “model texts” already published in the international journals’ as a way to attain consistency with the academic community conventions and decrease the probability of getting their paper rejected (Johns, 1993:10-11). (MOTTA-ROTH, 1995, p. 38)
31 Swales (1990), Bhatia (1993) e Flowerdew (1993) explicitaram aplicações pedagógicas de seus estudos propondo modelos e materiais de ensino.
Com tais considerações, encerramos o item relativo à escola britânica. No entanto, adiante retomaremos mais detalhadamente os estudos de Swales, por constituírem nossa opção metodológica para análise de gênero.