A atividade pode ser também, em um nível mais complexo, práxis. Segundo Vázquez (1977), essa atividade, essencialmente prática, na qual o homem age sobre e a partir da matéria, transformando-a em uma realidade humanizada é denominada práxis. A práxis pode ser considerada a partir de dois níveis, quais sejam: (1) práxis criadora e práxis reiterativa (ou imitativa) e/ou (2) práxis reflexiva e espontânea. Os critérios que determinam seu nível está diretamente ligado ao grau de consciência do sujeito sobre o processo prático e o grau de criação revelado no produto. Embora estejam didaticamente separados, esses critérios estabelecem uma relação dialética na qual um determina o outro, isto é, o ideal (sujeito) e real (objeto cristalizado) não se separam, mas se constituem mutuamente. De acordo com Vázquez (1977), "o grau de consciência que o sujeito revela no processo prático não deixa de se refletir na criatividade do objeto e vive-versa. Mas essas influências mútuas, em virtude do contexto social em que a práxis se verifica, não se dão de maneira estática e absoluta" (p. 246).
Levando em consideração que a práxis criadora se assemelha à práxis reflexiva e a reiterativa à espontânea, esse trabalho se direciona à práxis criadora e reiterativa (ou imitativa), especialmente porque o foco é discorrer sobre quando e como a atividade é efetivamente criativa e transformadora. Não existe uma práxis genuinamente criadora e nem puramente reiterativa, mas existe o que é predominante em cada atividade prática tendo em vista os critérios supracitados.
Assim como toda atividade essencialmente humana, a práxis criadora também surge para satisfazer uma necessidade. Nesse sentido, a criação não é um produto ideológico, mas possui raízes históricas e sociais. Vázquez (1977) aponta que "o homem não vive num constante estado criador" e "[...] criar é para ele a primeira e mais vital necessidade humana, porque só criando, transformando o mundo, o homem [...] faz um mundo humano e se faz a si mesmo" (p. 248).
O autor assinala três traços que caracterizam a atividade criadora. Eles são: (1)"unidade indissolúvel, no processo prático, do interior e exterior, do subjetivo e o objetivo"; (2) "indeterminação e imprevisibilidade do processo e do resultado"; e (3) "unicidade e irrepetibilidade do produto". Em outras palavras, (1) a criação não existe como uma ideia materializada mecanicamente. Nesse processo existe um movimento dialético que se oculta no produto e por isso ele (o produto criativo) não pode ser entendido como duplicação ou transposição à matéria da forma pré-existente na consciência. Assim, pode-se dizer que (2) as transformações que ocorrem entre a ideia inicial e seu produto caracterizam a atividade criadora como imprevisível e incerta, pois depende do quanto as condições objetivas serão ou não favoráveis para concretizá-la (a ideia); logo, ela não se realiza imediatamente, mas possui um conjunto de mediações que determinam sua efetivação e que está em constante reconstrução na consciência. Ao se tornar um produto cristalizado, (3) pode-se inferir leis que regem o processo de sua criação que até então era desconhecido, tornando-o único e irrepetível. Segundo Vasquéz (1977), se existe uma lei determinada a priori e que não se modifica durante o processo, ou seja, se o produto final é previsível, não podemos considerá- lo como fruto de uma práxis criadora.
Essa sujeição da totalidade do processo criador a uma lei que só a posteriori pode ser descoberta, dá à lei em questão, ao processo prático por ela regido e, finalmente, a seu produto um caráter único, imprevisível e irrepetível, que é exatamente a característica de tôda verdadeira criação (VÁZQUEZ, 1977, p. 250).
A obra de arte reúne em si (ou pelo menos deveria) essas três características imprescindíveis à práxis criadora. Se arte é dar forma a um conteúdo e, ao mesmo tempo,
transformar a matéria, pode-se dizer que o conteúdo, como produto psicológico, só se realiza na relação recíproca com a matéria, de tal forma que a matéria não é inerte diante do ideal, pois é necessário dialogar com suas propriedades físicas, assim como as ideias não se submetem, unilateralmente, à matéria; eles se constituem, em um processo ativo e mútuo, para produzir a arte. Nas palavras de Vázquez (1977)
Como processo prático, a criação artística tem princípio e fim. No começo, é apenas uma forma, ou projeto inicial, e uma matéria disposta a ser operada. No final, encontramos: a) a forma original já materializada depois de ter perdido sua forma anterior; b) o conteúdo já formado; e c) a matéria que, vencida sua resistência, se apresenta já formada. Mas encontramos tudo isso em unidade indissolúvel, nesse produto já acabado que é a obra de arte (p. 255).
Ainda sobre as três características da práxis criadora, pode-se dizer que elas se expressam, sobretudo, na criação artística, tendo em vista que (1) o processo interno e externo são inseparáveis, pois "[...] a própria execução já é a unidade entre interior e exterior, entre subjetivo e objetivo" (p. 256); (2) diz-se que é um processo incerto e imprevisível devido à possibilidade de sua existência dar-se no processo e não como algo pré-determinado. Em outras palavras "a obra de arte não existe como possibilidade à margem de sua realização; daí a aventura, o risco, a incerteza que atormenta o artista" (p. 256). Tais características também atribuem a arte um (3) caráter único e irrepetível, pois não existe uma lei fixa imutável, mas uma construção durante sua realização. Nesse sentido "o objeto não é mera expressão do sujeito; é uma nova realidade que o transcende" (VÁZQUEZ, 1977, p. 255).
[...] na práxis artística, se evidencia, pelo que acabamos de expor, que a verdadeira criação supõe uma elevação da atividade da consciência e que sua materialização requer a íntima relação do interior com o exterior, do subjetivo com objetivo (VÁZQUEZ, 1977, p. 257).
Diferente da práxis criadora, a práxis reiterativa (ou imitativa) vai de encontro a essas (três) características mencionadas, o que para Vázquez (1977) torna-a inferior àquela. Nesse sentido, a práxis reiterativa (1) apresenta um modelo de referência (subjetivo) que será reproduzido (objetivo), ou seja, quem pensa e/ou cria, não é exatamente quem executa. Essa separação atribui-lhe o caráter de cópia ou duplicação, na qual existe uma lei que orienta a ação do executor; logo, ela (a práxis reiterativa) é (2) previsível e se mantém tal como na ideia originária porque já se conhece o resultado. Nesse sentido a atividade prática também (3) perde a qualidade de única, pois ao ser determinada por uma lei a priori, é passível de reprodução e imitação sempre que desejável.
Vemos, por conseguinte, que a práxis imitativa ou reiterativa tem por base uma práxis criadora já existente, da qual toma a lei que a rege. É uma práxis de segunda mão que não produz uma nova realidade; não produz uma mudança qualitativa na realidade presente, não transforma criadoramente, ainda que contribua para ampliar a área do já criado e, portanto, para multiplicar quantitativamente uma mudança qualitativa já produzida. Não cria; não faz emergir uma nova realidade humana, e nisso reside sua limitação e sua inferioridade em relação à práxis criadora (VÁZQUEZ, 1977, p. 258).
A práxis imitativa também se revela na arte, precisamente por meio do academicismo30 (VÁZQUEZ, 1977). A arte acadêmica31 é então uma atividade dicotômica
(no que diz respeito ao subjetivo e objetivo), previsível e repetível, logo, não é criadora e não transformadora. Para Vázquez (1977) "[...] na práxis total humana, inovação e tradição, criação e repetição se alternam e às vezes se entrelaçam e condicionam mutuamente. Mas a práxis determinante é a práxis criadora" (p. 279).
O ballet, para ser considerado práxis, necessariamente deve provocar uma transformação (material, física ou na consciência social) no mundo ou no indivíduo (naquele que o constrói, que o realiza ou que o aprecia). Pode-se dizer que na criação coreográfica propriamente dita, ou apenas na reprodução dela, haverá transformação, seja psicológica ou das capacidades físicas, pois a arte não é neutra; devido à particularidade da dança como um todo, na qual o corpo é ao mesmo tempo meio de construção e cristalização da obra de arte, é impossível uma reprodução puramente mecânica e automatizada. A sua perfeita realização requer o uso das funções psíquicas de modo ativo e intencional, logo, sem a consciência dos movimentos e do corpo - que implica também a expressão dos sentimentos - ela não se realiza; ao mesmo tempo, as capacidades físicas (força, flexibilidade, agilidade etc.) se modificam para adequar-se às exigências de cada movimento.
Assim como Vigotski diz que a atividade pode ser criadora ou reprodutiva, Vázquez também identifica-as no que diz respeito à práxis, porém como criadora ou reiterativa. Nesse sentido, entende-se que o ballet é uma práxis reiterativa quando o bailarino, por exemplo, reproduz um repertório; pois ele não participa do processo de criação e a coreografia é idêntica ao produzido na sua origem, sendo basicamente uma duplicação da mesma. O próprio processo de aprendizagem do ballet também descaracteriza-o como criador, devido à decomposição dos movimentos em busca de automatizá-los para garantir
30 É o mesmo que [...] criação artística de acordo com princípios ou leis que se apresentam com caráter normativo (VÁZQUEZ, 1977, p. 277).
31 Considerando que o ballet é uma arte acadêmica, ele também se encaixa nas críticas feitas por Vázquez
uma reprodução mais virtuosística32. Os movimentos repetitivos, realizados na barra e centro,
constituem a base necessária para a aprendizagem do ballet, entretanto, é importante refletir sobre esse processo e transformá-lo, em prol de uma prática que não se limite à reprodução.
É comum a separação, tanto no ballet quanto na dança (moderna ou contemporânea), entre aquele que cria e aquele que executa. Nesse sentido, parece haver, a princípio, uma separação entre subjetivo e objetivo, entre o ideal e o real, o que a descaracteriza como uma práxis genuinamente criadora. Porém, não significa que quem realiza o movimento em si não utiliza e assimila processos psíquicos, ao contrário, para ele (o bailarino, por exemplo) ser capaz de realizá-la (a criação artística) é necessário apropriar-se dos processos psicológicos nela cristalizados e ao mesmo tempo desenvolver outros que possibilitem o domínio de seu corpo e de seus movimentos; assim como os sentimentos e emoções vivenciados significam a sua leitura de mundo. Entretanto, a transformação que provocará no executor será diferente do criador. Neste, será qualitativamente mais elaborado e complexo, devido à natureza social e unicamente humana da criação. Mas nada impede o vir- a-ser do bailarino/executor. A reprodução ou imitação pode ser apenas um meio de apropriação na qual ele reúne material psíquico para posteriormente ser um criador efetivo.
O ballet não é totalmente previsível; ainda que o bailarino tenha memorizado e até executado algumas vezes, o produto pode ser diferente do planejado, tendo em vista a complexidade da técnica e seu caráter instável. Além do mais, cada apresentação é a síntese que cada artista expressa; logo, ele jamais poderá transmitir o mesmo sentimento ao espectador e este jamais terá a mesma reação, ainda que seja o mesmo espetáculo. Porém, é previsível no sentido de que ele (o bailarino) já sabe previamente a sequência dos movimentos e como deve ser realizado, ainda que durante o processo de execução seja necessário modificar a coreografia. Pode-se dizer, também, que não é um produto único e irrepetível, já que no ballet é possível reapresentar coreografias e espetáculos (mas nunca será idêntico) e além disso é tradição dançar os repertórios, criados há milhares de anos, com algumas poucas variações, buscando, na verdade ser o mais fiel possível à sua origem.
Embora não se possa negar a importância do ballet como produto cultural da humanidade, que pode vir a ser um meio efetivo de aprendizagem e desenvolvimento - considerando que por meio dele o homem se apropria das relações humanas construídas historicamente e ao mesmo tempo assimila as funções psíquicas superiores (tais como imaginação, generalização, abstração, memória, pensamento) cristalizadas na arte - é preciso
32 Faz-se referência às aulas que possuem movimentos básicos repetitivos necessários para realizar os
refletir sobre o modelo proposto de ensino e o modo como é representado, pois, em suma, no
ballet não se pode determinar o quanto ele se realiza como práxis; a criação não é um princípio no ballet, mas pode vir a ser. É importante ressaltar que o período de formação acadêmica, ainda que no modelo mais tradicional e rígido, pode não ser uma atividade em si criadora, mas propicia condições para tal, já que é na relação com o mundo que nos tornamos seres criativos. Portanto, faz-se necessário repensar como as aulas de ballet podem transformar o homem em direção a um agir crítico e criativo, assim como ampliar suas experiências e socializá-las.