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SÖZLEŞMENİN UYGULANMASI VE DEĞERLENDİRİLMESİ

BÖLÜM III: İHALELERİN SAHTECİLİK VE DİĞER YASADIŞI FAALİYETLER AÇISINDAN İNCELENMESİ

6.0 SÖZLEŞMENİN UYGULANMASI VE DEĞERLENDİRİLMESİ

Seis anos depois de serem enxotadas como moscas pelo Jardineiro da casa de Agamêmnon, na Électre de Giraudoux, as pequenas Eumênides voltam à cena através de Sartre e do diretor Charles Dullin. Fazendo referência (ou reverência?) ao texto de Giraudoux e suas Eumênides, Sartre escreve sua leitura do mito de Orestes e Electra, que ele chama de Les mouches. Se na peça de Giraudoux, as pequenas

1 Assim como procedemos no capítulo sobre o texto de Giraudoux, optamos por fazer

referência aos personagens do drama em sua forma portuguesa (Electra, Orestes, Egisto etc.). A única exceção ocorrerá quando fizermos citações do original, onde manteremos os prenomes em francês. Ainda, com o intuito de não saturar o texto com referências, usaremos a sigla (LM) para indicar o texto original de Sartre, cuja referência já foi feita na introdução. Uma vez que dispomos de uma versão brasileira do livro de Sartre, cuja referência completa também se encontra na Introdução, nós a usaremos nas traduções de rodapé, com a devida sigla (AM) e demais indicações (Ato, Cena, página).

Eumênides eram as ‘moscas’ que não deixavam de voltejar em volta de Orestes, na Argos de Sartre, elas estão em todo lugar:

LE JARDINIER. Voulez-vous partir! Allez-vous nous laisser! On dirait des mouches.

PREMIÈRE PETITE FILLE. Nous ne partirons pas. Nous sommes avec l’étranger.2 (E, Ato I, cena 1, p. 14).

LE PÉDAGOGUE. [...] (Il chasse les mouches de la main.) Ah çà, les mouches d’Argos m’ont l’air beaucoup plus accueillantes que les personnes. [...] Tenez, les voilà sur vous. [...] elles ont l’air de vous reconnaître.3 (LM, Ato I, Cena 1, p. 109).

Encenada pela primeira vez em 1943, durante a ocupação alemã, no Théâtre de la Cité (que outrora fora o Sarah Bernhardt e que teve o nome trocado pelos germânicos devido à ascendência judia da atriz), Sartre retoma, em Les mouches, o mito de Orestes e Electra, reestruturando-o em uma peça cuja aproximação com o legado grego se dá através do aproveitamento da Oréstia de Ésquilo, e, mais precisamente, de uma fusão entre as duas últimas partes da trilogia, As Coéforas e

As Eumênides. Como dissemos, seis anos haviam se passado desde a première da

peça de Giraudoux, mas graças a uma remontagem, Électre tinha estado em cartaz semanas antes da estreia de Sartre.

Vale inclusive salientar que o ano de 1943 destacou-se bastante, na França, pela ocorrência de diversas montagens resultantes de releituras das tragédias áticas, conforme atesta Charles Méré:

L’ année théâtrale se place décidément sous le signe des Atrides. Après

Dieu est innocent, de M. Lucien Fabre, après le cycle des Iphigénie

2O JARDINEIRO. Façam o favor de ir embora! Deixem-nos! Parecem moscas.

PRIMEIRA MENINA. Nós não iremos. Estamos com o estrangeiro.”

3 “O PEDAGOGO. [...] (enxota as moscas com as mãos) Ah, estas moscas de Argos

parecem mais acolhedoras do que as pessoas. [...] Vede, ei-las sobre vós. [...] parece vos reconhecer.” (AM, pp. 6-7).

celles de Racine, de Goethe et d’Hauptmann –, après l’Électre de M. Giraudoux, voici une version nouvelle des Euménides.4 (MÉRÉ, p. 54, In: GALSTER, 2005).

No que diz respeito a esse destaque dado ao mito naquele período, Sartre também tece seus comentários no texto “Forger des mythes”5, escrito que nasceu como palestra proferida pelo escritor em Nova Iorque no ano de 1946, três anos após sua estreia de Les mouches, com um fim ainda bem recente da Segunda Guerra.

Em seu texto, Sartre (1973b) toma como ponto de partida uma crítica à encenação nova-iorquina da Antígona de Anouilh. Naquela apreciação, Sartre sentiu ressoar um desconforto da crítica norte-americana diante da insistência com que os franceses vinham buscando nas tragédias e mitos gregos sua inspiração. Para ele, era perceptível o incômodo com a caracterização dos personagens e com o uso de uma forma e tema tão antigos. Principalmente no que tange à representação dos caracteres, havia uma insatisfação com a ausência de investimento no aspecto psicológico das figuras dramáticas para sua caracterização.

Para Sartre (1973b), essa reação resultaria de uma falta de compreensão do que estava impulsionando o teatro francês daquele momento, e ele então explica e defende a retomada dos mitos gregos e das tragédias como forma de escapar de um tipo de teatro cujo investimento nas características dos personagens e em um psicologismo exacerbado não emoldura apropriadamente o que se deseja representar. Na visão sartreana, o teatro pós 1940 precisava de um retorno à priorização das ações no drama, e para ele a tragédia e o mito gregos constituiriam o material natural para servir de inspiração a esse novo ‘antigo’ modelo.

Sartre não foi o primeiro a fazer essa afirmação, e é só voltar à Poética (ARISTÓTELES, 1966) para que nos lembremos de seu autor asseverando a

4

“O ano teatral coloca-se decididamente sob o signo dos Atridas. Depois de Dieu est

Innocent [releitura de Édipo], do Senhor Lucien Fabre, após o ciclo das Iphigénie – as de Racine, de Goethe e de Hauptmann –, após a Électre do Senhor Giraudoux, eis uma nova versão das Eumênides.” (Tradução e inserção nossas).

5 SARTRE, Jean-Paul. Forger des mythes. In: ________. Un théâtre de situations. Textes

prioridade da ação sobre o caráter na composição do personagem da tragédia. No entanto, talvez tenhamos no filósofo francês uma motivação diferente. Enquanto Aristóteles recomenda uma construção mais preocupada com a ação como meio mais efetivo na obtenção dos efeitos de terror e piedade – função última da tragédia, segundo o filósofo –, Sartre vê na ação a possibilidade de expor o ethos do personagem. Para ele, a tragédia grega, com seus mitos, coloca-nos diante de indivíduos que representam um exercício da vontade livre. Em suas próprias palavras sobre Antígona:

[...] l’Antigone d’Anouilh n’est pas du tout un caractère. Elle n’est pas non plus le simple support d’une passion qui devra se développer selon les règles admises d’une psychologie quelconque. Elle représente une volonté nue, un choix pur et libre; on peut distinguer en elle la passion de l’action6. (SARTRE, p. 56-57, In: SARTRE, 1973b).

E embora Sartre esteja fazendo referência a uma Antígona ‘moderna’, a de Anouilh, ele afirma que essa é uma ideia que já se encontra na tragédia grega, e aponta a figura de Antígona, em Sófocles, como um ser em que a paixão se dá pelo encarniçamento com o qual ela luta pelo direito de cumprir os rituais fúnebres do irmão.

Para Sartre, o teatro, cuja estrutura ressalte as sucessivas instâncias em que deve ocorrer uma escolha do personagem, será o que ele concebe como teatro de situações7. Nele, a ação progredirá através de mudanças conjunturais que resultam em uma determinada situação que permite uma escolha e que convoca o personagem a exercê-la através de um ato, o seu. Da mesma forma, o homem, que individualmente faz suas escolhas e concebe seu agir mobilizado pela percepção de que o mundo se apresenta como uma série de circunstâncias que o cercam,

6 “[...] A Antígona de Anouilh não é de modo nenhum um caráter. Ela também não é o

simples veículo de uma paixão que deverá se desenvolver segundo as regras aceitas de uma psicologia qualquer. Ela representa uma vontade nua, uma escolha pura e livre; pode-se distinguir-lhe a paixão da ação.” (Tradução nossa).

7 SARTRE, Jean-Paul. Um théâtre de situations. Textes choisis et presentés par Michel

estimulando-o, mas limitando-o na mesma medida, e que para esse mundo ele não pode deixar de dar uma resposta sob forma de ação8.

Sartre (1996) concebe o homem como um ser cuja existência, seu estar no mundo, antecede a sua essência. Para ilustrar esse conceito, o filósofo lança mão de uma comparação entre o homem e o objeto: este, quando produzido, é antecedido por uma necessidade que gera um projeto onde sua forma e funções encontram-se pré-determinadas. O objeto será a concretização de um plano e, neste caso, sua essência/natureza é anterior à sua criação, e determinante de sua existência.

Diversamente do que ocorre com o objeto, a existência do homem, segundo Sartre, não decorre de um projeto prévio – que seria a criação divina – e tampouco é a concretização de uma preexistente e definida natureza humana. Para o filósofo, o indivíduo é primeiramente lançado no mundo, e é, através de sua relação com esse mundo, que ele constrói a sua essência.

Esta concepção implica afirmar que o homem é um ser que vem ao mundo ainda por conceber-se (projetar-se) e fazer-se a si próprio por meio de sua existência. À exceção do fato de que ele está sujeito a fatores da condição humana – mortalidade, necessidade de trabalhar –, o indivíduo está livre para decidir e fazer seu projeto: “L’homme est non seulement tel qu’il se conçoit, mais tel qu’il se veut, et comme il se conçoit après l’existence, comme il se veut après cet élan vers l’existence, l’homme n’est rien d’autre que ce qu’il fait.9” (SARTRE, 1996, pp. 29-30).

Chamemos a atenção para o fato de que Sartre não perde de vista a relação do indivíduo com o coletivo, e o que ele compreende como o projeto que o homem faz para si não deve ser entendido como um plano estritamente pessoal de vida. Trata-se de um projeto de ser humano. O homem, ao conceber-se, ao fazer suas

8 SARTRE, Jean-Paul. L’existencialisme est un humanisme. Présentation et notes Arlette Elkaïm-Sartre. Paris: Gallimard, 1996.

9 “O homem é tão-somente, não apenas como ele se concebe, mas também como ele se quer; como ele se concebe após a existência, como ele se quer após esse impulso para a existência. O homem nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo [...]”.

SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo; A imaginação; Questão de método. Seleção de textos José Américo Motta Pessanha. Tradução de Rita Correia Guedes, Luiz Roberto Salinas Forte, Bento Prado Júnior. 3. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1987, p. 6.

escolhas e agir, idealiza, afirma e legitima um projeto para todo e qualquer ser humano:

En effet, il n’est pas un de nos actes qui, en créant l’homme que nous voulons être, ne crée en même temps une image de l’homme tel que nous estimons qu’il doit être. Choisir d’être ceci ou cela, c’est affirmer en même temps la valeur de ce que nous choisissons, car nous ne pouvons jamais choisir le mal; ce que nous choisissons, c’est toujours le bien, et rien ne peut être bon pour nous sans l’être pour tous10. (SARTRE, 1996, pp. 31-32).

É de suma importância para nossos propósitos salientar que a responsabilidade que recai sobre o homem, ante tal afirmação, é tremenda, e que, levando em consideração o fato de que está descartada a existência de um decálogo, ou de um conjunto de princípios morais imanentes ao humano, ou seja, o fato de que cada homem encontra-se, em última instância, só, e que é nesse estado de abandono que ele terá que fazer suas escolhas, a liberdade pode tornar-se fardo.

Retomando a questão do mito e a filosofia de Sartre, se o autor é, por um lado, um convicto defensor da apropriação do mito grego pelo que ele apresenta de experiências humanas em consonância com o espírito de liberdade existencialista, ele é, por outro, totalmente avesso à ideia de uso do material mítico com funções simbólicas, arquetípicas ou psicológicas.

Por isso, faz sentido, como veremos a seguir, atribuir um caráter alegórico à recriação sartreana do ato de Orestes e seu contexto. No entanto, entendemos ser possível estabelecer uma aproximação entre a visão de Sartre sobre o mito e uma das funções que Campbell (1990) atribui à fabulação mítica: “como viver uma vida humana sob qualquer circunstância” (p. 32).

10“De fato, não há um único de nossos atos que, criando o homem que queremos ser, não esteja criando, simultaneamente, uma imagem do homem tal como julgamos que ele deva ser. Escolher ser isto ou aquilo é afirmar, concomitantemente, o valor do que estamos escolhendo, pois não podemos nunca escolher o mal; o que escolhemos é sempre o bem e nada pode ser bom para nós sem o ser para todos”. (SARTRE, 1987, pp. 6-7).

Pelo que acreditamos compreender da relação de Sartre com o mito, este vale, não pelos deuses ou pelas mensagens moral, de transcendência divina, ou ainda pelo vislumbre de abismos inconscientes que nele possam ser encontrados, mas, sim, por seu aspecto de exemplaridade, e por tratar-se de narrativas cujos personagens são ricos em vontade e experiências. E, o mais importante, por encontramos nos mitos personagens que seguram sobre os ombros as consequências de seus deliberados atos e que pagam o preço por suas razões e desrazões.