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No processo de produção da presença de viver no ano de 1926, Hans Ulrich Gumbrecht teve de tomar certas decisões metodológicas. Sua ênfase era no processo de simultaneidade, na sincronia dentro do ano de 1926. Assim, deveria desistir da narrativa como forma de apresentação histórica. Isso implica desistir da noção de acontecimento, pois um acontecimento só ganha sentido no momento em que se integra numa narrativa, instaurando seu ―antes‖ e seu ―depois‖. O ano de 1926 não deveria ser pensado como o ano em que Heidegger escreveu Ser e tempo, ou Hitler publicou Mein Kampf, mas em função de algo que não necessitasse da estrutura narrativa.

Os conceitos de dispositivo e código, apropriados de, respectivamente, Michel Foucault e Niklas Luhmann, ajudaram o autor de Em 1926 a falar da História, e mesmo mencionar acontecimentos, sem que estes tivessem peso narrativo ou aquela uma linearidade temporal e causa. Ambos os conceitos, dispositivo e código são apresentados de forma sumária no capítulo ―Depois de aprender com a História‖, de Em 1926. Nesta definição, dispositivos são ―certos artefatos, papéis e atividades (por exemplo, Aviões, Engenheiros, Dança) que exigem que os corpos humanos entrem em relações espaciais e funcionais específicas com os mundos cotidianos que eles habitam‖ (1999: p. 483). Já os códigos se definem como oposições binárias que organizam zonas de convergência entre grupos de dispositivos, tomando assim a função ―antiparadoxal‖ de diminuir a complexidade dessa coexistência e sobreposição de dispositivos. As oposições trazidas pelos códigos teriam um papel estruturante na cultura do momento histórico. A estranha

oposição entre Macho e Fêmea (p. 357-365), denominados dessa forma creio que para evitar de falar apenas de seres humanos, seria característica de uma cultura que polariza os gêneros - como a do ano de 1926. A oposição entre Presente e Passado (p. 367-374) caracterizaria tanto momentos que se vêem positivamente em relação ao passado, numa fascinação pelo novo, quanto momentos nostálgicos - e o que o código revela é a coexistência dessas duas atitudes. Nem sempre, no entanto, os códigos conseguem dissolver os paradoxos, o que gera uma ―terceira opção‖: são os códigos em colapso ou quebras de códigos (os dois termos são usados indiferentemente) (p. 483-484). O colapso do código ―Ação versus Impotência‖, por exemplo, está representado na fórmula ―Ação = Impotência (Tragédia)‖ (p. 395). Os colapsos representam questões que estão ―além do que pode ser expressado e conceitualmente controlado‖ (p. 484). Os colapsos presentes no livro são a Tragédia, a Vida, a Infinitude, a Morte, o Líder, a Eternidade e a Questão de Gênero, esta última representando um "colapso" entre "Macho" e "Fêmea" (p. 7). É curioso que, num livro que tenta evitar a narrativa histórica e, num plano mais geral, qualquer "grande narrativa", Gumbrecht chegue a um esquema tão próximo a algumas versões da dialética. Embora a ênfase no "colapso" ou na "quebra", que busca evitar que essa terceira opção seja uma espécie de "síntese", é fácil ver como algumas dessas tríades correspondem a elementos da história do pensamento dialético. Justificar o Líder como síntese entre Individualidade e Coletividade (p. 431-437) parece ter sido um dos grandes objetivos do pensamento estalinista, por exemplo. O papel a que Gumbrecht se dispõe, ao menos neste caso, é de inverter a polaridade: o culto à personalidade, positivo na síntese estalinista, toma um valor negativo no colapso de Em 1926.

retira o conceito de Foucault, que não o definiu propriamente, e parece utilizá-lo com propósitos muito diversos do ―dispositivo da sexualidade‖ de que Foucault fala na História da sexualidade, ou do panóptico descrito em Vigiar e punir. Em Gumbrecht, mesmo expresso o intuito de falar do corpo como subjetivado pelos dispositivos, não aparecem com força as questões de poder/saber tão discutidas por Foucault.

Além disso, o que é importante para esta tese, Gumbrecht traz o conceito de dispositivo para um registro que se pode dizer "neutro". Em Foucault, o dispositivo tem um papel ambivalente, por um lado repressor, por outro criador. O dispositivo da sexualidade, ao regular prazeres, de alguma forma os cria. Também os dispositivos disciplinares descritos em Vigiar e punir estabelecem comportamentos, de uma forma que não pode ser dita sem mais nem menos como apenas negativa. Mesmo assim, os dispositivos de que fala Foucault reprimem, controlam e dirigem subjetividades. Os de Em 1926 fazem com que corpos humanos "entrem em relação" com o mundo. Há uma mudança de tom importante, e que permite que se passe a considerar uma outra classe de "artefatos, papéis e atividades" muito mais diversos que as prisões, escolas e hospitais foucaultianos.

Tomemos um dos "papéis" apresentados como dispositivo no livro: "Americanos em Paris" (p. 17-27). Na descrição desse dispositivo, que inclui leituras de jornais da época e de romances lançados naquele ano, como O sol também se levanta, de Ernest Hemingway, Gumbrecht trata não só da "geração perdida" de escritores norte-americanos que vivem em Paris - e que inclui Hemingway - como também dos turistas comuns, atraídos tanto pela imagem do refinamento europeu como pela suposta liberdade sexual e pela efetiva facilidade em conseguir bebidas alcoólicas. Um mecanismo de desejos e repulsas se estabelece: "Sem querer admiti-

lo, os europeus sentem uma mistura de fascinação e ressentimento" (p. 25) pelos americanos, enquanto estes desejam ou o refinamento europeu, ou uma fuga do puritanismo de seu próprio país.

Num dos "artefatos" descritos como dispositivo, os elevadores servem como emblema da fantasia de um sistema fechado, o dos grandes arranha-céus ou hotéis, mas também como espaço de mobilidade espiritual ou social: descida aos infernos, que podem ser os subterrâneos proletários da Metrópolis de Fritz Lang, ou subida aos céus, que podem ser os terraços iluminados onde a aristocracia do filme vive (p. 121-125).

Os verbetes do livro Em 1926, portanto, enfatizam os desejos, muitas vezes paradoxais, associados aos dispositivos de que tratam. Como Gumbrecht abdica da estrutura narrativa ou linearidade temporal, não se pode estabeler uma relação de causalidade. Não se sabe se os dispositivos ocasionam tais desejos, ou se são os desejos que criam a imagem dos dispositivos.

Este nexo causal será dado pela versão "forte" do conceito de dispositivo, defendida por Giorgio Agamben. Antes, porém, passo a uma leitura da entrevista de Foucault "Sobre a História da sexualidade" (1979), de forma a ver em que medida a versão "fraca" do conceito de dispositivo se aproxima e se distancia das escassas indicações que o filósofo francês nos proporciona sobre seu sentido.

Benzer Belgeler