Os veios de quartzo associados ao minério desenvolveram no granitoide encaixante distintos halos de alteração hidrotermal (Fig. 3.8). Adjacente aos veios desenvolve-se uma zona de intensa alteração hidrotermal, a qual apresenta cor cinza escura e espessuras milimétricas a centimétricas (Fig. 3.8a e d). A intensidade da alteração tende a diminuir ao se afastar ortogonalmente do veio e a rocha assume diferentes tons de rosa até retornar à cor cinza clara, sua cor (Fig. 3.8b). A espessura dessa zona de alteração intermediária é centimétrica a decimétrica. Embora seja uma tendência geral, essa gradação pode não ser tão bem observada em alguns veios.
Petrograficamente essa gradação reflete as mudanças mineralógicas e texturais desenvolvidas em decorrência da interação fluido/rocha. A figura 3.8 apresenta o aspecto macroscópico e microscópico das rochas com alteração incipiente, porção externa ao halo, e alteração média e intensa, referentes ao halo de alteração. Observa-se nas amostras externas ao halo que a alteração é semelhante àquela descrita para rochas afastadas do garimpo (e.g. MM-75). Nas porções do halo que exibem tonalidade rosa, a intensidade de alteração é média e a textura original é preservada (Fig. 3.8c), ao passo que as amostras adjacentes ao veio mostram uma intensa alteração e a textura original da rocha é substituída por uma textura decussada desenvolvida por moscovita (Fig. 3.8d).
As principais mudanças mineralógicas induzidas pelos veios podem ser visualizadas na figura 3.9 e nos anexos III e IV. A figura 3.9 apresenta de maneira esquemática a mineralogia observada em zonas de alteração incipiente, média e intensa. À medida que a intensidade da alteração aumenta, ao se aproximar do veio, há um gradual desaparecimento da fluorita, titanita e da biotita cloritizada e a intensificação da alteração dos feldspatos para moscovita e por carbonato. Sulfetos e óxidos passam a ocorrer de maneira disseminada, embora raramente excedam mais que 1% da porcentagem modal. Os
principais sulfetos são pirita, arsenopirita, galena e mais raramente pirrotita, covellita e calcopirita. Os principais óxidos são rutilo e hematita.
Figura 3.8 – Feições macroscópicas e microscópicas das alterações hidrotermais no granitoide. (a) Veio de quartzo (Vqz) com halo de alteração intensa (Ai) e média (Am). Ponto 12. (b) Alteração incipiente, onde a rocha preserva cor, textura e mineralogia original. Os minerais essenciais são plagioclásio (Pl), ortoclásio (Or), microclina (Mc), biotita cloritizada (Bio) e quartzo (Qz). A moscovita (Ms) é o principal mineral de secundário. Amostra MM-12g-II. (c) Amostra com alteração média onde verifica-se a mudança de coloração da rocha, o desaparecimento da biotita e o aumento relativo de moscovita. Amostra MM-12l. (d) Alteração intensa da rocha oblitera a cor, textura e mineralogia da rocha. A moscovita e o quartzo tornam-se as fases predominantes.
Figura 3.9 – Quadro apresenta de maneira esquemática a composição mineral observada em amostras com alteração incipiente, que compreendem a rocha original, e amostras com alteração média e intensa, que correspondem aos halos de alteração hidrotermal. A espessura das barras expressa a estimativa modal dos respectivos minerais na amostra. O Quartzo2 refere-se ao quartzo secundário presente em vênulas e veios.
A moscovita possui porcentagens modais que variam entre 8% a 60%, dado em função do grau de alteração da amostra. É o principal mineral de alteração, que se associa também ao quartzo e ao carbonato. Apresenta granulação fina e exibe cristais subédricos. Estes podem mostrar bordas irregulares, apresentando formas “esqueléticas” (Fig. 3.10a), e comumente exibem inclusões irregulares de plagioclásio e/ou feldspato potássico. Em geral possui textura decussada, porém nos veios/vênulas o mineral ocorre preferencialmente nas paredes e orienta-se aproximadamente perpendicular a estas (Fig. 4.22b e c). Neste caso a moscovita tem uma granulação relativamente maior (fina a média). Em algumas amostras a moscovita está alterada para um material amorfo de granulação muito fina e cor preta, provavelmente um argilo-mineral.
O carbonato, assim como a moscovita, pode ocorrer tanto na matriz, quanto associado às vênulas/veios. É interessante notar que não há relação entre a porcentagem modal do mineral e intensidade de alteração das amostras e em algumas amostras muito alteradas ele pode estar ausente (e.g. amostra 81a). Possui granulação fina e grãos anédricos, normalmente de contatos amebóides. Quando próximo ou nos veios/venulações, mostra granulação relativamente maior e seus contatos tendem a ser retilíneos. Comumente o mineral ocorre substituindo o plagioclásio (Fig. 3.10b).
Figura 3.10 – Aspectos texturais dos minerais em halos de alteração hidrotermal. (a) Grãos anédricos de moscovita (Ms) envolvem parcialmente cristal de plagioclásio (Pl). LPX, amostra MM-14. (b) Carbonato (Cb) substitui parcialmente grão de plagioclásio. Na parte esquerda superior observa-se a moscovita substituir parcialmente a microclina (Mc). LPX, amostra MM-12c -I (c) Grão esqueletiforme de plagioclásio envolto por quartzo (Qz) e moscovita. LPX, amostra MM-31. (d) Rutilo intercrescido com moscovita. LPP, amostra MM- 12b.
Os feldspatos mostram uma substituição gradual para moscovita e carbonato nos halos de alteração. O plagioclásio é o mineral mais afetado pela alteração e em amostras muito alteradas sua porcentagem modal chega a menos de 10%. Exibe também substituição para quartzo, conforme indicado pela presença de grãos esqueletiformes inclusos nesse mineral (Fig. 3.10c). Os feldspatos potássicos (ortoclásio e microclina) também mostram-se alterados para moscovita, porém com menor intensidade. Não há evidências que o processo de potassificação dos plagioclásios seja intensificado com o aumento da alteração gerada pelos veios. Tanto o plagioclásio quanto o feldspato potássico apresentam uma alteração incipiente para um fino agregado, provavelmente de natureza argilosa.
O quartzo apresenta-se na forma de agregados monominerálicos e como preenchimento de vênulas e veios. Embora sua porcentagem modal aumente nas amostras mais alteradas em função da presença de veios e/ou vênulas, o mesmo não é observado na rocha, onde ela mantém-se aproximadamente constante (Fig. 3.9). Nos agregados de quartzo, o mineral exibe cristais anédricos e têm granulação média a fina. A deformação nesses cristais é marcada pela extinção ondulante,
formação de subgrãos e novos grãos. É possível que em parte, esse quartzo tenha uma origem secundária, visto a presença de agregados monominerálicos com inclusões de feldspato potássico, plagioclásio (Fig. 3.10c) e moscovita.
A arsenopirita mostra grãos subédricos a euédricos e possui granulação fina a média (Fig. 3.11a). Ocorre em grãos isolados na matriz ou em agregados juntamente com pirita, galena, calcopirita e mais raramente pirrotita. Os grãos apresentam diferentes graus de fraturamento.
A galena apresenta granulação fina a grossa e mostra grãos anédricos. Os grãos possuem contornos irregulares e mostram um caráter intersticial (Fig. 3.11b). O mineral intercresce com todos os sulfetos e silicatos. Ocasionalmente preenche clivagens da moscovita e mostra inclusões de quartzo, feldspatos, carbonato e moscovita.
A pirita ocorre em agregados monominerálicos, grãos isolados na matriz ou intercrescida a outros sulfetos. Apresenta grãos subédricos a euédricos e mostra granulação fina. Os grãos podem exibir inclusões de moscovita, feldspatos, quartzo e carbonato e por vezes apresentam uma textura poiquiloblástica (Fig. 3.11d). O mineral possui diferentes intensidades de fraturamento e de alteração para hematita e/ou limonita (Fig. 3.11c e d).
A calcopirita possui grãos anédricos e exibe granulação fina (Fig. 3.11b). Normalmente ocorre associada à arsenopirita, galena e/ou pirita e está parcialmente substituída por covellita e raramente preenche clivagens na moscovita. A pirrotita foi identificada apenas na amostra MM-12i, onde apresenta grãos finos a médios e está intercrescida com galena, arsenopirita, pirita e calcopirita (Fig. 3.11b).
O rutilo ocorre com hábito prismático e mostra grãos subédricos de granulação fina. Em algumas amostras dispõem-se em agregados com grãos formando entre si ângulos de aproximadamente 120°. Em geral ocorre intercrescido com a moscovita (Fig. 3.10d).
A hematita forma palhetas de granulação fina e a limonita ocorre sob a forma de agregados. Ambas estão associadas à alteração da pirita e/ou pirrotita, substituindo-as nas bordas ou fraturas, por vezes, completamente (Fig. 3.11a, c e d).
Nos halos de alteração ocorrem também agregados amorfos com diferentes colorações. Em geral esses agregados estão associados a minerais opacos, rutilo, biotita ou sericita. Um fino agregado de aspecto terroso altera de maneira incipiente os feldspatos, principalmente o plagioclásio.