Sob este código foram também reunidas muitas citações que mostram o relevante suporte que os executivos Japoneses, na empresa Z e dentre a amostra de vinte e dois expatriados (V), têm no Brasil: os funcionários com ascendência japonesa (nikkeys) que compreendem a língua e apresentam uma proximidade cultural com estes executivos.
O alto percentual de funcionários nikkeys em muitas empresas nas quais atuam os expatriados japoneses entrevistados viabiliza a comunicação em língua japonesa e um amplo suporte à gestão por parte dos expatriados. Entretanto, de acordo com P12 não há diferenças de tratamento entre os funcionários com ou sem ascendência japonesa em sua empresa. P9 ressalta que se pede ao local para agir como empregado da empresa e que isso independe da sua nacionalidade:
P19: A língua utilizada internamente nesta empresa é o inglês, isso porque o Japonês não consegue falar logo de imediato a língua. Agora no departamento de produção a maior parte dos funcionários é constituída de nikkeis. Os nikkeis trabalham seriamente e também entendem o senso do japonês. A parede entre nikkeys e Japoneses é menor que a parede entre nikkeys e os brasileiros não nikkeis. Como a maioria dos funcionários da produção é de nikkeys, torna-se possível comunicar-se em japonês para o trabalho e isso é uma vantagem.
P12: Aqui nesta empresa cerca de 50% dos funcionários são nikkeys. Quero ressaltar que não há diferença de trabalho em relação os funcionários nikkeys e aqueles que não são nikkeys, pois eles desempenham normalmente suas tarefas nos departamentos nos quais estão designados. No entanto, a matriz nossa fica em Tóquio e temos muitos clientes Japoneses e por isso há muitos telefonemas, e-mails e o fato de haver muitos nikkeys que falam o japonês ajuda muito.
P9: Esta é uma empresa Japonesa e nesta empresa há muitos nikkeys entre os locais, assim há a mentalidade de não ver os funcionários como Brasileiros, mas como empregados da empresa e assim pedimos a eles que, por favor, passem a agir dessa maneira, assim tanto faz se for Americano, Brasileiro ou Tailandês.
No entanto vale ressaltar que os expatriados reconhecem que apesar da proximidade cultural, sentem-se diferentes dos nikkeys, que não são japoneses, como afirma P19 e P11 entre outros:
P19: Temos também um alto percentual de “nikkeys” aqui também. Isso ajuda muito só que há problemas também. Quando vamos chamar a atenção de um nikkey imaginamos que ele reagirá como um japonês, mas aí percebemos que ele é no fundo um brasileiro. P11: Até agora eu tenho amigos nikkeys. Esses amigos ajudam muito, pois eles estão no Brasil há muito tempo e conhecem tudo. Sinto uma gratidão pela ajuda que eles me dão. Há cerca de 20 a 30 anos atrás, nesta empresa, havia muitos nikkeys que sabiam o japonês e o
português e isso deu um suporte a esta empresa japonesa. Hoje já estamos na terceira geração e quarta e à medida em que surgem novas gerações de descendentes de japoneses pode-se perceber que cada vez menos pessoas conhecem a cultura e a língua japonesa. Recentemente penso que os descendentes de japoneses, que têm rostos de japoneses acabam sendo uma influência negativa no trabalho. Superficialmente são japoneses, mas como não conhecem a cultura e a língua o trabalho não avança. A gente espera mais dos nikkeys, mas agora é diferente...Outra questão é que entre os nikkeys que se destacam, há muitos que não falam japonês e não vêm para trabalhar em empresas japonesas, porque talvez os benefícios, carreira, salários não são atrativos. Muitos vão para outras empresas, empresas brasileiras por exemplo...
O relato de ZP11 abaixo sugere também que os expatriados se aproximam mais dos nikkeys, apoiando-se em suas opiniões e informações para suas ações. Em P8 observa-se que os nikkeys são vistos metaforicamente como uma “ponte” entre os Brasileiros e os expatriados japoneses. Os nikkeys são uma espécie de referencial, uma fonte de consulta necessária para realizar o ajuste de suas mensagens que são transmitidas aos locais. P8, entre outros, sugere que as subsidiárias de empresas japonesas bem sucedidas no Brasil têm uma estrutura organizacional na qual os nikkeys fazem o elo entre japoneses e os locais:
ZP11: hum...há mérito e desvantagem...Bom.. primeiramente, quando a gente acaba de chegar e não sabe falar a língua.. então é muito significante... mas eu penso que acabo me apoiando apenas nessa pessoa nikkey e a conversa se concentra apenas nela mesmo que haja muitas outras pessoas...e se ela estiver ocupada eu acabo não tendo com quem conversar... também penso que a opinião dessa pessoa acaba sempre influenciando independente da posição dela... se fosse um simples funcionário então só a tradução por parte dela seria o suficiente, mas acabo sempre trocando opiniões sobre diversas coisas...
P8: Então...penso que quando há dificuldade com a língua os nikkeys nos ajudam. O diretor da nossa fábrica, que fica em outra cidade, é nikkey e quando não entendo algo ele me ajuda com a tradução rs...Os nikkeys são como uma ponte entre os brasileiros e os japoneses. Nos EUA por exemplo não é assim, a única ponte é o tradutor e também há a questão da discriminação contra os japoneses. Aqui no Brasil não há, quase não há essa discriminação e fico feliz com isso. Penso que a função dos nikkeys é importante, pois graças a eles é possível aprofundar a conversa. Às vezes eu quero dizer certas coisas, mas os nikkeys me ajudam com conselhos e pensamentos. Eu costumava dizer: Precisamos fazer isso pela empresa, pela empresa; mas aí um nikkey me disse que os brasileiros ouvem isso mas não entendem então é preciso dizer de
outro modo...esses conselhos ajudam bastante. Penso que as empresas japonesas bem sucedidas no Brasil talvez tenham essa estrutura onde os nikkeys ajudam na comunicação com os locais. O fato de haver nikkeys aqui que conhecem a língua e a cultura facilitam muito a adaptação No Brasil é possível fazer essa estrutura rs, aqui nesta empresa o diretor é nikkey e as coisas estão indo bem...
Além da comunicação, os nikkeys tornam o ambiente de trabalho no Brasil próximo ao japonês e influenciam os demais locais para que se aproximem da cultura organizacional japonesa:
P5:Eh...nesta empresa, dizer que trabalhamos com brasileiros...nesta empresa o jeito de pensar é próximo Japão...o que quero dizer é que aqui no nosso staff temos muitos nikkeys da segunda geração, terceira e há uma compreensão sobre o jeito de fazer as coisas do Japão. Algo misterioso que acontece é que outros funcionários brasileiros, que não têm ascendência japonesa, acabam sendo influenciados e aqui há funcionários jovens que estudam voluntariamente o Japonês. Para mim fica muito fácil de fazer as coisas...
P3: Sim, eh...esta empresa está presente em cerca de 40 países e aqui o nível de absorção é elevado, bom eu estou há pouco mais de um ano e pergunto aqui e ali...aqui há nikkeys e eles conhecem jeito de pensar e a cultura japonesa e penso que esse seja um dos motivos pelos quais o nível de absorção aqui é elevado.
Já P5 afirma que um ambiente de trabalho próximo à cultura organizacional japonesa e com os nikkeys constituem condições necessárias para a sua efetividade no Brasil. Já P21 tem o comodismo de transmitir suas diretrizes em língua japonesa para um nikkey que traduz para os locais, que praticamente não precisa do conhecimento da língua portuguesa no trabalho:
P5: Também havia muitos nikkeys nesta época trabalhando nessas fábricas. Há então uma tradição que é passada para os locais aqui. Sabe, imagine que eu viesse como expatriado para cá em uma empresa totalmente brasileira, uma empresa que não tivesse nenhum capital Japonês, com certeza eu não me daria bem aqui... P21: Na hora de comunicar eu passo as diretrizes em japonês para um Nikkey-San que é gerente ou chefe e ele passa para os subordinados em português. Eu quase não falo em português sobre o trabalho. Quando me comunico em português com os locais é para
perguntar coisas tais como: “como foi a festa ontem?” Rs Rs, coisas que não tem nada a ver com o trabalho.