A escola conta com um número significativo de funcionários e docentes. Segundo o quadro de integrantes, no ano letivo de 2015, a escola era composta por um gestor, dois adjuntos, um secretário, dois coordenadores do Programa Mais Educação, 67 professores/as e 32 funcionários, entre agentes administrativos, auxiliares de serviços gerais e porteiros. Seria esta a atual composição dos estabelecidos da “Chica”?
No ano letivo de 2015, foram matriculados/as 1.490 alunos/as, distribuídos/as nas seguintes turmas e turnos: pela manhã, 27 turmas; à tarde, 18 turmas; à noite, 17 turmas. Os discentes têm uma faixa etária entre 11 aos 55 anos. Estes, por sua vez, seriam os outsiders contemporâneos?
A maioria dos/as alunos/as da escola reside na Zona Rural e a maior parte destes/as estuda no ensino médio, pois existem três escolas espalhadas nas dependências do município que trabalham com os alunos do 6º até o 9º ano. Duas, dessas escolas, estão localizadas nos distritos rurais de Campinote e do Alvinho. A outra escola está situada na zona urbana.
Quando os alunos terminam o ensino fundamental I e II nas instituições municipais, direcionam-se, em sua maioria, para a escola pesquisada a fim de cursar o ensino médio, sendo esta a única escola pública que detém esse nível de ensino na cidade. Outro motivo para a maioria dos/as estudantes estudar nela é o transporte escolar que garante a locomoção dos/as alunos/as da zona rural para a zona urbana.
A escola possui, fisicamente, as seguintes repartições: uma sala dos professores, que tem duas grandes janelas defronte sempre abertas, no entanto, raramente, os/as alunos/as a frequentam. Esse espaço possui um local reservado com computador para os professores e livros de vários autores sobre o ensino, aprendizagem, currículo, entre outros temas
relacionados à educação. Casualmente, algum/a professor/a utiliza o acervo de livros. Quando questionados sobre o motivo da não utilização desse espaço, em sua maioria, respondem que é “pela falta de tempo”, “por causa da longa carga horária”, ou pelo “não interesse pelos temas abordados nos livros”. Deduzimos que há, aparentemente, uma possível acomodação/estagnação de ler e de se apropriar de novas temáticas e metodologias, porém essas constatações não são elementos de interesse da presente pesquisa, podendo ser foco de pesquisas futuras.
A escola possui 15 salas de aula, que funcionam em três horários (manhã, tarde e noite). Dessas, apenas oito têm ventilador, o que é motivo de grande desconforto entre os/as alunos/as do ensino fundamental (que em não têm ventilador nas salas. Os alunos do ensino médio contam com salas com ventiladores). Aparentemente, estabeleceu-se uma tensão na relação de poder, posto que os alunos relatam que apenas o ensino médio tem ventilador por ser uma modalidade escolar mais elevada. No entanto, os alunos do ensino médio afirmam ter
apenas um ventilador – em mau estado de funcionamento –, o que é pouco para uma sala de
aula com a média de 30 a 45 alunos. Sobre isso, pautados na perspectiva eliasiana, constatamos que internamente os próprios alunos/as outsiders percebem seus diferentes níveis de poder e também as divergências internas que contribuem para a formação de dois grupos, igualmente outsiders. Os/as alunos/as do ensino médio são considerados e reconhecidos como os “líderes” da escola. Esse aspecto de liderança é visivelmente percebido no desenrolar das reivindicações estudantis.
O que problematizamos nessa direção é o processo pelo qual os alunos se apropriam e se reconhecem do e no espaço escolar. Não são agentes passivos, eles/as reivindicam suas necessidades e desejos. Os espaços mais visitados pelos/as alunos/as, professores/as e os/as funcionários/as são a secretaria e a sala da direção. Esses lugares são frequentados como forma de expressar suas indagações, medos, insucessos. São espaços de reivindicação permanente.
Um dos motivos de reivindicação e indignação por parte dos alunos é a quadra poliesportiva. Esta, que deveria ser um espaço de socialização e lazer, encontra-se em um estado precário, servindo apenas como lugar de negação, pois que não desperta o interesse nem de meninas nem dos meninos. Estes últimos são os que mais reclamam da falta de reparo da quadra. Evidencia-se a continuidade do espaço da educação outsiders com características “inferiores e ruins”, como ocorreram em outrora32 nas décadas de 1930 e 1980.
32 Na década de 1930, a escola era um cômodo de uma casa sem recursos. Na década de 1980, foi um galpão
A cantina, o pátio, e o banheiro (nas dependências da escola existem três banheiros, um para os professores e funcionários, um para as meninas e outro para os meninos) são os espaços mais frequentados pelos/as alunos/as. Espaços de socialização e lazer.
Em sua maioria, quando perguntados o porquê do apego a esses espaços, eles/as respondem que é onde podem se sentir “livres”, conversar, atender ao celular. Movimentar-se por esses espaços é uma questão de sociabilidade e cada “grupo”33 tem os seus preferidos. As
meninas vivem no banheiro, embelezando-se. Aquele, segundo as mesmas, é o local mais propício para “atualizar o papo”, por ser reservado e longe dos meninos, e por ter um espelho, o que lhes garante a visualização do seu look por completo. Portanto, o banheiro feminino é um pit stop cotidiano.
Os meninos preferem circular no pátio e na cantina e, frequentemente, estão conversando com as merendeiras sobre o cardápio. Eles sempre ajudam a recolher os pratos, talheres e copos que ficam espalhados pelo pátio da escola, depois do intervalo. Em troca dessas “ajudas”, os meninos repetem a merenda. No entanto, esse “favorecimento” só acontece nos dias em que é servido cachorro-quente, bolo ou macarronada, o que sugere que tais “auxílios” são, na realidade, estratégias utilizadas pelos meninos em prol de benefício próprio.
A sala de vídeo e/ou computação e a biblioteca são espaços pouco utilizados pelos/as professores/as e alunos/as. Os professores/as explicam que esse local é mal conservado e exala um odor quase insuportável de mofo. A gestão, no entanto, relata que esse mau cheiro se deve, inclusive, pelo não funcionamento das salas. A gestão diz que não limpa os espaços porque não percebe interesse dos docentes em fazer uso dos mesmos. Já os docentes afirmam que não utilizam esses espaços porque não são higienizados frequentemente. Com isso, possivelmente, os/as alunos/as são prejudicados por não poderem utilizar recursos tecnológicos diversificados para adquirir novos conhecimentos. Nenhuma dessas questões foi mencionada no último Projeto Político Pedagógico da escola, que é do ano de 2014.
A biblioteca conta com um acervo bastante diversificado, porém o espaço físico está sendo “dividido”, nos últimos três anos, para acomodar o depósito do material de expediente e para os equipamentos do Projeto Mais Educação. Evidentemente, esse espaço é mais um lugar negado aos/as alunos/as.
Consideramos que o cotidiano escolar se desenha na interação entre os sujeitos e os espaços (simbólicos e físicos). As regras são aparentemente designadas para manter a ordem
33 O conceito de grupo usado nessa dissertação é referenciado no texto “Figurações e poder: um passeio à luz da
nesse ambiente, no qual os vários sujeitos devem seguir padronizações igualitárias. Dessa forma, as regras escolares foram, paulatinamente, sendo estabelecidas com o intuito de construir um conjunto de técnicas e estratégias de controle dos corpos na escola, na tentativa de normalização.
Com isso, é preciso desmistificar a escola como espaço pronto e acabado, distante das convergências da realidade social. A educação está inserida nas relações de poder, é um lugar para discussão da reflexão crítica da cultura normativa, não é meramente um simples veículo transmissor de valores cristalizados ditos como “corretos”.
É preciso pensar a escola como espaço de conflitos, de lutas e resistências e problematizar a ideia do controle, da vigilância e da normalização do e no cotidiano escolar. Enfim, pensar como as várias práticas se tornaram frequentes e “aceitas” (na realidade essas práticas são impostas) nas escolas, que, equivocadamente, classificam-nas, hierarquizam-nas e as moralizam, determinando atitudes, hábitos e definindo aquilo que supostamente será aceitável.
O espaço escolar é vivo na dinâmica entre elementos físicos e simbólicos, como defendem Milstein e Mendes (2010). A escola é o espaço das contradições, dos avanços, enfrentamentos, das regras oficiais, das propostas e das regras simbólicas, construídas nos corredores, banheiros, portões e no pátio escolar. Finalmente, a prática escolar envolve interação, conflito e contradição. É, pois, nesse ambiente que a pesquisadora pretende desenvolver a presente investigação e dar conta das suas próprias inquietações.