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Entre as culturas anuais nas unidades de produção familiar pesquisadas no Pólo Rio Capim, usualmente, encontram-se arroz (Oryza sativa) e feijão caupi (Vigna unguiculata) para autoconsumo, com possibilidade de venda do excedente; milho (Zea mays), destinado ao autoconsumo e à alimentação de criações animais; e mandioca (Manihot esculenta) que, após a colheita, é processada na unidade de produção em farinha de mandioca e destinada ao autoconsumo e à venda (TABELA 3.4).

Esses produtos são cultivados em consórcio e contribuem para a subsistência das famílias. Como Brandão (2007) explica, são os quatro produtos com a maior expressão socioeconômica no Nordeste Paraense. A farinha de mandioca pode ser considerada o produto mais importante da região, não apenas pela freqüência com que é cultivada (90%; n = 18), mas também por compor parte substancial da dieta local.

Tabela 3.4 – Espécies vegetais cultivadas nas unidades de produção familiar pesquisadas no Pólo Rio Capim (PA), em agosto de 2006.

Espécie Finalidade Freqüência (n) Porcentagem (%)

Arroz (Oryza sativa) 9 45

Autoconsumo 7 22

Autoconsumo e comercialização 2 78 Feijão caupi (Vigna unguiculata) 12 60

Autoconsumo 9 75

Autoconsumo e comercialização 3 25 Mandioca (Manihot esculenta) 18 90

Autoconsumo 1 6

Autoconsumo e comercialização 17 94

Milho (Zea mays) Autoconsumo 18 90

A Tabela 3.5 contém dados de produção dos produtos cultivados nas unidades de produção familiar pesquisadas: área média plantada, a produtividade anual média, quantidades consumidas e vendidas, preço alcançado pelo produto, rendas obtidas com a venda, renda derivada da valorização do autoconsumo e custos com sacaria e transporte.

A produtividade média anual do arroz foi de 720 kg/ha (sem casca), valor mais próximo ao citado por Davidson et al. (2007) – 970 kg/ha – do que o citado por Kato et al. (1999) – 1.500 kg/ha. Sugere-se que essa diferença apareça porque, ainda que não haja indicações sobre isso, os valores citados por esses autores devem incluir o peso das cascas, que corresponde a cerca de 25% do peso do arroz. Além disso, pode refletir redução da fertilidade ocasionada por pousios precoces na região do Pólo Rio Capim.

No caso do feijão, a produtividade média entre os agricultores pesquisados foi de 400 kg/ha, pouco inferior à produtividade comum para o Nordeste Paraense, que é de 450 kg/ha (BRANDÃO, 2007).

A produtividade média da farinha de mandioca entre as unidades de produção familiar pesquisadas foi de 4.950 kg/ha, valor próximo aos 5.100 kg/ha citados por Homma (2000). A mandioca consegue se desenvolver em solos pouco férteis (HOMMA, 2000), o que explicaria a proximidade dos valores mesmo em condições de redução de fertilidade do solo. Com relação ao processamento dos tubérculos, das unidades domésticas pesquisadas, 80% (n = 16) dos agricultores pesquisados possuem casa de farinha, onde se processa a mandioca para obter sua farinha. Os que não a têm, beneficiam a mandioca na casa de farinha de parentes ou vizinhos.

No caso do milho, uma cultura pouco exigente (KATO et al., 2006), a produtividade média anual encontrada na pesquisa foi de 400 kg/ha, próxima dos 350 kg/ha citados por Brandão (2007).

Tabela 3.5 – Dados médios de produção dos produtos cultivados nas unidades de produção familiar pesquisadas no Pólo Rio Capim (PA), em agosto de 2006. Produto Área média plantada (ha) Produtividade média anual (kg/ha) Qtde.a consumida (%) Qtde. vendida (%) Preço de venda (R$)/kg Valorização do autoconsumo (R$)/ha Renda obtida com venda (R$)/ha Custo com sacaria (R$/ha) Custo com transporte (R$/ha) Renda derivada da venda menos custos (R$) Arroz 1,0 720 25 75 1,00 180,00 539,00 14,35 26,90 497,75 Feijão caupi 0,5 450 40 60 1,50 267,00 400,00 8,90 8,00 383,10 Mandiocab 1,0 4.950 25 75 0,70 866,00 2.598,00 99,00 111,00 2.388,00 Milho 1,0 400 100 0 0,20 80,00 --- 8,00 --- ---

Nota: a) Qtde = quantidade; b) A colheita de mandioca é iniciada um ano após seu plantio e os tubérculos são processados, sendo vendida sua farinha. Fonte: Dados da pesquisa (agosto/2006).

Observa-se que os maiores custos são aqueles relacionados com a compra de sacaria e com o transporte da farinha de mandioca, também responsável pela maior parte da formação da renda entre os agricultores pesquisados. O transporte dos produtos vendidos ocorre, em geral, da unidade de produção familiar até o mercado consumidor, via atravessadores. Como observa Abramovay (1998), os mecanismos de comercialização que vinculam os agricultores a um comerciante que recebe o resultado do trabalho agrícola são comuns nos ambientes locais e regionais onde famílias possuem margens reduzidas na escolha da "comercialização de seus produtos, na obtenção de financiamentos, na compra de insumos e no acesso à informação" (ABRAMOVAY, 1998: 8), como é o caso dos agricultores pesquisados no Pólo Rio Capim.

Em relação ao uso de insumos (Tabela 3.6), no caso do arroz, feijão caupi e milho, os agricultores não costumam comprar sementes, tendo por hábito selecionar as que consideram melhores numa produção para o plantio seguinte. No caso da mandioca, planta-se a maniva (porção das ramas do terço médio da mandioca, com cerca de 20 cm de comprimento e com 5 a 7 gemas), colhida de plantas com 10 a 14 meses de idade da produção anterior.

Tabela 3.6 – Utilização de insumos nas unidades de produção familiar pesquisadas no Pólo Rio Capim (PA), em agosto de 2006.

Arroz Feijão caupi Mandioca Milho

Insumos Fa (n) Pb (%) F (n) P (%) F (n) P (%) F (n) P (%) Sementes compradas 0 0 0 0 0 0 0 0 Mudas compradas 0 0 0 0 0 0 0 0 Adubo orgânico 3 15 4 20 4 20 4 20 Adubo químico 2 10 3 15 3 15 3 15

Nota: a) F = freqüência; b) P = porcentagem. Fonte: Dados da pesquisa (agosto/2006).

A adubação orgânica, quando feita, inclui a utilização de restos orgânicos, folhas, galhos e esterco, aplicados sempre que possível, não representando um custo alto para a unidade de

produção familiar. Segundo os agricultores, não há o hábito de comprar adubo químico, até por causa de dificuldades financeiras. A saca com 60 kg de adubo químico custa R$ 70,00 e é suficiente para a aplicação em 1,0 hectare, três vezes por ano. Houve um agricultor que usa os dois tipos de adubo, o orgânico e o químico, e também trator, alugado na Prefeitura local, por R$ 22,00/hora, usado uma vez por ano.

Além dos cultivos alimentares básicos, há a extração do fruto do açaizeiro. Todos os 20 agricultores pesquisados exploram o fruto, sendo que 45% (n = 9) para autoconsumo e 55% (n = 11) para autoconsumo e comercialização do excedente, com venda de cerca de 65% da quantidade coletada.

Em média, são explorados 3,0 hectares de área com açaizeiro, com produtividade de 500 kg/ha. Em 25% (n = 5) das unidades de produção familiar é utilizada adubação orgânica e, em 10% (n = 2), utiliza-se adubo químico. O preço médio local pelo quilograma do açaí alcançou R$ 0,90, sendo a valorização do autoconsumo igual a R$ 156,00 e a renda derivada de sua comercialização, R$ 291,00, totalizando uma renda bruta de R$ 447,00. Os custos com acondicionamento e transporte somam cerca de R$ 16,00, o que gera renda líquida de R$ 431,00, valor próximo ao citado por Nogueira, Figueiredo e Müller (2005), de R$ 400,00/ha. Depois da comercialização da farinha de mandioca, a venda do fruto do açaí é a principal fonte de renda para 40% (n = 8) dos agricultores pesquisados do Pólo Rio Capim.

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