O default argentino com o banco Baring de Londres, em 1890, afetou o Brasil, afastando-o do mercado de crédito internacional, embora houvesse nos EUA e nos principais centros financeiros europeus, excesso de liquidez, que somada ao início da exploração aurífera na África do Sul, contribuía para redução das taxas de juros, pressionando os poupadores a investir nas economias periféricas, por meio da aquisição dos títulos da dívida pública dos vários governos, ou promovendo inversões diretas em unidades produtivas e nos serviços de infra-estrutura desses países.
O regime republicano promoveu ampla descentralização na organização político-administrativa do Brasil, conservando contudo, para a União, o controle sobre o Rio de Janeiro. Como Capital Federal, a cidade era administrada simultaneamente pelos governos central e municipal, superpondo as atribuições das esferas do poder local e supra-local, cujos entrechoques remontavam ao período colonial.
Pela Constituição de 1891, cabia ao Congresso Nacional legislar, com exclusividade, sobre a organização do Distrito Federal e sobre os serviços de polícia, ensino superior e outros que, na Capital, fossem atribuídos à União. O prefeito seria nomeado pelo presidente da República, ad referendum do Senado. Estas disposições seriam reguladas pela Lei Orgânica do Distrito Federal de setembro de 1892.167
O governo da República havia herdado da administração imperial, uma cidade retalhada em pequenos feudos econômicos dominados por uma multidão de concessões e privilégios detidos pela iniciativa privada.168
O capital financeiro estabelecera, nas praças comerciais mundiais, as holding companies, empresas de capital aberto com forte participação acionária dos bancos, para exploração dos serviços de utilidade pública e infra-estrutura sob forma de monopólios.
Debelada a crise financeira no governo do presidente Campos Sales (1898-1902), o novo governo do presidente Rodrigues Alves (1902-1906), encontrou um ambiente econômico favorável para a realização de investimentos públicos. Os investimentos federais reclamados na Capital Federal - a modernização do porto, o saneamento urbano, as obras de drenagem envolvendo o Canal do Mangue e a abertura da Avenida Central – consumiriam metade do Orçamento da União, e seriam financiados
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SANTOS, Noronha. “Esboço histórico acerca da organização municipal e dos prefeitos do Distrito Federal”. Rio de Janeiro. Oficinas Gráficas O Globo. 1945.
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Coleção de Leis do Império do Brasil, Contratos e Concessões. Tipografia Nacional. Prefeitura do Distrito Federal. Diretoria Geral do Interior e Estatística. 2ª edição. 1901.
pela casa bancária Rothschild. Competiria à municipalidade, a demolição do casario do centro, o alargamento e abertura de ruas e avenidas, embelezamento e arborização. No plano administrativo, o funcionamento das concessionárias de serviços urbanos estava fora do controle municipal.
O caso que melhor exemplifica o conflito de competências entre a União, a municipalidade e o governo estadual, foi o da concessão dos serviços de eletricidade envolvendo o grupo canadense Light e o grupo brasileiro Guinle & Cia/CBEE.
Este caso é emblemático porque relaciona todos os agentes envolvidos no processo de formação da nascente engenharia institucional citados neste trabalho: o Instituto Politécnico, o Clube de Engenharia, Engenheiros Enciclopédicos, Empresários, Políticos e o Poder Público.
A engenharia pré-institucional à qual me refiro, corresponde ao período de formação dos primeiros engenheiros civis com a criação da Escola Politécnica em 1874, sua ascensão profissional e política até o advento da República, seguidos do seu gradual controle do aparelho de Estado no Distrito Federal até 1930. Ao longo de todo este período, as relações entre o poder público e a iniciativa privada eram praticamente diretas, intra-pessoais, quase não envolvendo intermediações institucionais. Basicamente eram relações baseadas no tráfico de influência ou troca de favores.
Em 1871, Eduardo Guinle e Cândido Gafrée constituem a firma Gafrée & Guinle, com atuação inicial no ramo de tecidos importados. No ano seguinte, já atuavam no ramo de estradas de ferro no Nordeste, Rio de Janeiro e em São Paulo. Em 1888, adquiriram concessão para construir o novo porto de Santos através da Cia Docas de Santos. Em 1899, com o objetivo – dentre outros – de fornecer energia elétrica para o porto, entram no ramo de eletrificação.
Em 1903, os dois sócios abriram circular entre os industriais cariocas, consultando-os sobre a substituição do vapor pela energia elétrica em suas fábricas. Neste mesmo ano, os filhos de Eduardo Guinle – Guilherme e Eduardo Filho – formados pela Escola Politécnica, se associam ao engenheiro norte-americano Adolf Aschoff, fundando a firma Aschoff & Guinle. Após a morte de Aschoff, a firma é absorvida pela Guinle & Cia, que passa a representar fabricantes internacionais de equipamentos elétricos (entre os quais a General Elétric), o comércio de artigos elétricos, a execução de projetos e a construção de pequenas hidrelétricas e linhas de transmissão.
Em junho de 1909, a Guinle & Cia tornou-se acionista majoritária da Companhia Brasileira de Energia Elétrica (CBEE), criada para atender aos negócios de geração e distribuição de energia elétrica.169
A extensão dos negócios dos grupos Light e Guinle, denuncia a complexa rede de relações na qual estava envolvida a engenharia nacional, notadamente a carioca, no seu processo de consolidação profissional e política.
A questão dos monopólios para exploração dos serviços de utilidade pública na cidade do Rio de Janeiro, ao confrontar os interesses dos dois poderosos grupos empresariais, estendeu a disputa para além da arena privada, colocando em campos antagônicos a prefeitura do Distrito Federal e o governo federal. Os dois grupos também recorreram ao governo do estado do Rio de Janeiro, uma vez que os seus parques hidrelétricos e as respectivas linhas de transmissão estavam localizadas em território fluminense.
Por conseguinte, as relações por eles mantidas com presidentes da República, ministros de Estado, prefeitos do Distrito Federal e presidentes (governadores) do estado do Rio de Janeiro, ajudam a explicar seus avanços e recuos empresariais ao longo do período. Cabe sempre a lembrança de que, em termos nacionais e locais, o aparelho de Estado já contava com significativo controle por parte dos engenheiros filiados ao Clube de Engenharia.
Os enfrentamentos entre a Rio Light e os Guinle, suas estratégias empresariais embasadas em pareceres de juristas de renome, as redes de apoio por elas tecidas no aparelho de Estado e nos meios de comunicação, as discordâncias entre os governos federal e municipal no que tange à geração e fornecimento de energia elétrica, postergaram a instalação e a ampliação dos serviços de eletricidade na Capital Federal, comprometendo sua competitividade industrial em relação a São Paulo.
As disputas entre os grupos rivais tiveram início logo que o mercado carioca passou a interessá-las; antes, portanto, da constituição formal da Rio Light. Estas disputas estão referidas à situação herdada da administração imperial, envolvendo concessionárias de serviços públicos que não necessariamente produziam e/ou distribuíam energia elétrica, colocando em evidência o tema dos monopólios e privilégios exclusivos.
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Centro da Memória da Eletricidade no Brasil. “A CERJ e a história da energia elétrica no Rio de Janeiro”. Rio de Janeiro. Texto de Sérgio Lamarão.1993:54-5 e 75-6.
A análise dessas disputas, por sua vez, deve obrigatoriamente levar em conta as esferas de competências do poder público e seus respectivos titulares (engenheiros e advogados), que forneciam informações privilegiadas a estes grupos empresariais.
No que se refere ao serviço de iluminação – explorado pela empresa belga Societé Anonymé du Gaz (SAG) - que mantivera uma relação contratual direta com o governo imperial, tendo assumido a concessão que pertencera primeiramente ao Barão de Mauá, a Lei Orgânica determinou a sua transferência para a instância municipal. O governo federal foi autorizado, provisoriamente, a abrir os créditos para custear os serviços de iluminação. Contudo, a municipalização não seria efetivamente realizada.
O Ministério da Indústria, Viação e Obras Públicas, era o poder concedente e fiscalizador dos serviços de iluminação do Rio de Janeiro.170 Já com relação à distribuição de energia elétrica, a municipalidade atuou com plenos poderes, configurando uma dualidade de competências no que concerne aos serviços públicos de eletricidade no Distrito Federal, refletida na legislação e nos atos administrativos emanados de decisões quer municipais quer federais.
As diferentes empresas exploravam a prestação dos serviços urbanos da forma que melhor lhes convinha, e por isso, as primeiras polêmicas atinentes à noção de concessão de monopólio eclodiram entre elas, sobretudo entre aquelas voltadas para os transportes coletivos e a iluminação.
A SAG não só detinha o privilégio do fornecimento dos serviços de iluminação pública e particular, como também era a única empresa autorizada a assentar tubulações nas ruas. Às diferentes companhias de bondes, eram reservados os chamados privilégios de áreas - os serviços de carris instalados em diferentes bairros, zonas e até mesmo ruas da cidade cabiam, por contrato, exclusivamente a esta ou aquela empresa. Tanto num caso quanto noutro, o empresário interessado em implantar uma rede de distribuição por eletricidade ficava na dependência do desinteresse em relação à inovação tecnológica.
Quanto à companhia de carris, enquanto algumas sequer pensavam em introduzir a tração elétrica, outras já haviam promovido testes visando a eletrificação de suas linhas. Os interesses conflitantes das diferentes concessionárias de serviços públicos impediam “uma ação centralizada, global e articulada por parte dos novos empresários ou da parte do estado na introdução da eletricidade”.171
170
Idem. Ibidem.
171
Idem. 1990a : “A energia elétrica na urbanização brasileira: Rio de Janeiro (1900-1950). Texto de Paulo Brandi Cachapuz. Rio de Janeiro.
Foi nesse contexto que se instalou a pendência entre a SAG e Companhia de Ferro Carris do Jardim Botânico (CFCJB). Pelo decreto de junho de 1886, fora assegurada à companhia belga exclusividade no fornecimento de gás canalizado à cidade para os serviços de iluminação pública ou quaisquer outras, podendo o governo imperial determinar a substituição do gás pela eletricidade dentro do prazo da concessão, que findaria em 1915.
Em maio de 1892, já sob a República, o contrato foi revisto, não tendo sido feita qualquer referência à substituição do gás pela eletricidade, nem atribuído à SAG qualquer privilégio exclusivo para o fornecimento da eletricidade.
As divergências entre a SAG e a companhia de carris começaram em 1893, quando os belgas acusaram a Jardim Botânico de vender a terceiros, com fins de iluminação, o excedente de energia elétrica produzida com a finalidade original de acionar seus bondes. A SAG teve ganho de causa, e a companhia de bondes passou a poder ter as ruas apenas para transmissão de força. A SAG preservava, assim, os seus direitos em relação ao uso exclusivo das vias públicas para passar canalizações, impedindo a implantação de qualquer rede, aérea ou subterrânea.
Animada pela vitória, a SAG obteve do governo federal e da Câmara dos Deputados, a manutenção do serviço de iluminação sob o controle do Ministério da Indústria, Viação e Obras Públicas, contrariando as disposições da Lei Orgânica do Distrito Federal. O decreto de julho de 1899 assegurou-lhe privilégio exclusivo para o fornecimento de luz à Capital Federal (por gás ou eletricidade) e para o assentamento das canalizações de gás, de maneira geral, e de energia elétrica destinada à iluminação. O decreto estabelecia que a energia elétrica deveria ser produzida por aparelhos acionados a gás ou a vapor, provendo-se a substituição desses aparelhos por motores hidráulicos se a empresa admitisse a redução das tarifas. A publicação do decreto gerou novas polêmicas. Rui Barbosa manifestou-se contra, fornecendo subsídios à Jardim Botânico, baseando-se no direito à liberdade de indústria constante na Constituição de 1891.
Em setembro de 1904, foi julgado o processo entre a SAG e a CFCJB,172 triunfando a posição anti- monopolista da CFCJB. Essa vitória foi reforçada pelo decreto municipal de outubro de 1904, que proibia a concessão de privilégio exclusivo para qualquer aplicação de energia elétrica no Distrito Federal. Ao apoiar a livre concorrência, o decreto contemplaria a Guinle e a Light.
O decreto federal assinado por Lauro Muller através do Ministério da Indústria, nesse mesmo ano, regulamentava o aproveitamento da força hidráulica para transformação em energia elétrica aplicada
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aos serviços federais e reivindicava para a União, o direito de determinar os trechos dos rios a serem explorados e os limites máximo e mínimo das instalações. Além disso, facultava à União contratar qualquer empresa para fornecer eletricidade aos serviços sob seu controle e garantia que os excedentes de energia produzidos por essas empresas poderiam ser empregados na lavoura, na indústria e outros fins. Tal arcabouço jurídico, criava um ambiente favorável à concorrência que se estabeleceu entre a Light e os Guinle.
Paralelamente ao campo jurídico, a Light adquiria a concessão Reid (direito para exploração dos rios e quedas d’água do estado do Rio de Janeiro) e a SAG em 1905. Em 1910 adquiria a CFCJB e outras várias empresas de bondes, assegurando o controle sobre a demanda pelos serviços de eletricidade.
Contudo, a presença de engenheiros filiados ao Clube de Engenharia no controle político nacional e local, consistia em considerável poder a favor dos Guinle. Lauro Muller, Rodrigues Alves, Jorge Street, Pereira Passos e os jornais do Comércio, O País e a Gazeta de Notícias, por exemplo, eram favoráveis aos Guinle. Os políticos e sócios do Clube ligados ao capital estrangeiro, como o ministro das Relações Exteriores (o Barão do Rio Branco), o futuro prefeito Souza Aguiar (ambos participantes da Exposição Internacional de Saint Louis nos EUA), o futuro presidente Afonso Pena, Carlos Sampaio, Paulo de Frontin e Rui Barbosa (este último, advogado e funcionário da Light) eram favoráveis ao Grupo Light.
No plano da reforma urbana, Pereira Passos, através do alargamento e organização da malha viária, permitiu a reorganização das redes subterrâneas (de gás, esgoto e água) e aéreas (de telefonia e telegrafia), possibilitando a futura instalação de postes de iluminação elétrica, ampliando as condições infra-estruturais necessárias para a expansão imobiliária.
Quando em 1905, Alexander Mackenzie (um dos dirigentes da Rio Light) formalizou a transferência para o seu nome da Concessão Reid, consolidando o contrato com a prefeitura para cessão dos direitos e obrigações, estabeleceu uma tabela de preços máximos em relação ao Kwh, cujo pagamento seria feito conforme previsto na antiga concessão: metade em papel e metade em ouro, ao câmbio médio do mês de consumo. A imprensa pró-Guinle acusou a Rio Light de ter obtido os direitos monopolísticos da concessão Reid, mediante o pagamento de duzentos contos de réis ao prefeito Pereira Passos.173
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Centro da Memória da Eletricidade no Brasil. 1990b: Debates parlamentares sobre a energia elétrica na Primeira República. O processo legislativo. Texto de Paulo Brandi Cachapuz. Rio de Janeiro.
Foi num momento de inegável avanço da Rio Light, que o preço da venda do Kwh para iluminação pública e particular no Rio de Janeiro, a ser cobrado no seu contrato com o governo federal, foi colocado em discussão.
Em dezembro de 1905, foi solicitado por parte do governo federal, um parecer técnico sobre a questão ao Clube de Engenharia. O presidente do Clube, Paulo de Frontin, encarregou o associado Henrique Morize de estudar a matéria. A discussão que se estendeu até 1906, teve início pouco depois de os dirigentes da Rio Light serem admitidos como sócios do Clube. A filiação dos empresários da Rio Light ao Clube de Engenharia, evidencia a importância do Clube como instância política e corporativa necessária ao ingresso no mundo dos negócios da Capital Federal. Os debates travados dentro do Clube, demonstram o quanto esta instituição estava distante de representar o bastião dos interesses nacionalistas, dividindo as opiniões entre os favoráveis ao capital nacional e ao capital estrangeiro.
Henrique Morize apresentou resultado favorável ao Grupo Light, porém nada conclusivo, remetendo a responsabilidade pela fixação do preço do Kwh para iluminação pública e particular às partes contratantes, isto é, a SAG/Rio Light e o governo federal. Em 1915, já respondendo por mais da metade da eletrificação e transporte da cidade, a Rio Light não poderia mais ser contestada judicialmente, pois isto significaria comprometer a própria infra-estrutura da cidade. Ganhava assim, no plano político – no qual foram decisivos os politécnicos – sua disputa com o Grupo Guinle.