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“NEGATIVE EFFECTS OF THE BOSNIA-HERZEGOVINA ORIGINATED FLOUR IMPORT ON THE SECTOR“

O Getulino tem o seu primeiro número todo collaborado por homens de cor, excepto um artigo, trazendo bons trabalhos merecendo mesmo destaque o soneto de Augusto Marques.213

Outro grupo importante no processo de (re)construção da linha editorial e dos objetivos de um periódico pode ser encontrado em sua rede de colaboradores. Afinal, sabe-se que a seleção dos colaboradores que Fig.m nas páginas dos periódicos é um ato voluntário, consciente e estudado pelos editores e produtores, de forma a garantir a unidade editorial do veículo.

Quem colabora e o tipo de colaboração enviada permitem-nos inferir não só sobre a linha editorial do periódico, mas também o tipo de adesão a que está exposto. Na composição dos colaboradores do «GETULINO», o grupo produtor

deixa clara sua escolha por integrantes da comunidade negra campineira.

Estamos aqui para trabalhar em prol da classe, porém, com o auxilio e sympathias de todas as agremiações desta cidade; nossas columnas pertencem a essas, e a todos os grupos de homens de cor existentes no município, no Estado, no Brasil.214

Com efeito, o jornal agregou um grupo extenso de colaboradores que, até onde se pode identificar, tem a cor/etnia como elemento aglutinador em um primeiro momento; e o domínio das letras como segundo ponto de contato e coesão. No tocante à militância dentro do movimento negro, não há uma uniformidade ideológica demarcada e irrefutável, que possa ser notada pela divergência de opiniões e posicionamentos expressos nos textos enviados a título de colaboração.

O que se pode identificar com certa segurança é que o grupo de colaboradores mais assíduo é formado por jornalistas, professores, poetas e trabalhadores em escritórios ou funcionários públicos; somente um colaborador se declara analfabeto. Mais à frente detalharemos o perfil dos colaboradores.

213Da redação. O nosso aparecimento. Getulino, nº 2, p. 01, col. 01, 05 ago. 1923. 214 Da redação. Respondendo II. Getulino, n° 3, p. 01, col. 05, 12 ago. 1923.

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Outro fator determinante na linha editorial do «GETULINO»foi sua decisão

de ser produzido somente por integrantes da comunidade negra. O único colaborador não negro do jornal é José Ignácio de Lacerda Werneck, que assim se apresenta ao público em sua primeira colaboração:

Lino Guedes, o esforçado moço que, com dedicação, se voltou à imprensa, nella mourejando com gallardia, pede a minha collaboração neste jornal, que é eloquente attestado do amor que os homens de cor consagram ao progresso da nossa Pátria, tão mal amada por muitos dos seus filhos em cujas veias circula sangue estrangeiro. Lacerda Werneck215

A apresentação é feita na introdução do artigo intitulado “O negro na formação da Pátria brasileira”, no qual Werneck discorre sobre a importância do sangue negro para a formação do Brasil, destacando que esta etnia sempre esteve à frente nos grandes feitos heroicos da história nacional. “Em todos os commettimentos heroicos dos feitos registrados pela história pátria, o contingente valoroso e eficaz do negro, apparece rutilantemente” 216.

Werneck este estabelece sua relação com o jornal através da amizade que tem com Lino Guedes, e posiciona-se contrariamente à segregação do negro da sociedade brasileira: “E ainda há brasileiros que querem separar da comunhão nacional, os negros”.217 O único colaborador branco do jornal é apresentado pelo

«GETULINO» como sendo “um dos mais perfeitos jornalistas de nosso Estado”. A

declaração é inserida abaixo da fotografia de Werneck, na edição de número 12, de 13 de out. 1923. Infelizmente, contudo, o texto não nos fornece outras pistas sobre sua formação e atuação política.218

As informações que possuímos efetivamente sobre as origens e atuação política de Lacerda Werneck foram coletadas a partir das homenagens e citações feitas pelos redatores do «GETULINO». Por elas, temos que Werneck é “membro de

215Lacerda Verneck. O negro na formação da pátria brasileira. Getulino, nº. 01, p. 01, col. 02, 29

jul. 1923.

216 Ibidem, op. cit.

217 Ibidem, op. cit. Grifos do autor.

218 Também não nos foi possível relacionar de forma inequívoca sua relação com a família do

Barão de Paty do Alferes, — Francisco Peixoto de Lacerda Werneck. Encontramos, porém, no livro de registro de alunos do Santuário do Caraçaem Minas Gerais o registro do aluno nº 1601, José Ignácio de Lacerda Werneck, filho de Luiz Peixoto de L. da Werneck e Leopoldina, ficando aqui a dúvida sobre filiação deste colaborador do «Getulino».

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uma distincta família carioca”, “fez se sosinho no jornalismo” e é “defensor abnegado de uma raça infeliz, escritor de estylo, vigoroso jornalista”. 219

Fig. 28 – Homenagem prestada pelo «Getulino» a seu colaborador branco José Ignácio de Lacerda Werneck. Getulino edição n° 12 e n° 57.

Pela quantidade de referências à Werneck, constata-se que a proximidade dele com o grupo produtor do semanário é grande. Pela nota publicada na edição de número 56, podemos perceber, além do grau de amizade e respeito mútuo que existem entre os produtores do «GETULINO» e seu único colaborador

branco, que Lacerda Werneck é o autor do Folhetim “Scenas do captiveiro – A boa Severina”, publicado no semanário, de forma contínua, desde a edição de

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número 2 até a edição de número 54: sempre ao pé da segunda página220. Esta

foi a única coluna fixa do jornal.

Fig. 29 – folhetim A boa Severina escrito por Lacerda Werneck com o pseudônimo de José de Nazareth.

No folhetim escrito por Werneck, a personagem principal e condutora da história é a escrava “Severina”. Ela suporta com abnegação e coragem os sofrimentos impostos por seus “senhores”, demonstrando honra e valores morais superiores, mesmo quando diante de situações às quais qualquer outro mortal sucumbiria.

Ao menos, á boa Severina coube repousar perpetuamente na sua sepultura nesse silencio e nessa quetude reservados aos que foram bons na peregrinação errante.221

Para assinar o folhetim, Lacerda Werneck empregou o pseudônimo de José de Nazareth, com o qual também assinou artigos e notas publicadas em diferentes edições do periódico. Outro colaborador convidado pelos editores do

«GETULINO» foi Pedro A. F. Cruz:

Trazendo a minha gotta d’água para o oceano das vossas culturas, senhores redactores, o faço para agradecer a esta illustre redação, o

220 O Folhetim Scenas do Captiveiro foi publicado a partir da edição de n° 2 e findou na edição de

n° 54, tendo ao todo 48 capítulos. Sua posição era fixa no jornal na página 02 ocupando a parte inferior desta página, de coluna a coluna. Optamos por não analisar nesta Tese a construção discursiva do folhetim por não se tratar de nossa área do conhecimento, demandando assim novas pesquisas e investigações.

221 José de Nazarath. Folhetim do Getulino: Scenas do captiveiro – a boa Severina. Getulino, n° 54,

118 honroso convite que me outorgaram para que escrevesse algo para o brilhante jornal. 222

Sobre ele não obtivemos mais informações, pois não existem texto biográfico ou sua fotografia no jornal223. Este colaborador convidado do

«GETULINO»publicou apenas um texto [ao longo da existência do jornal], em 19 de

agosto de 1923, com o título de “Para o Getulino”, em que relaciona o “grau de adiantamento” de uma cidade com o número de periódicos que ela sustenta.

Por várias modalidades é dado se conhecer e estudar o grau de cultura e adiantamento de um povo. Pelo desenvolvimento de seu comercio, pela sua indústria, pelas suas vias de communicações, e, por tantas outras formas. Porém, com acerto se pode dizer da grandeza de um povo, pelo número de periódicos que possue uma nação, estado ou cidade. 224

Neste mesmo e único artigo, Pedro A. F. Cruz faz uma crítica ao posicionamento do jornal no tocante à polêmica com seu concorrente direto, “A Protetora”:

Penso eu, todavia que, para brilhantismo da causa que defendem, é mister, não avançar em demasia para o caminho íngreme e incapellado das discussões e das polemicas, muitas vezes necessárias, mas que quase sempre redopiam nos recifes e nos abrolhos juncados de sinuosidades, e por conseguinte, vem acutilar os seus nobres fins.225

A crítica de Pedro A. F. Cruz é feita em direção aos artigos “Respondendo I, II e III”, nos quais os redatores do «GETULINO» se posicionam de forma

contundente em relação aos apontamentos que o jornal “A Protetora” faz sobre o grupo que está à frente da folha dominical.

Respondendo... I

«A Protectora» orgam da Associação P. do Brasileiros Pretos, no seu último número, assumiu attitude de matamoiros, e atirou-se de unhas e dentes, contra todos os pretos que não comungam das suas idéias.226

Respondendo II

Não somos nenhum forasteiro desconhecido, desses que

mysteriosamente surgem em certos meios sociais, envergando a esclavinha de peregrino contricto ou as roupagens de eremita

222Pedro A. F. Cruz. Para o Getulino. Getulino. nº. 4, p. 1, col. 5, 19 ago. 1923.

223 Devido a abreviação de seu nome, as pesquisas sobre este colaborador da folha foram

infrutíferas até o momento.

224 Pedro A. F. Cruz. op. cit. 225 Ibidem. op. cit.

119 arrependido. (...) Abrimos este parenthesis para contestar a intriga forjada á socapa, de que o «Getulino» foi fundado tão somente, para provocar a sizania no meio da classe em Campinas. 227

Respondendo III

Censuramos, no entanto, quem manda escrever para assignar; assim como criticamos quem escreve asneiras e foge a responsabilidade das mesmas, permitindo que a ignorância de muitos sirva de alvo para troças e galhofas. 228

É interessante notar que o artigo de Pedro A. F. Cruz, aconselhando os editores do «GETULINO» a suspenderem a polêmica com a Protectora, é publicado

junto ao texto “Respondendo III”; o primeiro, na capa e o segundo, na página 2. A cizania com aProtectora não se encerra na série de três artigos, continuando por toda a existência do jornal.

Outro colaborador convidado é Deocleciano Nascimento, jornalista, poeta, guarda-livros e propagandista do «GETULINO» em São Paulo. Tem sua primeira

colaboração publicada na edição de número 18: um poema de quatro versos que discorre sobre as belezas do Brasil e termina por relacionar a “evolução” do país ao “povo negro”.

A fotografia de Deocleciano foi publicada na edição de número 51, por ocasião de seu aniversário. Na legenda, Fig.m diversos elogios à personalidade de Deocleciano e de sua atuação frente à comunidade negra [imagem reproduzia à frente].

Outro colaborador que tem sua fotografia publicada no jornal é José Augusto Jovita Marques, jornalista e tipográfico que, de acordo com os editores da folha, “desde os primeiros dias do «GETULINO», tem lhe emprestado o concurso

de sua penna privilligiada”. É interesante notar, porém, que apenas duas colaborações são assinadas por Marques, uma na edição de número 22, “Tio Chiquinho”; e outra na edição de número 31, “Uma infeliz”, que se trata de um poema.

227 Da Redação. Respondendo II. Getulino, nº 3, p. 1, col. 4, 12/08/1923. 228 Da Redação. Respondendo III. Getulino, nº 4, p. 2, col. 1, 19/08/1923.

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Fig. 30 - Deocleciano do Nascimento – Getulino n° 51

Fig. 31 - José Augusto Jovita Marques,– Getulino n° 42

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Pelas demais referências feitas nas páginas do periódico por seus redatores, Marques mostra-se próximo ao grupo produtor, tanto na questão do relacionamento pessoal como no tocante ao projeto político-ideológico defendido pelo grupo de alcançar a elevação do negro através dos estudos e do comportamento que “enobrece a espécie”.

Fig. 32 – Prof. Norberto de Souza Pinto – Getulino n° 64

O prof. Norberto de Souza Pinto é outro colaborador do «GETULINO» que

tem sua fotografia publicada no jornal. A imagem circulou junto ao texto produzido por Souza Pinto, que ocupa três colunas da página dois da edição de número 64, tratando do tema educação. O outro texto assinado pelo professor mantém a mesma temática: a educação, na qual discorre sobre os benefícios da ginástica na formação do aluno, publicado na edição de número 9, em duas colunas.

O «GETULINO» contabiliza mais de 165 colaboradores que tiveram seus

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de fundo. Muitos empregavam pseudônimos para assinar os escritos, tais como Laly [35 textos], Forasteiro [13], Nego Véio [11], Germo [7], José de Nazareth [7], Gê [6], Lupernas [4], Vulpiano [4], Lingues [3], Camponeza [2], Sacy [2], X [2], Xxto [2], D’ [1], Das esmeraldas [1], Deoclé [1], Desilludida [1], Lili Prosa [1], Linoca [1], Rotineiro [1], Solitario [1 ] e Z [1].

“Laly” e “Lingues” são pseudônimos de Lino Guedes; [reprodução à frente] e “Deoclê”, a contração de Deoclêciano do Nascimento. Acreditamos que “Germo” e “Gê” sejam pseudônimos de Gervasio de Moraes, aumentando assim a quantidade de textos publicados no «GETULINO», de 14 para 27, para Gervasio de

Moraes; de 8 para 46, no caso de Lino Guedes; e de 10 para 11, em relação a Deocleciano do Nascimento.

Os colaboradores mais ativos do «GETULINO», descontando-se as junções

feitas acima, foram: Laly [35], Druzillo [16], Evaristo de Moraes [14], Gervasio de Moraes [14], Forateiro [13], Benedicto Florencio [12], Gustavo, o Máu [11], J. Augusto Marques [11], Juvento Só [11], Nego Véio [11], Deocleciano Nascimento [10], Augusto Marques [9], Lino Guedes [8], Germo [7], Euclydes de Oliveira [6], Gê [6], Mario, o Santo [6], Christovam A. Junior [5], F. Marcondes [5], J. Luiz de Mesquita [5], Lacerda Werneck [5] e Mariquita [5].

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Entre os colaboradores do sexo feminino, Mariquita é a mais ativa de todas, com cinco contribuições. É seguida pela Prof.ª Maria Rosa M. Ribeiro, com três publicações; e por “Camponeza” e Violeta, ambas com dois textos publicados. Já as colaboradoras Desilludida, Lais Moraes, Mary Santos, Lili Prosa, Linoca, Nair Santos, Shopia Campos e Zuleika Oliveira tiveram apenas um texto publicado, totalizando 21 contribuições femininas em um universo de 446 textos assinados.

Mariquita, inclusive, assina texto publicado na capa da primeira edição do

«GETULINO», intitulado “Votos a prosperidade do Getulino”, o que demonstra

certo grau de integração e distinção entre o grupo produtor do hebdomadário. Depois, apresenta sua visão sobre o dia 13 de maio, na edição de número 12, onde se expressa de forma coesa ao pensamento veiculado pelos demais artigos selecionados pelo grupo produtor que tratam da abolição da escravatura.

Também para nós o dia 13 de maio é festivo; é nesse dia que com mais viva lembrança recordamos os tristes contos de nossos avós; então nos sentimos venturosos e bendizemos aquelles que com amor ardorosamente trabalharam para nos dar essa ventura. Bemvinda seja pois a gloriosa data em que a felicidade nos quis brilhar. Salve a Redemptora, salve Luiz Gama e todos os abolicionistas; e a seu exemplo luctando com valor pelo engrandecimento de nossa raça alcançamos um dia a palma da victória. 229

Ao memo tempo em que Mariquita saúda a princesa Isabel como a “Redentora”, a autora destaca a Fig. de Luiz Gama e exalta a participação dos abolicionistas no processo, terminando por chamar à luta a comunidade negra: “a seu [de Luiz Gama e abolicionistas] exemplo luctando com valor pelo engrandecimento de nossa raça alcançamos um dia a palma da victória”230.

Em sua última contribuição publicada no «GETULINO», Mariquita versa

sobre a importância da escolarização, empregando para isso a linguagem de conto. Nele, descreve as desventuras de um menino chamado “Pedrinho”, que foge da escola para brincar nos campos, e que, certo dia, ao voltar tarde para casa após matar aula, encontra a mãe em lágrimas junto ao leito de morte de seu pai.

229 Mariquita, Grande dia. Getulino, n° 12, p. 03, col. 01, 13 out. 1923. 230 Ibidem, op. cit.

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A autora descreve que, após este incidente, Pedrinho vota à escola e se torna um bom aluno, recebendo a coroa de mérito escolar por alcançar o primeiro lugar entre os colegas de turma.

Chegou finalmente o dia dos exames e Pedrinho alcançou o primeiro logar. (...) Depois de receber muitos abraços Pedrinho sahiu a procura de sua mãe e ao encontral-a disse: desejo levar esta coraoa ao tumulo de meu pai. (...) A boa senhora elevou o coração a Deus para agradecer-lhe a regeneração do querido filho, e guiada por elle dirigiu-se para o cemitério onde collocou no pé da humilde cruz da sepultura do marido a coroa de meritos de Pedrinho.231

Notemos, porém, neste conto escrito por “Mariquita”, que a transformação de Pedrinho não se dá pela conscientização a partir de exemplos de vida e postura de negros ilustres ou anônimos, mas sim pela intercessão divina: “sem coragem para reagir [a mãe de Pedrinho], previa a perda também do filho se Deus não operasse um milagre”232.

O conto também não faz menção à etnia de origem dos personagens, informando apenas que eram de família humilde; desta forma, o escrito apenas reforça o valor da educação para o grupo, e não o processo de construção da cidadania através do esforço coletivo dos negros.

Benzer Belgeler