O trabalho realizado com as crianças é apenas uma parcela da atividade docente. Constatam-se também uma diversidade de outras tarefas, variáveis quanto à duração e à frequência, que afetam a carga de trabalho das professoras e educadoras.
Nos horários de estudo, que equivalem a quatro horas semanais, são feitos registros, avaliação das crianças, reuniões de estudo e formação, encontros com a coordenação, planejamentos, preparação de projetos e materiais, elaboração do PPP, além do atendimento às famílias e à comunidade. Todas essas atividades demandam a realização do trabalho coletivo entre as profissionais da escola, proposta das reformas educacionais no Brasil.
Entretanto, conforme constataram Dias-da-Silva e Fernandes (2006) em suas pesquisas, muitas vezes esses horários não acontecem em função, principalmente da rotatividade e do absenteísmo docente, dentre outros aspectos. Diante das dificuldades para se efetivar o trabalho coletivo na escola e na UMEI, as professoras e educadoras frequentemente utilizam os intervalos para o lanche, os horários anteriores ou posteriores ao tempo destinado com as crianças e ainda de alguns momentos durante esse período para a troca de materiais ou para combinarem alguma atividade. Muitas vezes também as tarefas são realizadas em casa:
Você acaba ficando em sala praticamente a semana toda. O número de faltas é muito frequente e você precisa que as coisas aconteçam. Acaba levando quase tudo para dentro de casa. Ou então fica dentro da escola um tempo maior, porque às vezes
você não tem nem o material adequado na sua casa. Nesse momento agora, estou sem impressora, tenho que ficar um tempo na escola para imprimir algum tipo de material e isso me incomoda também, porque eu acho que a gente passa a ter mais hora extra do que é necessário. Às vezes, deixamos de discutir mais coisas em função desse tempo que está também sendo tirado da gente. [...] Quando dá um tempo, a gente vai à sala da fulana ou encontra nos corredores e combina assim rápido: - “Olha amanhã você faz isso?” mas nunca no momento que seria necessário sentar para organizar. É uma coisa mais rápida, mas sem planejamento prévio. É mais falar com a outra, porque momento de planejamento a gente não tem. (Docente 13. Entrevista concedida à autora. Belo Horizonte, 19 maio 2008).
Essas estratégias e os esforços individuais, de acordo com essas autoras, provocam desgaste para as profissionais e a intensificação do trabalho, além do empobrecimento das atividades. Observa-se, desse modo, a incompatibilidade entre o princípio do trabalho coletivo e as condições de trabalho das professoras e educadoras infantis (Dias-da-Silva e Fernandes, 2006).
O trabalho, na educação infantil, compreende, de modo bastante intenso, o relacionamento com os pais e as famílias. Esse contato acontece por meio dos relatórios sobre as crianças, de algumas atividades realizadas com e para elas, dos recados repassados na agenda destas, por telefone, nas reuniões, nas festas, nos eventos e em projetos realizados pela escola e pela UMEI. Os pais também são convidados a participar das assembleias escolares e alguns deles são membros do colegiado escolar. No início do ano letivo, são feitas entrevistas com as famílias pelas professoras e educadoras para preenchimento da ficha individual da criança. Nessa ficha, são registrados os dados sobre a vida da criança, seus hábitos e saúde. São colhidas também informações sobre as famílias e suas expectativas em relação à escola. A escola oferece ainda o clube de artes e o grupo de estudos, conforme já mencionado. Muitas vezes, a relação com as famílias acontece nos horários de entrada e saída das crianças. A participação das famílias, na escola, é considerada como um elemento importante do trabalho:
A gente sempre tem a família como um dos pilares. A gente acredita que sem a família, sem a participação das famílias não é possível desenvolver este trabalho que a gente pretende com as crianças. (Coordenadora Pedagógica. Entrevista concedida à autora. Belo Horizonte, 21 maio 2008).
Para essas professoras e educadoras, essa participação está relacionada ao reconhecimento profissional:
A escola, na verdade, tem alguns momentos de encontro com essas famílias em que elas são convidadas a participar, mas a gente avalia que a presença é bem pequena. Muitos pais não têm a visão nem a dimensão do trabalho que é desenvolvido aqui. Porque se não tivesse esse trabalho sendo desenvolvido com as crianças, não teria muito significado essa permanência delas aqui para nós, enquanto profissionais. E
quando você chama o pai e começa a colocar essas questões do que é feito com essa criança, o que que acontece quando ela chega às 7 horas da manhã e depois, o que acontece nesse horário que ela está aqui de 11:30 às 13h, de 13h às 17:30h, ele começa a perceber que não é só um espaço de cuidar e isso é importante para o trabalho da escola. Mas a gente avalia também que essa presença precisa melhorar, a escola não pode ter o pai aqui só para uma reunião a cada 4 meses, mas hoje ainda nós não conseguimos viabilizar outra forma de trazer esse pai. A escola até que dispõe, mas é o pai que tem outras dificuldades de trabalho, de organização de vida pessoal que impede ele de estar vindo nesse espaço. Então, muitas vezes, a nossa troca é através de um instrumento que a gente tem que é a agenda, eu quero falar alguma coisa que aconteceu com aquela criança que foi relevante, eu vou usar o instrumento de comunicação que é a agenda. E quando eu recebo o pai pela manhã e tem alguma coisa do dia anterior que foi importante e escrever ali não vai deixar claro para o pai a intenção do que eu queria dizer, é ali que eu vou falar rapidamente. Mas sabemos que essa presença precisa ser mais efetiva. (Docente 9. Entrevista concedida à autora. Belo Horizonte, 20 maio 2008).
Não obstante a importância da relação com os pais e com as famílias, as docentes se dizem insatisfeitas com a pouca disponibilidade e colaboração, com a falta de reconhecimento e valorização do trabalho realizado com as crianças e com o pouco interesse dos familiares.
Outra atividade colocada às profissionais diz respeito à participação na reconstrução do Projeto Político-Pedagógico da escola e da UMEI, que vem acontecendo desde o final de 2007. Estão sendo discutidos e sistematizados elementos como a história da instituição, as concepções norteadoras das ações e a organização do trabalho escolar (adaptação das crianças, inclusão das crianças com deficiência, currículo, tempos, espaços, agrupamento das crianças, metodologias de trabalho, instrumentos de registro, planejamento e avaliação), assim como as condições e relações de trabalho das profissionais. O processo de re-escrita do PPP compreende reuniões semanais à noite, fora do horário de trabalho, entre as assessoras, a coordenação pedagógica e algumas professoras para a realização de estudos e organização desse processo. Nesses encontros, são elaboradas questões sobre os elementos que constituem o PPP e selecionados os textos para leitura destinados às professoras e educadoras. A participação de todas as profissionais acontece, portanto, por meio do estudo dos textos e respondendo às questões propostas. Estas são discutidas com a coordenação e em pequenos grupos. As respostas são sistematizadas pela coordenação juntamente com a assessoria externa. Como estratégia para a reconstrução do PPP, estão sendo realizadas, ainda, observações pela coordenação, assessoras, professoras e educadoras do dia-a-dia de trabalho junto às crianças:
Esse ano está tendo toda essa programação de reconstrução do PPP, então está demandando muito de cada uma de nós. Fazer a estruturação de para-casa, esquematizando, construindo textos está demandando muito mais tempo e desgaste. (Coordenadora Pedagógica. Entrevista concedida à autora. Belo Horizonte, 21 maio 2008).
Aqui tem umas demandas de deveres que a gente tem que cumprir. Atualmente a escola está estruturando o PPP e a gente tem que ter um momento para fazer essas atividades que a escola exige que a gente faça. (Docente 3. Entrevista concedida à autora. Belo Horizonte, 19 maio 2008).
De acordo com o relato das entrevistadas, muitas vezes, as tarefas são levadas para serem feitas em casa, o que é visto como uma dificuldade e um fator a mais de intensificação do trabalho:
Ficamos sobrecarregadas de atividades individuais para fazer. Uma bandinha, por exemplo, que a gente poderia construir a gente já não vai poder construir até terminar todos os relatórios, todos os questionários. Um dos questionários tem mais ou menos cinquenta perguntas. Então, assim, é complicado, temos sempre que levar para fazer em casa. E em casa a gente tem outras atividades. (Docente 5. Entrevista concedida à autora. Belo Horizonte, 16 maio 2008).
Outro aspecto de insatisfação relaciona-se à participação nas reuniões noturnas:
É muito difícil morar longe e ter que vir participar das reuniões do PPP à noite, além de ter que arcar com os custos para deslocar até aqui. Para construir o PPP, nós temos que doar tempo de trabalho para a Prefeitura, sem remuneração. (Diário de Campo, 02/04/2008).
Esse descontentamento pode ser verificado também em um estudo italiano realizado com 240 educadoras de creche que teve como finalidade entender as imagens do trabalho construídas por essas profissionais. A pesquisa constatou que, dentre os aspectos de satisfação, entre outros, estão o cuidado e a educação das crianças, a estabilidade no emprego, a autonomia e a possibilidade de formação continuada. Os fatores de insatisfação são os baixos salários, as atividades extrajornada e os ritmos intensos de trabalho (Ongari e Molina, 2003).
No caso das participantes desta pesquisa, percebe-se que o trabalho realizado na escola é apenas uma parte da atividade profissional. Nesse sentido, entende-se que a docência, conforme propõe Souza (2008, p.5), é uma profissão de tempo integral que ocupa não só o espaço público como o privado. O tempo da atividade produtiva remunerada está longe de ser impermeável ao tempo da vida privada (ação doméstica, lazer, descanso). A tarefa com as crianças pequenas requer, para essas professoras e educadoras, exigências específicas que afetam a carga de trabalho.
A síntese das atividades realizadas pelas professoras e educadoras infantis consta no Quadro1:
As atividades com as crianças
Brincadeiras, passeios, acolhida, adaptação, festas, jogos, higienização, alimentação, repouso, socialização, histórias, registros, movimento, artes e literatura.
As atividades para as crianças
Parcerias com Universidades, Centros de Saúde, Conselho Tutelar, etc., encontros com os pais e a comunidade, preparação das atividades, elaboração do material, registros e avaliação.
As atividades com ou para as colegas
Elaboração do PPP, trocas de experiências, estudos, planejamento das atividades, orientação aos estagiários de apoio à inclusão das crianças com deficiência.
As atividades de formação e de desenvolvimento profissional
Formação em serviço (cursos e outros eventos proporcionados pela SMED e/ou pela escola), formação pessoal (leitura, etc.) e participação em associações profissionais (sindicato, etc.).
As atividades ligadas à gestão escolar
Participação no Colegiado e nas assembleias escolares.
Quadro 1 – As atividades das educadoras e professoras da RME/BH pesquisadas. Belo Horizonte – 2008
Fonte: Dados da pesquisa
Observa-se que as professoras e educadoras não realizam todas essas atividades, conforme lembram Tardif e Lessard (2005), levando-se em conta o caráter obrigatório ou facultativo de algumas dessas tarefas. Há que analisar que determinadas atividades, consideradas como as mais importantes, são realizadas pela maioria das profissionais (atividades com e para crianças), enquanto que outras só dizem respeito a uma pequena minoria (participação no sindicato, no Colegiado Escolar, etc.). Além disso, segundo esses autores, os professores fazem coisas diferentes de acordo com o momento da sua carreira, como os mais velhos ajudando os mais jovens e estes se dedicando mais ao planejamento das atividades e à formação (Tardif e Lessard, 2005, p. 139).