A Sociolinguística surge, na década de 1960, com uma nova metodologia que se apoia na mensuração da variabilidade em que ressalta o seu caráter sistemático, visto que a ocorrência de uma variante linguística pode ser correlacionada com diferentes grupos sociais. Partindo do propósito de desvelar outras dimensões da realidade heterogênea, a sociolinguística repisa os mesmos caminhos traçados pelos linguistas que postularam a necessidade de estudar a língua dentro da esfera social, sem qualquer abstração da sua natural heterogeneidade. Portanto, o objeto privilegiado desta ciência é a manifestação da linguagem no contexto social e, principalmente, em situação de espontaneidade. Essa postura permite suplantar a dicotomia de Saussure (1916) de sincronia e diacronia porque, nesta nova visão de descrição linguística, a análise sincrônica necessariamente fundamenta-se no conceito de língua como um sistema de regras variáveis que atuam ordenadamente com a contraparte fixa da língua. Contudo, “isso só é possível porque a dinamicidade lingüística é inerente e motivada” (MOLLICA; BRAGA, 2004, p. 12).
O entrelaçamento das duas dimensões, linguística e social, consolidado pela sociolinguística abriu novas perspectivas para o estudo histórico porque passa a operar com o conceito de mudança em progresso que dá novo suporte empírico ao princípio de que a mudança não ocorre por uma mera substituição de um elemento por outro, mas que os mesmos mecanismos que operaram para produzir as mudanças em larga escala no passado podem ser observados em ação nas mudanças que presentemente ocorrem dentro de um quadro sincrônico de variação (cf. FARACO, 1998; WEINREICH; LABOV; HERZOG, 2006).
11 Para maiores detalhamento de cada problema levantado, consultar: Weinreich, Labov e Herzog (2006, p.
Labov (1972b, p. 207) ressalta que os estudos sociolinguísticos constituem não uma nova teoria linguística, mas, sobretudo, um novo método de trabalho capaz de detectar as ocorrências linguísticas divergentes que resultam da interação entre a língua e o ambiente social. Tal modelo de análise torna-se conhecido como Teoria da Variação.
Segundo Labov (1972b), a Teoria da Variação busca estabelecer a correlação entre grupos sociais e variedades de uso linguístico e apreender nas bases sociais a direção da mudança.
Toda língua está sujeita à variação que eventualmente poderá conduzir a mudanças. A partir dos estudos de Labov ([1972],1983), os fenômenos de mudanças decorrentes das variações linguísticas, passam a ser objeto de estudos e observação. Estes estudos impõem uma postura de análise perante os dados cujo entendimento sobre a descrição da mudança não pode prescindir da análise das pressões sociais que as condicionam, uma vez que:
[...] não se pode compreender o desenvolvimento da mudança de uma língua fora da vida social da comunidade em que ocorre. Ou, dita de outra maneira, as pressões sociais estão operando continuamente sobre a língua, não de um ponto remoto do passado, mas sim como uma força social imanente que atua no presente vivido (LABOV, 1983, p. 31).12
De acordo com Labov (1994, p. 21), uma forma de se conhecer as mudanças linguísticas que se processaram em determinada língua é estudar mudança em progresso. Esse recurso baseia-se no princípio da uniformidade, o qual determina que as forças e restrições internas que atuam para impulsionar as mudanças linguísticas em curso são idênticas àquelas que impulsionaram as mudanças já concluídas. Portanto, como o mecanismo é sempre o mesmo, pode-se compreender as mudanças no presente através de estudos das que ocorreram no passado.
Contudo, a possibilidade de conhecer indícios de mudanças em curso, comparando com as que já foram concluídas, implica, conforme Labov (1994), a adoção de dois processos distintos de pesquisa: em tempo aparente e em tempo real. O foco do tempo aparente é o padrão do comportamento linguístico em diversas faixas etárias, num determinado momento do tempo. Nesse caso, espera-se que a análise dos dados permita a
12 “[...] no se puede compreender el desarrolo del cambio de um lenguagje fuera de la vida social de la
comunidad en la que ocurre. O, dicho de otra manera, las presiones sociales están operando continuamente sobre el lenguaje, no desde un punto remoto del pasado, sino como una fuerza social inmanente que actúa en el present vivido”.
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constatação de que o uso de uma variante inovadora mostra-se mais frequente entre os jovens do que entre os idosos. Têm-se, então, indícios de que se trata de uma de mudança em progresso. Neste ponto, Labov chama atenção a dois pontos essenciais a serem considerados para validar a mudança: “primeiro será necessário olhar para alguns problemas envolvidos no tempo aparente para se ter obter uma visão clara da dimensão da mudança” (LABOV, 1994, p. 56)13 e segundo, deve-se analisar de forma mais criteriosa a faixa etária, pois em média os falantes mais idosos podem ter um nível educacional mais baixo do que os mais jovens. Isso pode possibilitar uma interpretação de que as distribuições em termos de faixa etária podem não representar uma mudança, mas um padrão característico de uma faixa etária.
O estudo em tempo real, por sua vez, configura-se como a completude da pesquisa por meio do retorno do pesquisador ao passado, valendo-se de dois métodos: a) utilização de textos antigos que registrem as variantes em estudo para que se possa fazer uma comparação com os dados atuais; b) volta à comunidade, cerca de vinte anos depois, repetindo os mesmos estudos com dados coletados através de gravação, obedecendo aos mesmos critérios da coleta anterior, para que se possa ter uma situação similar à pesquisa feita em tempo aparente. Recriada a situação, é possível desvelar as características do curso da mudança visualizado no corte sincrônico, validando assim cientificamente o estudo em tempo real. Segundo Labov (1994), só as observações em tempo real podem definir se uma mudança está em progresso ou não em uma comunidade.
Com essas duas dimensões de estudo em tempos diferentes, a Sociolinguística faz-nos entender que a variação não resulta de uma mescla dialetal irregular, mas é uma característica inerente e regular de todo sistema linguístico. E permite constatar que a variação é uma característica recorrente na forma vernacular que emerge naturalmente no sistema da língua padrão, dependendo do contexto de fala em que o usuário se encontre (cf. LABOV, [1972], 1983, p. 283-286).
Ademais, a metodologia adotada nessas pesquisas permite descortinar o processo de mudança em curso de uma determinada comunidade, como um quadro de variações que desencadeiam o processo, as quais são auferidas socialmente pelos próprios falantes, positiva ou negativamente, nas diferentes situações de uso.
13 “[...] first it will be necessary to look at some of the problems involved in obtaining a clear and accurate
À escolha entre uma ou outra forma variante por falantes de estratificação social privilegiada, a julgar pelo contexto em que esta ocorre, é atribuída uma valoração social de
prestígio. A valoração estigmatizada é associada a falantes dos estratos mais baixo da população. Essa relação entre classes e formas variacionais é abordada como variável em alguns estudos desenvolvidos em algumas comunidades por Labov, uma vez que tem como objeto metodológico privilegiado a ambiência social em que as variações ocorrem (cf. LABOV, [1972], 1983).
Todavia, Labov ([1972], 1983, p. 75) adverte que todo pesquisador que se propõe estudar a linguagem em seu contexto social vai deparar-se com o paradoxo do observador. Os meios utilizados para a coleta dos dados podem interferir negativamente sobre os mesmos e mascarar a forma vernacular utilizada pelo falante no seu cotidiano. Para reduzir esses efeitos, o autor sugere algumas técnicas, como estudar o sujeito em seu contexto social natural (ambiente familiar, grupo social) ou observar o uso da linguagem fora de qualquer situação formal de entrevista. Quanto a esse ponto, Taralllo (1986) argumenta que a formulação de um questionário-guia de entrevista e a provocação de narrativas de experiências de cunho pessoal constituem procedimentos metodológicos capazes de neutralizar a força dos efeitos negativos tanto do gravador quanto da própria presença do pesquisador.
Por postularem técnicas de coletas metodologicamente eficazes para a descrição de uma língua em uso, dois estudos de Labov são tomados como referências dentro dos estudos da Teoria da Variação Linguística: La motivacion social de un cambio fonético e
La estratificación social de (r) en los grandes almacenes de Nueva Yorky14. Desses estudos, trata a seção seguinte.