Por intervenções anteriores, entende-se todas ações diretas sobre a escultura, as quais não têm necessariamente que representar um dano. Correspondem à adição de materiais posteriormente à produção original da escultura. É certo, no entanto, que em algumas circunstâncias correspondem a ações que concorrem para o acelerar dos processos de degradação da escultura.
Identificaram-se como podendo ser intervenções anteriores as seguintes:
A aplicação de uma camada de proteção sobre a policromia, que poderá ser goma- laca60. Esta camada retraiu com o envelhecimento, provocando tensão sobre a camada de
60 A goma-laca é uma resina de origem animal, obtida a partir da segregação de um inseto, submetida a um processo de purificação. Quimicamente apresenta uma composição complexa que varia segundo a área em que se desenvolve o inseto. Contém geralmente compostos cerosos e ácidos gordos. Quando envelhecida, apresenta na sua fórmula química grupos aldeídos e cetónicos. – Vd. PELLEJERO, Guadalupe Carramiñana
– História de los barnices para instrumentos musicales de cuerda frotada. Estado del Arte y relexiones [Em linha] Valencia, Espanha: Universidad Politecnica de Valencia, Faculdad de Bellas Artes: Departamento de Conservación y restauración de bienes Culturales (2011) [Consult. 19 Set. 2016] Disponível emWWW:<URL:https://riunet.upv.es/bitstream/handle/10251/11771/Historiadelosbarnicesparainstrumento sdecuerdafrotada_Estadodelarteyreflexiones.pdf?sequence=1>. p. 33.
A sua utilização prende-se com a boa dureza e durabilidade. Tem elevada resistência à água e excelentes características como estrato isolante, de proteção, é uma resina não tóxica e inodora e acima de tudo removível. – Vd. MANCINI, Estela Alicia – Manual de Materiales Artísticos: Goma Laca. [Em linha].
Argentina: Libreria Thesis. [Consult. 19 Set. 2016]. Disponível em WWW: <URL: http://www.libreriathesis.com.ar/Asesoramiento/Manual_de_materiales_artisticos/Goma%20laca.pdf>. p. 1.
policromia. Além disso esta camada está oxidada, escurecida, alterando a tonalidade original da policromia – vd. Fig. 21.
Fig. 21 – Aplicação de uma camada de proteção: Pormenor onde se percebe a aplicação de uma camada de
proteção sobre os estratos de superfície, no braço e mão esquerdos. Fonte: de elaboração própria.
A colagem entre os pés e as pernas. Esta colagem teve como objetivo corrigir a fratura e permitir o posicionamento original da escultura, isto é, permitir a posição vertical da imagem. Para esta operação, foi realizada uma colagem reforçada pela introdução de elementos metálicos (pregos e parafusos). A introdução destes elementos de reforço realizou-se pelo verso da base (a aplicação de parafusos) – vd. Fig. 22, e pela área dorsal dos pés – vd. Fig. 23.
Fig. 22 – Aplicação de parafusos para fixar a imagem à base (reforço da colagem das fraturas):
Pormenores onde se observa o sistema adaptado para permitir a fixação da imagem à base da escultura numa tentativa de corrigir a verticalidade, com cavilhas de madeira e pregos e parafusos metálicos. Vista anterior do pé direito; vista inferior da base e pormenor do prego introduzido pela parte inferior da base, respetivamente.
Fonte: de elaboração própria.
Apresenta como desvantagem a alteração cromática que sofre com o passar do tempo, no entanto esta alteração depende também da espessura do estrato aplicado.
Fig. 23 – Pormenor da aplicação de pregos na área dorsal dos pés para reforço da colagem.
Alguns pormenores na policromia da imagem apontam para a repolicromia61 das
áreas de carnação – vd. Fig. 24. Percebe-se uma acumulação de tinta nas extremidades que delimitam as áreas de carnação. Esta aplicação deficiente da policromia, não só não se verifica nas restantes áreas policromadas (na veste), como também, face à qualidade da escultura, não está de acordo com o cuidado de aplicação da tinta que seria expectável num bem “de época”. Além disso, na base encontra-se uma escorrência de tinta com coloração semelhante à utilizada para a carnação o que também é indício de que esta foi refeita posteriormente. Por último, menciona-se o facto de, comparando as radiografias com fotografias de pormenor, se perceber que existem duas redes de estalados que não são coincidentes, isto é, uma rede de estalados que corresponde à carnação possivelmente original e uma outra que corresponderá à posterior.
61 Por repolicromia entende-se a aplicação de uma nova policromia, que deve ser considerada um renovação, que tem como intenção conferir ao objecto o gosto da época em que foi realizado. Caracteriza-se por ser uma policromia total ou parcial, realizada num momento posterior ao da produção do objeto. A sua aplicação responde às mesmas normas (métodos e técnicas) da época a que pertence. Geralmente identifica-se pela presença de um estrato de preparação antes da aplicação do estrato de policromia – Vd. RAMOS, Rosaura García; MARTÍNEZ – La escultura policromada. Critérios de intervención y técnicas de estúdio. Arbor ISSN:0210-1963. Vol. 169, nº 667-668 (2001). p. 650.
Fig. 24 – Repolicromia das carnações: Pormenor da acumulação de tinta na orelha e de uma lacuna ao nível
dos estratos de repolicromia que permite perceber a existência de uma policromia subjacente, no dedo médio da mão esquerda. Fonte: de elaboração própria.
A base foi repintada62, o estrato de tinta preta que se observa sobre a superfície da
parte superior da base é um pouco tosca e de qualidade inferior à restante aplicação de policromia na escultura. Percebe-se também que esta camada é irregular, a superfície em que está aplicada não é lisa, o que pode indicar a existência de uma outra camada de tinta subjacente. Além disso, em áreas de lacuna ao nível deste estrato é possível observar-se um estrato subjacente de cor vermelha – vd. Fig. 25.
62 O repinte corresponde à aplicação de um novo estrato, total ou parcial, geralmente de pouca qualidade técnica, material e artística que tem como intenção dissimular ou esconder danos existentes na policromia. A repintura normalmente não respeita os limites das lacunas y não tem por intenção alterar, de forma a atualizar, a decoração do objeto. – Vd. RAMOS, Rosaura García; MARTÍNEZ – La escultura policromada. Critérios de intervención y técnicas de estúdio. Arbor ISSN:0210-1963. Vol. 169, nº 667-668 (2001). p. 650.
Fig. 25 – Repinte da base: pormenor onde se observam vestígios de uma policromia subjacente ao estrato
negro.