É importante recordar que os dez colaboradores desta investigação declararam, no questionário151, utilizar livros didáticos em suas aulas de Matemática, visto que esse foi um dos critérios utilizados para selecioná-los, conforme explicamos no capítulo 2. No entanto, destacamos os professores Fabiano, Renata, Ana Lúcia, Márcia, Vilma e Ana Cristina como aqueles que consideraram, antes mesmo de nossas entrevistas, ser este um dos recursos que mais utilizam nas aulas de Matemática. Renata ainda nos chamou mais a atenção, pois ela registrou tanto o livro adotado pela escola quanto outros livros didáticos de Matemática adquiridos fora da escola, sem especificá-los. Ana Lúcia e Ana Cristina, ademais, citaram as folhas separadas de exercícios (xerox), tal como Ercivane e Gislane, e esta última registrou somente essas folhas como o recurso que mais usa em suas aulas de Matemática.
Para a elaboração dessas folhas distribuídas aos alunos, devemos considerar que há uma constante e elevada demanda dos docentes por um rol de atividades variadas, sendo-nos possível inferir que o livro didático atua, também, como um material de uso exclusivo do docente quando da produção dessas folhas. Entretanto, devemos também levar em conta, na atualidade, a participação da internet, que aparece como coadjuvante, junto aos livros, no desempenho do papel de banco de ideias, exemplos e modelos de atividades.
A professora Cléia, que não mencionou o livro nem as folhas de atividades como recursos mais frequentes em suas aulas de Matemática, declarou usar os livros didáticos quase que exclusivamente para sua consulta visando à aplicação das atividades que seleciona nesses livros aos alunos. Cabe salientar que Cléia apresentou a falta de livros para a maioria dos alunos do 1º ano do Ensino Fundamental na escola em que trabalha como uma das causas desse uso pessoal dado ao livro. Ao mesmo tempo, ela considerou o livro de Matemática insuficiente e de difícil compreensão para os alunos, reforçando sua opção pelo uso reservado dos livros.
Assim, os livros de Matemática, mesmo quando não priorizados na rotina da sala de aula junto aos estudantes, atuam junto aos docentes como alicerces na produção de
151 O quadro que corresponde ao Anexo F destaca as respostas dos dez professores/colaboradores
outro recurso, evidenciando que, em comparação a outros recursos didáticos, o livro tem uma maior participação.
Com relação a outros recursos didáticos muito utilizados nas aulas de Matemática, metade de nossos colaboradores citou os materiais concretos a partir de menções a palitos de picolé, blocos lógicos, material dourado, além da referência à própria expressão geral “material concreto”, ao passo que apenas Ercivane, Rosângela e Ana Lúcia indicaram os jogos.
Mas é o papel do livro como material de apoio e/ou suporte ao professor que novamente ganha notoriedade nas respostas ao questionário e, nesse caso, o livro didático de Matemática aparece como um organizador dos conteúdos a serem ensinados e, mais que isso, como um sistematizador do currículo que evidentemente influencia na formação do professor.
Já o uso do livro junto aos estudantes acontece, conforme verificamos nas respostas dos docentes, de forma intercalada com outras atividades, e aproveitando o direcionamento que, por vezes, o livro oferece, de realizar um trabalho coletivo e/ou em grupo com as crianças. Além disso, esse recurso é utilizado também para introduzir, complementar e/ou fixar conteúdos matemáticos, e por diversas vezes, os professores especificam que isso é feito mais por meio das atividades do livro do que por suas partes dedicadas à apresentação desses conteúdos. As críticas de alguns professores em relação à sequência dos conteúdos adotada pelos livros e quanto à forma escolhida pelos mesmos para a organização das atividades, que, segundo os respondentes do questionário, não favorece a dinâmica de trabalho com o livro em sala, são, a nosso ver, compatíveis com os usos indicados pelas respostas. Nota-se, a partir daí, que o livro didático tem papel coadjuvante nas práticas pedagógicas relacionadas à Matemática.
Ademais, as indicações de Gislane, Ercivane e Rosângela sobre o uso do livro didático para tarefas a serem feitas na casa dos estudantes parecem se configurar como uma saída frente aos entraves que as professoras encontram nas possibilidades de usar o livro em sala de aula.
Entretanto, as respostas ao questionário mostram que, mesmo sem exclusividade, o livro é considerado um recurso bom, ótimo, excelente, eficaz, rico e, em alguns casos, foram apontadas qualidades particulares a ele. Ana Lúcia o considerou
importante para a sistematização dos conhecimentos; Márcia apontou-o como um incentivo ao aluno e Renata o caracterizou como um bom condutor.
Já a escolha do livro foi associada às ilustrações, gravuras, colorido, atividades, diversidade, ao conteúdo adequadamente reordenado em face da alteração representada pelo acréscimo recente de um ano no Ensino Fundamental, à forma como auxilia o aluno a construir o conhecimento. A escolha do livro também se relaciona ao uso de uma linguagem de fácil entendimento pelos pais dos alunos, pois são eles que, geralmente, auxiliam nas tarefas enviadas para a casa dos estudantes, que incluem, por vezes, o livro didático.
Sobressai, portanto, das respostas ao questionário, que as práticas referentes aos usos dos livros didáticos de Matemática variam, segundo nossos colaboradores, entre duas grandes unidades, isto é, entre uma utilização direta com os estudantes, que estamos designando como uso para as práticas pedagógicas, e outra indireta, como um recurso voltado para uso do professor como parte específica de sua formação, nos momentos da preparação em relação aos conhecimentos matemáticos.