• Sonuç bulunamadı

B. Arketip yaklaşımına göre marka kişilikleri

2.5.3. Marka itibar ve imajı

Nas seções anteriores procurei explicitar os benefícios da estruturação para a construção de uma proposta pluralista que permita compreender a agência como sendo co-determinada por uma série de fatores, advindos dos níveis de análise macro-estrutural e micro-organizacional.

Então, ao partir de uma concepção estruturacionista, considero a agência como um fluxo de intervenções causais reais ou observáveis ao longo dos processos (BERTILSSON, 1984), sendo constituída por uma série de ações em curso e eventos nos quais o agente é perpetrador, expressando a capacidade de realizá-las em primeiro lugar (GIDDENS, 2003, p. 10). Por ser a agência um processo de engajamento social temporalmente situado, ela é informada pelos aspectos habituais e orientado pelas alternativas de ação formadas ou imaginadas ao longo do mesmo (EMIRBAYER e MISCHE, 1998).

Entretanto, destaco que essa concepção de agência que utilizo na tese deve ser historicamente compreendida. A agência nem sempre foi situada junto aos

indivíduos, sendo bastante característica a trajetória do desenvolvimento do conceito. O conceito de agência foi tratado de diferentes formas ao longo da história do pensamento, tendo sido secularizada, humanizada e socializada. Em função do deísmo, a agência foi inicialmente situada no domínio sobrenatural, associada às forças místicas, divindades ou providências metafísicas. A agência estava situada fora da vida individual ou coletiva, conformando biografias humanas e histórias sociais (GIDDENS, 1995).

Com o processo de secularização, o primeiro movimento no sentido de humanizar a agência foi localizá-la junto aos grandes homens: profetas, heróis, líderes, generais, descobridores, inventores, gênios. Essa agência era humana, mas, por outro lado, não era socializada já que o ‘sagrado’ não havia desaparecido: “a liberdade humana em relação aos controles morais repressivos dependida da qualidade ‘sagrada’ dos ideais que compreendiam o individualismo moral” (GIDDENS, 1995, p. 122).

Com o nascimento da sociologia, a agência foi socializada. A sociedade foi percebida em termos orgânicos, como totalidade que se auto-regula e autotransforma11. Consequentemente, a agência era tratada como poder inerente ao organismo social e que se manifesta de forma direcional e irreversível: “o indivíduo só poderia ser livre se fosse um agente autônomo, capaz de dominar e compreender seus impulsos” (IBID, p. 123). A regulação moral da sociedade moderna era a condição de auto-realização do indivíduo em contraposição a autoridade repressiva das formas tradicionais de sociedade (GIDDENS, 2003).

A agência foi humanizada e socializada como uma reação ao estágio preliminar na sociologia, sendo situada junto às ações dos atores sociais (GIDDENS, 1995). Como uma reação à perspectiva totalizante anterior, há o favorecimento do papel do indivíduo para a compreensão dos fenômenos sociais, no qual o mundo é constituído pela atividade humana e as crenças são produto organizado dos atos e interpretações dos agentes (IBID, p. 285).

Agência foi estendida a todos os indivíduos e não apenas a alguns eleitos, a todos os papéis sociais e não apenas às funções de poder. A sociedade passou a

11 Giddens (1995, p. 120-133) discute detalhadamente a importância da perspectiva de Durkheim sobre o processo de secularização e inicial socialização da agência situando-a no quadro histórico em direção à organicidade. Adicionalmente, Giddens destaca as limitações dessa perspectiva para o entendimento da agência em função do destaque dado às estruturas sociais.

ser vista como constituída pelo resultado agregado e historicamente acumulado daquilo que fazem todos os seus membros com base em seus motivos e propósitos particulares (CASSELL, 1993). Como veremos adiante, passa a ser valorizada a possibilidade de estudo da relação entre as ações dos múltiplos indivíduos, suas consequências impremeditadas, os diferentes contextos de ação e as situações complexas geradas.

Assim, a transformação do conceito de agência nas últimas décadas revela o interesse da teoria sociológica em decifrar os segredos de sua operação e os mecanismos pelos quais os agentes produzem e reproduzem a realidade social. Esse interesse implica no exercício de confrontar e aproximar os conceitos de agência e estrutura (GIDDENS, 2003).

Para o desenvolvimento da tese, torna-se necessário abraçar uma concepção de agência que permita reconhecer a ação, ou a não-ação, como em constante interação e influência com elementos da estrutura social, ao invés da ação voluntarista como preconizado no modelo dominante em RSE. Assim, a definição de agência que assumo na tese traz uma série de implicações devido à sua concepção estruturacionista e alguns elementos fundamentais advindos dessa definição precisam ser destacados (ver GIDDENS, 2003, p. 17).

Primeiro, para que um ator seja considerado um agente é necessário que ele seja ‘capaz de atuar de outro modo’. Ou seja, que seja capaz de intervir, ou não, no mundo no sentido de influenciar o processo (o curso dos processos pré-existentes) ou o estado das coisas. Nesse sentido, a capacidade de agência implica em exibir uma gama de poderes causais, inclusive o poder sobre a ação dos outros. Para tal, passa a ser importante perceber as “habilidades complexas que os atores possuem para co-ordenar os contextos” (CASSELL, 1993, p. 153).

O segundo elemento, como um desdobramento do anterior, leva à necessidade de compreender a agência em relação às intenções ao fazer as coisas. O agente é o perpetrador das ações ao longo do processo, já que, independente da intencionalidade, ‘poderia em qualquer fase de uma dada sequência de conduta, ter atuado de modo diferente’. Assim, o que um agente faz é diferente daquilo que é pretendido, ou das consequências gera. Isso leva à discussão sobre as motivações e intencionalidades relacionadas à ação.

A motivação refere-se mais ao potencial para ação do que ao modo como é executada pelo agente. Ela tem influência direta sobre a ação apenas em circunstâncias incomuns que quebram a rotina. Entretanto, Giddens destaca que os atores podem informar sobre as intenções, mas não necessariamente os seus motivos que podem ser inconscientes. Há ações que possuem motivos inconscientes, no nível da consciência prática, e há outras ações que são informadas pela cognição, no nível da consciência discursiva. Nesse sentido, existem diferenças entre o que pode ser dito e o que é simplesmente feito.

Os primeiros teóricos a estudar a ação consideravam que um comportamento seria uma ação se o realizador tivesse a intenção de manifestá-la, caso contrário era apenas uma reação. Mas, Giddens (2003, p. 10-13) modifica esse quadro tirando o foco exclusivo na interpretação sobre a intencionalidade e motivação expressas pelos agentes. Para esse autor a agência não pode ser descrita segundo o entendimento que temos sobre o ato e utiliza dois exemplos: o comandante que afunda o submarino Bismark e a pessoa que derruba o chá sobre outra. Nessas duas situações a ação traz consequências indesejáveis, portanto, há a tendência equivocada a considerá-las como não-intencionais e portanto não haveria agência. Mas, Giddens, preocupado com a compreensão do fluxo contínuo de ações no processo, destaca que essas ações possuem consequências intencionais e não-intencionais que não podem ser premeditadas, mas nem por isso deixam de ‘ser’ ações realizadas (ou sustentadas) pelos agentes. Ou seja, a ação não deixa de existir por conta de sua intencionalidade ou consequências.

“As consequências dos que os atores fazem intencionalmente, ou não, são parte dos eventos e estas não teriam acontecido se os atores tivessem se comportado de modo diferente. A realização da ação e a manutenção dos eventos estão ao alcance do agente, independente das consequências subsequentes.” (CASSELL, 1993, p. 344 – tradução nossa)

Assim, relação entre as ações e suas consequências é muito importante para uma compreensão da agência estruturacionista. É preciso dar conta adequadamente do problema relacionado ao compasso e ao descompasso que existem entre a ação intencional socialmente situada e suas consequências sociais.

O interesse recai sobre as circunstâncias nas quais as consequências das ações intencionais podem discrepar do que os atores sociais esperam.

É nesse espaço entre a ação e suas consequências que se encontram os ‘problemas interessantes para a análise sociológica’ (BOUDON e BOURRICAUD, 2004). É nele que se dá o entrelaçamento de múltiplas ações, cada qual respondendo a uma intenção, mas podendo, no conjunto, gerar efeitos complexos. A atenção concentra-se, portanto, na ação intencional. Mesmo sendo individual na sua origem, a ação se dá num contexto que envolve múltiplos agentes. Ou seja, as ações não acontecem no vácuo social e seu desenrolar não está exclusivamente associadas às intenções no nível individual. Em consequência, a relação entre intenção e resultado torna-se problemática, sendo fundamental reconhecer as relações com o contexto no qual as ações se desenrolam.

O desafio da concepção estruturacionista de agência está exatamente na articulação entre ação e estrutura, entre indivíduo, organização e a estrutura social que circunda a ação:

Colocar todo o peso nos condicionantes (como ‘valores internalizados pelos agentes’) implica o risco daquilo que os autores denominam ‘hiperculturalismo’, no qual toda a explicação da ação fica por conta de seus antecedentes, e o agente como tal desaparece. Por outro lado, sobrecarregar a ênfase nos processos individuais de ação pode dissolver a sociedade numa poeira de eventos analisáveis pontualmente, mas ininteligíveis nas suas formas de agregação e de composição. (BOUDON e BOURRICAUD, 2004, p. xxvii – tradução nossa)

Assim, a compreensão da agência, segundo uma concepção estruturacionista, envolve principalmente a análise da intencionalidade e das consequências (premeditadas e impremeditadas) relacionadas ao fluxo de ação ou à série de ‘atividades práticas’ em curso.

Esse aspecto permite reconhecer a análise da conduta estratégica como sendo o terceiro elemento central associado à definição de agência estruturacionista. Tratarei na próxima seção de detalhar esse aspecto que é central ao quadro de análise proposto na tese.

• Análise da Conduta Estratégica em Estratégia de RSE

Ao desenvolver a teoria da estruturação, Giddens (2003, p. 339) apresentou dois possíveis enquadramentos metodológicos: a análise institucional e a análise da conduta estratégica. Se por um lado, a análise institucional trata as propriedades estruturais como características reproduzidas de sistemas sociais, por outro a análise da conduta estratégica trata dos modos como os atores sociais se apóiam nas propriedades estruturais para a constituição de relações sociais.

Ao realizar a análise da conduta estratégica é possível perceber que as práticas cotidianas dos agentes podem ter como consequência, intencional ou não, a reprodução das formas institucionais mais amplas. Giddens (2003) entende que as forças sociais que direcionam as práticas podem ser percebidas na ação e permitem a análise da ação intencional e da conduta (de reprodução, transformação ou oposição) do agente, sendo uma análise distinta da análise funcionalista (CASSELL, 1993, p. 345).

Nesse sentido, em uma conduta de reprodução, o agente realiza as atividades práticas cotidianas exatamente de acordo com o que é esperado ou rotineiramente dado. Em outro extremo, a oposição às forças direcionadoras da ação pode ser expressa, por exemplo, por meio de uma conduta de perturbação contínua daquilo que é esperado ou demandado do agente e pela adoção de práticas tidas como opostas. Giddens (2003, p. 339 - 345) exemplifica a análise da conduta estratégica ao analisar o trabalho realizado por outro pesquisador que trata do comportamento de um grupo de garotos ‘problema’ em um contexto escolar. A análise do comportamento de confronto permitiria identificar como as forças sociais e os elementos contextuais direcionam a ação do grupo:

“A oposição é expressa por uma perturbação contínua daquilo que os professores esperam e demandam, normalmente parando bem próximo do confronto absoluto [...] É porque eles conhecem muito bem a escola e os outros contextos nos quais se movem que agem dessa forma. Tal conhecimento pode ser sustentado em suas atividades práticas primárias diárias ou no discurso que é altamente contextualizado” (CASSELL, 1993, p.158 - 159 – tradução nossa).

Ao considerarmos uma conduta intermediária, a transformação dessas forças direcionadoras ocorre por meio da realização de práticas distintas daquelas esperadas, porém não necessariamente opostas ou ‘de perturbação’. Essa perspectiva põe em evidência a necessidade de compreender a ação não segundo uma perspectiva funcionalista. Em contraposição à análise da conduta estratégica proposta por Giddens (2003), a analise da ação ou da atividade pode ser realizada e ‘explicada’ em termos funcionais, onde a ação em si é explicada como a resposta às necessidades e funções estabelecidas pelo sistema. A figura 2 a seguir expõe os dois tipos de análise da ação:

Figura 2: Os Tipos de Análise da Atividade Cotidiana

Fonte: Giddens (2003, p. 346 – tradução nossa)

Ao realizarmos a análise da conduta estratégica (ver tipo 1 na figura 2), um dado conjunto de atividades sociais (comportamento opositor, por exemplo) é interpretado como ação intencional. As atividades são mostradas como sendo realizadas de forma intencional, por certas razões, dentro de condições de conhecimento limitado. A especificação desses limites permite ao analista mostrar como as consequências premeditadas e impremeditadas da atividade em questão derivam daquilo que os agentes realizaram intencionalmente. A interpretação envolve uma atribuição de racionalidade e de motivação aos agentes envolvidos. Os atores possuem razões para o que fazem e o que fazem possui certas consequências especificáveis às quais eles intencionavam ou não (CASSELL, 1993, p.162).

Em uma análise funcional (ver tipo 2 na figura 2), pouca atenção é dada aos detalhes da intencionalidade da ação. Provavelmente é assumido que a conduta é intencional de alguma forma e que possui funções manifestas. Mas, normalmente,

Atividades Sociais Ação Intencional Consequências Impremeditadas Atividades Sociais Necessidade Funcional Consequência Funcional (1) Análise da Conduta (2) Análise Funcional

na interpretação funcionalista a identificação de uma necessidade funcional do sistema é assumida como tendo valor explanatório, colocando a atenção para as consequências que de certa forma atendem às suas necessidades (CASSELL, 1993, p.162). Segundo Giddens, a interpretação funcionalista não é uma explicação porque não provê o mecanismo que liga as consequências da ação à necessidade funcional que presumidamente atende a um sistema social mais amplo no qual as atividades a serem explicadas estão envolvidas (CASSELL, 1993, p.162). Ou seja, o fato das ações possuírem resultados funcionais não explica a sua existência. Apenas a identificação da intencionalidade (ou tipos de ação intencional) e das consequências impremeditadas (tipos de consequência) permite explicar a ação (CASSELL, 1993, p.163).

Ao propor a investigação da agência nas estratégias de RSE, a partir de uma perspectiva estruturacionista, passa a ser possível confrontar o modo de análise funcionalista que serve de orientação aos estudos que seguem o modelo dominante de caráter integracionista e voluntarista (ver PORTER e KRAMER, 2006). A análise funcional dominante sobre as estratégias de RSE coloca a atenção para as consequências da estratégia que atendem à uma necessidade funcional especificada na literatura (ver abordagem normativa em DONALDSON e PRESTON, 1999), não reconhecendo a intencionalidade na conduta do agente e as consequências impremeditadas da ação.

Minha proposta de análise da agência em estratégias de RSE reconhece as atividades conduzidas pelo agente como sendo ações intencionais, pautas em um conhecimento limitado sobre as consequências destas ações. Nessa proposta de análise também é necessário atribuir simultaneamente racionalidade e intencionalidade à todos os atores envolvidos direta ou indiretamente na ação, como forma de revelar – em termos pluralista crítico – as diferentes visões acerca da interação e do processo.

Na literatura dominante em RSE, as estratégias empresariais relacionadas ao tema são percebidas como atendendo a uma necessidade funcional, mas essa interpretação funcionalista não é suficiente por não explicar ou interpretar as consequências premeditadas e impremeditadas da ação. Em uma análise funcionalista, o sentido da ação é apresentado em termos normativos, sem

reconhecer que os atores possuem certa intencionalidade para o que fazem e geram consequências premeditadas e impremeditadas.

Portanto, a compreensão da agência segundo uma concepção estruturacionista possibilita transcender o foco exclusivo na análise funcional, sendo possível incluir a intencionalidade da ação e suas consequências. Acredito que somente por meio da análise da conduta estratégia será possível estudar a não- ação, a qual especifico na próxima seção.

• Não-Ação e Intencionalidade

Seguindo o argumento apresentado nas seções anteriores, a noção de poder é importante ao estudo da agência estruturacionista. Para o estudo da agência nas estratégias de RSE, seguindo uma concepção estruturacionista e a discussão sobre processo e contexto, considero importante destacar a relação entre o poder e as situações nas quais esse poder é exercito ou explicitado.

Frequentemente, alguns pesquisadores consideram que o poder é ativado e deve ser estudado nas situações de tomada de decisão e realização de escolhas pelos agentes. Para Bachrach e Baratz (1962 e 1963, p. 639), uma decisão é um conjunto de ações relacionadas que incluem a escolha de uma alternativa ao invés de outros modos de ação. Para os autores, a escolha de alternativa para ação não envolve apenas poder, sansão e restrições, como também a força dos argumentos, as influências presentes no momento e autoridade ou hierarquia daqueles que participam da decisão.

A forma tradicional de perceber o exercício do poder, quando associado à ação realizada, não permite o reconhecimento de situações nas quais há a influência do poder, porém não há uma decisão ou ação correspondente a ser analisada. Como afirmam Bachrach e Baratz (1962 e 1963) a não-ação e a não-escolha são normalmente negligenciadas nos estudos, apesar de estarem permeadas por uma importante parte do exercício do poder. Os autores definem a não-ação como sendo

“a prática de limitar o escopo da ação aos temas ‘seguros’ ao manipular os valores comunitários dominantes, os mitos e os procedimentos e instituições politicamente constituídos” (BACHRACH e BARATZ, 1963, p. 632 – tradução nossa).

Para os autores toda organização possui vieses a favor da exploração de algum tipo de conflito ou supressão de alguns outros, porque a organização em si constitui-se pela mobilização de algum tipo de viés. Entretanto, é impossível ignorar que indivíduos ou grupos participam mais vigorosamente no suporte ao processo de não-ação, do que participando no processo de ação corrente. É impossível não observar que alguns indivíduos ou grupos podem limitar sua capacidade de ação aos temas não controversos, influenciando valores, rituais e procedimentos, mesmo diante da existência de temas latentes e conflituosos. Isso significa que determinados agentes podem indiretamente prevenir a emergência de temas potencialmente indesejáveis. Portanto, o conceito de não-ação (BACHRACH E BARATZ, 1962 e 1963) apresenta uma contribuição interessante para o estudo de um lado oculto na ação, o estabelecimento de agendas que atendam à manutenção de vieses específicos (GREEN, 1996, p. 891).

Os autores propõem o estudo da não-ação como forma de investigar a mobilização de viés em um processo de interação (BACHRACH E BARATZ, 1962 e 1963). Para tal, é necessário analisar os valores dominantes, os mitos as regras do jogo e os procedimentos políticos estabelecidos, assim como realizar um exame cuidadoso das vantagens e desvantagens do viés corrente sob a perspectiva dos agentes. Adicionalmente, investigar a dinâmica da não-ação deve levar em conta o quanto ou como o status quo orienta, influencia, ou atende aos atores sociais de forma a limitarem o escopo da ação aos temas ‘seguros’.

Com a não-ação e consequente manutenção do curso de ação atual, há certamente uma escolha realizada pelo agente. Mas, essa não foi provocada por uma escolha qualquer ou pela combinação das escolhas de outros. Ao contrário, a não-ação pode refletir – apesar de concretamente nada ter sido feito – uma realização por parte do agente que tem o interesse em sustentar a mobilização de um viés específico. Este pode, consciente ou inconscientemente, estar direcionado ao avanço de determinadas agendas e ao bloqueio ou manipulação do exercício de poder por outros agentes. Ou seja, em situações dessa natureza, o processo de

escolha dentre alternativas adentra o campo previamente ocupado pela não-ação. E, ao fazê-lo, necessariamente expõe a anterior mobilização de viés. Se o conceito de não-ação se apresenta como uma ferramenta útil, ele pode efetivamente ser estudado a partir das categorias e fatores de influência (SHARKANSKY e FRIEDBERG, 2002).

Uma variedade de fatores complexos influencia a ação: os elementos sociais, culturais, econômicos e políticos que influenciam o indivíduo, ou agente; os valores em questão na realização da ação; as pressões sobre os agentes, individualmente ou em grupo, realizadas por grupos de interesse internos e externos (BACHRACH E BARATZ, 1962). Para os autores, não é possível afirmar que esses fatores sejam igualmente importantes ou que apenas um seja de considerável importância. É necessário estudar em cada situação de não-ação como essas possíveis influências se apresentam. Em cada evento ao longo de um processo de interação social, uma escolha de alternativa de ação pode ser especificada a partir do ponto de vista do agente. Nesse caso, é necessário e viável, segundo os autores, deduzir a partir de entrevistas e da observação da situação, o porquê dos atores agirem como agem. Para os autores não há atalho ou método, mecânico e simples, para obter uma completa compreensão do processo de ação ou não-ação pelo agente (BACHRACH E BARATZ, 1963).

Partindo de um quadro de análise mais amplo, passa a ser interessante realizar um estudo comparativo dos fatores subjacentes às ações e não-ações em

Benzer Belgeler