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vulnerabilidade social decorrente de abandono, privação, perda de vínculos, exploração, violência, entre outras. Destina-se a enfrentar situações de risco em famílias e em indivíduos cujos direitos tenham sido violados e/ou em situações de rompimento de laços familiares e comunitários.

Esses serviços subdividem-se em média e alta complexidade. A média complexidade compreende a atenção às famílias e indivíduos com seus direitos violados, mas cujos vínculos familiares e comunitários não foram rompidos. A alta complexidade destina-se a garantir proteção integral (moradia, alimentação, higienização e trabalho protegido para famílias e indivíduos com seus direitos violados, que se encontram sem referência, e/ou em situação de ameaça, necessitando serem retirados de seu núcleo familiar, ou comunitário (BRASIL, 2005).

A proteção de média e alta complexidade tem interface com o sistema de garantia de direitos do município e o órgão responsável pela execução desse serviço é o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), que é uma unidade pública estatal que oferta serviços especializados e continuados a famílias e indivíduos em situação de ameaça ou violação de direitos, no caso, violência física, psicológica, sexual, tráfico de pessoas, cumprimento de medidas socioeducativas em meio aberto, etc. Busca ser um espaço de acolhida e escuta qualificada, fortalecendo vínculos familiares e comunitários, além do fortalecimento dos recursos para a superação da situação apresentada. (GAYOTTO, 2013, p. 59).

Vale salientar, portanto, que o SUAS materializa o conteúdo da LOAS, cumprindo no tempo histórico dessa política as exigências para a realização dos objetivos e resultados esperados que devem consagrar direitos de cidadania e inclusão social, além de definir e organizar os elementos essenciais e imprescindíveis à execução da política de assistência social. O SUAS também tem o papel de normatizar os padrões nos serviços, manter a qualidade no atendimento, construir indicadores de avaliação e de resultados, dar

nomenclatura aos serviços e à rede socioassistencial, bem como aos eixos estruturantes e de subsistemas (BRASIL, 2005, p. 39).

Segundo Paiva (2006), o SUAS consubstancia a Política Nacional de Assistência social estabelecendo importantes procedimentos técnicos e políticos em termos da organização e prestação das medidas socioassistenciais, além de inovar nos processos de gestão e do financiamento das ações organizadas no âmbito da referida política. A partir da implantação do SUAS, instalou-se em todo o território brasileiro um mesmo regime geral de gestão e alcance da política brasileira de assistência social na perspectiva de responder à universalidade de um direito de cidadania.

Ao materializar a Política Nacional de Assistência Social (PNAS), o SUAS busca estabelecer um novo modelo de gestão, com enfoque na proteção social7 que se estrutura conforme matriz padronizada de serviços socioassistenciais, definidos na Tipificação Nacional desses serviços que estão organizados em dois níveis: Proteção Social Básica (PSB) e Proteção Social Especial (PSE) de Média e Alta Complexidade (BRASIL, 2005).

Conforme Couto (2013), o SUAS foi estruturado a partir das necessidades básicas da população através de ações compartilhadas em termos de financiamento e execução de serviços pelos entes federados. Desta forma, a regulação do SUAS estabelece como base de sua organização a matricialidade sociofamiliar8, recuperando a ideia de grupo familiar e não de indivíduo isolado. A matricialidade sociofamiliar passa a ter papel de destaque no âmbito da PNAS em decorrência da premissa de que a centralidade da família e a superação da focalização, no âmbito da política de Assistência Social, repousam no pressuposto de que para a família prevenir, proteger, promover e incluir seus membros é necessário, primeiramente, garantir condições de sustentabilidade nesse sentido.

A descentralização político-administrativa da assistência social passa a ter sua expressão em cada nível da Federação, com comando único, na efetiva implantação e funcionamento de um conselho de composição paritária entre sociedade civil e governo. A descentralização também prevê a constituição de um fundo, que deve ser composto pela pactuação orçamentária nas três esferas de governo, cabendo a cada esfera, em seu âmbito de

7 Proteção Social: pode ser definida como um conjunto de iniciativas públicas ou estatalmente reguladas para a provisão de serviços e benefícios sociais visando enfrentar situações de risco social ou privações sociais.

8Matricialidade sociofamiliar − parte da concepção de que a família é o núcleo protetivo intergeracional, presente no cotidiano e que opera tanto o circuito de relações afetivas como de acessos materiais e sociais. Fundamenta-se no direito à proteção social das famílias, mas respeitando seu direito à vida privada.

atuação, respeitando os princípios e diretrizes estabelecidos na Política Nacional de Assistência Social, coordenar, formular e cofinanciar, além de monitorar, avaliar, capacitar e sistematizar as informações pertinentes (BRASIL, 2005, p. 43).

No que tange à política de financiamento do SUAS, Couto (2013) afirma que existem, no mínimo duas características nesse campo. A primeira diz respeito à centralização no âmbito federal como é de costume ocorrer em outras áreas sociais. Esta centralidade, às vezes, dificulta a execução de projetos identificados com as realidades locais, já que o repasse de recursos, muitas vezes, fica condicionado à execução de programas desconectados da realidade dos municípios. A outra característica é o rompimento das formas convencionais da relação entre Estados e entidades assistenciais. Ao adotar um piso para balizar o atendimento da assistência social e estabelecer critérios entre as proteções sociais a serem afiançadas, estabelece uma nova forma de lidar com recursos públicos nessa área.

A questão do controle social, que tem sua concepção advinda da Constituição Federal de 1988, trouxe para o âmbito do SUAS os espaços privilegiados onde se efetivará essa participação. Na conformação do SUAS, os espaços privilegiados onde se efetivará essa participação são os Conselhos e as Conferências, não sendo, no entanto, os únicos, já que outras instâncias somam força a esse processo (BRASIL. 2005). O controle social exercido pelos Conselhos e pelas Conferências é reafirmado e recoloca-se como desafio a participação dos usuários para sua efetiva implantação. Para Couto (2013, p 51), esse talvez seja o “[...] maior desafio nesse campo tão atravessado por falta de protagonismo de seus usuários e pelo uso do clientelismo dos recursos alocados [...]”.

Conforme o referido pesquisador, outra questão importante do ponto de vista da regulação do SUAS, diz respeito à política de recursos humanos. A implantação do SUAS exige novas formas de regulação e de gestão do trabalho e, certamente, a ampliação do número de trabalhadores com estabilidade funcional é condição essencial, ao lado de processos continuados de formação e qualificação, a partir do ingresso do servidor pela via democrática do concurso público. Para resolver esse problema, foram realizadas gestões significativas a partir da edição da NOB/SUAS-RH (2006), para a pactuação federativa nos espaços intergestores estaduais e federal, consideradas as resistências e dificuldades políticas que tiveram que ser superadas para viabilizar sua aprovação.

Portanto, a constituição do SUAS representou um grande avanço no campo da política social brasileira, especialmente no que se refere à assistência social. Para o pesquisador, o importante é dar consistência, transparência e funcionalidade a essa política, de forma que

permita se estabelecer um novo relacionamento entre Estado e sociedade pautado no direito social e na perspectiva da universalização do acesso à política social, conforme as demandas dos cidadãos. O Ministério do Desenvolvimento Social lançou, em 2012, um documento que posiciona as perspectivas para o trabalho integrado com a questão do crack e outras drogas no SUAS que passa a integrar a rede de atenção aos usuários de crack e outras drogas. A política do SUAS, para atuar em parceria no contexto das políticas públicas sobre drogas, será tratada no Capítulo II, deste trabalho. Como preparação para a inserção das discussões sobre a evolução das políticas públicas sobre drogas no País, far-se-á, no próximo tópico, uma explanação enfocando-se as conceituações sobre cidadania e sobre a política social.

Benzer Belgeler