proposta foi uma aproximação com as Unidades SIASS em atividade no estado de São Paulo, para uma melhor compreensão de como a Política de Atenção à Saúde do Servidor se efetivou, desde o marco legal ocorrido no ano de 2009.
101 O instrumento escolhido foi uma entrevista com pessoas- chave nas referidas Unidades, podendo ser o gestor responsável e/ou técnicos atuantes. Diante da pequena amostra, optou-se pela entrevista por ser um instrumento que permite um relacionamento pessoal entre pesquisador/sujeito e, ainda, o esclarecimento sobre possíveis dúvidas e pontos que requeiram maior atenção, conforme Moroz (2002).
Dentre todas as modalidades do instrumento, o modelo escolhido foi o de entrevista semiestruturada, com possibilidade de livre argumentação do entrevistado, pois, segundo Triviños (2009):
“[...] a entrevista semiestruturada [...] ao mesmo tempo que valoriza a presença do investigador, oferece todas as perspectivas possíveis para que o informante alcance a liberdade e a espontaneidade necessárias enriquecendo a investigação” (TRIVIÑOS, 2009, p. 146).
Ainda, segundo o autor, a entrevista semiestruturada parte de questionamentos, baseados em teorias e hipóteses de interesse à referida pesquisa, que permite ao entrevistado, partindo de sua linha de pensamento e experiência, participar na elaboração do conteúdo da pesquisa.
Para a construção do roteiro de entrevista (Anexo II), surgiu a necessidade de conhecer, antecipadamente, dados e relatórios das Unidades SIASS que demonstrassem a sua atuação.
Inicialmente, realizei22 uma busca no portal do SIASS e em demais sites de pesquisa utilizando palavras-chaves, tais como: SIASS, Relatório de Gestão das Unidades SIASS, Unidades SIASS de São Paulo, dentre outras. O resultado obtido foram dois relatórios de duas Unidades SIASS que não pertencem ao estado de São Paulo, sendo elas da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Diante dessa primeira busca sem sucesso, solicitei através de uma carta-convite aos gestores das Unidades, acesso à: dados, relatórios ou outros instrumentos que pudessem indicar a efetivação da política através de número de atendimentos e ações realizadas.
Paralelamente, enviei a mesma carta-convite à Diretoria do Departamento de Políticas de Saúde, Previdência e Benefícios do Servidor (DESAP), em 1º de outubro de 2013. Tal diretoria está inserida no organograma da Secretaria de Gestão Pública do Ministério do Planejamento Orçamento e Gestão (MPOG).
22 Nesta seção, utilizo, em vários momentos, o uso da primeira pessoa do singular por se tratar de ações realizadas somente
102 De todos esses convites encaminhados, recebi resposta da Unidade SIASS vinculada ao Ministério da Saúde e, também, da Coordenação Geral da Rede SIASS que pertence à DESAP.
A resposta escrita recebida do Gestor da Unidade SIASS, vinculada ao Ministério da Saúde, convidava para um encontro, com o objetivo de elucidar os dados.
Já o contato telefônico feito pela Coordenação Geral da Rede SIASS, do Ministério do Planejamento, além de entender o objetivo da pesquisa, visou à elucidação da natureza dos dados que eram solicitados. Durante a conversa, foi-nos informado que o referido órgão ainda não possui as informações solicitadas de forma sistematizada (mesmo as Unidades em funcionamento já utilizando o sistema SIAPE Saúde) e, diante disso, sugeriu que fosse realizado contato direto com os gestores das Unidades.
A Unidade SIASS do INSS não emitiu resposta e não foi possível contato telefônico com a gestora, em virtude de licença da mesma, e, posteriormente, em virtude de novo afastamento para gozo de férias.
Já o encontro na Unidade SIASS do Ministério da Saúde foi realizado com o gestor responsável e com uma técnica na qual, de maneira informal, foram apresentadas as dificuldades estruturais da Unidade tais como: escassez de profissionais de todas as áreas (Serviço Social, Medicina, Enfermagem e Psicologia) para composição de Juntas para atendimento à legislação; dificuldades estruturais para atendimento ao servidor como: salas que possibilitassem o atendimento de maneira a garantir o sigilo necessário, equipamentos para atendimento médico e de enfermagem; ausência de acordo de cooperação entre os órgãos atendidos com vistas à cooperação com as necessidades existentes; falta de apoio do Ministério do Planejamento para que a Unidade pudesse desenvolver as mínimas ações da Política de Atenção à Saúde do Servidor.
Entretanto, como o gestor da Unidade havia assumido as suas funções há pouco tempo em virtude da transferência do gestor anterior para outro setor do Ministério da Saúde, o mesmo indicou-me que conversasse com a responsável pela área de gestão de pessoas, a qual poderia colaborar de maneira mais ativa com a pesquisa e responder ao roteiro de entrevista que fora apresentado ao mesmo.
Ainda durante esse encontro, o gestor se disponibilizou a enviar os dados solicitados que pudessem ser gerados através do sistema SIAPE Saúde, através do meu correio
103 eletrônico, porém, até o momento de produção desta dissertação, eles não tinham sido enviados.
Na opinião geral dos participantes desse encontro, para essa “Unidade” não houve alteração nenhuma após a instauração do SIASS, pois a rotina anterior foi mantida, ou seja, a antiga Divisão de Perícias continuou a realizar tal procedimento, não havendo alteração da infraestrutura e, tampouco da força de trabalho que, aos poucos, encontra-se em estágio de pré-aposentadoria, sem previsão de reposição.
As tentativas de aproximação com as Unidades SIASS apontaram desafios importantes para a efetivação e análise da Política de Atenção à Saúde do Servidor, são elas: a fragilidade da implantação da política nos serviços indicados pelo Portal SIASS (seja pela ausência de força de trabalho, dotação orçamentária ou estrutura para aplicação da nova legislação) e a falta de dados sistematizados que possam ser publicamente divulgados (sobretudo, por se tratar de serviço público e, portanto, um atendimento aos princípios que o regem).
104 CONCLUSÃO
Ao abordar o tema da saúde do trabalhador, como política, se faz necessário integrar ações de, no mínimo, três instâncias da administração pública: a saúde, o trabalho e a previdência. Isso se torna um desafio quando se particulariza uma categoria social de trabalhadores: os servidores ou funcionários públicos.
Desafio esse que remonta à nossa formação histórica e social, na qual desde a colonização, a política assumiu traços da pior espécie para a administração pública: o patrimonialismo. Diante disso, os servidores públicos foram cooptados ideologicamente a “pertencer ao pessoal do estado”, compartilhando e, muitas vezes, até defendendo alguns valores da ideologia burguesa, em decorrência dos “benefícios” adquiridos por representarem o poder.
Por toda a história da administração pública no Brasil, recheada de traços patrimonialistas e disputas da hegemonia por diferentes setores das classes dominantes; os princípios da administração pública expressos na nossa Constituição Federal de 1988 (impessoalidade, eficiência, publicidade, dentre outros) parecem ser somente um pano de fundo, eticamente atraente que, na prática, serve para dissimular os interesses inseridos no aparelho de estado, das classes e segmento de classe, que se beneficiam da concentração de renda no país.
Quando falamos no Estado como o “patrão” e não o regulador das relações trabalhistas, percebemos o quão divergente são os papéis exercidos pelo mesmo. A ausência de regulamentação e a diferenciação nas formas de “administrar o pessoal” traz a sensação de concessão de privilégios aos servidores públicos para a população em geral e, ainda, a falsa ideologia de que estes são uma parte diferenciada e elitizada do restante da massa trabalhadora.
De fato, há diferentes segmentos no interior do funcionalismo público, desde os servidores de carreira, até o alto escalão que, normalmente são nomeados para a função sem admissão via concurso público. Entretanto, para esse estudo, foi considerado apenas, o contingente admitido via concurso público, denominado popularmente de funcionários de carreira.
105 O fato de maior relevância, é que apesar da temática da saúde dos trabalhadores na discussão entre servidores, sindicatos e o “Estado-patrão” ter sido operada através da Previdência Social desde os anos 30, no caso do funcionalismo público, o “pessoal do Estado” pareceu não se mobilizar pela questão, já que outras situações o favorecem. Mas, o que observamos de fato, é que não o favorecem, quando relacionadas à questão da saúde e às condições dignas de trabalho.
Tanto assim, que a Cartilha do Plano Nacional de Segurança e Saúde no Trabalho, divulgada em abril de 2012 pelo Governo Federal e que visa apresentar as ações para implantação da Política Nacional de Segurança e Saúde no Trabalho, estabelecida pelo Decreto nº 7.602, de 07 de novembro de 2011; estabelece como primeiro objetivo: “a inclusão de todos os trabalhadores Brasileiros no Sistema Nacional de Promoção e Proteção da Segurança e Saúde no Trabalho - SST” e, como estratégia, ainda aponta a: “elaboração e aprovação de Dispositivos Legais em Segurança e Saúde no Trabalho para os trabalhadores do serviço público, nas três esferas de governo”; isso a partir das seguintes ações: “pautar discussão com o Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, responsável pelo desenvolvimento do Sistema Integrado de Atenção à Saúde do Servidor nas três esferas de Governo” (o texto aponta que essa ação será em curto prazo), e, ainda “promover a discussão com estados e municípios para o desenvolvimento de sistemas de atenção à saúde do servidor público”.
Os responsáveis governamentais pelas ações são os Ministérios do Trabalho e Emprego, da Saúde e da Previdência; sendo o Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão (responsável pelos atos que normatizam e definem a vida funcional dos servidores públicos) chamado, apenas, como parceiro institucional para as ações descritas anteriormente. O fato importante a se destacar é que, ao mesmo tempo em que essa política instituída em 2011 visa à inclusão do servidor público em um programa amplo destinado a todos os trabalhadores do país, em 2009 foi instituída uma política exclusiva para dar atenção à saúde do servidor público federal, através do SIASS, que ainda vem sendo regulamentado pelo Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão.
Há, claramente, um descompasso entre os órgãos governamentais em tratar a questão, ora particularizando, ora generalizando, haja vista que não houve rompimento de proposta política desde o ano de 2003 até 2014, tendo como diretriz política a sucessão do Presidente
106 da República, após dois mandatos consecutivos, pela sua anterior chefe da Casa Civil e atual Presidenta.
A política instituída em 2009, alvo de análise nesta dissertação teve um grande êxito: padronizar as conceituações, procedimentos e ações de saúde, no âmbito federal, pois como citado no capítulo III, item 3.3, o próprio Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão reconhecia que no âmbito executivo era possível identificar diferentes situações em relação à saúde do trabalhador.
Porém, não basta haver somente a padronização diante de um cenário tão adverso. A ausência do acompanhamento de infraestrutura material, contingente de trabalhadores capacitados para a nova proposta e, ainda, dotação orçamentária aos órgãos, gerou um política de alteração legal e pouco efeito prático na melhoria das condições de trabalho dos funcionários públicos e de atendimento às suas demandas de saúde, de natureza ocupacional.
Contudo, essa inexistência é pouco sentida, pois é histórica e vem acompanhada da tão incrustrada sensação de privilégio pela estabilidade e outros dispositivos legais que fazem com que essa categoria social se identifique somente com a ideologia representada por seu empregador e, em nenhum momento, como contingente que vende sua força de trabalho para sua subsistência, ainda que seu empregador seja o Estado.
Os fatos que podem elucidar essa conclusão são os seguintes: não houve a participação dos servidores públicos na discussão dessa política, uma vez que os grupos de trabalhos foram estruturados somente com servidores ligados à área de recursos humanos e, ainda, a não há cobrança pública da divulgação de dados e relatórios sobre esses serviços, já que estamos em um momento onde a transparência pública, além de ser um requisito legal, é alvo de propaganda governamental.
É diante desse quadro de aparente privilégio e apatia de suas reais vinculações que, somente nesses últimos anos, os servidores públicos federais tiveram muitos dos direitos considerados privilégios destituídos, tais como: “cálculo do benefício de aposentadoria pela média das últimas oitenta maiores contribuições” sendo aplicado, para os servidores ingressantes após 2013, o teto limitante do Regime Geral de Previdência Social; a implantação de uma previdência complementar voluntária, além da contribuição obrigatória; dentre outros.
Diante disso, o SIASS – Subsistema de Atenção à Saúde do Servidor que parecia ser algo plenamente inovador, na verdade somente nos aproxima do que legalmente já é direito
107 dos demais trabalhadores e, por manter o atendimento em unidades privativas, mantém a falsa ideia de que há um privilégio para essa categoria social.
No Estado de São Paulo, a alteração legal não foi acompanhada na estruturação dos serviços e, tampouco, implementada em sua proposta integral de promoção, atenção e prevenção à saúde dos servidores públicos federais, mesmo após quatro anos de sua instituição.
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