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A tradição crítica a respeito d’As Nuvens nos deixou um quadro bastante amplo e diversificado de interpretações que nem sempre são coerentes entre si. Esses estudos, porém, não exauriram as fontes que possuímos, pois ainda falta uma investigação dos fragmentos de outros autores cômicos gregos. Podemos verificar que a esse quadro que a tradição crítica d’As Nuvens nos legou, pode ser adicionado este tipo de testemunho que, embora seja esparsamente atestado, raramente foi considerado como um conjunto relevante para a interpretação da comédia de Aristófanes.
Algumas interpretações d’As Nuvens, especialmente aquelas que hipotetizam um antagonismo básico entre a poesia, em especial a comédia, e a filosofia, tais como as de Süvern e Leo Strauss, de certo modo pressupõem uma análise desse corpus. Esses fragmentos são também importantes para a confirmação ou refutação de outras teorias, como o argumento de Dover, que diz que a comédia está apenas representando um tipo ideal de intelectual, sem ter interesse nos detalhes e no refinamento doutrinal de cada intelectual.
Apesar de raramente levados em consideração na interpretação de Aristófanes, o estudo dos fragmentos cômicos já conta com uma larga tradição. As obras mais importantes, e que de certa maneira inauguram tais escritos, são as edições de Fragmentos Cômicos feitas por Bergk, Koch e Meineke. Essas edições são fruto do grande trabalho crítico e filológico executado com especial intensidade no ambiente universitário de língua alemã no século XIX. É um conjunto de valor científico e filológico inestimável, pois em muitos casos envolve não apenas o recolhimento dos testemunhos presentes na vasta tradição grega, mas também uma análise crítica que determina, quando isso é possível, o autor e a obra, com comentários e referências valiosos para o pesquisador.
Autores da virada do século XX, como Wilamowitz e Murray61, tiveram maior propensão para estudar os fragmentos de Menandro e da Comédia Nova, e a mesma tendência foi verificada entre os estudiosos da Comédia Grega até mais ou menos a metade do século XX. As razões para isso são práticas: além da renomada fama do discípulo de Teofrasto, cabe mencionar a descoberta, no Egito, de uma obra completa de Menandro entitulada O Díscolo assim como papiros do mesmo autor, cujos fragmentos se revelaram mais abundantes se
comparados aos de autores como Êupolis ou Cratino. Isso, no entanto, não impediu que alguns desses estudiosos apurassem ainda mais os dados filológicos e assim refinado o conhecimento que possuímos sobre os pequenos fragmentos.
Desde 1940, no entanto, o estudo de outros autores importantes, especialmente da Comédia Antiga, vem crescendo aceleradamente, e um livro que marca esse momento é o
Ancient Greek Comedy de Gilbert Norwood62. Mais recentemente, começando na década de
199063, os estudos sobre Aristófanes vêm se aproveitando da rica produção no estudo dos fragmentos cômicos. Foi a partir deles que se começou a enxergar Aristófanes não como um autor isolado da tradição, mas um autor de seu tempo, que não apenas vivia em seu ambiente político e cultural, mas que também era atuante dentro de seu próprio meio, capaz de citar, de se aproveitar de invenções de outros autores cômicos e de fazer polêmica com eles. Um exemplo de obra característica deste novo período é o livro Eupolis, poet of the ancient
comedy de Ian Storey64, que, por um lado, é um recolhimento e uma suma da tradição
filológica sobre este grande poeta, como também um raro e, até aqui inigualado, estudo de contextualização e compreensão do significado de sua obra.
Nosso primeiro objetivo não é, como freqüentemente acontece nestes casos, o de buscar em tais fragmentos alguma informação que nos ajude na investigação sobre o Sócrates histórico, uma vez que já foram razoavelmente discutidas no capítulo anterior as conclusões que podemos tirar do uso do personagem Sócrates nas Nuvens. Mesmo que a comédia não seja considerada um depósito seguro de dados biográficos, os estudiosos da filosofia grega, na difícil busca por referências e citações a alguns autores, freqüentemente usam o testemunho de autores cômicos como autoridades nesta ou naquela figura. Por exemplo, em sua história da filosofia grega, Guthrie65 se vale de um fragmento de Êupolis como testemunho dos interesses que Protágoras poderia entreter nas ciências naturais. No entanto, tal fragmento apresenta, como poderemos ver no capítulo seguinte, uma forte semelhança com algumas passagens das Nuvens e pode muito bem não ter significado algum como um testemunho fidedigno sobre os interesses verdadeiros da figura histórica de Protágoras. A maior parte das afirmações que podemos encontrar na Comédia Antiga deve ser considerada válida apenas se confirmada por outras fontes, uma vez que a comédia é um gênero que normalmente trabalha com inversões, exageros e estereótipos.
62 Methuen and Co., London, 1961.
63 Cf. os trabalhos de RUFFEL,2002: 138 163; HEATH, 1997;. e SIDWELL 1994 64, New York: Oxford University Press, 2004.
No presente capítulo vamos nos concentrar nas ocorrências de Sócrates na Comédia Antiga, estabelecendo como limite a passagem do quinto para o quarto século a. C., sendo que a razão é antes prática do que cronológica, visto que esse limite coincide, grosso modo, com a fronteira tradicional entre a chamada Comédia Antiga e a chamada Comédia Média66. O interesse está em verificar o uso que se fez de Sócrates enquanto esse ainda vivia, antes que a visão popular pudesse ter absorvido doutrinas e lugares comuns posteriores a ele.