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Kent ve Mimarlığa İlişkin Yasal Düzenlemeler

SAYISI YILLIK HARCAMA £

3.2. Yoğun Uygulama Dönemi (1919-38)

3.2.3. Kent ve Mimarlığa İlişkin Yasal Düzenlemeler

Entre os alcoólatras existe o grupo que faz o “corre”, são os que puxam carrinho recolhendo sucata, mas tendo a oportunidade furtam e usam o próprio carrinho para esconder o produto do furto, basta a ocasião. Os que achacam são os mais fortes e pedem intimidando, retiram dos outros o que de melhor conseguem deixando somente o resto. O parasita, cansado de ser achacado, faz nada, simplesmente espera a compaixão de alguém para receber alguma comida, dinheiro, cigarro, bebida etc. Todos são alcoólatras, alguns fazem “bicos” e ganham algum dinheiro para manterem o vício e as exigências do cotidiano da rua. Além da rua como moradia existe o mocó. É um refúgio em algum lugar ali mesmo no Centro, normalmente embaixo de um viaduto onde moram em gr upos. O mandatário do mocó é o mais forte fisicamente e dá segurança para os outros, é um líder que defende e oprime ao mesmo tempo.

Mocó? Toda vez que você ver um grupo de bêbados juntos ou crianças de rua juntos, num lugar onde tenha um colchãozinho, onde tem uma caixa de papelão pra eles dormirem, ali é um mocó, qualquer lugar pode ser um mocó, embaixo de viaduto, embaixo de marquise, é a casa deles, você não pergunta pra eles onde eles moram, você pergunta pra eles onde eles colam, “você cola aonde?” Então é como se fosse

uma cola, eles não passam ali, eles ficam ali, então é colar pra eles, é esquisito, não? “Você cola aonde”? “Ah, eu colo na Sé, eu colo em outro lugar”, imagina!?147

A vida na rua é para aqueles que perderam a esposa os filhos, ou vieram para São Paulo e não conseguiram emprego. O primeiro gole de cachaça, por sentir-se desventurado, abre um imenso abismo para a dependência total. Um ou outro usa maconha, mas a maioria tem medo da alucinação das drogas, preferem ficar somente no álcool e no cigarro, pois entendem que lidam bem com o efeito da cachaça,

Entre os usuários de droga (distinguindo-os dos alcoólatras) estão os que usam maconha e cocaína que são minoria.

Destaque para o crack, que é a droga mais usada na região da Boca do Lixo, também chamada de cracolândia. Entre os “craqueiros” o nóia, assim chamado nesse universo, é o mais evidente. Ele é o indivíduo que já se entregou para o crack. Ele também é chamado de “Batmam” quando está no último estágio da dependência, por andar com um cobertor cobrindo a cabeça e as costas. Já não sente a mesma sensação do início, mas seu organismo exige as substâncias da droga. Vários passam por overdose e não são raros os óbitos nessa fase.

(...) eu sentia muita dor, muitas dores no corpo, eu tenho anemia, então eu desmaiava de fraqueza, tinha noite que eu ia no médico, ia parar no hospital. Tive três começos de overdoses, é difícil alguém sobreviver com três overdoses, eu consegui passar as três overdoses. (...) uma foi num hotel, usando drogas vários dias, muita quantidade, além daquilo que eu podia usar, de repente eles me contam que eu caí, comecei a tremer, começou até a sair sangue do meu nariz, babava muito148.

A primeira fase do nóia é chamada fase do “macaco”. É quando o indivíduo começa a usar o crack e tem a impressão de ter descoberto uma sensação tão maravilhosa que sai pulando, feliz da vida, rindo à toa, esquece-se dos problemas e das agruras da família. A procura pela droga e o retorno ao uso é simplesmente pela sensação produzida, muita alegria, um êxtase jamais experimentado, principalmente por quem vive tantas privações como os moradores de rua, normalmente

147 Entrevista com João Carlos dos Santos, em 15 de maio de 2006. 148 Entrevista com Mônica Taís de Anselmo, em 14 de novembro de 2004

adolescentes. Nessa primeira etapa ainda não há uma dependência orgânica das substâncias da droga.

A segunda fase é quando há necessidade de roubar. Aquela sensação maravilhosa ainda é experimentada, mas a procura pela droga não pode ser contida, pois o organismo se acomodou àquelas substâncias e exige a presença delas manifestando-se de várias maneiras: tremedeira, ansiedade, irritação etc. É a fase do “leão”, tem coragem, e faz qualquer coisa para obter a pedra de crack, assalta, furta nos supermercados, troca qualquer bem pela droga, compra fiado do traficante, correndo risco de ser assassinado caso não pague, mas ainda mantém alguns hábitos de higiene.

A terceira é a fase do “porco”. Nesse estágio o indivíduo já não se preocupa com nada, perdeu toda a noção de higiene e passa o tempo todo sob o efeito da droga. Sua comida e bebida são itens secundários no seu dia-a-dia, a prioridade fica por conta do entorpecente. Nessa etapa morria-se muito mais rápido há uns anos atrás. Os fabricantes e traficantes de crack, por perderem precocemente seus clientes, resolveram diminuir a quantidade dos ingredientes mais agressivos da droga para que os viciados não deixassem de consumir tão rapidamente pela morte precoce, mantendo por mais tempo o seu lucro proveniente dos dependentes149.

Os viciados podem fumar crack durante quatro dias. Depois vem o que eles chamam de rebordosa. É o período depois de um sono profundo que tem duração de um dia inteiro. Os mais experimentados sabem o que vai acontecer e procuram um lugar seguro, vários se acomodam no pátio da entrada do Clube da Esperança, onde entendem que não serão molestados. Outros, menos precavidos, se expõem à

149 Esses dados foram adquiridos através da entrevista com o missionário João Carlos dos Santos, em

06 de maio de 2006, que trabalha há aproximadamente dez anos na boca do lixo e tem contato com viciados diariamente. Os nomes dados às categorias (macaco, leão e porco) que são utilizados para caracterizar as fases de dependência do crack são provenientes de leituras do missionário João Carlos sobre o assunto.

violência das ruas e quando do sono profundo são espancados por causa de rixas passadas, roubados, caso possuam algum bem, como cobertor, casaco, calçados, alimentos etc. As meninas são estupradas e engravidam. Isso tem sido um fomento para a existência de uma geração de filhos da rua, crianças que nasceram de meninas que vivem nas ruas da cidade. Essas crianças nunca experimentaram uma casa, um lar, uma família, são totalmente desprovidas de qualquer contato com essas normalidades.

Quando acordam, vem a rebordosa. O efeito é medo, lembram de coisas ruins que fizeram e têm alucinações. Sob esse efeito, cometem atos inconseqüentes, pulam de prédios, correm em disparada com medo de tudo etc.

(...) outro dia um cara tava usando droga aqui na rua e eu passei na hora que ele tinha acabado de usar, ai ficou me olhando, todo assim parado, e perguntou, assim de medo, “que horas são”? Eu falei pra ele assim, “são três horas, hora de você ir embora, agora”, olhando no olho dele, ele saiu correndo se tivesse um caminhão na frente dele ele levava, ele saiu correndo daqui da Andradas até a São João sem parar, num tiro só, outros já pularam de prédio, no terceiro andar por causa do crack, então a rebordosa não é a overdose, ela é o pós do crack.150

O usuário de crack tem fome e sede depois da rebordosa, após saciados, sai a procura novamente do traficante ou de um “avião” que é um tipo de atravessador vendedor da droga.

O avião não é necessariamente um traficante, que produz e vende a droga, ele compra pedras de crack do traficante e as quebra no meio e vende a metade de uma pedra pelo preço de uma inteira, tendo um lucro de cem por cento com seu negócio. Para o usuário que não tem muito dinheiro, é uma saída comprar do avião, pois ele sempre está por perto, vende em pouca quantidade e sempre tem disponível, é só pagar o preço.

São vidas perdidas que inventam e reinventam estratégias para simplesmente sustentarem o vício, roubam, enganam, mendigam, traficam, desaparecem,

reaparecem. O dia-a-dia desses meninos e meninas, adolescentes e jovens, homens e mulheres adultos, limita-se a encontrarem um meio para obterem pedras de crack. A dependência é tão intensa que a mente e as atitudes são totalmente voltadas para o vício. Eventualmente tomam banho, eventualmente comem e trocam de roupas.