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As inquietações quanto ao trabalho do assistente social na Atenção Primária em Saúde (APS) acompanham o processo de formação e exercício profissional da autora, tendo emergido na experiência como Residente de Serviço Social no processo formativo de pós- graduação lato sensu baseado na díade ensino-serviço com ênfase em “Atenção Básica em Saúde Coletiva” pelo Programa de Residência Integrada em Saúde (RIS) do Centro de Saúde- Escola Murialdo (CSEM) e da Escola de Saúde Pública (ESP/RS) (2005/2007). Na ocasião, oportunizou-se a inserção profissional em serviços de atenção e gestão na atenção básica e secundária do Sistema Único de Saúde (SUS) no município de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, integrando equipes multiprofissionais compostas por múltiplas categorias profissionais de saúde de nível superior e técnico.

As indagações emergentes das contradições vivenciadas no processo de ensino em serviço foram canalizadas à Dissertação de Mestrado em Serviço Social defendida no Curso de Mestrado em Serviço Social pelo Programa de Pós-Graduação em Serviço Social (PPGSS) da Faculdade de Serviço Social (FSS) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) (2007/2009). Nesta, propôs-se à produção de conhecimento objetivando fornecer subsídios para a apreensão e qualificação do tema dos processos de trabalho nos quais participavam os assistentes sociais inseridos na Atenção Básica em Saúde (ABS) no município, para debater e melhor caracterizar a identidade profissional dando maior visibilidade à profissão e a sua contribuição para o campo da saúde coletiva no espaço sócio- ocupacional da atenção básica no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Nesse ínterim, ratificou-se a potencialidade do trabalho do assistente social na mediação do acesso às ações intersetoriais, bens e serviços necessários à efetivação do direito social à saúde de responsabilidade do Estado, ainda que materializado na tensa intersecção entre a esfera pública e os ditames do projeto profissional e societário hegemônico (CAMARGO, 2009).

Acrescentando-se ao exercício profissional como assistente social na atenção básica do Sistema Único de Saúde (SUS), a experiência profissional como bolsista de pesquisa em nível de Pós-Graduação stricto sensu em Serviço Social, pesquisadora associada a núcleos de pesquisa sobre saúde e trabalho em Instituições de Ensino Superior (IES) e docente universitária de Serviço Social, ingressou-se no Curso de Doutorado em Serviço Social pelo Programa de Pós-Graduação em Serviço Social (PPGSS) da Faculdade de Serviço Social (FSS) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) (2010/2013). Para

tanto, buscou-se aprofundar os estudos empreendidos anteriormente, delimitando-se como tema de pesquisa “as configurações do trabalho do assistente social na atenção primária do Sistema Único de Saúde (SUS) no século XXI na produção teórica do Serviço Social”.

Um importante desafio enfrentado na política de saúde no século XXI diz respeito à inconclusa luta em prol da ampliação acompanhada de condições mais equitativas de inserção das categorias profissionais no nível primário de atenção do Sistema Único de Saúde (SUS), cujo objeto de intervenção profissional extrapole a perspectiva médico-assistencial privatista, com ênfase individual, curativa e na medicalização. Nesse ínterim, a atenção primária do Sistema Único de Saúde (SUS) emerge como estratégia privilegiada de reorganização do modelo de atenção e o assistente social se constitui em trabalhador coletivo histórica e tecnicamente capacitado para intervir junto aos determinantes sociais da saúde, realizando seu trabalho por meio da mediação do acesso às condições necessárias à efetivação do direito social à saúde de responsabilidade do Estado, com vistas à atenção integral, interdisciplinar e intersetorial. Assim sendo, propôs-se a Tese de Doutorado em Serviço Social de que, apesar da incipiente produção teórica do Serviço Social, as configurações do trabalho do assistente social na Atenção Primária em Saúde (APS) ratificam as interfaces entre o projeto ético- político profissional e o modelo de atenção no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS).

No plano científico, recorreu-se à dimensão investigativa, adotando-se como objetivo geral o de “explicitar as configurações do trabalho do assistente social na Atenção Primária em Saúde (APS) na produção teórica do Serviço Social, tendo em vista desvendar a interface do projeto ético-político profissional e o modelo de atenção no Sistema Único de Saúde (SUS) no século XXI”, para construir respostas profissionais ao problema de pesquisa “como a produção teórica do Serviço Social expressa as configurações do trabalho do assistente social na atenção primária do Sistema Único de Saúde (SUS) no século XXI?”. O processo de trabalho em espiral da pesquisa bibliográfica, do tipo explicativo, com abordagem qualitativa, fundamentou-se no método dialético crítico e suas categorias teórico-metodológicas historicidade, totalidade, contradição e mediação articuladas às categorias temáticas trabalho do assistente social, projeto ético-político profissional do Serviço Social, Atenção Primária em Saúde (APS), Sistema Único de Saúde (SUS) e modelo de atenção em saúde, inspiradas no referencial teórico do Serviço Social e da Saúde Coletiva e nas publicações e medidas do Ministério da Saúde (MS). Com base nisso, procedeu-se à análise de conteúdo com corte temático da produção teórica do Serviço Social sobre o trabalho do assistente social na atenção primária do Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro, no período de 2005 a 2012, ano coincidente com o lançamento do documento de posicionamento da Organização Pan-

Americana de Saúde (OPAS) e da Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre a adoção de uma abordagem renovada da Atenção Primária em Saúde (APS) nas Américas (OPAS/OMS, 2005) e o mais recente em termos retrospectivos, respectivamente.

No plano teórico, contemplaram-se os elementos necessários à contextualização do cenário em que se configura o trabalho do assistente social na cena contemporânea, mais especificamente no espaço sócio-ocupacional da atenção primária no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), tanto do ponto de vista da organização da política de saúde de caráter público intermediado pelo Estado em sua trajetória sócio-histórica, quanto das metamorfoses no mundo do trabalho na cena contemporânea. Com base na revisão teórica empreendida, ratificou-se a centralidade do trabalho no universo produtor de mercadorias no modo de produção capitalista, em sua versão contemporânea neoliberal e o papel fundamental deste no processo de busca pela satisfação das necessidades sociais, como meio de objetivação humana e forma intercambiável do homem com a natureza. É no cenário da produção e reprodução social em tempo de capital fetiche, que conquistas e direitos sociais históricos são desmantelados e não obstante a saúde é permeada pela lógica do mercado privado. Enquanto condição necessária para a reprodução da força de trabalho e diante da insuficiência das políticas públicas no âmbito do Estado neoliberal, os fatores determinantes e condicionantes da saúde traduzíveis em determinantes sociais da saúde ou necessidades de saúde passam a ser adquiridos no mercado privado sob a forma de mercadorias.

Na atual etapa do capitalismo estruturado na mundialização da economia sob a égide do capital financeiro, a centralidade do trabalho impõe ao Serviço Social enquanto profissão de caráter eminentemente interventivo o desafio de compreendê-lo como categoria explicativa da realidade necessária para a reconstituição do processo que engendra a realidade social concreta. Isto não se distancia do necessário reconhecimento das metamorfoses da questão social, objeto ou matéria prima do trabalho do assistente social e elemento inerente ao processo de produção e acumulação capitalista, cuja apreensão preside o processo de inserção da própria profissão no âmbito da divisão sócio técnica do trabalho. Sob a condição de trabalhador assalariado sujeito às injunções decorrentes da relação social contraditória que o capital encerra, o assistente social realiza o trabalho no espaço sócio-ocupacional da Atenção Primária em Saúde (APS), assumindo o desafio de articular as dimensões teórico- metodológica, ético-política e técnico-operativa do projeto ético-político profissional do Serviço Social, com os princípios que regem o Sistema Único de Saúde (SUS), o modelo de atenção em saúde de Reforma Sanitária ou projeto da Reforma Sanitária e a abordagem de Atenção Primária em Saúde (APS) abrangente ou integral, na tensão entre a política pública

de saúde e os ditames do modo de produção capitalista neoliberal, que se traduz no projeto societário hegemônico vigente na cena contemporânea.

No plano analítico, empreenderam-se o tratamento dos resultados, a inferência e a interpretação com base na análise de conteúdo com corte temático das publicações do Serviço Social localizadas em ambas as fontes bibliográficas de coleta de dados – o Banco de Teses que integra o Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e do Ministério da Educação (MEC) e os Anais dos Encontros Nacionais de Pesquisadores em Serviço Social (ENPESS), promovidos pela Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS) e pelo Conselho Federal de Serviço Social (CFESS) –, no período de 2005 a 2012. Destarte, explicitaram-se as configurações do trabalho do assistente social na Atenção Primária em Saúde (APS) no século XXI, na produção teórica do Serviço Social brasileira.

Ao contemplar a produção teórica do Serviço Social sobre o trabalho do assistente social na atenção primária do Sistema Único de Saúde (SUS), a primeira configuração identificada é que tem se desenhado uma crescente tendência em tratá-lo a partir do privilegiamento da referência à Estratégia Saúde da Família (ESF), a partir de experiências municipais ou locais isoladas e focalizadas que remetem à polissemia teórico-conceptual das abordagens de Atenção Primária em Saúde (APS), em um contexto de conformismo e reprodução da lógica centrada na “equipe mínima” preconizada pelo Ministério da Saúde (MS) para organizar a atenção voltada aos cuidados básicos de saúde em território nacional. A segunda configuração reforça a questão do gênero na profissão, considerando-se a predominância de mulheres na autoria da produção teórica do Serviço Social sobre o trabalho do assistente social na atenção primária do Sistema Único de Saúde (SUS).

A terceira configuração é a utilização de referências ao espaço sócio-ocupacional que remetem à polissemia teórico-conceptual das abordagens de Atenção Primária em Saúde (APS). A quarta configuração consiste na característica genérica de polissemia técnico- operativa das abordagens de Atenção Primária em Saúde (APS) no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), ancorada em três tendências. A primeira tendência é a particularização da ação profissional em atribuições privativas e competências profissionais. A segunda tendência é a materialização da ação profissional numa perspectiva abrangente ou integral, fundada na interface do projeto ético-político profissional e o modelo de atenção de Reforma Sanitária ou Projeto de Reforma Sanitária do Sistema Único de Saúde (SUS), convergentes com os princípios da Atenção Primária em Saúde (APS) abrangente ou integral. A terceira tendência é a materialização da ação profissional numa perspectiva seletiva ou limitada, intrínseca e

extrinsecamente permeada pelas disputas estabelecidas no espaço sócio-ocupacional, na política de saúde e na sociedade capitalista contemporânea. Converge com as práticas profissionais tradicionais que marcaram o processo histórico de constituição do Serviço Social no Brasil, a abordagem de Atenção Primária em Saúde (APS) seletiva, o modelo de atenção em saúde médico-assistencial privatista ou projeto privatista no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) e o modo de produção capitalista neoliberal, que se traduz no projeto societário hegemônico vigente.

A quinta e última configuração é a orientação em princípios transversais e convergentes do modelo de atenção de Reforma Sanitária ou Projeto da Reforma Sanitária, da Atenção Primária em Saúde (APS), com o Sistema Único de Saúde (SUS) e os princípios que regem o projeto ético-político profissional do Serviço Social, destacando-se o estímulo ao controle social sob a forma de participação popular, base sócio-histórica constitutiva do direcionamento social da profissão e da mediação do acesso às condições necessárias à efetivação do direito social à saúde, de responsabilidade do Estado, com vistas à atenção integral, interdisciplinar e intersetorial, na busca do mais alto nível de saúde. Articuladamente ao movimento crítico da profissão, esse modo de fazer saúde é teórico-conceptual e técnico- operativamente coerente com os cuidados primários seminais de Alma Ata, despontando como resistência social da categoria profissional dos assistentes sociais em contraposição à lógica de atenção fundada na assistência médica individual e privatista à saúde, concernente ao modelo de atenção em saúde médico assistencial privatista ou projeto privatista.

À luz dos resultados encontrados ao final do processo de trabalho em espiral da pesquisa, a Tese de Doutorado em Serviço Social construída a priori, confirmou-se parcialmente a posteriori, postulando-se a seguinte síntese como totalização provisória: de acordo com a incipiente produção teórica do Serviço Social, o trabalho do assistente social na atenção primária do Sistema Único de Saúde (SUS) no século XXI, se configura como mescla da interface entre o projeto ético-político profissional do Serviço Social, com os distintos modelos de atenção conformados no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) e a polissemia de abordagens teórico-conceptual e técnico-operativa da Atenção Primária em Saúde (APS), na tensão entre o reconhecimento dos determinantes ou necessidades de saúde enquanto direito social de responsabilidade do Estado na perspectiva da integralidade e a mercantilização da saúde sob a forma de mercadoria na perspectiva restrita aos ditames do projeto societário capitalista neoliberal, hegemônico na cena contemporânea.

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Benzer Belgeler