A construção do projeto político-pedagógico (PPP) de um curso equivale à “própria organização do trabalho pedagógico da escola como um todo” (Veiga, 2007, p. 11). Faz parte do trabalho cotidiano da comunidade acadêmica renová-lo continuamente, não por imposição das esferas administrativas superiores, mas para se contrapor à rotina e à fragmentação do trabalho pedagógico. Elaborar o PPP da escola não é simplesmente um arranjo formal, mas um empenho para conferir qualidade ao processo de trabalho escolar.
O PPP vai além da elaboração dos planos, programas e atividades de ensino, como ações estritamente burocráticas; busca a organização do trabalho pedagógico da escola e sua globalidade. “É construído e vivenciado em todos os momentos, por todos os envolvidos no processo educativo da escola” (Veiga, 2007, p.12). Essa construção participativa
preocupa-se em instaurar uma forma de organização do trabalho pedagógico que supere os conflitos, buscando eliminar as relações competitivas, corporativas e autoritárias, rompendo com a rotina do mando impessoal e racionalizado da burocracia que permeia as relações do interior da escola, diminuindo os efeitos fragmentários da divisão do trabalho que reforça as diferenças e hierarquiza os poderes de decisão (Veiga, 2007, p.14).
Um projeto pedagógico inovador pode ser tomado como promessa frente a determinadas rupturas. As promessas tornam visíveis os campos de ação possível, comprometendo todos os sujeitos envolvidos neste processo (Gadotti, 1995).
No sentido etimológico, da palavra projeto significa lançar para adiante, fazer avançar, com a intenção de realizar algo, plano, esboço (Ferreira, 1986). O avanço deve ser respaldado no presente e projetado para um futuro de riscos e incertezas.
A formulação de um projeto político-pedagógico envolve dimensões filosóficas e pedagógicas, ou seja, a visão de ser humano, sociedade e educação, as questões curriculares, de ensino e aprendizagem, assim como as estruturas político-administrativas envolvidas na gestão de recursos humanos, físicos e financeiros. Requer que professores, funcionários e estudantes tenham condições e criem situações que propiciem aprender a pensar, a refletir suas ações de forma coerente, autônoma e de qualidade.
Veiga (2007) considera que a elaboração do PPP deve ser orientada pelos seguintes princípios:
• igualdade, pois todos devem ter oportunidades de acesso e permanência na escola com qualidade;
• qualidade, que deve ser assegurada a todos e não a determinados grupos sociais e econômicos, em destaque para a qualidade política, gerenciada por todos os envolvidos, definindo o tipo de sociedade e de cidadão que pretendem formar;
• gestão democrática, nas dimensões pedagógicas, administrativas e financeiras, rompendo a dicotomia entre pensar e fazer, entre teoria e prática. Tem como propósito o acompanhamento de todo o processo de trabalho dos educadores, propicia o repensar da estrutura de poder da escola, facilitando a socialização que, por sua vez, proporciona uma participação coletiva, crítica e com autonomia;
• valorização dos professores, proporcionando-lhes educação permanente, com a reflexão sobre seu cotidiano, articulada com o projeto de escola e sociedade.
Para que ocorra essa construção é necessário romper com os paradigmas tradicionais de educação e valorizar os sujeitos, professores e estudantes reais, contextualizados, envolvidos em suas existências, suas escolhas, com responsabilidade e autonomia.
Para romper com uma compreensão restrita de educação, em geral limitada “ao conteúdo como transferência do saber, em detrimento as [sic] outras experiências e ou atividades ensinantes” (Freire, 2008, p. 44), há que considerar a forma de ensinar e aprender, entendendo que o ensino não é transferência de conhecimento, mas possibilidade de construção e produção de conhecimento. Nessa construção estão presentes as possibilidades de aprender e de ensinar, intrinsecamente relacionadas. Segundo Paulo Freire (2008, p. 24):
quando vivemos a autenticidade exigida pela prática de ensinar- aprender participamos de uma experiência total, diretiva, política, ideológica, gnosológica, pedagógica, estética e ética em que a boniteza deve achar-se de mãos dadas com a decência e a seriedade.
Em um PPP, a avaliação curricular faz-se necessária para apreciar a organização do trabalho pedagógico, pois proporciona uma reflexão de como a escola organiza-se para implementar seu projeto. Deve ser dinâmica e processual, isenta do caráter punitivo; serve como subsídio para a reconstrução do PPP, proporciona o movimento de ação-reflexão- ação do coletivo com caráter emancipatório. Toda avaliação reflete o cotidiano do trabalho escolar e explicita as relações de poder existentes no interior da escola.
A avaliação é dependente da condição pedagógica, porque é a expressão valorativa de uma pedagogia, de um processo de ensinar e de aprender (Cunha, 2007). Porém, não tem sentido por si só; será significativa à medida que se articule com seu projeto pedagógico e com seu projeto de ensino, valorizando o processo de ensino-aprendizagem.
A construção de um projeto pedagógico embasado em uma pedagogia crítica privilegia a avaliação de processo, da qual não se espera uma visão reprodutivista e conservadora, mas sim que o estudante seja capaz de construir seu conhecimento, pensando, interpretando informações, investigando, atuando de forma ética, crítica e com responsabilidade, em busca de alternativas. Enfim, espera-se que possua todas as habilidades que o mundo atual requer. Para tanto, há necessidade de mudanças também na postura do professor, que deve estar disposto a fazer rupturas
com a própria história da educação, normalmente marcada pela reprodução (Cunha, 2007).
Por meio do trabalho pedagógico, o professor terá de romper com a visão hegemônica de avaliação, orientada pela valorização excessiva do produto, em detrimento do processo e, consequentemente, rever sua prática docente.
Freire (2008) considerava que ensinar não é a transferência de conhecimento e sim criar condições e possibilidades para sua produção e construção. Para ele, os sujeitos eram os elementos essenciais do projeto pedagógico.
Em um PPP que tem como perspectiva a produção do conhecimento com sentido de aprendizagem, se a avaliação construída pelos sujeitos envolvidos deixar de ser classificatória, centralizadora, autoritária, expressão de relação de poder entre professores e estudantes, e passar a ser dialógica, orientadora das decisões pedagógicas na reconstrução de projetos, haverá grandes possibilidades de construir uma educação e uma sociedade mais democrática (Cunha, 2007).
Atualmente fala-se muito em projeto pedagógico e avaliação, porém a incorporação desses termos do discurso pedagógico não tem trazido mudanças qualitativas na forma de organização do trabalho dos professores de uma maneira a produzir uma ressignificação do processo de ensinar, aprender e avaliar (Veiga; Naves, 2005).
A FAMEMA, desde a década passada, vem se empenhando na construção de PPP para a formação de profissionais de saúde, médicos e enfermeiros, projeto esse que tem uma intenção e um compromisso definidos coletivamente. É político no que toca à responsabilidade institucional na formação de cidadãos éticos, críticos, reflexivos, compromissados, participativos e criativos. É pedagógico por estar diretamente relacionado à intencionalidade da instituição, que define as ações educativas requeridas para a profissionalização.
O projeto político-pedagógico constitui o eixo norteador dos rumos dos cursos de Enfermagem e Medicina da FAMEMA. Implica escolhas, explicita valores e intenções e pressupõe coerências entre as formas, conteúdo, tempo e espaço e envolve riscos que não devem ser transformados em obstáculos para a transformação do processo de ensino e aprendizagem.
Embasada em Almeida (1999), Feurwerker (2002) analisa a profundidade das mudanças no processo de formação em saúde, identificando três planos: o da inovação, o da reforma e o da transformação.
O primeiro corresponde a uma concepção tradicional de educação, voltado exclusivamente para a dimensão biológica em saúde, a qual as práticas hegemônicas em saúde e educação são reproduzidas.
O plano da reforma corresponde à concepção humanista (libertária) de educação e amplia o conceito de saúde. Busca uma prática reflexiva, crítica e alternativas para romper com as práticas hegemônicas. Reconhece o caráter social de produção da saúde e da educação, mas não incorpora os sujeitos sociais.
Já o plano da transformação está relacionado com a concepção pedagógica crítico-reflexiva e ao pensamento estratégico em saúde, no qual os sujeitos buscam práticas transformadoras e incorporam os demais sujeitos ao processo de educação e saúde, identificando as necessidades de saúde, buscando novos conhecimentos e organizando a atenção à saúde (Feurwerker, 2002).