3. ÜÇ BOYUTLU (3B) NESNE TARAMA
3.2. Kamera İç Yapısı ve Kalibrasyonu
Nesta etapa, a forma como o entrevistado narra a própria vida entra em questão. São realizadas análises de segmentos do texto, parte a parte, de modo que a próxima narrativa seja
80 um encadeamento da anterior. Todos os trechos são verificados e balizados conforme a mudança do tipo de discurso (ver tabela 3).
Para ajudar a entender a importância que a forma escolhida pelo sujeito para narrar a sua história tem para a análise, vamos recorrer ao legado de William Isaac Thomas, expoente da Escola de Chicago — dedicada ao estudo de uma "sociologia compreensiva", que misturava fundamentos também da psicologia e da filosofia. Junto com Dorothy Swaine, Thomas criou a hipótese mais importante da pesquisa social interpretativa: "sempre que uma situação for definida pelo indivíduo como real, ela será, em suas consequências, real" (ROSENTHAL, 2014b, p. 50). Este teorema foi discutido de forma crítica por diversos autores, entre eles Erving Goffman (1977), que deu uma forma estruturalista ao problema ao lançar os conceitos "frame" e "framing" ou "recorte" e "enquadramento". Para Goffman, os atores definem a situação, mas não as criam, apenas notam o que esta situação pode vir a ser e se comportam conforme a ideia que fizeram da situação (GOFFMAN, 1977, p. 9). Conforme o sistema de regras de Goffman, tudo é tematizado e a forma como o entrevistado se apresenta está relacionada com estes enquadramentos, assim como as suas modificações ao longo do registro. São estes os temas que ajudam também a dividir as falas. Nas mudanças de "frame" se encontram referências claras a elas na análise (ROSENTHAL, 2014b).
Por isto, os temas contidos na fala integram a análise. Para preparar a análise, portanto, devem ser levados em conta o seguintes critérios na hora de construir a separação das sequências por ordem de prioridade: troca de falante, mudança no tipo do texto e no conteúdo da fala. Aqui, a interação com o entrevistador também é analisada e assume grande importância, já que cada entrevista é produto da interação mútua entre entrevistado e entrevistador. É neste passo analítico que os valores e preconceitos do entrevistador são explicitados e ocorre a avaliação de que forma interferem na análise e também na narrativa do biografado. As histórias vão sendo construídas por meio da narrativa do biografado levando em consideração a situação em que a entrevista ocorrer. É por isto que no "memo" também é importante descrever a situação da entrevista, reconstruindo sua atmosfera. Eliminar esta interação seria negar a forma como foi construída a narrativa (ROSENTHAL, 1993, p. 4).
As hipóteses deste passo serão formuladas considerando questões como: qual motivo leva o entrevistado a se apresentar nesta sequência de tal forma, naquele momento do discurso e com aquele tipo textual, com aquele tempo de fala? Também é questionado o motivo pelo qual determinados trechos da vida foram omitidos. Há ainda que buscar definir se o biógrafo estimulou uma narrativa ou foi levado por um fluxo narrativo em sua contação de histórias,
81 além de analisar o quanto o entrevistado está orientado para o sistema de relevância do entrevistador e o quanto ele admite isso, e observar o que vem à tona na segunda parte da entrevista, quando começam as perguntas do entrevistador. Neste segundo momento da entrevista são analisados os mecanismos que influenciam a escolha dos temas abordados na sua estruturação de narrativa (ROSENTHAL, 2014b).
Joaquim, por exemplo, inicia a sua apresentação pelo momento em que foi parar em um abrigo. Qual o motivo desta escolha levando em consideração o sistema de relevância dele? Por enquanto, com o que temos analisado até aqui, uma das hipóteses aqui é de que tenha sido induzido pelo o que julgou ser o interesse do entrevistador, uma vez que foi contatado pelo abrigo, ou este é o tema que julgou melhor contextualizar a própria vida dar conta de quem ele é. A hipótese é reforçada, pois o menino menciona em diversas passagens da transcrição da entrevista termos como "quem cresce em abrigo faz tal coisa" ou "quem não tem pai, nem mãe precisa fazer determinada coisa".
Nesta fase é reconstruída a perspectiva do presente do entrevistado e ajuda a assumir uma postura crítica com relação à origem dos dados para que não nos deixemos enganar pelo interesse de apresentação dele. O objetivo desta etapa é encontrar regras relativas à gênese de experiências vivenciadas pelo falante, buscando reconstruir a forma e a estrutura na história de vida, conforme narrada. Nesta etapa não interessa resgatar os fatos conforme ocorreram à época, mas a investigação dos motivos que levam o entrevistado a relatar os acontecimentos da maneira como foram feitos, de forma manifesta ou latente. Investiga-se os mecanismos que determinam a escolha dos temas retratados e a forma como os estrutura na fala e se os elementos textuais constituem um ou vários campos temáticos.
Entende-se por tema, o foco da nossa atenção em determinado momento (ROSENTHAL, 2014b). É dever do pesquisador delimitar quais temas são aprofundados, evitados ou superficialmente tangenciados durante a construção das hipóteses deste passo, bem como o significado específico de cada sequência textual considerando o tipo de texto adotado, conforme sugestão de Schütze (1983). A forma escolhida para relatar a sua experiência tem a ver com a vivência em si, mas também com a interação com o entrevistador. Uma dúvida a ser sanada aqui, por meio da análise, é se o entrevistado usa o próprio sistema de relevância para narrar os fatos da vida ou o sistema de relevância do pesquisador (ROSENTHAL, 2014b). Uma maneira de ter essa resposta é observar se o entrevistador os fez perguntas que tendessem à seu próprio sistema de relevância.
82 A conclusão desta etapa é a formulação da auto-apresentação do entrevistado e a definição do campo temático. Também é verificado se a reconstrução da estrutura da entrevista (se as regras da narrativa biográfica estão presentes), a reconstrução da interpretação do entrevistador sobre o entrevistado e a reconstrução do sistema de relevância do entrevistado, além da interação entre biógrafo e biografado.
Nesta etapa, os vários tipos textuais são levados em consideração e auxiliam no processo de análise. Todos os tipos nos interessam em maior grau — como a narração e o relato e em menor grau — como descrição e argumentação.
Pontuar estas questões é importante também para delimitar que o que interessa não é saber porque Joaquim foi parar no abrigo ou qual foi a causa da morte da mãe, como se fossemos investigadores de um crime ou estivéssemos interessados em reconstituir o passado tal qual ocorreu, em riqueza de detalhes. Nosso olhar está direcionado para como o entrevistado interpreta todas estas situações.
Quadro 3 - Tipos textuais com base nos quais são divididas as sequências da vida narrada pelo biografado
Narração É o tipo em que o entrevistado reconstrói o fato em que teve participação como agente, recapitulando a experiência que teve.
Relato Refere-se à sequência ou ao curso de acontecimentos concretos passados, a períodos determinados, a uma localidade específica e a um indivíduo em particular e até eventos fantasiosos. Eles estão relacionados entre si por meio de tempo ou dentro de contextos causais e podem nos colocar frente a frente com contextos concretos da relação entre os personagens daquela história e a forma como eles agem entre si.
Relatório Relato resumido
História Eventos extraordinários no contexto de um relato mais amplo fazendo referência a um grau mais elevado de detalhamento e indexalidade, ou seja, estritamente ligado a uma relação concreta.
Argumentação Pode estar contida no interior de relatos ou fora deles, na forma de ideias gerais e reflexões do falante. Pode ter caráter teórico. Estão ligadas ao "aqui" e "agora" do falante de forma mais intensa do que as descrições, porém mais distante das vivências. O entrevistado tem no entrevistador alguém a quem precisa convencer de algo, tomando como ponto de partida a sua perspectiva atual, pouco ou quase nada apresenta do passado.
Descrição Está presente em relatos sobre as motivações que guiam a ação. Elas dizem respeito a estruturas estáticas.
Situação
condensada Acontecimentos vivenciados comprimidos no espaço de uma situação. Fonte: Rosenthal, (2014, p. 185-186).
83 Essa divisão de trechos conforme os tipos textuais apontados acima, que no caso de Joaquim somam-se 394 sequências a serem analisadas, carecem de hipóteses a serem formuladas tomando como referência as seguintes questões: I) Por que esse conteúdo é introduzido nesse momento da entrevista? II) Por que esse conteúdo é apresentado dessa forma? III) Por que esse conteúdo é apresentado com esse grau de detalhamento ou então tão resumido? IV) Qual é o tema desse conteúdo, quais são seus possíveis campos temáticos? V) Quais domínios e fases da vida são abordados, quais são evitados? VI) Quais domínios e fases da vida são abordados apenas na fase de aprofundamento? Por qual razão eles não foram introduzidos no relato principal? (ROSENTHAL, 2014b, p. 240)
O produto final deste passo é a busca pelas mais diversas linhas de intenção de apresentação do entrevistado, resultando em uma hipótese geral onde uma ou mais hipóteses recorrentes sejam contempladas. Em seguida, é feito um texto com a apresentação dos caminhos empíricos em relação às hipóteses e às conclusões decorrentes das mesmas. Os campos temáticos que organizam a narração do biografado também devem ser identificados (SUSIN, 2014, p. 106).
Na hipótese estrutural deste segundo passo da análise, Joaquim aparece como alguém que conseguiu levar uma vida "normal", apesar de não ter pai nem mãe. Esta normalidade está presente até o final do discurso, pois sempre repete :"fazia tudo certinho, bem normal". Coloca o abrigo como o fator decisivo na sua vida. Evita entrar em detalhes sobre a morte da mãe e só se aprofunda quando perguntado e, mesmo assim, com bastante dificuldade. Junto a isto demonstra o quanto o assunto se tornou um mistério para a família, o que fica evidenciado quando ele repete "isto é o que eles me falaram", referindo-se ao que sabe sobre a morte da mãe. Uma hipótese seria, já que existem muitos fatos não ditos em sua vida e acontecimentos cuja lembrança mescla fantasia com realidade. Todo o discurso leva a crer que ele queira demonstrar para a entrevistadora um mistério envolvendo a morte da mãe, pois faz questão de não deixar bem claro o que realmente ocorreu, se ela foi assassinada pelo padrasto ou se morreu no parto. Faz questão de se apresentar como diferente dos demais familiares, sendo que ele "pensa para a frente" e os demais "ficam na mesmice". Interesse de apresentação centrado nos abrigos, demonstrando que eles foram quase que a redenção. É nas entrelinhas também que se reforça que ele nega a morte da mãe para não ter de lidar com outros aspectos, como um acerto de contas com o padrasto.
Como visto no parágrafo acima, é observado o interesse de apresentação e não mais as consequências e desfechos possíveis para cada fato biográfico na vida de Joaquim. A análise
84 do interesse de apresentação fala da reconstituição do passado feita no presente e como o passado se articula naquela situação de entrevista, reagindo a perguntas do entrevistador e também ao setting de entrevista.