Considerando a extrema importância do meio ambiente ecologicamente equilibrado, é inegável a existência de um elo muito forte entre o meio ambien- te e a economia, em que um acaba direta ou indiretamente afetando ao outro, há fatores econômicos inseridos no Direito Ambiental.
Durante muito tempo, buscou-se o desenvolvimento econômico sem a preservação do meio ambiente, o que resultou em um desenvolvimento de for- ma predadora e poluidora. Contudo, com a valorização da consciência ambien- tal, constata-se que não basta o crescimento econômico, mas sim que este ocorra de modo a não prejudicar o meio ambiente, mais ainda, constata-se que o desrespeito ao meio ambiente traz conseqüências extremamente negativas para a sociedade, tanto no plano social como no econômico. Essa conscienti- zação tem contribuído para uma crescente valorização econômica do bem am- biental. Evidências reais apontam que a degradação ambiental traz sérios pro- blemas para a vida na Terra na atualidade; como exemplo, citamos a questão
do aquecimento global, que tem despertado cada vez mais uma grande preo- cupação no mundo. Assim, passa-se a buscar o desenvolvimento sustentável. Como aponta A. E. Comune,142 a noção de desenvolvimento sustentável está relacionada à de riqueza constante, pois cada geração deve deixar para a próxima, pelo menos, o mesmo nível de riqueza, considerando a disponibilida- de dos recursos naturais, do meio ambiente e dos ativos produtivos. Afinal, a manutenção da integridade dos ecossistemas é fundamental para a existência de vida na Terra. Américo Luís Martins da Silva resume a questão de forma bastante apropriada:
[...] os ecossistemas naturais devem ser preservados e, se modifica- dos, usados de maneira “sustentável”, ou seja, dentro de um modelo de produção, cuja exploração dos recursos naturais permita a manu- tenção da integridade dos ecossistemas.143
No Brasil, a Constituição Federal, em seu artigo 170, ao tratar da ordem econômica e financeira, afirma:
A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, con- forme os ditames da justiça social, observados os seguintes princí- pios:
I – soberania nacional; II – propriedade privada;
III – função social da propriedade; IV – livre concorrência;
IV – defesa do consumidor;
VI – defesa do meio ambiente, inclusive mediante tratamen- to diferenciado, conforme o impacto ambiental dos produ- tos e serviços e de seus processos de elaboração e pres- tação;
VII – redução das desigualdades regionais e sociais; VIII – busca do pleno emprego;
IX – tratamento favorecido para as empresas de pequeno porte constituídas sob as leis brasileiras e que tenham sua sede e
142 A. E. Comune, Contabilização econômica do meio ambiente, p. 38.
administração no país.
Parágrafo único. É assegurado a todos o livre exercício de qualquer atividade econômica. (grifos nossos)
Nossa Constituição incluiu entre os princípios gerais da atividade eco- nômica a defesa do meio ambiente.144 Analisando o artigo 170, constatamos a busca pelo estabelecimento de um sistema econômico constitucional que reco- nhece a economia de mercado e seus mecanismos, mas ao mesmo tempo en- tende que estes não podem ser absolutos, devendo ser fixados limites e, as- sim, estabelece uma economia social de mercado.
Particularmente no que se refere ao meio ambiente, a inclusão da “defe- sa do meio ambiente” como um dos princípios diretores da atividade econômica e financeira evidencia a preocupação no sentido de que a livre iniciativa deve processar-se obedecendo a determinados parâmetros. Ou seja, o desenvolvi- mento deve ser acompanhado pelo respeito ao meio ambiente.
Como exemplo da busca de conciliação entre desenvolvimento e preser- vação ambiental, podemos citar o artigo 174, § 3o, da Constituição Federal,145 ao estabelecer que o Estado irá favorecer a organização de cooperativas de garimpeiros, considerando a preservação ambiental e a promoção econômico- social dos garimpeiros,146 ressaltando, inclusive, que a própria função social da propriedade ficou submetida à necessidade de preservação ambiental.
144 Como observa Alexandre de Moraes: “A Constituição Federal trata de forma ampla a defesa do meio ambiente no Título VIII – Da ordem social; capítulo VI (artigo 225). Observe-se que para esse fim, a EC n. 42/03 ampliou a defesa do meio ambiente, prevendo como princípio da ordem econômica a possibili- dade de tratamento diferenciado conforme o impacto ambiental dos produtos e serviços e de seus proces- sos de elaboração e prestação” (Direito Constitucional, p. 716).
145 Artigo 174, CF: “Como agente normativo e regulador da atividade econômica, o Estado exercerá na forma da lei, as funções de fiscalização, incentivo e planejamento, sendo este determinante para o setor público e indicativo para o setor privado. [...] § 3o. O Estado favorecerá a organização da atividade ga- rimpeira em cooperativas, levando em conta a proteção do meio ambiente e a promoção econômico-social dos garimpeiros”.
146 Ainda como exemplos, podemos citar, da CF: o artigo 176, onde também são contempladas normas de natureza ambiental; os artigos 182/183 (que tratam da política urbana) e os artigos 184/191 (que tratam da política agrícola e fundiária) também refletem preocupações ambientais.
A valorização dos bens ambientais fica claramente evidenciada na Con- venção sobre Diversidade Biológica147 (CDB), que já em seu preâmbulo148 re- conhece que a biodiversidade possui valores econômicos, sociais e ambientais, ao afirmar:
Conscientes do valor intrínseco da diversidade biológica e dos valo- res ecológico, genético, social, econômico, científico, educacional, cultural, recreativo e estético da diversidade biológica e de seus com- ponentes.
A valorização econômica da biodiversidade pode ser notada ainda nos seguintes artigos da Convenção:
Artigo 1 – Objetivos
Os objetivos desta Convenção, a serem cumpridos de acordo com as disposições pertinentes, são a conservação da diversidade biológica, a utilização sustentável de seus componentes e a repartição justa e eqüitativa dos benefícios derivados da utilização dos recursos genéti- cos, mediante, inclusive, o acesso adequado aos recursos genéticos e a transferência adequada de tecnologias pertinentes, levando em conta todos os direitos sobre tais recursos e tecnologias, e mediante financiamento adequado.
Artigo 11 – Incentivos
Cada Parte Contratante deve, na medida do possível e conforme o caso, adotar medidas econômica e socialmente racionais que sirvam de incentivo à conservação e utilização sustentável de componentes da diversidade biológica.
Analisando a Convenção sobre Diversidade Biológica, notamos que ela procura estabelecer como estratégia para a proteção da biodiversidade, a atri- buição de valor econômico para a conservação e uso sustentável da biodiver-
147 No Brasil, o Decreto no 2.519, de 16 de março de 1998, promulgou a Convenção sobre Diversidade Biológica, a qual foi assinada no Rio de Janeiro, em 5 de junho de 1992, como resultado da Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio-22). Disponível em: http://www.mma.gov.br/port/sbf/chm/capa/index.html. Acesso em: 30 jun. 2007.
148 Como observa Paulo de Bessa Antunes (Direito ambiental, p. 396), o preâmbulo de um diploma legal não é propriamente uma norma jurídica, não tem força vinculante, consiste sim em antecipação dos pro- pósitos do documento, bem como estabelece critérios para dirimir possíveis controvérsias.
sidade, bem como frisa a importância do uso de critérios econômicos para a sua implementação.
Como analisa Américo Luís Martins da Silva:
Hoje, a maioria das decisões de políticas públicas se baseia em con- siderações econômicas. De maneira que o conhecimento dos mon- tantes dos valores econômicos associados à conservação, à preser- vação e ao uso sustentável da biodiversidade é a forma contemporâ- nea de garantir que a variável ambiental tenha peso efetivo nas to- madas de decisões em políticas públicas. Nesse contexto, a econo- mia ambiental, fundamentada na teoria econômica neoclássica, in- corpora hoje métodos e técnicas de valoração que buscam integrar as dimensões ecológicas, econômicas e sociais, de forma que captu- re os valores econômicos associados à conservação e à preservação da diversidade biológica. O objetivo é tirar as formulações neoclássi- cas do nível teórico de abstrações e enfrentar o desafio de medir as variáveis indispensáveis à implementação e instrumentalização de políticas públicas.149
Também a Lei de Política Nacional do Meio Ambiente (Lei no 6.938/81) revela objetivos econômicos, como podemos notar em seu artigo 2o:
A Política Nacional do Meio Ambiente tem por objetivo a preservação, melhoria e recuperação da qualidade ambiental propícia à vida, vi- sando assegurar, no País, condições de desenvolvimento socioeco- nômico, aos interesses da segurança nacional e à proteção da digni- dade da vida humana.
Os aspectos econômicos das normas ambientais podem ser explicados ainda considerando-se que o Direito Ambiental gravita em torno da seara do Direito Econômico, como preleciona Paulo de Bessa Antunes:
O Direito Econômico está contido na grande província jurídica do di- reito público. A característica mais marcante deste ramo do direito público é a interdisciplinaridade, que é facilmente constatável, tendo em vista o grande número de instrumentos e áreas diversas que são submetidos às normas de Direito Econômico. Pode-se dizer que o Di- reito Econômico é uma espécie de pólo, ao redor do qual circulam o
Direito Tributário, o Direito Administrativo, o Direito Financeiro, o Di- reito Ambiental e inúmeros outros. Observe-se, ademais, que, mo- dernamente, é impossível conceber-se “ramos” do Direito, como tem sido a tradição jurídica até aqui. Os chamados “ramos” do Direito es- tão, a cada dia que passa, cedendo terreno aos vastos setores jurídi- cos que congregam diversos ‘ramos’ do Direito. Essa é maneira ade- quada que possuímos para o enfrentamento de problemas jurídicos sempre mais complexos.150
O Direito Ambiental, em determinadas situações, em razão dos instru- mentos de que se serve, acaba por interferir na ordem econômica, estabele- cendo determinado padrão de desenvolvimento; como, por exemplo, o estudo de impacto ambiental151 e as regras sobre zoneamento ambiental.
3.3. Proteção legal do meio ambiente e seus reflexos sobre a propriedade