1. MEYVELERİN KURUTMAYA HAZIRLANMASI
1.2. Meyve Kurutmada Uygulanan Ön İşlemler
1.2.2. Kükürtleme ve Amacı
Desde Freud, a relação entre fantasia inconsciente e realização de desejo esteve claramente indicada em fantasias inconscientes, após o recalque originário da vivência alucinatória de satisfação, que inaugura o desejo. Este pode ser entendido, mas não em Freud, como fantasia inconsciente, pois no Freud da primeira tópica a fantasia inconsciente é um derivado do material primariamente recalcado, é o desejo, que nunca foi nem se tornará consciente, que, portanto, em si não apresenta nenhum trabalho do PCS, o que a fantasia inconsciente em Freud exige. A fantasia inconsciente freudiana é o derivado que será submetido ao recalque propriamente dito, secundário ao originário e à conflitiva edípica. E, então, o desejo não poderia ser considerado fantasia inconsciente por esta linha de pensamento. Entretanto, se recorrermos às fantasias originárias podemos pensar que o desejo pode ser lido, antes de tudo, como uma protofantasia estabelecida filogeneticamente. Assim as fantasias originárias dariam conta de fundamentar freudianamente o desejo como fantasia inconsciente. Dois pontos importantes de
virada na compreensão da fantasia inconsciente se darão com o texto kleiniano. O primeiro ponto é que caberá a Melanie Klein enquadrar o próprio desejo, o recalcado originário, enquanto fantasia inconsciente, o que em Freud não está assim colocado e este pensamento kleiniano só encontrará guarida no texto freudiano se me permitir recorrer às fantasias originárias, como no capítulo anterior.
Mais ainda coube, a Melanie Klein e a Isaacs, enquadrar como fantasia a própria realização alucinatória, aquela realização antes da ocorrência do recalque originário, que deverá ser submetida a ele para que se inaugure o aparelho de primeira tópica em Freud. Como em Klein já há uma segunda tópica incipiente desde o início (um ego imaturo e objetos internos com função superegoica), e não há uma tópica de ICS/PCS-CS, que espera para ser montada, há só inconsciente primário (o que já discutimos em relação ao Isso), temos um ego fantasiando desde as vivências iniciais de satisfação. Contra esta posição, mais do que no ponto anterior, muito discordaram os freudianos nas Controvérsias.
Freud, em sua primeira tópica, situara a realização alucinatória libidinal e o desejo decorrente do recalque originário daquela, como a expressão mental dos impulsos pulsionais, que se apresentam, no humano conjuntamente, em apoio, às necessidades instintivas. Na escola kleiniana a realização alucinatória de desejo libidinal é uma fantasia, que pode ser inata e independer da experiência de satisfação (fantasia inata do seio inexaurível) ou não, estar ligada a experiências precoces do bebê.
Klein vai além: trabalha a possibilidade de uma espécie de realização de desejo mortífero, destrutivo, em que a vivência de frustração interna ou de frustração externa real, é fantasiada como um ataque recebido, a presença de um objeto atacante, que ameaça o bebê de aniquilação (angústia de aniquilamento). E a fantasia concomitante de atacar e destruir o seio vivido como atacante, desde o início.
Melanie Klein transformou a teoria freudiana com sua genialidade própria: incorporou, metabolizou e transformou a psicanálise.
Klein e seu grupo concluíram que suas observações indicavam que ocorria na psicanálise uma supervalorização da primeira tópica freudiana e, com isto, do
lugar da libido, que na primeira tópica inseria o impulso agressivo como pulsão parcial da libido. Consideraram que estava sendo negligenciada a segunda tópica e os impulsos destrutivos, enquanto representantes afetivos da pulsão de morte, e, ainda mais, estes em confronto não só com a libido, mas com a pulsão de vida, está incluindo o Eu e suas pulsões, além das pulsões libidinais.
A segunda tópica freudiana dará ênfase às pulsões de destruição e como estas determinam a compulsão à repetição, mas não dará conta aí de localizar a fantasia inconsciente, conforme trabalhado no capítulo anterior. Em Freud, a realização alucinatória é só libidinal, ficando reservada às pulsões de destruição uma “alucinação sonhada”, que pode ser uma espécie de “alucinação atuada”, via repetição traumática nos sonhos e na vida. Para o pensamento kleiniano, em primeiro lugar a própria realização alucinatória antecede a experiência de satisfação, é uma espécie da fantasia primária de desejo. A pulsão já traz em si sua demanda de objeto e, assim, ao se expressar na fantasia primária esta já traz em seu bojo o objeto. A pulsão demanda um objeto e a fantasia pode compor este objeto da pulsão, antes mesmo de qualquer satisfação real com o objeto. Por outro lado, o pensamento kleiniano inova e insiste para o lugar da pulsão de morte e de como podia ser expressa nas fantasias inconscientes. Os impulsos destrutivos provocam, em Klein, também uma alucinação destrutiva e, logo, persecutória, um processo também alucinatório inconsciente, antes do recalque, que é a fantasia inconsciente. Esta sobrevém tanto ante a frustração externa e real da libido, como na frustração interna, aquela que é vivida como frustração mesmo na presença de satisfação libidinal, que não é reconhecida como tal174, o que mais tarde, na obra kleiniana, é teorizado como o afeto inveja175, representante afetivo do impulso pulsional destrutivo.
Klein e seu grupo levarão a segunda tópica freudiana às últimas consequências, afirmando que, desde os primórdios da vida, os impulsos pulsionais se expressam mentalmente sob a forma de fantasia, fantasia
174 KLEIN, Melanie (1928). Estágios iniciais do conflito edipiano. In:_____ (1975). Amor, culpa e
reparação e outros trabalhos. Obras Completas de Melanie Klein. Tradução de André Cardoso. Revisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. I, cap. 9.
175 KLEIN, Melanie (1957). Inveja e gratidão. In: Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963).
Obras Completas de Melanie Klein. Tradução da 4 ed. inglesa por Elias Mallet da Rocha Barros,
inconsciente. Isto tanto para os impulsos de destruição176 como para os impulsos libidinais da pulsão de vida. Entendo que esta posição kleiniana implica na possibilidade de se postular uma realização alucinatória dos impulsos destrutivos, que, portanto, não poderá se configurar nem como desejo, nem como qualquer representação, nem de imagens visuais. Em minha pesquisa, são configuradas como Imagos somáticas pré-visuais, sobretudo sômato-sensitivas.
Para Freud, na primeira tópica, a realização alucinatória de desejo consiste na primeira expressão mental dos impulsos libidinais, que, ante a frustração real, será submetida ao recalque originário e se transformará no desejo inconsciente, o núcleo das fantasias inconscientes. Penso que, além de sublinhar, bem mais do que Freud, a relação entre fantasia e realização de desejos, Klein mostra, a meu ver, que a realização de desejos, destrutiva e sádica, é uma fantasia inconsciente primária, serve para dar conta de inibir a descarga mortífera pela expressão direta das pulsões de destruição, enfim para dominar os impulsos pulsionais destrutivos. Esta fantasia primária de realização de desejo implica num trabalho psíquico, o trabalho do fantasiar, que é uma capacidade inata do ego inicial do humano. A mente não é mesmo uma tabula rasa, mas nem por isto o desamparo é menor. Serão necessárias condições estritas de outro humano capaz de acolher, conter, e metabolizar a angústia do bebê humano para que haja um fantasiar livre e desinibido para poder dar conta das pulsões de destruição177.
A inibição da descarga mortífera pelo fantasiar se dá pelo fantasiar funcionando como mecanismo de defesa, como cisão, incorporação e ejeção. Em Klein, todos os mecanismos de defesa, como projeção, introjeção, negação, onipotência, idealização, além de mecanismos mais evoluídos, como o recalque e a reparação, na sua origem e essência são fantasias que funcionam como defesas e
176 Entendendo por impulsos de destruição aqueles resultantes da fusão patológica da pulsão de
morte com a libido narcísica, que é aquela fusão em que na mistura das pulsões o poder da pulsão de morte fica muito reforçado e, assim, a pulsão de morte e seus objetivos não são mitigados e predominam sobre a pulsão de vida e os objetivos desta. Este tema constará mais pormenorizadamente do próximo capítulo.
177 Caso contrário, teremos a inibição do fantasiar, como as do pequeno Fritz/Erich, levando a
diversas patologias decorrentes. Bion confirmará o que Melanie Klein diz, em “Uma contribuição à teoria da inibição intelectual”, a respeito da inibição da fantasia como uma grave incapacidade que bloqueia o desenvolvimento do pensamento, segundo Bion conduzindo ao pensamento esquizofrênico, pois as fantasias haviam sido inibidas em função de o paciente não poder entrar em contato com fantasias de fragmentação e de aniquilação.
não são entendidos como mecanismos mentais utilizados pelo aparelho psíquico. Esta condição de mecanismo mental terá de ser alcançada, a partir da evolução do fantasiar, desde que este não seja bloqueado na origem.
Assim, em Klein, às fantasias primárias correspondem também “mecanismos” arcaicos de defesa, como a incorporação (absorver para dentro do corpo, por dentro do corpo), que é a introjeção (apreender para dentro da mente, por dentro da mente) em seus primórdios. Também, é o caso da ejeção (lançar para fora do corpo, por fora do corpo), primórdio da projeção (colocar para fora da mente, por fora da mente). Assim como, é o caso da cisão ou divisão de objetos e do ego.
Consideremos, em particular, “introjeção” e “projeção”: são termos abstratos, os nomes de certos mecanismos ou métodos fundamentais de funcionamento na vida mental. [...] Ora, esses mecanismos mentais estão intimamente relacionados com certas fantasias amplamente difundidas. As fantasias de incorporação (devorar, absorver, etc.) de objetos amados e odiados, de pessoas ou partes de pessoas, em nós próprios, encontram-se entre as mais remotas e mais profundamente inconscientes fantasias, de caráter fundamentalmente oral, uma vez que são as representantes psíquicas dos impulsos orais. [...] A distinção deve manter-se clara entre uma fantasia específica de incorporação de um objeto e um mecanismo de introjeção. Este último tem uma referência muitíssimo mais ampla do que o primeiro, embora lhe seja intimamente vinculado. [...] a fantasia é o elo operante entre o instinto e o mecanismo do ego.178
Ou ainda:
[...] como, no início da vida, [...] o bebê aborda seus objetos, antes de mais [nada] como algo para a sua boca. Quer dizer, um objeto para o bebê é o que tem bom sabor e dá prazer à boca e quando engole, sendo, pois uma coisa boa, ou é o que tem um gosto horrível, magoa a boca e a garganta, não pode ser engolido ou não pode entrar na boca, sendo, portanto, um mau objeto. Se é bom, é engolido, se é mau, é
178 ISAACS, Susan (1952). A natureza e a função da fantasia. In: KLEIN, Melanie et al. Os
cuspido. A fantasia inconsciente é um processo dinâmico. O objeto oral não só é mantido na boca, mas também engolido e incorporado, ou cuspido e expelido, e os mecanismos de introjeção e projeção encontram-se ligados às sensações e fantasias experimentadas com os objetos.179
Importante salientar aqui que Klein propôs a incorporação e o posterior mecanismo de introjeção também para o desagradável e o persecutório, diferentemente de Freud. Ao mesmo tempo Klein introduz a incorporação do que foi anteriormente ejetado, que se segue a uma ejeção da pulsão de morte acumulada sobre um objeto fantasiado, o que estará bem trabalhado, por ela, na teorização a respeito da constituição do superego arcaico persecutório180.
Em Klein temos que estas fantasias primárias, dos inícios da vida, são fantasias alucinatórias compostas de impulsos pré-genitais, dominantemente orais, mas também anais, uretrais e fálicos, ligados a sensorialidades olfativas, táteis, gustativas, sinestésicas, viscerais, de temperatura, dor e vestibulares. Todas estas são caracteristicamente sádicas, destrutivas, pois que resultantes de uma fusão da pulsão de morte com a libido narcísica que se funde àquela de modo a dar conta do mortífero, que se resolve pela constituição de fantasias destrutivas e sádicas.
Estas fantasias logo se convertem em formas defensivas contra a angústia, pois inibem a expressão comportamental e somática das pulsões de destruição pelo bebê, propiciando que sejam lidadas sob a forma de expressão mental, as fantasias inconscientes. As primeiras e primitivas fantasias de defesa são de ejeção do destrutivo, potencialmente mortífero para o eu inicial se não forem ejetadas. São os primórdios da futura projeção. As fantasias primárias são ainda de idealização, transformação do persecutório, defensivamente, em poderoso idealizado. São ainda de incorporação do objeto parcial, que se tornou
179 HEIMANN, Paula (1952). Certas funções da introjeção e da projeção no início da infância. In:
KLEIN, Melanie et al.. Os progressos da psicanálise. 2 ed.. Rio de Janeiro: Zahar, 1978. p.157- 158.
persecutório a partir das ejeções do excesso mortífero sobre o objeto parcial. Para dar conta de controlá-lo ou contê-lo. Mas logo mais se transformarão em fantasias de reparação para reparar os efeitos sobre o objeto das fantasias sádicas e destrutivas.