A Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) definiu o livro como sendo “publicação impressa não-periódica, com no mínimo 49 páginas sem contar as capas e disponível ao público”25 (de cinco a 49 páginas, a Unesco classifica
como panfleto). Já jornais, a classificação26 é “publicações periódicas dedicadas ao público em geral e principalmente designadas para ser uma fonte primária de informação escrita sobre fatos atuais ligados aos negócios públicos, questões internacionais, política etc. Podem também incluir artigos literários ou outros assuntos, assim como ilustrações e publicidade”. Jornal diário, segundo a definição, deve ser publicado ao menos quatro dias na semana. Qualquer jornal que não obedeça a essa periodicidade, não é diário. A World Association of Newspapers adotou essa definição como padrão e é também a utilizada pela Associação Nacional de Jornais (ANJ).
É importante também definir o livro levando em conta três noções que devem ser, necessariamente, pensadas juntas: 1) suporte da escrita; 2) difusão e conservação de um texto; 3) maneabilidade (LABARRE, 1981: 1). O autor diz que, embora não seja possível definir o número mínimo de páginas para categorizar o objeto como livro, uma folha simples, impressa, não é um livro.
O livro surge inicialmente como um objeto: produto fabricado, mercadoria, peça de arte. Como produto fabricado, participa na história das técnicas e tem-se de ter em conta os seus suportes, a sua escrita e os processos da sua fabricação.... o livro é acima de tudo texto, esta é a sua razão de ser (Ibid.:2).
25http://www.uis.unesco.org/ev.php?ID=5096_201&ID2=DO_TOPIC Acesso em 15 de jul. de 2009 26http://www.uis.unesco.org/ev.php?ID=5059_201&ID2=DO_TOPIC Acesso em 15 de jul. de 2009
58 Traçar um panorama das formas do livro e do jornal enquanto objetos é um desafio que autores como Roger Chartier, Albert Labarre e Lucien Febvre não afirmaram ter feito em definitivo. Isso porque o início do livro e do registro da escrita tem suas origens não muito bem demarcadas por conta da dificuldade e da delicadeza dos materiais usados (GILMONT, 2004). Os primeiros registros são dos sumérios e sua escrita cuneiforme em tábuas de argila entre os anos 3500 a 3000 a.C. É interessante observar que o desenvolvimento da escrita está ligado à fixação dos povos à terra e os primeiros registros são, em sua maioria, referentes a assuntos administrativos e religiosos.
Os suportes da escrita foram muitos. Desde a pedra, sendo a pedra de Roseta um exemplar valioso. Datada de 196 a.C., tem um texto em louvor ao rei egípcio Ptolomeu V escrito em hieróglifos egípcios, escrita demótica (uma simplificação do hieróglifo para assuntos do dia a dia) e em grego. Outros suportes chamados “duros” são ardósia, marfim, osso, madeira, bronze, cera, folhas de palmeiras e couro de animais. Os mais comuns no mundo ocidental foram o papiro, obtido de uma planta que só existia no Nilo; o pergaminho, obtido pela pele de animais como carneiro e cabra, e o papel, cuja entrada na Europa se dá mais fortemente no século XII, pela Espanha, trazido pelos povos árabes.
Deduz-se que Pérgamo (onde hoje é a Turquia) desenvolveu o pergaminho por uma proibição de importar papiro. Pérgamo e Alexandria disputavam o posto de possuidoras da maior biblioteca do mundo conhecido. Para dificultar o crescimento da concorrente, o rei egípcio Ptolomeu V teria proibido a exportação do papiro para aquela região. As bibliotecas, no entanto, “não eram abertas ao público, eram lugar de conservação e de estudos” (Ibid.: 24). Quanto ao formato, o Ocidente conheceu dois principais (Ibid.: 21). Primeiro, o rolo/volume, formado por folhas de pergaminho coladas lado a lado. Título e autor vão na última folha, local onde ficam mais protegidos de qualquer tipo de dano que possa ocorrer com o material. Os pergaminhos unidos eram enrolados em dois bastões de madeira ou marfim, que eram desenrolados de um lado enquanto enrolados de outro para realizar a leitura. Assim, as pessoas poderiam ler da mesma maneira como estavam acostumadas com o papiro. O segundo, códex/códice, como o livro se apresenta até hoje27, surgido no segundo século depois de Cristo. O primeiro livro conhecido neste formato foi o Novo Testamento. Naquele tempo, era composto por pergaminhos dobrados em forma de cadernos que depois
59 eram costurados. Era mais fácil de manusear e foi adotado imediatamente pelos cristãos e desprezado a princípio pelos intelectuais28.
3.2 Sobre o conteúdo
O livro era, a princípio, uma “ajuda para a memória... não era um meio de comunicação direta” (Ibid.: 24). Sócrates relutou em permitir que seus discursos fossem escritos. É importante deixar claro que eles eram escritos depois do pronunciamento, como uma forma de registro que pudesse ser consultada posteriormente, preservando o conhecimento. Da mesma forma, eram registradas resoluções do poder local, questões políticas e administrativas, além é claro, dos textos religiosos.
Talvez um dos motivos que tenha deixado Sócrates desconfiado sobre ter seus discursos transcritos para o pergaminho era a total falta de controle que se tinha sobre o texto escrito.
“„Quando entregas um livro de poesia, perdes todos os direitos sobre ele; uma vez publicado um discurso, pertence a todo mundo‟, escreveu Símaco a Ausônio no século IV” (LABARRE, 1981: 14). Isso acontecia não só com livros de poesia, mas qualquer assunto. O livro poderia ser modificado por alguém, ao recopiá-lo, conforme desejasse.
O trabalho do copista era árduo, porém valorizado. A importância do conhecimento na Idade Média era tão grande que essa ocupação era vista como parte de sua vida religiosa. “A execução de um livro era uma boa obra, porque permitia àqueles que estavam ao serviço de Deus edificarem-se lendo-a, o aspecto rude e penoso do trabalho proporcionava méritos” (Ibid.: 25). Os monges se revezavam nesse trabalho nas oficinas monásticas e não faziam apenas livros religiosos. A exclusividade dos monastérios nesse ofício se encerrou entre os séculos XII e XIII, quando a vida intelectual ganha as cidades da Europa e surgem as primeiras universidades. A demanda de alunos e mestres por livros aumenta, estimulando o crescimento de novos profissionais copistas e livreiros em torno dos centros universitários e, portanto, fora dos monastérios, para provê-los de material de estudos. Nessa mesma época, a confecção do livro sofre uma importante alteração com a chegada do papel à Europa, trazido por mercadores árabes.
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